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Vista de satélite das ilhas artificiais formando o The World, em Dubai: afundamento e “mico” financeiro monumental

Por Daniel Setti

Quando, no final do ano passado, inundaram as manchetes internacionais relatos sobre o processo de afundamento das ilhas artificiais do The World, megaempreendimento existente em Dubai, no Golfo Pérsico, avaliado em 14 bilhões de dólares, foi como se uma mesma pergunta passasse pela cabeça dos governantes e investidores do emirado: não estaria na hora de revermos alguns conceitos sobre como gastar nosso rico dinheiro?

Um mundo fajuto flutuante

Concebido pela Nakheel, braço da Dubai World, empresa do governo do xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, vice-presidente e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, o The World é talvez o mais mirabolante entre os diversos projetos estapafúrdios desenvolvidos nos últimos anos para ostentar as riquezas da cidade e atrair turistas. (Outro exemplo? A iniciativa do xeque Hamad Bin Hamdan Al Nahyan, que mandou “cavar” o seu nome em uma faixa de 3,5 quilômetros de areia de sua ilha particular, para que pudesse ser visto da lua — grotesco e egocêntrico desperdício de trabalho, dinheiro e tempo).

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A “obra” do xeque Hamad: grotesco desperício de trabalho, dinheiro e tempo

Mas voltemos ao The World. Trata-se de um arquipélago postiço situado a cerca de 4 quilômetros da costa de Dubai e cujas ilhas, forjadas com areia retiradas do fundo do mar por gigantescas dragas, a um custo brutal, têm a forma dos países do mundo, além de serem dispostas entre si como se tratassem de um colossal mapa mundi.

O “planeta flutuante” só pode ser enxergado como tal de um satélite ou do alto do Burj Khalifa, o prédio mais alto da Terra com seus 163 andares e 828 metros.

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O Burj Khalifa, de 163 andares, o edifício mais alto do mundo

Com a crise econômica mundial de 2008, a empreitada já sofrera um duro golpe, confirmado com o resgate financeiro ao qual teve que ser submetido a própria Dubai World no ano seguinte, em boa parte com dinheiro do vizinho Abu Dhabi, ainda muito rico em petróleo.

Em 2009, as obras tiveram que ser paralisadas. E, embora a empresa garanta que pelo menos 70% das 300 ilhas já tenham sido vendidas, na ocasião do escândalo do afundamento todas estavam “inabitadas”, com exceção da Groenlândia, do próprio xeque.

Revisão do modelo

A revelação sobre a pane insular, feita por uma comissão independente – segundo a qual a base arenosa das ilhas vinha sofrendo erosão, o que transformou os canais de interligação em verdadeiros pântanos -, revelou-se, portanto, como um oportuno sinal de que a mentalidade local deve mudar.

Consultor de planejamento estratégico a serviço de uma multinacional norte-americana em Abu Dhabi, a “rival” de Dubai, o paulistano Aldo Labaki, 32, colaborador e amigo deste blog, acha que falar em crise é “relativo” quando o assunto são os Emirados Árabes. Mas tem interessantes perspectivas sobre o seu atual momento e de como poderia ser alterado.

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Burj Al Arab, o hotel mais caro do mundo: frota de Rolls-Royces para os hóspedes

“Vi alguns indícios de afetação pela crise mundial de 2008: carros abandonados na rua, a grande quantidade de imóveis vazios, preços de aluguel em queda e muitas obras paradas, mas nada parecido com o que está acontecendo na Europa ou o que já vimos acontecer muitas vezes no Brasil; aqui o dinheiro brota da areia”, diz Labaki, há um ano e meio morando em Dubai, de onde parte a cada dia, de carro, em direção ao escritório em Abu Dhabi, a 150 quilômetros.

“Na minha opinião, o que está acontecendo mesmo em Dubai é um momento de revisão sobre como alcançar a visão que o xeque Rashid bin Saeed Al Maktoum [pai do atual mandatário] estabeleceu ao unificar os Emirados na década de 1970: transformar areia e ouro negro num hub de negócios e turismo que fizesse a conexão entre os lados esquerdo e direito do mundo. Acho que eles perceberam que a velocidade com que o ‘camelo’ estava correndo em direção ao ‘oásis’ estava alta demais e que, se o bicho não caminhasse um pouco mais devagar, provavelmente morreria antes de chegar”, metaforiza.

Outras prioridades

De fato, há indícios de que, pouco a pouco, os magnatas do deserto estão considerando começar a aprender com os próprios erros e pensar mais no futuro. Afinal, como um modelo em que gastos astronômicos são cotidianos e a ostentação de futilidades quase um esporte poderá ser sustentável a longo prazo? E como poderá sobreviver sem depender tanto do petróleo?

Segundo o leitor deste blog Danir, que esteve em Dubai e Abu Dhabi em uma viagem de trabalho e observou de perto as peculiaridades das duas cidades, só agora seus governantes estão olhando mais para seu próprio território com o intuito de desenvolver atividades econômicas propriamente ditas na região.

“Em todo o trajeto entre Dubai a Abu Dhabi, vi mais da metade da estrada lotada de edificações industriais; o local é um canteiro de obras, igual à China e outros locais que estão crescendo de forma muito rápida”, comentou o leitor Danir em resposta a este outro post deste blog sobre Dubai.

“Vi indústrias sendo instaladas, e a que visitei tinha um nível de excelência e de produtividade que faria inveja a qualquer grande produtor mundial, além de uma limpeza e organização dignas de nota; em nada parecido com o que se vê na China, por exemplo”, acrescenta.

Imigrantes se dão bem…

Como acontece em muitos países do mundo, principalmente em boa parte da Europa, os imigrantes são o verdadeiro alicerce da economia local. Nos Emirados Árabes, as oportunidades nos melhores cargos das maiores empresas continuam sendo uma mina de ouro para a mão-de-obra importada qualificada.

Mas o sistema é fundamentado em um desequilibrado arranjo étnico-social que empurra os trabalhos pior remunerados às populações vindas de regiões pobres de outros países asiáticos, com destaque para Filipinas (grande presença em hotéis e restaurantes), Índia e Paquistão (campeões do hard work em canteiros de obras, muitos vivendo em condições subumanas no deserto). Neste mosaico, há espaço também para os brasileiros.

“Conversei com brasileiros que lá trabalham em serviços subalternos e ninguém quer voltar para o Brasil enquanto puder fazer seu pé de meia por lá”, relembra Danir. “A moeda tem dois lados, e é difícil mantê-la em pé”.

…mas também pagam o pato

Ainda na mesma dinâmica do que vem ocorrendo em nações europeias, os imigrantes acabam levando a pior na hora em de um aperto de cintos que envolva uma reestruturação. No início deste ano o governo de Abu Dhabi percebeu que a quantidade de estrangeiros em sua folha de pagamento saíra do controle e resolveu radicalizar.

“Nada de novos projetos de consultoria, redução brusca no ritmo frenético de construção das obras faraônicas (as filiais dos museus Louvre, Guggenhein, etc) e 6 mil estrangeiros que trabalhavam para o governo no olho da rua da noite para o dia”, conta Aldo Labaki. De acordo com ele, esses empregos teriam saltado precipitada e forçosamente no colo de trabalhadores nativos, não necessariamente qualificados para tal.

Questionamentos

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Vista noturna da “Disneylândia sem diversão”

As demissões foram as consequências bruscas e trapalhonas do que aparenta ser um questionamento nascente na terra do dinheiro. Não seria melhor educar e formar melhor as gerações vindouras do que depender inteiramente de estrangeiros para os postos de trabalho mais relevantes?

É apenas mais um dos tópicos desta etapa de impasse. Entre os outros, saltam aos olhos o que fazer com o atual modelo turístico.

Talvez esta “Disneylândia financeira sem a diversão”, este “resort de férias com o pior clima do planeta”, esta “Las Vegas sem as dançarinas, sem os cassinos e sem Elvis”, como o jornalista escocês A. A. Gill escreveu em matéria da revista Vanity Fair, não seja mesmo tão atraente . Será?

E os choques culturais (podem as mulheres árabes de corpo coberto e oprimidas coabitarem saudavelmente com as turistas de minibiquíni nas praias e de minissaia nos abundantes hotéis, e vice-versa?), terão como ser resolvidos ou de alguma forma minorados ou contornados?

Caso tenha êxito em dar resposta a estes questionamentos, Dubai poderá deixar de transparecer a seus conhecedores uma imagem parecida com a resumida por Labaki: “uma terra sem tradição e sem cultura, onde tudo é artificial, hipócrita e movido a dinheiro e aparência”.

*Abaixo, trailer do filme “City of Life” (2009), do diretor inglês Ali F. Mostafa, que mostra um pouco dos prazeres e absurdos da vida em Dubai pelos olhos de personagens pertencentes a diferentes nacionalidades e situações sociais:

LEIA TAMBÉM:

O bilionário emirado de Dubai, “onde o dinheiro não tem qualquer outro objetivo que não seja sua multiplicação e endeusamenteo”

Os maiores iates reais do mundo

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10 Comentários

alex em 11 de junho de 2014

Alguém falou em cultura arcaica? Aonde, a arquitetura árabe é bélissima. E de influencia em várias partes do mundo ocidental. Realmente é uma pena, que sejam países de magnatas ricos e povo pobre. Aliás, como aqui! Mas pelo menos eles tem a, digamos, sensibilidade, de investirem em seu país, construindo belos exemplares arquitetonicos. Aqui? Nem isso. É só ladrão roubando para sí antes, que o próximo governante, assuma e faça o mesmo. Acho que do ponto de vita em construção de grande feitos de engenharia e arquitetura, estão de parabéns, somente deveriam, assim como aqui, investir, desenvolver seus países e gerar bem estar social ao seu povo. Fico imaginando com nossa natureza, simplesmente maravilhosa, qual seria o impacto nas nossas cidades, se arquitetos e engenheiros, traçassem nossas cidades e pontos mais belos, a fim de gerarem o bem estar social, em ambientes de cidades e bairros para nós morarmos, vivermos melhor, num país mais harmonico e mais bonito, sem aquelas favelas horríveis do Rio e bairros de periferia, como os da região amazônica, em meio a tanta beleza natural. Fico no sonho!

Tomy em 24 de janeiro de 2014

As regras para publicação de comentários no blog, conforme alertei os amigos leitores incontáveis vezes, não aceitam textos escritos somente em maiúsculas, em respeito à boa educação, aos leitores e seguindo uma norma internacionalmente praticada na web. Como presumo que você saiba, palavras em maiúsculas significam palavras gritadas, não é mesmo? Confira as regras no link http://goo.gl/u3JHm Obrigado

Odair Nunes em 14 de junho de 2012

essa materia e inveja de brasileiro, e desse escritor ingles tb, a Asia cresce e ja atropelou a Europa, e vai pra cima do tio San agora, que vai enfrentar a China, eles la nao sao bobos, o Califado Arabe dominou a penisula iberica por 700 anos, o imperio Turco colonizou os balcas, sul da Russia e ate parte da Austria por 300 anos, certo, eles perderam a I guerra mundial, e enquanto o ocidente sobrepujava eles ficaram pra tras, mas as coisas tao mudando, Dubai e um otimo lugar, mas pra quem tem$$$$, e eles estao investindo e muito, como disse a reportagem sobre industrias, e so ve o estaleiro ADSB que ja produz navios que o Brazil nao produz, esse escritor ingles deve e se preocupar com a Inglaterra, que agora vai te que puxar o peso morto dos paises da periferia do euro...

Joao em 14 de outubro de 2011

Acho que esses caras pensam da seguinte forma até hoje,"as pirâmides egípcias [o The World, Burj Khalifa] são imponentes edificações construídas ...erguidas como um monumento à memória dos faraós já mortos, servindo elas mesmas como monumentais tumbas. Os corpos dos faraós se encontravam protegidos no interior das pirâmides. Acreditava-se, no Egito antigo, que o resguardo do corpo dos faraós na pirâmides asseguraria a eles a vida eterna".

carlos nascimento em 11 de outubro de 2011

Daniel, A cultura árabe é enigmática, são fechados em suas filosofias extremistas, creio que os seus líderes possuem neurônios limitados, pois com a abundância de recursos do qual são detentores, poderiam criar um maior intercâmbio com o Ocidente, gerando sinergia positiva, tentando reverter o estigma existente, contribuindo em projetos de pesquisas que iriam aliviar e diminuir a pobreza mundo afora. Quanto desperdício, quanta luxúria, quanta excentricidade, tendo a África para ser ajudada, diversas doenças que se alastram que poderiam receber investimentos na busca de vacinas e curas, enfim, uma visão de maior cooperação que com certeza iria gerar dividendos em prol da Institucionalidade da região. Alguém precisa alertar aos árabes que os recursos fósseis um dia irão se esgotar, ou que a planta energética possa ser substituída por um novo elemento, ai as suas reservas poderão perder o atual valor de mercado. É hora de quebrarem os seus paradigmas, buscando objetivos de maior alcance. Carlos Nascimento.

Carlos em 10 de outubro de 2011

Realmente é bizarro e admirável como esses caras conservam a cultura arcaica de seus antepassados. Acho que isso talvez estava mais para pirâmides do Egito do que Disney. Para quem não acredita em reencarnação taí um bom momento para revletir a respeito.

Rafael em 10 de outubro de 2011

Enquanto o xeque escreve seu nome numa ilha, nosso califa batiza um campo de petróleo.

Marco em 10 de outubro de 2011

Amigo Setti: Daniel, teu pai deve ter conhecido ou lido o livro do embaixador Meira Penna, sobre as doenças dos ismo, Nacionalismo (temperamental),populismo ( perdulário),estruturalismo ( inflacionário),estatismo(intervencionista) e protecionismo (anti-competitivo). Há inumeras explicações sociológicas q enfatizam fatores culturais, ora herança genética, ora pessimismo racial, ora com visão condescedente d micsegenação, fora os reducionistas q recorrem a determinismo raciais e climáticos, supostamente limitativos.Como instrumento de psicologia coletiva.Voltada para o Mundo exterior de imagens e sensações. Te falo isso pq quando o Inter fez um Fiasco por lá, alguns dirigentes doente por ismo, falou em trabalho escravo por lá e outras patifarias. Acho q por lá no minimo tem se dado um boa contribuição as Artes, esportes e Arquitetura moderna. Abs.

Fernando em 10 de outubro de 2011

Prezado Daniel, Esta materia eh apenas parcialmente acurada. Focando apenas em aspectos culturais e economicos: - A ilha que o Sheikh Hamad carvou seu nome: ele nao eh da mesma familia dos Maktoum (Dubai) mas dos Al-Nahayan (Abu Dhabi), primo dos Sheiks que realmente mandam no Emirado. O projeto de cavar o nome dele (que nem eh realmente caro pois a ilha nao tem profundidade) foi suspenso pelo Sheikh the Abu Dhabi pois os mesmos, apesarem de serem muito ricos, nao gostam de ostentacao; mas entre nos, que mal gosto colocar o proprio nome na ilha... - O projeto do "The World" foi feito por uma companhia holandesa, com trabalhos semelhantes, e internacionalmente conhecida, a "Van Oord" (http://www.vanoord.com/gb-en/our_activities/project_selector/the_world/index.php ), mas eh claro que Dubai errou no processo imobiliario, assim como outros paises. Dubai nao tem petroleo e a economia eh baseada no turismo e nas zonas de livre comercio; - Zonas de livre comercio sao, alias, um enorme diferencial para as milhares de empresas que se instalam. Nao existe uma fracao da burocracia que existe nos paises de origem (imagine Brasil) e impostos nulos; - Todas as Universidades do pais tem a lingua inglesa como oficial, e muitas escolas tb. Isto eh extraordinario p/ um Pais em que alguns pais dos alunos sao analfabetos e, muitos, avos sao analfabetos; - Abu Dhabi tem um plano chamado "Abu Dhabi Vision 2030" que eh de dar inveja ao Brasil; - Dubai vive um "choque" (ou seria "blend"?) cultural sem duvida. Jah vi europeu sem roupa num hotel da praia, o que, estritamente falando, poderia causar cadeia caso denunciado(os funcionarios do hotel normalmente correm p/ avisar os incautos/imprudentes). Pessoalmente, nao vejo nada de errado no nudismo, mas acho que deve-se saber onde fazer. - Quanto ao filme: O escritor, diretor e produtor eh filho de Inglesa e pai Emirati, ele tem dupla cidadania. O filme eh realmente muito, mas muito bom ao mostrar Dubai como uma cidade onde diferentes culturas se convergem e cada uma delas tem aspectos positivos e negativos, pontos fortes e fraquezas. O proprio diretor diz que fez o filme p/ mostrar que Dubai nao eh uma Disneylandia mas uma cidade multicultural semelhantes a outras cidades como NY, Londres (onde ele estudou cinema, etc). Nao eh igual, mas multicultural...Recomendo o filme. O que tb me surpreendeu foi que o filme foi feito por um pais que tem tradicao zero em cinema, enquanto o Brasil, depois de decadas e decadas de subsidio governamental, conseguiu produzir apenas meia duzia de filmes realmente bons, com todo respeito; Existem outros aspectos positivos e negativos (politicos e culturais) que nao irei escrever p/ nao me alongar, apenas quis trazer algumas informacoes adicionais, a titulo de colaboracao, de quem tem 7 anos de experiencia nos Emirados. Caro Fernando, muitíssimo obrigado pelas dicas, correções, acréscimos e sugestões. Pretendemos voltar ao assunto Emirados Árabes em breve, se te parecer bem, toparia ser uma fonte entrevistada? Um abraço, Daniel []s!

Noah Shuster em 09 de outubro de 2011

Perfeito.

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