Image
O primeiro-ministro Rodríguez Zapatero: justo com ele e sua bandeira de “pleno emprego”, 5 milhões de desempregados na Espanha

A Espanha realiza neste domingo, 22, eleições locais e municipais que serão uma prévia da eleição nacional de março de 2012 – e as notícias não são boas para o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) do primeiro-ministro José Luís Rodríguez Zapatero.

Haverá disputa pelo governo de 13 das 17 comunidades autônomas espanholas (equivalente aos Estados brasileiros, mas com muito mais poderes e independência em relação ao poder central). Dessas, o PSOE governa em 6, sozinho ou em alianças, e, segundo as pesquisas de intenção de voto, poderá perder em 2 para o arquirrival Partido Popular, o conservador PP – Castilla-La Mancha, terra do cineasta Pedro Almodóvar, e Ilhas Baleares.

No ano passado os socialistas já haviam perdido, em eleições regionais parciais, duas importantes comunidades – a Catalunha, região mais rica do país, que governava em aliança e foi parar nas mãos de nacionalistas conservadores, e a Galícia, agora comandada pelo PP. Só manteve seu inexpugnável feudo na Andaluzia, que governa há 32 anos.

A crise econômica e seus efeitos bateram duro nos socialistas

O que bateu duro, duríssimo no partido de Zapatero foi a crise financeira de 2008 e seus efeitos na Espanha, que tem assombrosos 20% de sua força de trabalho – 5 milhões de trabalhadores – desempregada. Justamente no governo dele, Zapatero, que fez do “pleno emprego” na Espanha uma bandeira.

As medidas para fazer frente à crise, necessárias mas amargas, se encarregaram de piorar a popularidade do PSOE. O governo, é verdade, não descuidou do que o jornalista Elio Gaspari chama de “o andar de cima”, apertando o sistema financeiro, fazendo duríssimas exigências aos bancos comerciais e obrigando, na prática, a que se fundissem sob pena de quebra sem socorro as absurdamente numerosas 45 caixas econômicas públidas, controladas por governos locais ou municipais .

Mas, inevitavelmente, precisou tomar medidas altamente impopulares ao longo do último ano e meio. Algumas delas:

* Congelamento das aposentadorias dos trabalhadores

* Corte no salário dos funcionários públicos

* O fim do “cheque-bebê” de simpaticíssimos 2.400 mil euros (cerca de 5.500 reais) que cada mãe recebia ao colocar em território espanhol seu rebento, fosse ela ou não contribuinte da Previdência Social.

* Cortes em gastos com saúde, inclusive no fornecimento gratuito de remédios

* Reforma trabalhista, com a flexibilização das regras de demissão de trabalhadortes

* Aumento do IVA, espécie de ICMS

* Elevação da idade mínima de aposentadoria de 65 para 67 anos

Socialistas podem perder Barcelona, que governam há 32 anos

Tudo isso levou ao pessimismo do quadro eleitoral para os socialistas – que, por sinal, não se resume aos governos autonômicos. O PSOE está na iminência de deixar de administrar sua maior fortaleza municipal em toda a Espanha, o que terá grande impacto real e simbólico: a bimilenar e importantíssima cidade de Barcelona, que governa há 8 mandatos consecutivos (32 anos) e tudo indica passará ao controle dos nacionalistas conservadores catalães da coligação Convergencia i Unió.

Pior: existe a possibilidade de perder – e para o PP — também a gloriosa Sevilha, terra natal do imperador romano Trajano (98-117 d.C.), tragédia para os socialistas que significaria não pilotar nenhuma das 4 maiores cidades do país: Madri (PP), Barcelona, Valência (PP) e Sevilha.

Image
Rajoy, do conservador PP: vitória precisa ser de 5 pontos de vantagem sobre os socialistas

As eleições, porém, trazem grande preocupação ao PP com vistas à pretendida retomada do governo nacional, que seu atual líder, o vacilante e nada carismático Mariano Rajoy, não conseguiu manter sob controle do partido em 2004, quando foi derrotado por Zapatero. Segundo os analistas mais categorizados da mídia espanhola, para garantir vitória no ano que vem e não enfrentar problemas internos no partido, Rajoy precisaria obter uma vitória de pelo menos 5 pontos percentuais sobre o PSOE.

Tal como ocorreu nas eleições regionais e municipais de 1995, quando o partido deu um pulo espetacular, ao passar dos 25% dos votos obtidos quatro anos antes para 35%, enquanto o PSOE desabava de 38% para 30%, num prenúncio da derrota que sofreria o então primeiro-ministro socialista Felipe González no ano seguinte na disputa pelo Palácio de La Moncloa. Lá terminaria por se alojar, por 8 anos, o então líder do PP, José María Aznar.

Socialistas se resignam a uma derrota não catastrófica

Quanto ao PSOE, vergado por pesquisas de opinião pública que indicam que 78% dos espanhóis considera ruim ou muito ruim a situação econômica, tudo o que espera — embora nenhum líder, é claro, o diga publicamente — é uma derrota não catastrófica, por uma diferença que não supere o meio milhão de votos num total de 19,6 milhões de eleitores que comparecerão às urnas nas eleições regionais, e dos 35 milhões que votarão em mais de 8.100 municípios e que constitui o total de votantes espanhóis.

Isso seria ruim, por representar o dobro do que ocorreu nas municipais de 2007, mas não tão ruim, por significar a metade do desastre de 1995. Zapatero veria, com uma derrota mitigada, afastadas as pressões para que antecipe as eleições gerais de março do ano que vem, nas quais, como já anunciou, não se apresentará como candidato, conforme comentei em post anterior.

Fim de uma era — e protestos nas ruas

De todo modo, as eleições desse domingo, ao se confirmarem o que dizem diferentes prévias, marcarão o início do fim da “era Zapatero” — um governo que se auto-proclamou o “mais à esquerda desde a restauração da democracia”, em 1976-1977, realizou importantes reformas sociais, especialmente no campo dos direitos das mulheres, das minorias e de os cidadãos conhecerem a verdade sobre a Guerra Civil de 1936-1939, mas terminou seguindo o receituário ortodoxo diante de uma economia em crise.

Além do epílogo do que foi uma jovem promessa dos socialistas espanhóis, essas eleições estão marcadas e serão fortemente influenciadas — ninguém sabe em que direção — pela explosão espontânea de protestos, convocados por redes sociais, que já se alastra por várias cidades espanholas, num movimento não-partidário de reivindicações diversas, que vão do fim da submissão dos governos aos bancos à falta de representatividade dos partidos políticos e dos próprios políticos.

Aos poucos, as concentrações vão se alastrando pela Espanha e abarcando mais gente, e a própria campanha eleitoral parece estar ficando em segundo plano.

(ATUALIZAÇÃO: leia post que escrevi nesta sexta-feira, 20, a respeito).

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

vinte − nove =

5 Comentários

alberto santo andre em 21 de maio de 2011

PARECE-ME QUE TODOS OS PAISES QUE OPTARAM PELO SOCIALISMO [UTOPICO] E GASTANCAS PUBLICAS DESENFREADAS, COMECAM A PAGAR SEUS DEBITOS ,ACREDITO EU QUE O BRASIL SO NAO CHEGOU AO PONTO DESTES PAISES, POR SERMOS CORREDORES APENAS DE PARTICIPACAO E OS CORREDORES DE PONTA CHEGARAM PRIMEIRO AO ABISMO ,POREM COM O ANDAR DA CARRUAGEM DEMORAREMOS UM POUCO MAIS ,DEVIDO A NOSSA COSTUMAZ VAGAREZA POREM CHEGAREMOS ,VISTO QUE ASSIM COM NAO CONSEGUIMOS ACOMPANHAR O CRESCIMENTO DE OUTRAS NACOES, NAO CONSEGUIMOS TAMBEM ACOMPANHAR A QUEDA ,QUANDO ELES ESTIVEREM EMERGINDO NOVAMENTE ,NOS ESTAREMOS PARTINDO PARA O FUNDO DO POCO.

Marcos Aarao Reis em 20 de maio de 2011

Caro Setti, é possível que muitas eras estejam terminando na Espanham, esta semana. A ver. Concordo. Leia, se puder, os posts que fiz sobre o movimento dos "indignados". Abração

wilson em 19 de maio de 2011

Ricardo mais um prego no caixão do socialismo irresponsavel , desemprego grande, muita gastança e agora a conta.

Petrus em 19 de maio de 2011

É Ricardo, sou descendente de espanhol, minha mãe é Espanhola, da região de Galícia, leio o El País todos os dias, Zapatero está fazendo o possível para controlar a crise, diga-se de passagem que a crise esta forte, mas se fosse outro governante a Espanha estaria pior O problema do PP é que ele é um partido bem radical, acho importante ocorrer as quebras nos feudos, independentemente do partido que esta no poder, pois uma democracia necessita da alternância de poder Bom, em todo caso eu torço e muito para a Espanha, tenho muito orgulho em ter uma mãe Espanhola e por consequencia a dupla nacionalidade, se a sua pessoa quer saber a verdade eu torço mais pela Europa do que pelo Brasil Os Brasileiros que me desculpem, mas é que eu não consigo ler as noticias no EL País e ver a Tv Espanha e falar que o povo Europeu não faz nada, o Brasileiro é conformista demais, isto me irrita

Mauro Pereira em 19 de maio de 2011

Caro Ricardo Setti. Confesso que estou morrendo de inveja dos espanhóis. Não por causa do Zapateiro, até por que nada sei a respeito de sua administração e também não entendo nada de zapato. O caro amigo, por força de sua profissão e da proximidade estreita com a Espanha, é catedrático na matéria. Mas esse sentimento nocivo manifesta-se ao imaginar que título do post poderia ser: "Eleições deste domingo devem marcar o início do fim do lulalato no Brasil". Sonhar não custa nada!

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI