Amigos do blog, a seção “Dicas de Leitura” estava muito descaracterizada, misturando dicas de livros com reportagens políticas e artigos de colegas jornalistas.

Sua intenção inicial seria indicar ao leitor especialmente livros bons de ler.

A antiga “Dicas de Leitura” fica, a partir de hoje, substituída por esta nova seção, “Livros & Filmes”, que tratará desses dois componentes essenciais à vida do espírito.

Os leitores poderão encontrar aqui resenhas de livros e filmes, entrevistas com escritores, cineastas, atrizes e atores de cinema. O material poderá ser de autoria do colunista ou de colegas de VEJA ou do site de VEJA.

As indicações que a seção der aos leitores, mesmo que o texto não seja meu, significarão tratar-se de livros e filmes de que gostei e que recomendo aos amigos.

Começarei por um livro sobre uma pessoa extraordinária, cuja leitura comove e inspira.

O texto é do meu amigo Augusto Nunes e foi publicado na edição impressa de VEJA de 26 de outubro. O título original é o de abaixo.

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O autor do livro, Carmo Chagas, com a mulher, Léa, e as filhas Juliana (esq.) e Carolina Família Chagas: drama com final feliz

Drama com final feliz

Uma cirurgia pôs Léa Chagas na trilha de uma luta sem tréguas pela vida – mas esta sempre prevalece, narra seu marido, Carmo

Depois de 66 dias de internação, da troca de uma válvula cardíaca artificial desgastada pelo tempo, de duas paradas do coração, de uma semana em estado de coma, do medo de perder as mãos para a gangrena e da amputação dos pés, é possível ser feliz?

É, ensina o livro do jornalista Carmo Chagas.

Desde que se assimile a ressalva feita por Léa, mulher do autor e protagonista do drama, que inspirou o título perfeito. Feliz de Outro Jeito (Textual; 192 páginas; 30 reais) conta a saga imposta no fim de 2007 à bela paulistana de olhos intensamente verdes e sorriso de debutante a caminho do baile.

Surpreendida por complicações circulatórias quando já fora transferida da sala de cirurgia para a UTI, Léa começou a travar, ao lado do marido e das filhas, Carolina e Juliana, uma sequência de lutas pela vida que não admite tréguas nem tem prazo para terminar.

Mas a guerra principal foi vencida pelo amor, concordam Carmo e Léa.

Quem narra uma tragédia desse porte e com final feliz percorre o tempo todo a trilha do penhasco, a milímetros da queda na pieguice, na autoflagelação, no exagero ou na sonegação de detalhes essenciais. Não é para qualquer um o que Chagas só conseguiu por ter fundido a experiência profissional e o temperamento mineiríssimo.

Integrante da talentosa geração que participou da fundação de VEJA e do Jornal da Tarde, ele garimpa informações ou resgata lembranças com a determinação e a curiosidade do repórter de nascença. Mas descreve com a emoção contida de quem nasce em Inhapim [MG] tanto o que sente por Léa – algo parecido com o amor além da vida e além da morte de que falava Nelson Rodrigues – quanto a cremação dos pés amputados.

Esse equilíbrio é mantido em todas as etapas da caminhada sempre tocante. Aprende-se que puxar a cadeira de rodas pela parte traseira facilita a subida de escadas, que só atletas conseguem mover-se usando apenas as mãos, que é quase impossível mexer-se na cama sem a ajuda dos pés, que a adaptação à prótese é demorada e dolorosa – e que há um jeito para tudo.

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Capa: Feliz de Outro Jeito

Ou quase tudo. Não há remédio para todas as dores. A insônia é inevitável. Ninguém escapa dos períodos de depressão. “É uma luta que não cessa”, escreve Chagas.

Ainda assim, a luminosidade de algumas linhas confirma que a vida vale a pena – e prevalece sobre as sombras mais perturbadoras.

Num desses momentos, Carmo está voltando à pousada onde o casal se hospedou quando vê, a centenas de metros, uma figura caminhando pela estrada em sentido contrário. “Ela está com um vestido longo de malha, a bengala acentuando a elegância natural do porte”, continua a evocação da cena. “Na medida em que o carro se aproximava, o sorriso dela ficava mais nítido, mais triunfante, pela surpresa que estava causando. Parei o carro e desci. Ela: ‘Acordei logo depois que você saiu. Fiquei quieta, ouvindo a natureza, os passarinhos, vendo a claridade entrar pelas frestas da janela. Você acha que eu ia ficar fechada naquele quarto? De jeito nenhum’.”

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8 Comentários

Tania Medeiros Pinto em 03 de abril de 2013

Muito me interessou a história desse livro. Gosto de superação. Me encanta. Ainda não li, mas vou comprar o mais rápido possível.

ivone oliveira pereira em 11 de abril de 2012

GOSTARIA DE DEIXAR REGISTRADO AQUI O QUANTO GOSTEI DO LIVRO FELIZ DE OUTRO JEITO,UMA HISTÓRIA DE SUPERAÇAO MARAVILHOSA,EU ASSIM COMO A LÉA TAMBEM TIVE OS DOIS PÉS AMPUTADOS AOS MEUS 32 ANOS DE IDADE POR UMA DOENÇA CHAMADA TAKAYASU ,MAS ASSIM COMO A LÉA ESTOU SENDO FORTE PARA SUPERAR ESSA PASSAGEM NA MINHA VIDA,CASADA COM 2 FILHOS UMA DE 15 ANOS E UM DE 3 ANOS ,NOSSA HISTÓRIA É MUITA PARECIDA FIQUEI MUITO FELIZ EM TER TIDO A OPORTUNIDADE DER LER ESSE LIVRO QUE ME FOI EMPRESTADO POR UMA PROFISSIONAL DO CONDICIONAMENTO FISICO DO CENTRO DE REABILITAÇAO ONDE ESTOU A 2 MESES POIS AINDA NAO COLOQUEI AS PROTESES,AS MINHAS AMPUTAÇÕES AINDA SÃO RESCENTES.AQUI FICA O MEU MUITO OBRIGADO AO CARMO CHAGAS E A LÉA. Prezada Ivone, também fico muito feliz por você ter gostado do livro e obtido, nele, inspiração para sua luta admirável. Desejo-lhe muitas felicidades e força espiritual. Um grande abraço

Kitty em 07 de fevereiro de 2012

Bom dia Ricardo! Mas que linda surpresa com que me deparei hoje aqui, nesta seção do Blog! Primeiramente devo parabenizá-lo por mais uma brilhante ideia de ter esta nova opção de dicas de leituras e filmes, que estou quase segura, que muitos dos filmes a gente já viu, e sempre vale a pena recordá-los e rever artistas que nos comoveram em algum momento da nossa vida.E, o livro mencionado fará seguramente parte do meu acervo literário,enriquecido nestes últimos tempos dos livros encantadores e pícaros de Vargas Llosa, e um muito particular, que guardo como um tesouro: "Conversas com Vargas Llosa"do jornalista-escritor Ricardo Setti. Talvez você o conheça, ele é muito bom!!!!E o livro, aqui mencionado que já tem um premio incorporado: o nome Augusto Nunes, outro gigante do jornalismo!!! Vai ser meu companheiro de viagem em fevereiro( dia 20)que irei para Baires a sofrer com a Cristina, e ver quanto foi o estrago nos meus jornais favoritos desde a infância,já que meu pai os lia! Sempre que puder, manterei meu contato com o Face ou o Blog! Um abração caro amigo! Kitty

Jefff em 04 de fevereiro de 2012

Voce irá participar da parceria entre a revista veja e tv cultura??? Oficialmente, por parte da direção da revista, não ouvi ainda nada a respeito do assunto.

SergioD em 04 de fevereiro de 2012

OK Ricardo, já o conheço o suficiente para entender os seus motivos. Não participaria desse BLOG se não admirasse seus princípios, mesmo discordando de suas opiniões aqui e ali de vez em quando. Um abraço e bom domingo. Obrigado, Sergio, caro. E bom domingo pra você também. Abração

SergioD em 04 de fevereiro de 2012

Ricardo, grande ideia fazer uma seção como essa. Seria muito legal se você colocasse nela alguns Post do Leitor com comentários e resenhas pessoais de livros e filmes. Já me candidato. Quem sabe mande um Post sobre o seu Conversas com Vargas Llosa. Como dica de leitura para o pessoal do Blog recomento O Cemitério de Praga, de Umberto Eco, minha atual leitura de cabeceira. Elogiar Eco é chover no molhado. Ele monta uma história fantástica ambientada na Europa do século XIX misturando um personagem fascinante com diversos personagens reais como Freud, Garibaldi, Cavour, Napoleão III etc... Genial como os anteriores O Nome da Rosa e a Ilha do Dia Anterior. Grande abraço e parabéns pela ideia. Sua ideia de Posts do Leitor para a nova seção é muito boa. Mas fazer algo com o meu livro não me parece adequado. Qualquer outro que você queira comentar eu topo. Abração

Marco em 04 de fevereiro de 2012

Amigo Setti: Aliás o Rei, na foto q parece uma pessoa franzina, não é nada disso, parece um jogador de Rubgy, e outra coisa quando ele esteve em Poa, q já falei em alto estilo, rapaz o q tinha de gaúcha bonita e vinho de boa qualidade. O Rei tem q lançar e autografar mais livro em Poa. Abs.

Marco em 04 de fevereiro de 2012

Amigo Setti: Conheço o A. Nunes desde ZH, q ele escrevia sempre aos Domingos, na época tinha a imagem dele de profissional implacável,um profissional acima da média em termos de retratar a realidade brasileira, com fundamentos técnicos e confiança inabalável no q comenta. Depois pela leitura diária aqui na Veja, descobri diante dos olhos uma outra concepção,um pouca mais distinta,uma qualidade humana rara no maior combatente a favor da verdade no Jornalismo brasileiro, fora da guarda rígida do ofício. Observei, me corrije se tiver errado,A, Numes é uma pessoa sensível a causa humana, e para quem tem ele como turrão,é totalmente oposto, com um bom humor engajado sempre q possível em alguma brincadeira. Para quem tem a mesma imagem do Rei, quando o conheci pessoalmente senti essa mesma impressão. Abs. Você acertou. O Augusto é tudo, menos turrão. Está permanentemente bem-humorado. Um abração

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