Artigo de 2002: Devagar com o paulistério

Artigo de 2002: Devagar com o paulistério Arte: Paulo Von Poser

E mais: o Plano Colômbia financiado pelos Estados Unidos, os cabelos brancos de Dirceu e Vilela, Jobim e Pertence à paisana, Marta e o rombo nas despesas, FHC debatendo francês com agroempresário – e o que aprender com a Pastoral da Criança

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Na campanha eleitoral, Ciro Gomes (PPS) vociferava contra os “barões paulistas”. Depois, eleito governador de Minas, foi a vez de o deputado Aécio Neves prometer combater a “hegemonia paulista” na política brasileira, declaração a que fez eco o governador e ex-presidente Itamar Franco. Outros políticos voltaram a resmungar contra uma “excessiva” presença de paulistas no governo durante a era Fernando Henrique Cardoso, na qual o Ministério foi um “paulistério”.

Ao mesmo tempo, o ex-governador do Ceará e senador eleito Tasso Jereissati (PSDB) iniciava uma campanha para tirar dos “paulistas” o comando tucano. E até contra o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, se ouviram reclamações: na equipe de transição, no PT e, provavelmente, em seu futuro governo há ou haverá “paulistas demais”.

Tudo bem. Reclamar é um direito constitucional e não paga imposto. Mesmo acontecendo, como acontece na Federação, o escândalo da subrepresentação do Estado de São Paulo na Câmara dos Deputados, que, segundo a Constituição, é constituída de delegados do povo: com seus 37 milhões de habitantes somando quase um quarto da população brasileira, a bancada paulista tem apenas 13,6% da Câmara.

De todo modo, os críticos da “hegemonia paulista” deveriam levar em conta certos dados, inclusive históricos, ao levantar restrições a São Paulo. Nem é preciso ir fundo no passado, ao século XVI, por exemplo, quando antes mesmo de existir o conceito de “brasileiro” os portugueses chamavam de “paulistas” os petulantes nativos de Piratininga que teimavam em ignorar as ordens da Coroa para explorar como achavam que deviam as riquezas do país.

A História recente mostra que, a partir da febre de industrialização do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), com o desencadeamento daquela que foi provavelmente a maior corrente migratória interna em todos os tempos – em duas décadas e pouco o Brasil viu sua população urbana saltar de pouco mais de 20% para mais de 70% –, o Estado de São Paulo representou para o país e seus migrantes o que os Estados Unidos significaram para o mundo e os emigrantes de meados do século XIX ao começo do XX: um lugar de refúgio e uma possibilidade generosa de realizar o sonho da ascensão social.

Infelizmente não há dados estatísticos precisos, mas calcula-se que nos anos 70 São Paulo chegou a ter uma população nordestina – só para ficar nela – superior à de vários Estados do Nordeste somados. A capital, por sua vez, era a maior cidade nordestina do Brasil. Mesmo hoje, se somarmos os imigrantes nordestinos e seus descendentes de primeira geração, ainda com raízes e aferrados a costumes de seus Estados de origem, a situação é parecida. Se a eles forem acrescentados brasileiros vindos de todas as demais regiões, teremos que São Paulo é um grande caldeirão de brasilidade. Dados da Fundação Seade – espécie de IBGE do Estado – mostram que 42% do crescimento populacional paulista nos anos 70 provinha dos imigrantes. Ou seja, quase um em cada dois novos “paulistas” era de outros rincões do Brasil.

Esse caldeirão de brasilidade é responsável por mais de um terço do PIB e mais de 40% da produção industrial brasileira. Se fosse um país, São Paulo, com seus brasileiros de toda parte, seria mais rico e populoso que a Argentina e a Colômbia, os dois países mais populosos e as duas maiores economias da América do Sul depois do Brasil.

Não é por acaso – mas justamente por ser o Estado uma espécie de resumo do Brasil – que surgiram e cresceram em São Paulo os principais fenômenos políticos e sociais do Brasil nos últimos 30 anos: o “MDB ideológico” que venceu as eleições para o Senado em 1974, a Igreja destemida de Dom Paulo Evaristo Arns, o sindicalismo combativo do ABC paulista, o PT do presidente Lula, o “sindicalismo de resultados” de Luiz Antônio de Medeiros e Antonio Rogério Magri (hoje sucedidos pela Força Sindical), a campanha pelas diretas-já – puxada pelo então governador Franco Montoro (1983-1987) e por Lula –, o PSDB… A lista pode se estender às artes, aos esportes e a outros setores.

Os críticos da “paulistização” também deveriam prestar atenção às raízes dos paulistas que têm em mira. Como o paulista Fernando Henrique Cardoso, nascido no Rio de Janeiro. Ou seu sucessor, o paulista Lula, de Caetés (PE) – sem contar, é claro, essa paulistada toda do PT, como seu presidente e futuro ministro, deputado José Dirceu, paulista de Passa Quatro (MG), ou vários dos novos deputados de grande votação, como Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, paulista de Santa Cruz (RN). Está na lista da má-vontade contra paulistas também o presidente do PSDB, o paulista José Aníbal, de Guajará-Mirim (RO). O ministro da Educação de FHC, Paulo Renato Souza, paulista de Porto Alegre (RS), idem. Talvez até faça parte dela a deputada do PSB e ex-prefeita da capital Luiza Erundina, paulista de Uriaúna (PB). Ou até o principal nome do PC do B, deputado Aldo Rebelo, paulista de Maceió (AL).

Ou, como resumiu no começo do segundo turno das eleições de outubro o deputado do PT e candidato a governador de fortíssimo desempenho, José Genoino, paulista de Quixeramobim (CE): “São Paulo é um Estado e uma nação”.

Alerta na fronteira

Seria bom o governo brasileiro dar uma checada nos efeitos que podem estar tendo para o meio ambiente da Amazônia as intensas fumigações feitas por aviões americanos na Colômbia contra plantações de coca (matéria-prima da cocaína), especialmente no Departamento (espécie de Estado) de Putumayo, onde corre o rio do mesmo nome. As operações são parte do Plano Colômbia, de 1,3 bilhão de dólares, com que os Estados Unidos auxiliam o governo colombiano a combater o narcotráfico.

Há notícias de que os efeitos tóxicos das fumigações estão provocando um êxodo de camponeses da região. O governo americano informa estar utilizando um pesticida, glifosato, que não seria prejudicial à saúde. Políticos colombianos, porém, argumentam que não há controle sobre as substâncias utilizadas e relatam danos a plantações, ao gado e à saúde de pessoas.

O rio Putumayo, ao atravessar a fronteira com o Brasil, muda de nome para Içá e, menos de 200 quilômetros adiante, deságua no Solimões.

Hair news (1)

A proximidade do poder está fazendo os cabelos do deputado José Dirceu embranquecerem a olhos vistos. Não, claro, com a mesma velocidade com que escureceram os do senador Maguito Vilela (PMDB-GO).

Era ele, sim

Alguns circunstantes chegaram a ter dúvidas, mas elas logo foram dissipadas.

O homem grandalhão que, no começo da tarde de segunda-feira, dia 18, falava alto e proferia palavrões numa rodinha de amigos no terminal de embarque número 7 do Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek, em Brasília, na porta da livraria Sodiler ali instalada, embora estivesse sem a toga negra e sobretudo sem a solenidade que exibe no trabalho, era mesmo o ministro do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim.

Na rodinha, entre outros, seu colega de STF Sepúlveda Pertence.

Caixa baixa

Agora que o PT está chegando ao poder, parece contraditório que a prefeita de São Paulo, a petista Marta Suplicy – que foi quem, em meados do ano, levantou a bandeira da renegociação das dívidas das capitais com a União – tenha prometido arquivar a causa só até o ano que vem. Afinal, menos pagamentos para a União significa menos dinheiro para o presidente Lula cumprir suas promessas de campanha.

É que Marta ficou com os cabelos louros em pé diante de números levantados pelo secretário das Finanças, João Sayad, mostrando que, de cada 10 reais arrecadados no município, voltam para a cidade apenas 98 centavos.

Hair news (2)

Depois de ter murchado inexplicavelmente durante a campanha eleitoral, recuperou-se o topete do governador Itamar Franco. Exibe agora o mesmo vigor e exuberância que aparentam as recentes costeletas do ex-presidente e senador José Sarney (PMDB-AP).

Desolé

O presidente FHC deu boas risadas em recente encontro com um empresário do setor rural que defendia que o Brasil continuasse a exportar café mesmo depois de superadas as 15 milhões de sacas anuais da quota que lhe cabe por acordos internacionais.

Lá pelas tantas da conversa, o empresário disse:

– Presidente, o senhor deveria mandar vender acima da quota e depois dizer: “je suis desolé” (em francês, ao pé da letra, “estou desolado”, mas equivalente ao nosso “sinto muito”).

E perguntou ao presidente:

– O senhor sabe o significado de “je suis desolé”?

FHC, fluente em francês e ex-professor na França, respondeu:

– Ué, claro! “Sinto muito”.

E o empresário:

– Não, presidente. Na verdade, quer dizer f…-se. Então o senhor mande vender o café e diga depois, “f…-se”.

Gastar bem

Lula, tão preocupado com o aperto das contas públicas – por boas razões –, bem que poderia chamar para uma conversa a dra. Zilda Arns, da Pastoral da Criança. Se há no país quem saiba gastar bem é a Pastoral, cujos diversos programas atendem a 1,3 milhão de famílias no Brasil: seus voluntários conseguem alfabetizar uma criança gastando, em média, 12 reais por mês.

A sede da Pastoral é em Curitiba. O telefone, (41) 336-0250.

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