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Quando o palestino debilóide Sirhan Bishara Sirhan matou com dois tiros de revólver na cabeça o senador e aspirante democrata à Presidência dos Estados Unidos Robert Kennedy, num hotel de Los Angeles, na noite de 5 de junho de 1968, uma emissora local da Califórnia colocou no ar um slide com uma só palavra, escrita em caligrafia vacilante: Shame (vergonha). Foi a reação de seus editores ao ato estúpido que dava ao jovem senador o mesmo destino do irmão, o presidente John, em 1963, e ocorria quando os Estados Unidos ainda estavam digerindo a perplexidade e o estupor pelo assassinato, também a tiros, do grande líder dos direitos civis Martin Luther King Jr. em Memphis, no Tennesse, no dia 3 de abril.

O neozelandês Peter Blake não era figurão da política, nem líder anti-racista, nem candidato a nada. Mesmo assim, certamente muitas pessoas de bem no Brasil se sentiriam melhor se pudéssemos ter colocado no ar, por minutos que fosse, em alguma de nossas redes de TV, um slide parecido, como reação ao assassinato desse  grande desportista, ecologista, cavaleiro de Sua Majestade no Reino Unido e herói nacional da Nova Zelândia, por um bando de malfeitores vulgares anteontem à noite, no balneário Fazendinha, próximo a Macapá (AP).

Quem sabe pudéssemos interromper um pouquinho as interessantes dúvidas existenciais dos participantes tatibitati do Casa dos Artistas, ontem à noite? Ou – melhor ainda – reduzir de alguns minutos a patacoada nacionalistóide com que, uma vez mais, o ex-governador Leonel Brizola nos brindou, no chamado horário eleitoral gratuito do PDT? 

Para o mundo dos velejadores, Blake foi uma legenda, um mito, um deus – alguém equivalente, em outros esportes, a um Pelé, um Michael Jordan ou um Muhammad Ali. Como navegador, arrebatou todos os títulos e bateu todos os recordes. Passou a marca de um milhão de quilômetros percorridos enfrentando os mares em veleiros. Quando comandou a equipe da Nova Zelândia que ganhou pela primeira vez a America’s Cup – a Copa do Mundo da vela e, realizada anualmente há 145 anos, a competição esportiva internacional mais antiga que existe –, a rainha Elizabeth II da Inglaterra, chefe de Estado protocolar da Nova Zelândia, o agraciou com o título de Sir. Quando venceu pela segunda vez, em 2000, a Nova Zelândia parou, realizando a maior festa popular da sua história. 

Blake era um daqueles homens que conseguiu ou conquistou praticamente tudo o que quis na vida até que, a certa altura, como ocorre com alguns poucos, decidiu dar sua contribuição aos semelhantes e ao planeta. Rico, benquisto e famoso, casado, um casal de filhos, ele enveredou pela ecologia, tornou-se chefe de expedições da Sociedade Jacques Cousteau, depois embaixador do Programa da ONU para o Meio Ambiente. “Esse é o tipo da navegação de que eu gosto”, explicou ele ao falar do projeto que estava executando, com sua Blakexpedition, destinado a, durante cinco anos, visitar, estudar e chamar a atenção para os ambientes aquáticos mais importantes do mundo. 

A Blakexpedition partiu em outubro do ano passado da Nova Zelândia. Sir Peter mantinha um diário de bordo, disponível na Internet. Nele, já na Amazônia, refletiu sobre sua motivação: “Volta e meia eu próprio me coloco a pergunta – por que estamos aqui? Com que propósito deixamos a Antártica em março, reabastecemos em Buenos Aires enfrentando o inverno do sul e depois enfrentamos essa longa empreitada rumo norte para passar uma temporada na Amazônia?” Mais adiante, ele próprio respondeu à pergunta: “Queremos fazer uma diferença”. Antes de morrer, Blake preparava-se para subir o rio Orenoco, em direção à Venezuela. 

“Mais que pela vontade de vencer, ele era mobilizado pelo fairplay, pela idéia de dar uma chance às pessoas”, disse à rede britânica de TV Sky seu amigo e conterrâneo Grant Dalton, em meio ao luto nacional que se abateu sobre a Nova Zelândia.

Pois os bandidos brasileiros não lhe deram chance. Anteontem à noite, oito ou nove homens num barquinho se acercaram de seu reluzente Seamaster, uma escuna de pesquisa de 36 metros de comprimento, ancorada a 200 metros da praia, e um grupo, armado, subiu a bordo. Blake, que além de valente era forte e tinha 2m03 de altura, tentou reagir, mas levou dois tiros nas costas. Dois membros da tripulação de nove foram feridos. Blake foi morto como um cão.

Os bandidos fugiram com relógios, máquinas fotográficas, um motor de popa e um bote inflável – essa bagulhada pela qual, no Brasil, se troca a vida humana a três por dois, e sem hesitar. A polícia, chamada, com a presteza de sempre chegou uma hora depois. O gigante bigodudo e louro – “o pai da navegação para nós”, segundo o campeão brasileiro e olímpico Robert Scheidt, “a estrela dos mares do Sul”, segundo o jornal francês Le Monde  – foi levado a um hospital de Macapá, mas morreu. Por ironia, uma das últimas anotações no seu diário foi sobre as condições da expedição. “Agradáveis”, escreveu.

O presidente Fernando Henrique Cardoso enviou um telegrama de pêsames à primeira-ministra Helen Clark, que no mês passado visitara o Brasil e o próprio Blake, já então navegando na Amazônia. Mandou para o Amapá a secretária Nacional de Justiça, Elizabeth Sussekind. Determinou empenho da Polícia Federal nas investigações, e oito suspeitos já estão presos.

Mas é pouco, muito pouco para aqueles, entre nós, que estão cobertos de vergonha com o crime imbecil cometido na foz do rio Amazonas. FHC, que ainda no mês passado esfregou narizes com personalidades da etnia maori membros da delegação da primeira-ministra – o gesto, considerado uma troca de respiração entre pessoas, é o cumprimento clássico entre os maoris, os habitantes originais da Nova Zelândia – deveria fazer mais. Ele deveria pegar um avião, ir até a Nova Zelândia e, diante da TV, ajoelhar no milho e pedir perdão em nome de nós, brasileiros. Perdão por deixarmos que acontecesse com o herói benemérito e simpaticão dos neozalendeses o que permitimos que aconteça, todo santo dia, e impunemente, com nossos concidadãos em todos os cantos. Perdão por sermos, como diagnosticou o próprio FHC, não um país pobre, mas um país injusto, e mais injusto ainda por ser imensamente rico. Perdão sobretudo por, a cada dia, a cada momento, de forma boçal e irresponsável, estarmos desperdiçando a chance de fazer do Brasil o que ele poderia ser, mas não é. Que vergonha.

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