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Eleição no Egito será decidido entre Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, e Ahmed Shafik (ex-primeiro Ministro) (Foto: EPA / AP)

Seis décadas de ditadura e de generais, mais de um ano de agitações políticas e de um governo de junta miliar após a queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro do ano passado, 50 milhões de eleitores, 13 candidatos, 10 outros impedidos de participar do pleito por várias razões — e o maior país do mundo árabe, o Egito, finalmente e a muito custo, realizou suas eleições presidenciais livres.

De todo o processo, ficaram para a disputa do segundo turno, conforme informações ainda não oficiais divulgadas no Cairo, Mohammed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana, organização islâmica que já foi radical e caminhou para a moderação, e Ahmed Shafid, ex-primeiro-ministro do ditador Mubarak.

Vença quem vencer, não faltarão problemas ao novo presidente, que lidará com uma Assembleia Popular da qual dois terços dos 508 deputados são de partidos islâmicos: pobreza extrema entre a maioria dos 85 milhões de egípcios, as tradicionais carências brutais nas áreas de educação, saúde, saneamento básico, infraestrutura etc, sem contar com a discriminação existente contra os egípcios cristão do rito copta (4 milhões de cidadãos).

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Generais egípcios: com poder militar, político — e também econômico (Foto: egyptianindependent. com)

Do ponto de vista político, além da complexidade que será tratar com a Assembleia e suas dezenas de partidos, o futuro presidente, se quiser levar em frente a multidão de ideais que impulsionou a “primavera árabe” no país, terá como enorme desafio para a real democratização da sociedade enfrentar o poder militar. Além do poder das armas, as Forças Armadas (e principalmente o Exército) constituem, também, uma tentacular potência política e econômica no país.

Significativamente, ao longo da campanha em que se engalfinharam candidatos islamistas, laicos, pró-ocidentais ou hostis ao Ocidente e até veteranos da “revolução” que derrubou a monarquia, em 1952, não se tocou no assunto da desmilitarização do Estado egípcio.

Em célebre artigo que escreveu durante a ditadura no Brasil, o falecido (e corajoso) jornalista Arnaldo Pedroso d’Horta realizou um levantamento sobre o número de militares que ocupavam cargos públicos civis e concluiu afirmando que tinha general cuidando até de merenda escolar.

No fim da carreira, belos cargos ganhos de presente

No Egito, é muito pior. O Egito é uma verdadeira república de generais da reserva.

É praxe, consolidada ao longo de quatro ditadores oriundos dos quarteis desde 1952 — o general Mohammed Naguib, o coronel e criador do Movimento Não-Alinhado Gamal Abdel Nasser, o general Anuar el Sadat e o general da Força Aérea Hosni Mubarak –, que os altos oficiais, ao irem para a reserva, ganham de presente belos cargos como a presidência de indústrias do setor bélico, o governo de província, diretorias de empresas petrolíferas e outras, o que inclui uma instituição fundamental para a economia do Egito, como a estatal que administra o Canal de Suez.

As Forças Armadas, e principalmente o Exército, possuem empresas nos setores de construção civil, alimentação e transportes, entre outros, todas dirigidas por militares. A elite militar goza de todo tipo de privilégio e raro é o caso de um alto oficial que não seja muito rico.

O novo presidente tomará posse no próximo dia 30 de junho.

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Molo em 27 de maio de 2012

Os generais e o ex-ditador da foto (Pervez Musharraf) são do Paquistão, não do Egito. De fato, percebi que Musharraf constava da foto, e não o identifiquei porque não tinha os nomes dos demais. A foto é de fonte egípcia. De todo modo, vou rechecar e, se for o caso, trocarei. Muito obrigado por sua atenção.

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