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Cartaz do filme e capa do DVD

Por Daniel Setti

Living in the Material World, documentário de Martin Scorsese sobre George Harrison (1943-2001) – que já começa a estar disponível no Brasil em DVD e, extra-oficialmente, na internet – é, além de um evidente deleite para os fãs do quiet beatle, um épico audiovisual necessário, em se tratando da importância dos Beatles e das quatro pessoas que o integraram. E que vale a pena ser assistido no cinema. Torçamos para que os distribuidores brasileiros não deixem passar esta oportunidade.

Assisti ao filme de três horas e meia em sessão ocorrida segunda-feira na edição barcelonesa do In-Edit, festival inteiramente de dedicado a documentários musicais que já foi organizado também em países como Brasil, Argentina e Chile. Diante de uma telona e na companhia de uma sala organizadamente lotada, a experiência vale ainda mais.

Documento definitivo

Se a história dos Beatles já fora muito bem contada em Anthology (1995) e John Lennon é foco de diversas produções do gênero – só para citar duas, as ótimas Imagine (1988) e The U.S. vs John Lennon (2006) –, faltava que alguém se debruçasse sobre as trajetórias individuais dos outros rapazes de Liverpool. Os próximos devem ser, obviamente, Paul e Ringo. (Uma pena saber que, ao prevalecer a lógica comercial mórbida do mercado, eles só ganharão os seus relatos documentais definitivos quando não estiverem mais aqui.).

Living in the Material World exerce o devido papel de documento essencial. em primeiro lugar, por abraçar toda a preciosa obra de George, desde quando estreou como compositor em disco com “Don’t Bother Me”, incluída timidamente em With the Beatles (1963) – e desafiando a tirania da dupla Lennon-McCArtney -, às últimas canções que criou antes de morrer (material transformado no ótimo disco póstumo Brainwashed, de 2002).

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O casal Nancy Shevell e Paul McCartney, Yoko Ono, Olivia Harrison, viúva de George, Barbara Bach e o marido, Ringo Starr, na estreia do documentário, dia 2 de outubro em Londres (Foto: Dave Hogan – Getty Images)

Entre os dois momentos, esmiúçam-se, com áudio, vídeo e fotografias, as joias eternas que escreveu para os Beatles e sua carreira solo, que começou oficialmente com o sublime álbum All Things Must Pass (1970). Espécie de fio condutor da trilha  sonora do documentário, o repertório da bolacha tripla mostrou o quanto Harrison vinha acumulando criatividade durante os últimos anos do grupo, sem que pudesse ver suas músicas publicadas.

Retrato íntimo

Outro mérito de Scorsese foi trazer à tona muito mais da vida pessoal do reservado rockstar do que qualquer fã está acostumado, sem que tal iniciativa descambe para a fofoca ou o sensacionalismo tardio. A história do astro, afinal de contas, ajuda a entender sua obra.

Entre os entrevistados estão seus irmãos Harry e Peter, a primeira mulher, Pattie, e a segunda, Olivia, com quem esteve casado entre 1978 e sua morte, 23 anos depois. Ambas tratam de assuntos espinhosos: Pattie, de como trocou George por um de seus melhores amigos, Eric Clapton (outro participante, e que também aborda o tema), e Olivia, ainda que com extrema delicadeza, sugerindo as dificuldades do guitarrista em manter-lhe a fidelidade.

Completa o lado mais íntimo do documentário a presença do filho do casal e único filho de George, Dhani (atualmente com 33 anos), confidenciando as aparições do pai em seus sonhos e narrando, em off, as cartas que o então jovem roqueiro escrevia aos seus pais durante as intermináveis e exaustivas turnês dos Beatles.

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George à época de “All Things Must Pass”

Interesses ecléticos, amizades idem

A respeitosa investigação da vida privada de Harrison arquitetada por Scorsese também passa pela compreensão da ampla gama dos interesses do músico.

Em 1966, quando a beatlemania ainda ensurdecia os estádios do mundo, George já mirava a imersão espiritual por meio da cultura e religião indiana, algo que influiria decisivamente não apenas em sua música, mas que também levaria até o fim de sua vida; na década de 1970, enquanto outros superastros abraçavam a megalomania, ele inaugurava a era dos concertos beneficentes a vítimas da guerra Índia-Paquistão (1971) que levou à independência da miserável Bangladesh, ou pagava do seu próprio bolso as revolucionários filmes do coletivo humorístico britânico Monty Python. Nas horas vagas, ainda se dedicava a hobbys como acompanhar de perto o automobilismo esportivo.

Ao atuar em áreas tão diferentes áreas, Harrison colecionou um clube de amigos que eram, ao mesmo tempo, seus ídolos e admiradores. Um grupo cujo ecletismo é louvado por um de seus integrantes, o cultuado diretor Terry Gilliam (um dos fundadores do Monty Phyton). Não à toa, entre os entrevistados estão também o ex-campeão de Fórmula 1 Jackie Stewart, a atriz/cantora Jane Birkin, a fotógrafa Astrid Kirchherr e o excêntrico produtor musical Phil Spector.

Além deles, músicos como Ravi Shankar – também seu guru espiritual –, Tom Petty e, claro, Paul McCartney e Ringo Starr (contribuindo com um lindo e emocionado depoimento final), comparecem, intercalados com antigas respostas dadas por Lennon e pelo próprio George. Em alguns casos, relatando exatamente as mesmas histórias e com as mesmas palavras de Anthology. Único pecado do filme, aliás, juntamente com o reaproveitamento de entrevistas do épico sobre os Beatles. Fora isso, são 208 minutos a serem saboreados até a última nota musical.

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10 Comentários

moacir em 13 de janeiro de 2013

Daniel, Muito boa sua reportagem.Eu tenho tanto a Anthology quanto U.S.vs John Lennon.No entanto desconhecia o trabalho do Scorsese sobre o George Harrison e sua bela carreira solo.Obrigado pela dica.Vou correr atrás. Que bom, Moacir. Vai com fé, sim, que é muto bom. Um abraço, Daniel

Navarro Brisolara em 24 de janeiro de 2012

Setti, espetacular seu relato, como todos estão falando.Você poderia citar a correlação que a descoberta espiritual Indiana influenciou simultaneamente Sir Jorge Harrison e Steve Jobs, pois os dois se encontraram na mesma epoca na India...e sobre Scorcese, vale lembrar tambem sua aficção pelo Blues, na qual possui uma serie que rememora varios "dinossauros" do genero.Um abração! Obrigado, caro Navarro. Mas os méritos são de meu filho Daniel, colaborador do blog. Abração e volte sempre!

Gamal em 16 de janeiro de 2012

George explodiu nos EUA em 1969, com My sweet Lord. A música contaminou a juventude das High School. Não houve um único dia, pelo menos em Tampa Bay, em que as rádios deixassem de repercutir o sucesso extraordinário do hit.

alvaro em 15 de janeiro de 2012

Scorsese gosta de rock. Dirigiu um ótimo documentário-meio-show dos Rollig Stones em NY. Grande parte da trilha sonora de seu filmes é de músicas dos Rolling. Sobretudo, as gravações mais antigas em que a batida do tradicional rock and roll está mais marcante. Além do bom gosto musical, Scorsese foi casado com uma das mulheres mais charmosas e belas que já vi na minha vida: http://miltonribeiro.opsblog.org/2008/10/25/porque-hoje-e-sabado-isabella-rossellini/

Enio em 07 de janeiro de 2012

Belo artigo, Daniel. Realmente, o Scorsese faz justiça a um dos artistas, talvez, mais injustiçados do mundo. George contribuiu sobremaneira para o sucesso comercial e artístico que os Beatles alcançaram, e poderia ter contribuído mais. Ainda bem que não deram tanto espaço para ele, pois saboreamos uma carreira solo com músicas memoráveis. Parabéns! Estou ansioso para o documentário chegar a Passos.

JT em 03 de novembro de 2011

Certa vez o Emerson Fittipaldi estava se recuperando de um acidente na Fórmula Indy, e o SBT, que transmitia as corridas naquela época, colheu depoimentos para incentivar o piloto na sua recuperação. Mandaram um repórter conversar com George Harrison e ele aceitou! Quando o jornalista chegou na mansão (castelo) do George, foi andando pelo jardim, imaginando que o astro estava dentro de casa, então parou para dar atenção a um jardineiro, e descobriu que era o próprio George Harrison! Ele ainda fez uma paródia de "Here comes the sun" com "Emerson" no lugar de "sun". Deve ter vídeo sobre isso no YouTube. Este momento é um clássico, Jean! Aqui o link: http://www.youtube.com/watch?v=OQKCr5B1XtY Um abraço, Daniel

Carlão em 02 de novembro de 2011

Daniel, meu caro Muito boa sua reportagem. Vou conferir o documentário assim que puder. Vou fazer só um pequeno reparo: logo no começo, dá-se a entender que Harrison nasceu em 1958. Abração do Carlão. Obrigado, Carlão. Pelo elogio e pelo aviso (já corrijo). Um abraço, Daniel

Vera Scheidemann em 02 de novembro de 2011

Vou assistir. Deve ser um documentário bem emocionante. Eu gostava muito do George Harrison. Vera

Marco em 02 de novembro de 2011

Amigo Setti: Daniel, não gosto de artistas q usam sua fama para passar questões d consciência social, religiosas e etc.. Pq, acho q não vivem a realidade em volta d um tal momento e no fim acabam fazendo alertas de enganos e fantasias. E acabam se passando de anjinhos apaziguadores. Sem experiência própria do dia a dia das situações. Acho importante muita prudência nesse tipo de coisa. Não sei o q tu acha ? Abs Pode até ser, caro Marco. Mas se tem um em cuja índole acredito é o velho George. Até porque foi pioneiro nisso. Um abraço, Daniel

José Figueredo em 02 de novembro de 2011

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