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Cartaz do documentário

Por Daniel Setti

Dave Brubeck, o simpático senhor de 89 anos (à época das filmagens; em dezembro completa 91) que conta um pouco a sua vida diante das câmeras em In His Own Sweet Way, documentário do ano passado co-produzido por Clint Eastwood e dirigido por Bruce Ricker (assistam a trecho aqui), é um “ficha limpa” de se tirar o chapéu. Música no Blog conferiu em sessão do festival In-Edit ocorrida na semana passada em Barcelona.

Bom soldado, serviu os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e animou soldados no front com o seu piano; esposo infinitamente dedicado, permanece há 65 anos com a companheira Iola; orgulhoso pai de seis filhos, há décadas recruta os quatro que são instrumentistas para tocar em sua banda; branco em um universo em que predominam os talentos de pele negra – o jazz -, nunca se conformou por ter sido o primeiro de seus astros a aparecer, em 1954, na capa da revista Time. Antes, portanto, que Duke Ellington, Billie Holiday, Louis Armstrong, Charlie Parker e tantos outros merecedores.

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A capa da Time com ilustração do rosto de Brubeck

“Maluquice” que virou hit

Dá gosto que a exemplar trajetória pessoal de Brubeck, pianista e compositor nascido em Concord, Califórnia, em 1920, esteja à altura de sua importância como músico. Em plena década de 1950, enriqueceu o jazz ao acrescentar toques de mestres eruditos como Ravel e Debussy em suas composições e entortou a cabeça de críticos e admiradores por trazer ao jazz os ritmos que fugiam à regra do 4/4 (aquele que qualquer ser humano é capaz de marcar com um estalar de dedos contando 1,2,3,4).

Ainda assim, conseguiu a façanha de transformar estas ideias malucas em hits. Com a imprescindível ajuda, é importante mencionar, do saxofonista Paul Desmond (1924-1977), um de seus fiéis escudeiros de banda (os outros eram o baixista Eugene Wright e o espetacular baterista Joe Morello, falecido este ano).

É de Desmond a autoria de “Take Five” (presente no clássico álbum Time Out, de 1959), um dos temas de jazz mais conhecidos e cujo compacto figurou por décadas como o mais vendido da história do gênero. Uma proeza e tanto para uma composição estruturada um nada comum ritmo 5/4.

O penetra Eastwood

Em termos de técnicas narrativas, o documentário é conservador, apostando na fórmula entrevista com o protagonista + fotos e vídeos de arquivo + participação de familiares, especialistas e admiradores famosos (Bill Cosby, George Lucas, Sting, Keith Emerson, Jamie Cullum). O que não compromete sua qualidade informativa e audiovisual.

Já a presença de Eastwood não só detrás das câmeras acaba sendo um mero truque para alavancar a divulgação do filme. Se o octogenário ator, diretor e fã de jazz – dirigiu o ótimo Bird (1988), sobre Charlie Parker – não aparecesse, em nada mudaria o roteiro. Poderia contentar-se com o nomão impresso nos créditos.

Mas eleestá lá, sentado quieto ao lado de Brubeck ao piano em imagens extraídas de outro documentário seu, Piano Blues (2003). Chega a tocar uns acordes a quatro mãos com o entrevistado. Desnecessário, como Martin Scorsese soube que o era para o épico que produziu sobre George Harrison, no qual não dá as caras.

Abaixo, “Take Five” interpretada por Dave Brubeck Quartet no programa de TV americano Jazz Casual, em 1961.

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11 Comentários

Kitty em 04 de janeiro de 2013

Holá caro Daniel! Foi este post o meu presente, embora um pouco atrasado, de Natal..que adorei e conseguiu me comover...Meu pai tinha entre seus mais apreciados discos, na sua modesta discoteca, como ele gostava de chamar a sua pequena coleção de musicas. Entre as quais: o Album "Time Out". Por morar no Brasil meu irmão acabou herdando este modesto acervo musical. Então, caro Daniel, você não imagina a minha emoção quando escutei aqui no blog " Take five" na incrível interpretação do grandioso Dave Brubeck!O meu muito obrigada! Aproveito esta visita a Musica no Blog para desejar a você e família um felicíssimo ANO 2013! Que todos os seus sonhos se tornem realidade...um forte abraço///Kitty Fico feliz que tenha gostado, Kitty. E desejo o mesmo a você. Um abraço, Daniel

moacir em 30 de dezembro de 2012

Setti, Tocando Take Five Brubeck,Desmond,Wright e Morello são eternos.Assim como Duke e Paris Blues,Holiday e Summertime,Armstrong e Ain´t Misbehavin,Parker e A Night in Tunisia. São pra sempre Sarah e It´s Magic,Ella e Every Time We Say Good Bye. Inesquecíveis o Unforgetable de Nat King Cole e os Strangers in Paradise de Tony Bennet. Como não gostar de Unchain my Heart de Ray, My Way de Sinatra e Time After Time de Chet Baker. Pra terminar o concerto de Ano Novo eu ouviria ainda Giant Steps por Coltrane,Over the Rainbow por Getz e nos pianos de Jarret Autumn Leaves e de Corea And So I. Engraçado como o mundo todo se apropriou do jazz. Como o jaz é vivo,mutante,multifacetado.em setembro ouvi em Buenos Aires o trio de Paula Shocron.Recomendo. Não concordo com aquela velhíssima piada americana que diz que **jazz is better than sex and it lasts longer** A melhor definição que já ouvi pra jazz foi a de Jonathan batiste da Stay Human Band: ** JAZZ IS NOW **

Grace Olsson em 29 de dezembro de 2012

Gosto desse ator Ricardo, passei, apenas, para te desejar um Feliz Ano Novo e que anjos de Luz te cubram de paz, harmonia e serenidade, no ano que breve começara Obrigado, Grace. Para você também. Abraço

danir em 23 de abril de 2012

A respeito de Dave Brubeck, realmente sua formação com Paul Desmond, Eugene Wright e Joe Morello é simplesmente sensacional, independente de que "corrente do Jazz" se tenha preferência. Se você por acaso souber onde encontrar o Disco Back Together Again, onde o Joe Morello faz um solo longo e inspiradissimo em Take Five, por favor me avise. Eu tinha o disco, e ladrões que provavelmente nunca o apreciarão furtaram em minha casa junto com outras preciosidades. Nunca mais encontrei o disco para repô-lo em minha coleção. A propósito, tambem procuro um compacto duplo de um conjunto Brasileiro da década de 70 chamado Rith'm Killers, onde gravaram Rock Island Line numa interpretação muito interessante. Eu sei que o objeto de seu blog não é este, mas não custa tentar. TKS. -PS. Uma sugestão: coloque em pauta apresentar alguma coisa do Son House, uma lenda do Blues, que se não me engano, tem somente dois ou três discos gravados pois nunca deu bola para o circuito comercial. Vale a pena para quem ainda não conhece e gosta de Blues. Grande Abraço. Danir Puxa, que terrível o roubou deste disco... Valeu pela dica do Son House. Grande abraço, Daniel

maria em 08 de novembro de 2011

PRESENTAÇO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Quando lançado, na mó hesitação, vendeu um milhão de cópias........ isso está no texto?! de tão emocionada, não li! PRESENTAÇO! Não há como agradecer, embora aqui esteja tentando, tá? Abraços! Obrigado, Maria. E não, não está no texto esta informação, já que não mencionava o lançamento comercial. Um abraço, Daniel

Marcio Severo em 08 de novembro de 2011

Meu caro Setti, muito obrigado por esse post maravilhoso. Gostaria de sugerir um outro musico maravilhoso, infelizmente já falecido, mas fundamental para a musica contemporânea, Les Paul. Ele era um guitarrista notável com uma puxada para o jazz e um pouco de country, além disso era um inventor dos mais capazes, sendo responsável pela invenção do overdub e da gravação em multi-canal, da invenção do captador, que é quem dá vida à guitarra elétrica e, anos antes do Joe Fender criar a sua guitarra de corpo maciço ele já tinha apresentado essa mesma proposta à Gibson, que tinha rejeitado por achar que não havia espaço para um instrumento desse tipo. Após o sucesso da Fender, a Gibson o chamou e juntos lançaram a Ginson Les Paul, até hoje uma das melhores guitarras elétricas de todos os tempo. O homem era um gênio e além disso tinha um excelente senso de humor. segue abaixo dois vídeos de les paul, um no auge da carreira, tocando com sua parceira Mary Ford na década de 50 e outro aos 90 anos de idade em um bar de NY. http://www.youtube.com/watch?v=HH8vjxFIUC4 http://www.youtube.com/watch?v=PYlG7qb3iCs Abraços, Marcio Caro Marcio, muito obrigado pelas palavras e pela ótima sugestão. Les Paul é mesmo uma verdadeira entidade que precisa aparecer neste blog urgentemente. Um abraço, Daniel

Jose Francisco em 07 de novembro de 2011

Dave Brubeck ! quando o ouvimos descobrimos de pronto como o mundo empobreceu nessas ultimas decadas, intelectual e musicalmente. Houve uma revolucao para pior em todos os sentidos que contam ! Azar das proximas geracoes ! Que terao que enfrentar as Ivetes,Danielas e Oloduns da vida.

Oswald em 07 de novembro de 2011

Não tem problemas, Setti. A presença do Clint Eastwood é sempre bem-vinda.

Vera Scheidemann em 07 de novembro de 2011

Maravilha ! Amo "Take Five". Um abraço ! Vera

Rossini Thales Couto Junior em 07 de novembro de 2011

Em tempo: Desculpe a nossa falha: enviou em vez de inviou. Coisa da falta de atenção. Grato, Rossini

Rossini Thales Couto Junior em 07 de novembro de 2011

Que bela maneira de começar a semana!! Obrigado, Caro Daniel, por mais esta jóia musical que você nos enviou. Um abração, Rossini Valeu, Rossini. Um abraço, Daniel

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