Artigo de 2003: É com o Congresso

Artigo de 2003: É com o Congresso Observado por Marco Aurélio, Lula cumprimenta o ministro Maurício Corrêa em sua posse como presidente do Supremo, a 5 de junho de 2003 (Foto: STF)

E também: políticos que falam em primeira pessoa, a malandragem de Maciel, a terceira – e não segunda – antologia de Vinicius, dúvidas sobre uma marca de Ronaldo, Lula reconhece excesso de ministros , a cara de pau do PMDB e uma bobagem de Niemeyer

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A frase foi meio en passant, mas talvez tenha sido a coisa mais importante do encontro de sexta-feira, 21, entre o presidente Lula e o ministro Maurício Corrêa, presidente do Supremo Tribunal Federal, em solenidade no Palácio do Planalto – mais até do que o clima de cordialidade manifestado por dirigentes de dois Poderes que vinham se hostilizando desde meados do ano.

Depois de lembrar que existe um grande interesse no controle externo do Judiciário, assunto a respeito do qual haveria divergências dentro da magistratura, o ministro sentenciou: “Quem vai decidir é o Congresso Nacional”.

Poder é de quem tem voto

A declaração é óbvia? Claro que é, mas, no Brasil, certas obviedades institucionais precisam ser reiteradas. Sua importância decorre do fato de que vários dirigentes de associações de magistrados têm tratado da reforma do Judiciário como se fosse assunto privativo dos togados, esquecendo-se de que quem tem delegação para reformar a Constituição – inclusive para refazer os fundamentos da Justiça – são os deputados e senadores eleitos pelo povo.

Bandeira e agenda falsa

Tem antecedentes a operação-despiste autorizada por Lula durante o fim de semana – ele queria se encontrar sigilosamente com ministros e políticos do PT na Granja do Torto e, tentando sobretudo enganar jornalistas, deixou hasteado no Palácio da Alvorada o Pavilhão Presidencial, bandeira que identifica a presença do presidente em determinado local.

O passa-moleque viola decreto de 1972 ainda em vigor mas é manobra singela comparada à falsa agenda montada e divulgada na Presidência José Sarney (1985-1990) às vésperas da decretação do Plano Cruzado.

Idéia de Maciel

Com o argumento de que Sarney precisava trabalhar no fundamental discurso que faria ao país no dia 28 de fevereiro de 1986 anunciando o cruzado, seu então chefe da Casa Civil, o hoje senador Marco Maciel (PFL-PE), teve a idéia: fazer, divulgar e confirmar uma agenda falsa, com audiências inexistentes, para a quarta-feira, dia 26, de modo a propiciar tarde livre a Sarney sem chamar a atenção.

Os ministros cúmplices

Todos os ministros incluídos na agenda e que supostamente deveriam despachar com o presidente colaboraram com a mentira: Paulo Brossard (Justiça), Almir Pazzianotto (Trabalho), João Sayad (Planejamento), Otávio Moreira Lima (Aeronáutica) e Henrique Sabóia (Marinha).

Alívio

Quase dava para ouvir um “ufff…” de alívio no Palácio do Planalto quando o senador Paulo Paim (PT-RS) anunciou seu voto favorável à reforma da Previdência na quarta, 26.

A marca Brasil

Um, o ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, foi durante dez anos o principal executivo de uma das maiores empresas exportadoras do país, a Sadia, e há décadas lida pessoalmente com comércio exterior e itens como marketing, marcas e estratégias de venda. O outro, o ministro da Comunicação e Gestão Estratégica, Luiz Gushiken, é um ex-dirigente sindical dos bancários formado em Administração de Empresas que foi três vezes deputado federal e fez carreira na burocracia do PT até presidir o partido entre 1989 e 1991.

Se tivesse que colocar alguém para desenvolver uma “marca Brasil” no exterior – algo capaz de identificar produtos e serviços brasileiros com uma aura de qualidade e confiabilidade –, qual dos dois você indicaria?

Adivinhe quem…

Furlan, além de suas qualificações pessoais e de sua experiência, tem grande interesse no assunto. Em recente viagem à África, por exemplo, ele foi conhecer como funciona o Conselho de Marketing Internacional da África do Sul (Brand South Africa), que trabalha num ambicioso conjunto de objetivos para firmar uma marca do país em matéria de confiabilidade de investimentos estrangeiros, crédito, turismo, exportações e relações internacionais.

O escolhido para tocar a marca Brasil, porém, foi Gushiken.

Na primeira pessoa

O presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, é um dos recordistas, no governo Lula, de agentes públicos que usam pronome e verbo na primeira pessoa do singular para ações dos organismos que dirigem: “eu pago”, “eu financio”, “eu compro”, “eu faço” – e por aí vai.

Momento literário

Diferentemente do que imaginam (e escrevem) certos críticos literários, a “Nova Antologia Poética” de Vinicius de Moraes, organizada pelos poetas Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz (editora Companhia das Letras, 280 páginas), é uma terceira, e não uma segunda atualização da original “Antologia Poética”, de 1954.

Antes da versão de 1967 que vem sendo mencionada, o poeta atualizara a “Antologia” em 1960, que mereceu edição e reedições da hoje extinta Editora do Autor.

Números relevantes

Até o final deste ano, 18 milhões de DVDs terão sido distribuídos a lojas e locadoras, contra 3,6 milhões de vídeos (VHS).

Números irrelevantes

Há 4 mastros diante do Palácio do Planalto.

Ronaldo e o 50° gol

Em toda parte, inclusive no site oficial do craque Ronaldo, comemorou-se seu 50° gol pela seleção brasileira de futebol, que seria o primeiro dos dois que marcou contra o Uruguai no domingo, 19. Correndo atrás da meta de alcançar Pelé como o maior goleador da história da seleção – 77 em jogos oficiais, 95 no total – ele teria agora, portanto, 51 gols. Será?

Um gol de diferença

Fontes confiáveis contestam esse número. O Fenômeno teria marcado 50 vezes, segundo os dados da Associação Internacional dos Estatísticos de Futebol (www.rsssf.com), com sede na Alemanha, que registra uma a uma as participações do craque com a camisa amarela desde sua estréia sem gols contra a Argentina, no Recife, a 23 de março de 1994.

Os números da Associação coincidem com os do jornalista Celso Unzelte, autor do best-seller “O Livro de Ouro do Futebol Brasileiro” (Ediouro, 2002), do “Almanaque do Timão” (Abril Multimídia, 2000) e do “Almanaque do Corinthians” (Editora Abril, 2003).

Para a CBF, são 52

A CBF, que vinha lavando as mãos sobre o número de gols do craque, agora informa, num “Perfil” do Fenômeno em seu site, que ele estufou 52 vezes as redes adversárias – 46 pela seleção principal e 6 pela sub-23.

E agora?

Mediawatch

Anuncia-se que a apresentadora Monique Evans ameaça deixar a Rede TV! A emissora, portanto, está sob sério risco de melhorar.

35 ministros é demais

Aleluia se for, mesmo, verdade que o presidente Lula, nas discussões sobre a futura reforma ministerial, teria finalmente admitido que ter 35 ministros é demais. Na iniciativa privada, qualquer CEO de grande empresa que tivesse 35 diretores se reportando a ele seria inoperante – e, provavelmente, ficaria louco.

Lula, Getúlio e JK

O contraste entre os 35 ministros (ou secretários com status ministerial) de Lula e as equipes de presidentes considerados realizadores é grande.

Getúlio Vargas em seus diferentes governos – o provisório (1930-1034), o primeiro constitucional (1934-1937), o ditatorial (1937-1945) e o segundo constitucional (1951-1954) – teve um mínimo de 7 e um máximo de 11 ministros. Juscelino Kubitschek (1956-1961) dispôs de 11, mais 5 titulares de “órgãos de assessoramento”, como os gabinetes Civil e Militar e a Consultoria-Geral da República.

Enxutíssima

A equipe de Rodrigues Alves (1902-1906), considerado por alguns especialistas o melhor presidente que o país já teve, era enxutíssima: além de um secretário-geral de governo e do consultor-geral, tinha apenas 6 ministros.

Cara de pau

Tremenda cara de pau a do PMDB, na campanha que está indo ao ar em spots de TV e rádio. “O Brasil apostou na mudança – pois a mudança já começou”, proclama um dos anúncios, referindo-se ao candidato e depois ao governo Lula.

O problema, como todo mundo sabe, é que, antes da “mudança”, o PMDB apostava mesmo era na candidatura de José Serra, do PSDB, e tanto que indicou a candidata a vice na chapa, a então deputada Rita Camata (ES).

Saia-justa por causa da saia

A paradinha do presidente Lula e da rainha Silvia, da Suécia, para observar as carpas japonesas do Palácio Itamaraty na segunda-feira, 24, permitiu ao grupo de acompanhantes dos dois entrever algo das pernas reais, refletidas na superfície do espelho d’água que circunda a frente e as laterais do edifício.

A leve saia-justa foi propiciada pela saia propriamente dita do tailleur de Sua Majestade que, embora longa, era mais folgada do que a da primeira-dama Marisa Letícia e a da ministra da Ação Social, Benedita da Silva, integrantes do grupo observador.

A taça e o sino

Tem um travo amargo, similar ao do roubo da Taça Jules Rimet, o sumiço do badalo do “Sino da Independência” – que em 1822 anunciou a proclamação da Independência do país – da pequena igreja de São Geraldo, no Largo Padre Péricles, em São Paulo.

Escreveram

O arquiteto Oscar Niemeyer conseguiu se superar em sua maneira personalíssima de encarar o mundo em recente artigo na “Folha de S. Paulo”. Para o velho militante comunista, a guerrilha colombiana – que pratica atos terroristas, mata inocentes e se sustenta com base na indústria do seqüestro e no conluio com traficantes de drogas – “representa as camadas populares mais sofridas daquele país”.

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