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O presidente Alexandre Tombini (à direita) e outros integrantes do Copom do Banco Central: resistindo a pressões e fazendo o que precisa ser feito (Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil)

Ninguém gosta de juros altos — exceto, é claro, os bancos, as financeiras e os grandes investidores.

Como já escrevemos e repetimos aqui, e como todo mundo sabe, juros altos encarecem o crédito e, portanto, diminuem a procura por ele, abatem o consumo, reduzem a atividade do comércio, da indústria e do setor de serviços, esfria a economia e, na ponta final, prejudicam a oferta de emprego aos brasileiros.

Ocorre, porém, que os instrumentos para combater a inflação no Brasil não são numerosos, e a política monetária, embora possa incluir a nem sempre desejada interferência no câmbio — na cotação da moeda estrangeira forte, via compras ou vendas maciças –, repousa, principalmente, nos juros como freio à demanda maior do que a oferta, causa da inflação.

Diante de um cenário preocupante, com o governo Dilma e sua equipe econômica, capitaneada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, seguidamente recorrendo a artificialismos para mascarar a inflação — quebra de contratos na área das elétricas, arrocho de preços em parte dos combustíveis, o que derruba a capacidade de investimento da Petrobras e por aí vai –, era perturbador assistir à timidez do Banco Central e sua relutância em bater duro no câncer da inflação com o remédio amargo, mas adequado, das altas nas taxas de juros.

Felizmente, de uns tempos para cá, apesar da cara feia de políticos petistas, das reclamações em corredores, da irritação em setores da Fazenda e de outras áreas do governo, o Banco Central parece ter recuperado a autonomia funcional que teve durante os ano final do mandato do presidente Itamar Franco (1994), nos oito anos de gestão do banco central

presidente Fernando Henrique Cardoso e — para a surpresa de muita gente, na época — durante os oito anos de Lula no poder, com Henrique Meirelles à frente do BC.

O fato é que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central [clique aqui para acessar o site] elevou sua previsão de inflação para 2014 e acredita que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará acima do centro da meta do governo (que é uma inflação de 4,5%) não apenas neste ano de 2014, como também em 2015.

É o que mostra a ata da última reunião do organismo, na qual os integrantes do Copom explicam por que optaram, por unanimidade, por elevar a taxa básica de juros do país, a Selic, em 0,5 ponto porcentual, para 10,50% ao ano.

A razão? Ora, a razão é a resistência da inflação em ceder. E resiste mesmo.

O país terminou 2013 com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 5,91%, acima do resultado já ruim do ano anterior 2012 (5,84%). Outros índices oficiais ficaram em patamar ainda mais altos.

Por tudo isso, o BC indica na ata que seguirá com sua política de aperto monetário, linguajar técnico para aperto nos juros.

“O Copom entende ser apropriada a continuidade do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso”, diz o texto. Em português mais simples, o Banco Central manifesta a coragem de resistir a caras feias e pressões e continuar fazendo, enfim, o que tem que ser feito.

[Para ler uma ampla reportagem do site de VEJA sobre o tema, cliquem aqui.]

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Corinthians em 28 de janeiro de 2014

Grande Moacir, Obrigado pelas boas vindas - e desculpe por verificar este post tão tarde. Estamos aí, ainda meio estupefatos com tudo o que está acontecendo (ainda mais depois de viajar para os EUA e ver a diferença gritante de noção de povo e estado), mas prontos para tentar melhorar o país.

moacir 1 em 25 de janeiro de 2014

Setti, Peço licença para também dar as boas vindas ao Corinthians.É sempre muito bom lê-lo por aqui. Seguinte: não acredito muito na independência do BC na condução da nossa política monetária. A Ata da última reunião do Copom - AGORA! - num raro rasgo de brilhantismo,admite que a inflação é RESISTENTE!Putz!Redescobriram Banânia! Vão estar muito atentos,no futuro.Cogita-se que já em 26 de fevereiro,a taxa Selic venha ser, mais uma vez ,majorada em 0,5%. É lógico que a Mandatária - aquela que baixou os juros na canetada! - às vesperas das eleições está preocupada com o dragão.Nada mais nefasto para uma PresidentA que quer se reeleger, do que INFLAÇÃO! Nada mais eficaz do que a falta de comida na mesa do povo,para baixar os níveis de Felicidade Interna Bruta,e,em consequência, atingir duramente os percentuais de popularidade da PostA. Portanto a ordem para subir os juros veio de cima. Beleza.No entanto a Dilmona - por jamais ter terminado aquele Mestrado! - desconhece que não vai adiantar muito esse mais do que necessário ajuste aí na nossa política monetária a cargo de um BC redimido,se ela - a dona da nossa Economia! - não der uma guinada violenta na falta de rumo e bom senso da nossa política fiscal. A gastança desvairada no Planalto nesse ano eleitoral,somada à alta de juros e de impostos e desse custo todo repassado - é claro! - para produtos e serviços,surgirá mais INFLAÇÃO. Mas a Dilminha vai dar uma maquiada boa nas nossas vidas,caprichar no marketing e prosseguir sem passar recibo.E provavelmente vai se reeleger. O que ela fará quando tiver que começar a colher os desastres que semeou? MENTIR,ora bolas.Como sempre. Abraço

Corinthians em 25 de janeiro de 2014

Grande Setti, Depois de um longo período de abstinência, devido às férias e a dias a compensar após 1,5 ano de trabalho árduo, estou de volta. - Setti, Discordo quanto à questão da autonomia. O BC de Tombini não é autonomo e continua vassalo de Dillma. Ocorre que infelizmente, graças à desgraça petista que vivemos, a inflação está absurda. Vamos lembrar que o aumento de juros não combate inflação passada, mas sim inflação futura - esta que só aumenta, e 2014 promete ser um ano muito ruim para o país, e é ano eleitoral. A economia está exaurida. Os empregos já estão em declínio, o que levará a renda. O dólar já começa sua disparada. Ninguém mais confia no Brasil (também, como confiar ?). O crescimento do PIB será pífio novamente. Pior que isso para as eleições, só uma inflação acima do teto. E isso a Dillma não vai aceitar - nem que para isso precise subir os juros. Vão subir até o início do ano. Aposto minhas fichas que a idéia é controlar e reduzir a inflação até julho - para poder cantar vitória e começar mais uma irresponsável redução dos juros para a propaganda eleitoral. Graaaaande Corinthians, Sua ausência estava sendo muito sentida! Garanto! Seja bem-vindo!!! E discorde de mim à vontade, com sua inteligência de sempre. Um abração!

Celso em 24 de janeiro de 2014

Como assim? Grandes investidores gostam de juros altos? E se o investidor que aplicou em açoes de uma grande siderúrgica, por exemplo, que contraiu pesados empréstimos. Ele também gosta? Grandes investidores existem aos montes nos Estados Unidos e lá os juros são bem baixos. Parece artigo do Clóvis Rossi.

Mario em 24 de janeiro de 2014

Me desculpe discordar de vc mas a sua análise está errada nos seguintes pontos cruciais: 1-Nem mesmo os bancos gostam de juros altos pois limitam sua capacidade de ganho, bem como diminui o interesse de empréstimo por parte do tomador como vc mesmo diz no seu texto, além de aumentar o risco de inadimplência. 2-Alta de juros não é nem nunca será remédio para a doença(inflação), mas sim um remédio contra um sintoma, assim como um antitérmico contra a febre, que não é a doença mas sim um sintoma de uma infecção que JAMAIS será curada com antitérmicos. Tratamento para inflação é equilíbrio entre arrecadação e despesas correntes, aliadas a um investimento garantido em infraestrutura(lê-se fundamentos básicos da economia de mercado), com estímulos ao ganho de produtividade oriundos da do aumento do conhecimento e da diminuição dos custos. Concordo entretanto que se a febre está alta é imperativo o uso de antitérmico, mas associado ao antibiótico a fim de curar a infecção.

Reynaldo-BH em 24 de janeiro de 2014

Um absoluto off topic. Grato --------------------- É covardia ou miopia? A errática política externa do Brasil nestes tristes tempo não permite a ninguém afirmar, com certeza, se mais um erro grosseiro é fruto de erro ou de uma opção preferencial pelo enfrentamento com os USA. USA que, hoje, Dilma precisa mais que nunca. A busca essencial de parceiros privados passa necessariamente pelo país que na visão bolivarianista, tem cheiro de enxofre. O mundo se reúne em Zurique para discutir o genocídio da Síria. Uma barbárie com mais de 150.000 vítimas fatais e milhões de refugiados. A civilização – ou ao menos os países que merecem este nome – buscam uma saída diplomática para evitar a continuidade do pesadelo. Os USA – como mentores deste meeting – convidam o Brasil, como especial deferência e oportunidade de se incluir no conjunto de países com peso no cenário mundial. Dilma manda o terceiro escalão como participante. Por definição, funcionários sem voz nem poder de decisão. Nem mesmo em reuniões com a FIFA viu-se tamanha insignificância declarada. Dilma, na mesma Zurique, prefere se encontrar com Blatter e com o presidente da sueca SAAB. E ignora a Síria e as tentativas de salvar um país. É óbvio que se fosse uma reunião sobre a Bolívia (com o programa de proteção das lhamas) ou da Venezuela (com a felicidade oficial de Maduro), Dilma teria enviado Mercadante, Marco Aurélio e o ministro Luis Fernando. Mas se trata somente de 150.000 assassinados por um ditador que já fez parte (ainda faz?) dos amigos do peito de Lula da Silva. A política externa de um país não pertence a um governo. É a visão que o mundo tem de uma nação, a partir do que esta demonstra ao mundo. Fala por nós, mesmo sem procuração explícita para tanto. Como defender a imagem do país com estas atitudes? Covardia? Talvez. Miopia? Quase certamente. Ideologia sem sentido? Com certeza. Basta ser algo que possa incomodar os USA e lá estará Dilma a apoiar emnome do Brasil. Daí a ter uma atitude de subserviência, concordando com tudo o que vem do Norte, há uma imensa diferença. Seria um absurdo. Como é ser contra sem nenhuma justificativa ou coerência. Aceitar o convite para esta reunião e mandar a delegação que foi enviada equivale dizer da importância – e escolha de lado – que o Brasil assume frente ao massacre promovido por Bashar al-Assad. Dilma está na pior companhia, como Lula esteve com Chavez, Evo, Kadafi, e outros ditadores.

marcos veloso em 24 de janeiro de 2014

O Brasil tem um caminho a muito cheio de buracos em questão da inflação,juros vasados,impostos virtuosos sem direção a aquilo que um país necessita,um exemplo,o salário mínimo,nunca consegue acompanhar os aumentos que acontecem em certos setores que,ja tem um ganho além do esperado.O Brasil tem que pensar no futuro,em uma reforma tributária adequada as taxas,para pensar até mesmo,muito difícil,talves eu seja um sonhador,mas num imposto único com retorno a todos em ecônomia.

What's up? em 24 de janeiro de 2014

Cada um especula como quiser, mas dizer que isto é autonomia do Banco Central é desconhecer a estatura do tombinho, está mais para falta de alternativas destes medíocres ocupantes dos cargos. Se existisse olimpíada internacional destes ministros, certamente estes terão colocação pior que a dos alunos tupiniquins avaliados no teste PISA

JT em 24 de janeiro de 2014

A inflação anual do Brasil é muito maior do que 6%. Quem faz compras no supermercado ou está construindo sabe disso. Toda vez que a Caixa aumenta o teto para valores de imóveis a serem financiados, o preço dos imóveis é reajustado praticamente na mesma hora. O BC precisa elevar os juros pois o Governo Federal não faz a sua parte, que seria enxugar a máquina e resolver os gargalos da produção agrícola e industrial do país, com a duplicação de rodovias, construção de ferrovias e portos e ampliação de aeroportos, além de reduzir a burocracia. Agora vejam o tamanho do absurdo: há alguns dias vi um senador nanico com pretensões de ser candidato a presidência falar na TV que o vilão da inflação é o agronegócio, pois os grandes produtores ditam os preços artificialmente, e que só uma reforma agrária plena resolveria o problema... Seré que le não sabe que o agronegócio é decisivo no PIB brasileiro e que, quanto maior a capacidade de produção de alimento, maior a tendência de seus preços abaixarem? Pessoalmente, como profissional autônomo sem "gatilho" salarial, tenho muito receio da volta da inflação. Se ela voltar, vai ter gente uivando.

Kitty em 24 de janeiro de 2014

Querido Ricardo, na época a Dilma foi irresponsável quando pensou que podia baixar os juros com uma canetada demagógica e o tempo demostrou que a economia não funciona sob a lei do chicote..sorte nossa que o BC compreendeu a tempo o erro dessa visão equivocada da presidente e do ministro Mantega, mantendo a saudável autonomia do Banco Central,seguramente uma dura queda de braços com o petismo populista e eleitoreiro. Erro que fez a inflação voltar a assombrar-nos, especialmente, para os assalariados que veem os preços subirem e os seus salários continuam estancados. Parece que a ordem de manter a inflação controlada a qualquer custo, fez o Bacen elevar a taxa de juros aos quase patamares anteriores. A inflação saindo dos trilhos da meta considerada razoável, seria um preço alto demais para quem pretende a reeleição. Excelente artigo, Ricardo. Parabéns!

carlos nascimento em 24 de janeiro de 2014

Ricardo, Não há cura sem remédio amargo, oxalá não tenha sido tarde demais, a gastança foi demasiada, o dragão inflacionário foi desenterrado, sabemos o estrago que ele causa ao tecido social, prejudicando o assalariado, espero que o BACEN seja firme no comando do leme, inflação é sinônimo de atraso. APROVEITANDO (off topic) O Sandro Russel caiu, lá é diferente daqui, a pressão não deixa o lixo debaixo do tapete, os catalães não sabem conviver com ilícitos, a Instituição - BARCELONA - está acima de todos eles. Caro Carlos, mas lá também tem suas coisas. Os jornais esportivos catalães, vergonhosamente, deram mais ênfase à suposta "inveja" e "despeito" dos "inimigos" por causa da aquisição do Neymar -- vale tudo, tudo, tudo o que você imaginar para eles defenderem tudo o que o Barça faça, ou sua direção, seja certo ou não. O juiz encarregado do caso é jovem, mas conhecido por sua linha dura. Quero ver o Rosell se explicar... Abraço

Meia Verdade em 23 de janeiro de 2014

Talvez eu esteja errado, essas acoes tardias mas corretas, comecerao a refletir em meados de 2014, somando-se a isso o repudio demonstrado pela povo, em junho de 2013, quanto a realizacao da copa., serao ingredientes indigestos ao PT. Claro nao torco e nao quero manifestacaoes que provoquem inseguranca daqueles nos visitam, muito longe disso, temos o dever e a obrigacao, como cidadaos, de banir esse tipo de acoes. Quanto a "autonomia" do banco central, eu discordo....a pressao para a subida ou queda dos juros foi petista., inflacao desenfreada num ano eleitoral o custo eleitoral seria antecipado. Mais uma veio uma ordem......FACAM DE TUDO PARA A INFLACAO NAO SUBIR.

Socialismo cheio de bandido!! em 23 de janeiro de 2014

O Banco Central tem que defender a moeda, custe o que custar. A presidenta só pensa naquilo, desde o primeiro dia de mandato: eleição.

Gonçalo Osório em 23 de janeiro de 2014

Setti, você tem toda razão em um ponto, que uma comentarista (ou um comentarista? nunca se sabe, os robos escalados pelo petismo gostam, digamos, de trocar de lado) chamou de má fé: a Dilma mandou baixar juros por decreto. O BC tentou recuperar a credibilidade -- leia-se autonomia. O problema maior é a perda de credibilidade da política econômica do governo. Culpa deles mesmos, azar nosso. Viramos vítimas, nós os brasileiros, de um experimento econômico irresponsável, atrasado, baseado em preceitos ideológicos furados e tocado por gente medíocre do ponto de vista técnico e acadêmico. Queriam que desse em que? E mais uma informação para os lulopetistas, que adoram vir aqui encher a paciência de gente decente: a desigualdade no Brasil parou de cair. Foi fácil dar aumento de salário mínimo e caprichar no assistencialismo. Criar as bases de um crescimento sustentável é algo que jamais essa gente incompetente foi capaz de articular.

Luana em 23 de janeiro de 2014

Se sobe os juros é AUTONOMIA, se baixa é PRESSÃO DO PT. Quanta má fé!!!

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