Do caderno de anotações de um repórter: algo do Chile, 1970

A embaixada do Brasil em Santiago (Foto: turistik.cl)

A embaixada do Brasil em Santiago: um dos pontos da peregrinação do jovem repórter que foi cobrir as negociações para a confirmação de Allende pelo Congresso chileno (Foto: turistik.cl)

Não sei bem porque me caiu em mãos esses dias um artigo escrito em 2003 pelo ex-presidenciável e atual candidato a senador pelo PSDB de São Paulo José Serra sobre os 30 anos da sangrenta quartelada que derrubou o presidente socialista Salvador Allende no Chile.

Li e reli o material, no qual Serra — que se asilou durante anos no Chile durante a ditadura militar e cuja esposa, Monica, é chilena — se referiu, de passagem, ao então embaixador do Brasil em Santiago, Antônio da Câmara Canto, “partidário e participante assumido do golpe e das comemorações que se seguiram”.

Câmara Canto representou o Brasil no Chile durante sete longos anos, de 1968 a 1975. Estava lá, portanto, quando Allende, tendo pouco mais de um terço do voto popular, precisou – por exigência da Constituição – de ratificação do Congresso chileno para eleger-se presidente, em outubro de 1970.

O signatário desta coluna também andou por lá, em seus verdes — melhor dizendo, verdíssimos — anos e em missão profissional para o hoje extinto Jornal da Tarde, cobrindo durante um mês de intenso trabalho os episódios dessa complexa negociação política que envolvia, de um lado, a coligação de esquerda que elegeu Allende (socialistas, comunistas e outras forças menores) e, de outro, o então maior partido do Chile, a Democracia Cristã.

Em suas muitas peregrinações, bati às portas da embaixada do Brasil. Para os amigos do blog menos familiarizados com procedimentos de jornalistas, é uma boa prática, em coberturas no exterior, procurar informações em embaixadas do Brasil (e, por falar nisso, dos Estados Unidos também).

A embaixada do Brasil situava-se onde ainda se encontra hoje em dia, em antigas mas confortáveis instalações numa bela e ampla mansão de vago estilo neoclássico, de dois andares, na calle Padre Alonso de Ovalle, no centro de Santiago, a seis quadras do palácio presidencial de La Moneda.

Câmara Canto não era então fonte indispensável, e o procurado foi o adido militar brasileiro – afinal, apesar de o Chile viver então uma democracia exemplar na América Latina, graças à qual há quase século e meio escolhia presidentes pelo voto, excetuados dois intervalos relativamente curtos, os militares chilenos estavam no centro das preocupações no momento em que se elegia um presidente marxista.

Salvador Allende durante a campanha eleitoral, em 1970: vitória por maioria relativa levou a difíceis negociações com a Democracia Cristã para que fosse confirmado pelo Congresso (Foto: japroductions.com)

Salvador Allende durante a campanha eleitoral, em 1970: vitória por maioria relativa levou a difíceis negociações com a Democracia Cristã para que fosse confirmado pelo Congresso (Foto: japroductions.com)

O adido militar brasileiro talvez tivesse informações e análises valiosas. O Brasil vivia os tempos negros da ditadura, sob o general Emílio Garrastazu Médici.

O adido militar – estatura mediana, cabelos à escovinha, vestido à paisana – mostrou-se seco e formal, mas foi generoso em observações.

Fez previsões que, vistas a 44 anos de distância, mostraram-se surpreendentemente acuradas:

* não acreditava em iniciativa dos militares contra a posse de Allende (elas de fato não ocorreram);

* o general golpista da reserva Roberto Viaux não tinha ascendência sobre a tropa e não deveria se mexer (Viaux fez barulho, deu entrevistas, e depois sumiu, sendo ainda punido disciplinarmente pelo Exército);

* o comandante do Exército, general René Schneider, era um legalista e defendia a posse de Allende, se eleito pelo Congresso (Schneider procedeu exatamente assim — o que acabaria lhe custando a morte num atentado terrorista de extrema direita, mais tarde);

* a seu ver, a esquerda chilena iria se dividir no futuro (não deu outra, e foi uma das causas do afundamento do governo Allende).

O adido lembrou que as Forças Armadas do Chile tinham formação técnica alemã. Dos alemães haveriam herdado, adicionalmente, a legendária disciplina.

E procurou explicar ao jovem jornalista que “o psico-social chileno”, fosse lá o que significasse isso, era “outro”, diferente do brasileiro, tão tolerante com as intervenções militares na vida política, quando não cúmplice delas.

Não obstante mostrar-se correto e educado, o coronel Assis – seu nome inteiro já escapa ao signatário, tantos anos depois – não conseguia ocultar alguma perplexidade diante do fato de que, então, e diferentemente do que viria a ocorrer três anos depois, com o sangrento golpe do general Augusto Pinochet, os militares chilenos respeitavam religiosamente a Constituição.

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6 Comentários

  • alex de maveris

    estimado Setti,nao sou Chileno porem conheco o Chile desde 1972.No caso deste pais nao preciso de jornalistas para ¨saber¨o que realmente aconteceu por la.So que gostaria que Vc.informasse os seus leitores tambem a respeito dos asassinatos de fazendeiros no sur do pais,as exropriacoes de fazendas,o que faziam por la 25.000 SOLDADOS entre Cubanos,Russos,Tchecos e o que fazia por la (en Puerto Montt por varias semanas) o sanguinario Fidel Castro e – dulcis in fundo – relatasse que o Exercito so foi intervir a PEDIDO da democracia crista(isto é HISTORIA documentada). Vc.aceitaria aqui,no Brasil,25.000 SOLDADOS extrangeiros? o Fidel instalado no Rio G. do Sul? (apesar que ja eatao aqui 10.000 informantes Cubanos!!)vivi por um ano num pais comunista.Tambem nao preciso que ninguem me explique como se vive por la.

    Não tenho a mais longínqua ideia de porque você escreve tudo isso a respeito de um post em que rememoro um encontro com um funcionário da embaixada brasileira.
    Achei seu comentário desnecessariamente — e incompreensivelmente — agressivo.

  • Ricardo Melo, da Folha

    Choque de indigestão, por Ricardo Melo na Folha

    Aécio presenteou a família com um aeroporto; a conta, R$ 14 milhões, foi espetada no lombo do contribuinte

    Mais: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/176946-choque-de-indigestao.shtml

  • RONALDE

    Comunista usando a democracia para tomar o poder e instalar a ditadura do proletariado acarretou a ditadura militar no Chile e no Brasil. O lulopetismo faz diferente, ele compra o congresso.

  • AlexRio

    Realmente, para militar brasileiro da época devia causar muita perplexidade essa coisa idiota de respeitar constituição.
    Assim como muitos civis, como se nota aqui nesta seçao de comentarios, (se é que são civis) q até hoje devem achar isso bizarro..

  • AlexRio

    alex de maveris – 21/07/2014 às 9:31
    Todo adepto de golpes de Estado fascistas pelo mundo tem sempre uma argumentação para justificá-los.

    Cansativo isso.

  • Pedro Luiz Moreira Lima

    Caro AlexRio;
    Apoio totalmente sua opinião e de sua bravura ao dá-la – o ódio dos adoradores de golpes cairão sobre você.
    De minha parte admiração,solidariedade e respeito a você.
    Abração
    Pedro Luiz