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Marion Maréchal-Le Pen, 22 anos: por trás da bela estampa de garota francesa por excelência, ideias sinistras (Foto: Reuters)

A bela estampa, de garota francesa por excelência – pele branca e bem tratada, cabelos louros, olhos cor de mel, dentes perfeitos –, pode ajudar, mas não é nada fácil a parada que Marion Maréchal-Le Pen, estudante de Direito, 22 anos, enfrentará amanhã, domingo, 10, no primeiro turno das eleições parlamentares na França.

Ela é neta do velho fascista Jean Marie Le Pen, 84 anos, fundador do partido xenófobo Frente Nacional, pelo qual sua filha, Marine Le Pen, concorreu à Presidência da República no primeiro turno das eleições de 22 de abril passado, obtendo a maior votação da história da agremiação – 17,9% –, o que lhe valeu o terceiro lugar na corrida. No segundo turno, a 6 de maio, como se sabe, o socialista François Hollande venceu o presidente conservador Nicolas Sarkozy, que tentava a reeleição.

A parada será dura para a bela Marion, que é sobrinha de Marine Le Pen e com ela compartilha ideias sinistras, porque o sistema eleitoral de dois turnos também para a escolha dos 577 deputados – o segundo turno ocorrerá no domingo seguinte, dia 17 – costuma eliminar sem piedade radicalismos como o da Frente Nacional.

Se, em cada circunscrição, nenhum dos deputados obtém metade dos votos válidos mais um, há uma segunda rodada para a qual passam os que tiverem alcançado mais de 12,5% dos votos. É quando as políticas de aliança entre perdedores, aliadas ao bom senso do eleitorado francês, costuma peneirar candidatos extremistas, a ponto de a última vez em que a Frente Nacional elegeu um único parlamentar tenha sido no distante ano de 1986.

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Comício de Marine, tia de Marion e também candidata a deputada: sempre explorando a imagem de Joana d’Arc, a heroína francesa da Guerra dos Cem Anos contra os ingleses, queimada viva no século XV e símbolo do nacionalismo francês

Mesmo com a Frente Nacional transfigurada em uma coligação denominada União Azul Marinho (um jogo de palavras com o nome de Marine, “marinho” em português, e com a presença do azul da bandeira francesa), as ideias que a sobrinha difunde são as mesmas da tia e que, embora tenham repercussão, não são majoritárias entre os franceses: cortar drasticamente a imigração, protecionismo contra a globalização e acima de tudo a “proteção da identidade francesa” e do “modo de vida” francês – o que, nas entrelinhas, significa repúdio aos cerca de 8 milhões (entre os 65 milhões de franceses) de origem árabe, descendentes de imigrantes da África negra, do Caribe francês e da Turquia, entre outras minorias étnicas.

Mais especificamente, como Marine, Marion defende posturas isolacionistas e anti-europeias e, no plano dos direitos e liberdades individuais, é partidária de uma plataforma que bate de frente com toda um elenco de valores de tolerância que, aos olhos do mundo, parece fazer parte da própria natureza da França.

Reduzir (não se sabe como) em 95% o número de imigrantes residentes na França num prazo de cinco anos.

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A jovem aspirante a deputada em campanha: circunscrição escolhida a dedo (Foto: ilikeyourstyle.net)

Acabar com o jus soli, ou seja, o direito à nacionalidade para quem nasce no território, pelo qual atualmente milhões de franceses descendentes de imigrantes são cidadãos de pleno direito — inclusive uma penca de ídolos do esporte. Se depender de Marion, só será considerado cidadão francês quem for filho de francês, por sua vez nascido na França.

Fim do instituto do reagrupamento familiar: ou seja, o imigrante já naturalizado francês não pode trazer de seu país de origem ninguém da família para viver na França.

A revogação imediata do Tratado de Lisboa – espécie de Constituição da União Europeia.

A convocação de um plebiscito para decidir se a França permanece ou deixa a zona do euro.

O fim do livre acesso a cidadãos de outros países europeus à França, com a retirada do país do Tratado de Schengen, que hoje abrange 26 países e beneficia 400 milhões de pessoas com livre circulação pelas nações signatárias.

Saída da França OTAN, a aliança militar ocidental.

Marion diz que tem a política “nas veias” e admite que, antes de filiar-se ao partido do avô, flertou com a esquerda e fez muitas amizades entre comunistas. “Andei por aqui e por ali, e quis formar minhas próprias opiniões. No fim, porém, voltei ao ninho”.

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Marion com o avô: figura abjeta de ex-torturador, racista e admirador de Hitler (Foto: leparisien.fr.)

Para tentar chegar à Assembleia Nacional, o partido escolheu a dedo uma circunscrição na Provence, sul da França, num departamento, Vaucluse, onde a tia teve sua mais alta votação em toda a França (31%), que já foi um dos principais celeiros de frutas do país e hoje se encontra empobrecido e com altas taxas de desemprego.

A circunscrição abrange a cidade de Carpentras, onde em 1990 a Frente Nacional foi acusada de ter sido indiretamente responsável pela violação de um cemitério judaico por bandos de skinheads neonazistas. O velho Le Pen, recentemente condenado na Justiça por haver dito que a ocupação nazista da França não foi “particularmente desumana”, negou responsabilidade no caso.

Trata-se, porém, de figura abjeta cuja biografia juvenil está eivada de episódios de violência e períodos na cadeia, que participou de torturas quando soldado francês na Argélia e nunca escondeu sua simpatia pelo fascismo e por Hitler.

A eleição na pequena Vaucluse, portanto, é bastante simbólica. A jovem Le Pen enfrenta um deputado conservador que se mantém no posto há seis mandatos e integra o partido União por um Movimento Popular do ex-presidente Nicolas Sarkozy.

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Nenhum comentário

Tattiana em 03 de agosto de 2014

Se toda a família Le Pen não é xenófoba...o que é xenofobia? Eu concordo que a França exagerou ao "escancarar" as portas para imigração a umas três gerações, mas defender idéias fascistas de subjugação de minorias nos termos virulentos do velho Le Pen é puro retrocesso! Eu não gosto de extremismo político ideológico, seja de esquerda ou direita. Todos os dois desencabam para a tragédia. Deus livre a França!

Pedro em 03 de março de 2013

Suma do meu blog. Além de tudo é covarde e não se identifica. Noticiar um fato não é fazer propaganda. Eu não digo o que colocar entre aspas porque minha santa mãe me deu educação. A sua perdeu seu tempo, pelo visto.

Osvaldo Aires em 18 de junho de 2012

Setti, sei o que você pensa do Bolsonaro, mas deixa para incrementar bem mais o debate: - “A MINORIA TEM QUE SE CURVAR!” http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/06/bolsonaro-minoria-tem-que-se-curvar.html Abraço a Todos Osvaldo Aires

Osvaldo Aires em 17 de junho de 2012

Setti, agora é matador para o fuxico ser geral. Uma sugestão: Troca a loura pela morena ou deixa as duas mesmo. SE VOCÊ NÃO ESTAVA SATISFEITO COM OS FILHOS AGORA VOCÊ TÊM A PRÓPRIA MÃE: http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/06/cicciolina-francesa-atrai-as-atencoes.html Abraço a Todos Osvaldo Aires

Osvaldo Aires em 17 de junho de 2012

Que coisa em Setti? Uma loira bem de longe mexendo com muita gente aqui. Tu já esperavas por isso ou foi surpresa? Abraço Osvaldo Aires Obs: Para apimentar, no governo de Sarkozy e seleção da França ficou mais com cara de européia. Caro Osvaldo, eu já esperava, sim, por causa da questão ideológica. Espero que essa moça não se eleja hoje. Abração

JOÃO ADAM em 13 de junho de 2012

Você diz que não lê mais a "revistinha" e faz um comentário cretino. Então convido-o a não ler mais este "bloguinho", tá?

Ricardo ( Highlander) em 13 de junho de 2012

Sim o Nacionalismo & a Autodeterminação dos Povos são o Caminho: que haja Justiça,que cada um Tenha & cuide de Sua Casa( A Pátria )e será o fim dessa Babilônia chamada globalização ,verdadeira conspiração internacionalista, que já provou ser um total fracasso. Sempre são criticados aqueles que ousam ser Originais,seja em ações ou em Ideais,nesse Mundo de vulgaridade e cheio de Marias-vai-com-as-outras.

Roberta em 12 de junho de 2012

O texto do colunista é interessante, mas os comentários são mais ainda... dentre as várias coisas que eu poderia dizer a respeito, penso que é suficiente lembrar que sufrágio é algo que se outorga a quem tem idéias que produzam o bem-estar comum e não privilégios para uma parte da sociedade apenas.

Juliana em 11 de junho de 2012

Por isso que eu sempre escuto a Madonna... sempre!

Robert Guggiari em 11 de junho de 2012

Educação e cortesia: peço que o Sr. as utilize quando falar destas damas. E também um pouco mais de seriedade jornalística, só repetir estereótipos não requer muito esforço. Para permitir-se ataques como os seus é preciso ter um mínimo de embasamento. Mas claro, isso é impossível pois se trata de pura difamação. Se você não sabe distinguir crítica do que chama difamação, é melhor parar de ler imprensa de opinião. E já vi que você gosta dos fascistas da Frente Nacional. Tudo bem, estamos em um blog democrático, cada um gosta do que quer, não é?

Robert Guggiari em 11 de junho de 2012

hahahaha como sempre, um rigor jornalístico aguçadíssimo: 1. Yannick Noah é mulato, filho de um camaronês et de uma francesa; logo, foi da mãe que herdou a cidadania e não pelo jus solis; 2. O quê lhe permite Sr. Setti acusar os Le Pen de fascismo? As campanhas midiáticas o repetem sem parar, mas não é porque se conta uma mentira mil vezes que vira verdade. Se eles defendessem mesmo tais idéias „nazistas“ o partido já teria sido proibido há tempos. Os que colaboraram mesmo com a ocupação nazista foram os socialistas (Mitterrand recebeu a „Francisque“, mais alta distinção do regime de Vichy; o chefe do governo durante boa parte a ocupação era Pierre Laval, um outro camarada socialista). Mas pra quê investigar os detalhes da histórias, é tão mais simples ler as „dépêches“ du Monde e crer que é a escritura sacra... Obrigado pelo esclarecimento sobre Yannick Noah. Vou checar os dados e corrigir. Quanto ao mais, você conhece outra maneira de comentar posts, mesmo que contenham enganos, com um mínimo de educação e cortesia, ou nunca aprendeu o que é isso?

charlehkiin em 11 de junho de 2012

Quem perceber como os muçulmanos param ruas inteiras, batem em crianças em suas escolas, vai entender o pq que a frança deseja ao menos limitar a entrada de imigrantes. Mas claro, a Veja não vai mostrar esse lado da história, melhor é chamar de xenófobo como toda a mídia de esquerda. Se a revista e seus colunistas são chamados de direitistas por uns e por esquerdistas por outros, muito provavelmente estará no melhor caminho. "Mídia de esquerda"? Ahahahahaha... E, se Le Pen não for xenófobo, quem é? Dê um exemplo, unzinho só.

hugo em 11 de junho de 2012

loira, e burra. lamentavel que ainda existam pessoas que pensem como ela. o futuro é a liberdade, total, de religiao, sexual, politicia. nao o radicalismo, fascismo, nazismo e cia. lembre-se que todos os muculmanos sao infelizes em paieses muculmanos onde nao tem libertade. mas todos sao muito felizes na frança, na alemanham, na turquia, ou seja, onde tem capitalismo e liberdade.

cauim ferreira em 11 de junho de 2012

nem sempre o corpo é reflexo da alma.

cauim ferreira em 11 de junho de 2012

nem sempre o corpo é reflexo da alma

silas em 11 de junho de 2012

Não há nada de trevoso nas ideias da Frente Nacional. As ideias sobre os tratados e sobre a zona do euro são tão legítimas quanto qualquer outro tipo de pensamento, afinal, não caberia debate sobre estas questões? Ou existe algum tipo de ditadura das ideias? Sobre a imigração os franceses devem possuir o direito de se autodeterminar. Imigrantes de países pobres querem um pedaço do bolo que não lhes pertence. Querem as portas abertas mas possuem pouco a oferecer a muitas exigências. Será que todo país é obrigado a aceitar imigrantes...ainda que esta aceitação seja prejudicial ao próprio povo?

Patricia em 11 de junho de 2012

Arre! Menos de cem anos depois da Grande Depressão veio outra e a Europa, apesar de toda educação de qualidade, vida cultural e filosofia, repete os passos de outrora deixando que não morra a semente da xenofobia, do sinuoso nacionalismo e das intolerâncias todas... Tenho impressão que quem segura aquele continente é a cautelosa Merkel. Quando ela vier a faltar, pobre de mim: latina, bissexual e de pele parda.

Daniel Peccini Correa em 11 de junho de 2012

E o interessante é que ela foi fazer campanha de rua numa daquelas feiras comuns na Europa que vendem itens a preços baixos. Os comerciantes sao na grande maioria estrangeiros que peregrinam com suas mercadorias de uma cidade para outra.

funkystreet em 10 de junho de 2012

Quando a gente era muito jovem o poeta dizia para que não se confiasse em ninguém com mais de trinta anos,hoje pelo visto,a faixa etária dos confiáveis está muito abaixo dos vinte e dois.

Mug em 09 de junho de 2012

Não precisa carregar nas tintas também, né? Ela não é tão bonita, não tem dentes perfeitos e a plataforma do partido não é essa treva toda. O euroceticismo existe há muito tempo em vários países. O Tratado de Lisboa teria mais legitimidade do que uma eventual maioria da população que queira revogá-lo? Esse tratado não passou por votação popular na França. Passou por plebiscito só na Irlanda e perdeu. Aí repetiram para o povo votar "certo". A questão de imigrantes é séria também. Na França, assim como na Alemanha e Reino Unido, há muitos imigrantes e descendentes de imigrantes que não se ajustam, querem obrigar o país a se ajustar a eles. Sobre a OTAN, a França sempre foi malandrona. Sempre ficou à margem, sem se comprometer muito, e aproveitando os benefícios de ser membro de uma aliança militar. O conjunto das propostas pode assustar mesmo porque é bem amplo e tem coisa que parece ser impensada. A saída do euro, por exemplo, seria péssima para a França. Só que são posições legítimas e que podem ser debatidas sem demonização como "foi acusada de ter sido indiretamente responsável pela violação de um cemitério judaico por bandos de skinheads neonazistas".

Leonel Lazouwnik em 09 de junho de 2012

Sinistro é ver um deputado francês (Jacques Myard) ser insultado por um muçulmano nas ruas de Sartrouville, que gritava "Esta (Sartrouville) é uma terra árabe, é uma terra que pertence aos muçulmanos, não é terra francesa. Vós sois um sionista. Fora daqui!", ou seja, para o muslo, a frança não pertence aos franceses, mas sim, aos muçulmanos...grande exemplo de integração e respeito, sinistra mesmo é a Marine. Também acho notável que episódios como este não são publicados na imprensa mainstream.

Jeremias-no-deserto em 09 de junho de 2012

Essa jovem consegue ainda ser mais burra do que bela. Em uma era na qual a ideologia do nacionalismo arraigado dá provas de estar em franca decadência e ideias de sociedades mais abertas e interdependentes, universais e pluriracias parecem gozar de aceitação cada vez mais ampla no concerto das nações, justamente é quando surge essa estúpida representante de antigas e obscuras ideologias, cujo estrondoso fracasso histórico parece não ter abalado as suas parcas convicções políticas.

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