Divirta-se neste domingo com 4 vídeos deliciosos e esta história: 9 anos, 80 países e 80 milhões de views após o início de seu projeto maluco, Matt Harding continua rodando o mundo às custas do que faz pior: dançar

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Matt dança em Papua-Nova Guiné: nativos o incentivaram a fazer a coreografia local, mas ele insistiu no seu passinho (Foto: Matt Harding)

Quando, em fevereiro de 2003, Matt Harding resolveu abandonar o ganha-pão como criador de videogames em uma empresa de Brisbane, Austrália, sua ambição não transcendia torrar as economias em uma viagem pelo continente vizinho, a Ásia.

Até então, jamais passara pela cabeça deste americano nascido em Connecticut, EUA, em 1976, que ele gastaria a maior parte dos nove anos seguintes rodando o planeta, sendo pago para estrelar vídeos nos quais dança de forma… desengonçada (para dizer o mínimo).

Fenômeno viral não planejado

Embora Harding não soubesse, sua vida começou a mudar já naquelas primeiras férias pós-demissão.

Em uma das cidades que visitou, Hanói, no Vietnã, atendeu a um pedido de um amigo e deixou-se filmar ensaiando os passos abobalhados, uma das piadas internas favoritas de seu círculo íntimo.

Só que, dois anos depois, algum “traidor” divulgou as imagens na internet, convertendo o peculiar número do australiano em um fenômeno “viral”.

Primeira volta ao mundo

De olho em esquisitices virtuais, a marca de chicletes Stride Gum assistiu, gostou e resolveu patrocinar o improvável dançarino viajante, oferecendo-lhe uma primeira incursão para mostrar seus dotes de pista na Antártica. Também rodou pelos Estados Unidos até ser obrigado a desistir, quando se deparou com o furacão Katrina, que assolou o sul do país em dezembro de 2005.

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Tóquio também serviu de cenário para Matt (Foto: Matt Harding)

Mas o grande salto veio em 2006, quando a mesma patrocinadora decidiu bancar uma volta ao mundo daquele que então já era conhecido como Dancing Matt. Ao longo de seis meses, ele visitaria 39 países diferentes espalhados pelos sete continentes, divulgando o projeto batizado Where the Hell is Matt? (“Onde Diabos está o Matt?”). Veio à América do Sul, deixando o Brasil de fora da rota.

Acumulava milhas com uma missão: registrar em vídeo sua dança na companhia de voluntários locais que se inscreviam por seu site (atenção para o logo, inspirado no da trilogia cinematográfica de Indiana Jones), provando que, na imprevisível era da internet, um nerd com uma boa ideia na cabeça está tão credenciado a viver da dança quanto a primeira-bailarina do Teatro Bolshoi.

O resultado é o vídeo abaixo, no qual mexe braços e pernas de forma desajeitada sob o olhar atento tanto de tartarugas gigantes em Galápagos quanto de cangurus na Austrália. Também é visto ora entre monges atônitos no Laos, ora servindo de obstáculo em uma faixa de pedestres abarrotada, em uma noite de temporal em Tóquio:

A obrigação de dançar e a patrulha dos brasileiros

Mal terminara a primeira odisséia e Matt já se viu envolvido na seguinte. Esta, sim, com escala no Brasil, especificamente por Rio de Janeiro e São Paulo, no começo de 2008, rendendo chuvosos bailes respectivamente em Ipanema e em frente ao Monumento à Independência, que o próprio grava com sua câmera. Abaixo, o making of do evento com os paulistanos:

Curiosamente, pelos relatos que escreveu em seu site, Harding não guardou a melhor das impressões do Brasil.

Sua visita ao Rio foi narrada com um engraçado mau humor. Ele reclamou da demora de uma hora e meia no trajeto do aeroporto ao hotel, de se molhar na chuva – o que o obrigou a sair à caça de novos cadarços de tênis – da burocracia da embaixada brasileira nos EUA (o visto demorara para sair e a viagem atrasou duas semanas), de ser obrigado a andar com um segurança (“Goncalues”, cujo nome real certamente era Gonçalves), de um cidadão que tentou aplicar-lhe um golpe, do atraso dos demais “dançarinos”…

Os resmungos serviram para demonstrar que, a partir do momento em que um projeto – por mais incrivelmente lúdico que seja – passa a ser demarcado por severas obrigações e uma implacável agenda, tende a se tornar parecido com outro trabalho qualquer. De fato, é impossível que todo santo dia haja a mesma disposição para se pegar um avião e apresentar-se diante de possíveis roubadas, como por exemplo dançar em uma praia no meio de uma tempestade.

Harding também implicou com uma certa patrulha recebida de alguns internautas brasileiros. “Após receber centenas de e-mails perguntando o porquê de eu ter esquecido o Brasil em minha viagem anterior, agora estou recebendo mensagens questionando por que demorei tanto, o que é uns 20% menos chato”, escreveu ao pisar em solo carioca. “E acho que o problema não será resolvido com esta visita, já que aparentemente ‘eu não absorvi toda a cultura brasileira’”, ironizou após a estada.

Mesmo assim, a experiência brasileira foi bem-sucedida e entrou na edição final do vídeo de 2008 (assistam abaixo). A partir do tempo 3’35”, Matt aparece no Rio, e um pouco depois, em Sampa. Entre as rápidas aparições das duas cidades está o sensacional trecho em que ele e astronautas “dançam” sem gravidade em uma base espacial em Nevada, EUA.

Consultado por esta coluna por e-mail, Matt respondeu que estuda voltar ao Brasil em janeiro de 2012, como parte de mais uma world tour. “Estou pensando em passar por Belo Horizonte e Brasília”, disse.

Vivendo disso

No mesmo ano de seu sacolejo tupiniquim e da conclusão de segunda grande “turnê”, Matt Harding tornou-se o novo garoto-propaganda da Visa. Espertíssima, a empresa economizou na criação de um script. Afinal, o conceito de um homem dançando de alegria nos quatro cantos do planeta  já estava pronto e registrado. Só faltava vender o argumento de que todo este contentamento só é possível quando se tem um cartão de crédito em mãos (o que, cá entre nós, possui seu fundo de verdade):

Em princípio, Matt tiraria “férias das férias” em 2009. Mas a marca Dancing Matt fugira do seu controle, e o trabalho não poderia parar. “Apesar de minhas tentativas ferrenhas de apenas ficar sentado no sofá e ser um desempregado, acabei, de alguma maneira, visitando cinco continentes”, brincou.

No momento, está em sua casa em Seattle,  e diz estar “preparando um novo vídeo” e “ter muitas viagens por fazer”. Vive dos patrocínios que consegue para as megaempreitadas, das palestras que ministra, da venda de merchandising (que inclui a camiseta com os dizeres “eu dancei com Matt”) e do livro Where the Hell is Matt, editado em 2009, recheado de fotos e relatos de suas peripécias

Harding é uma verdadeira celebridade internética. Só contando as estatísticas dos 25 vídeos produzidos por sua equipe e listados em seu canal no You Tube, soma 80 milhões de views. Considerando que, para ele, 80 é um bom número de dançarinos recrutados por vídeo, e que visita mais de uma cidade em cada país, já pode ter bailado com mais de uma centena de milhar de pessoas.

Visitou 80 nações diferentes, sempre tentando arrumar uma desculpa para incluir nos planos o Sudeste Asiático, região que recomenda muitíssimo, a começar pelos preços amigáveis. Entre as dicas que oferece, recomenda “ficar de olho na mochila” desde que foi roubado na Itália e no Vietnã. E, especialmente a seus compatriotas, tem um conselho claro: “americanos deveriam viajar mais pelo mundo”.

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8 Comentários

  • Marco

    Amigo Setti: Q legal, pensei q só era eu o adepto a “dança figura “. Agora estou cheio de moral!
    Abs.

  • Lelezinha_09 (Zinha)

    Divertidíssimo assistir aos vídeos desse maluco dançando! Ri sozinha em frente ao pc! É mto louco um cara fazer isso! rsrsss

  • Teresinha

    Eu gostei, mesmo dançando do mesmo jeito com algumas euforias e poucas variações ele oferece como cenário
    lugares lindos e variados, mas só tem graça por ser inédito,se for copiado perde a espontaneidade.
    P.S.Gosto mais dele “dançando” sozinho ou com crianças.

  • Flavico

    O cara reclamou da burocracia do visto? Imagine se ele fosse um brasileiro tentando tirar visto para os EUA… Aí sim ele iria ficar puto! Otário… E outra: se não gostou porque quer voltar? É masoquista ou idiota? A chuva molhou o cadarço dele, coitado. Que merda, hein?
    Caramba, Ricardo… O seu blog já teve posts mais inteligentes.

  • danir

    Devo estar perdendo meu humor. Não me comoveu. Embora fique contente que o Matt Harding tenha encontrado algo que fazer pelo seu sustento.

  • JT

    Essa história não é engraçada. Ela é triste: um desempregado sem talento para dançar, que faz da sua mediocridade um meio de vida.
    Já fomos melhores também. Antigamente comentávamos sobre pessoas com talentos reais. Fred Astaire, só para ficar na dança.
    Antigamente tínhamos mais senso de humor também, não é, Jean?
    Abraço

  • JT

    É verdade. Mas meu mau humor desta manhã de segunda-feira brava tem um reforço: meu time ficou em 11º lugar no campeonato. Como o seu time foi campeão, me dê um desconto, por favor 🙂
    Claro que sim, hahaha. Força, Palmeiras!
    Abraço

  • jfaraujo

    Uma ideia simples que se mostrou tão original, Ficaram muito bacana mesmo esses vídeos!!!