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Monti: a dura tarefa de pagar a herança de Berlusconi (Foto: Bloomberg)

A vida é dura, e Mario Monti, o respeitado economista e ex-comissário (membro do Executivo) da União Europeia que está fazendo voltar a decência ao governo da Itália depois dos últimos três anos e meio anos de descalabro e pouca vergonha do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, é quem terá que pagar a conta da herança do antecessor.

Se se confirmar mesmo o colossal empréstimo de 600 bilhões de euros (quase 1,5 trilhão de reais) que Monti estaria negociando com a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, segundo noticiou o jornal La Stampa, de Turim, não viria em melhor hora.

Pagando juros escandalosamente altos

As incertezas sobre a solvência da Itália, a terceira maior economia da Europa e a décima maior do mundo, com 1,8 trilhão de dólares (3,33 trilhões de reais) de Produto Interno Bruto (PIB), estão levando o país a pagar cada dia mais pelos títulos que coloca no mercado. Na sexta-feira, por exemplo, o Tesouro italiano colocou 8 bilhões de euros (19,7 bilhões de reais) em letras de prazo curto, seis meses, pagando juros de 6,5% ao ano – escandalosamente altos para os padrões europeus –, quase o dobro do pagara no lançamento anterior, 3,6%, e a taxa des juros mais alta desde 1997.

Um recorde negativo foi batido também na colocação de 2 bilhões de euros em bônus de prazo de dois anos – os juros chegaram a 7,8%, em comparação aos 4,7% do leilão anterior, e a maior cifra desde 1996. O único consolo é que, nos dois casos, a procura pelos títulos superou de longe a oferta.

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Monti (à direita) com Merkel e Sarkozy em Estrasburgo: promessa de déficit zero em 2013 (Foto: Exame)

O empréstimo do FMI, se confirmado, cairá do céu, uma vez que, para rolar sua dívida de 120% do PIB, a Itália precisará colocar no mercado, até o mês de abril próximo, 200 bilhões de euros (494 bilhões de reais).

Esses números todos vieram à tona no exato momento em que uma das principais agências de classificação de risco do mundo, a Fitch, divulgava documento segundo o qual a economia da Itália “já está provavelmente em recessão”, ao mesmo tempo que rebaixava a nota de crédito de oito bancos italianos de médio porte.

Mesmo assim, o primeiro-ministro Monti, que detalhará no próximo dia 4 as medidas que pretende adotar para estancar a crise e fazer o país voltar a crescer, prometeu na quinta-feira, 17, em Estrasburgo, na França — sede do Parlamento Europeu –, em encontro com a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy, que a Itália, cujo atual déficit nas contas públicas chega perto de 4% , terá déficit zero em 2013.

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Reynaldo-BH em 28 de novembro de 2011

Como havia dito em um comentário anterior, resta-nos somente esperar para ver onde tudo isso vai desaguar. Hoje, na Casa Branca, a UE e USA participaram de reunião com o foco na crise européia. É sintomático que fosse na Casa Branca. Durão Barroso e Vam Rompuy (entre outros) demonstram, com esta reunião (depois das tentativas com China e até Brasil)a realidade explícita: a solução passa pelo FED e pelos USA. Assim, fica prometido para 09/12 a divulgação de um "noco plano" (como disse Van Rompuy) na reunião do Conselho da UE. Assim vamos. De data em data. De planos e planos. Tentativa e erro. Falta de liderança efetiva. Boa sorte, Europa.

Reynaldo-BH em 28 de novembro de 2011

O que se dirá destes anos quando o distanciamento histórico permitir uma análise mais isenta? O fim do Euro? O fim da Zona Euro? A prevalência de Alemanha e França sobre os outros países europeus? O fim do welfare state adotado sem maiores preocupações futuras? Que viver saberá. Eu, por mim, torço por um comentário do tipo: "a Europa escapou por pouco!" São várias as fecetas desta utopia da Europa unificada. Uma foi conseguida: um continente que usava a guerra como remédio(??) para disputas de toda ordem, passou com a UE a se pensar como uma federação. Que nunca saiu do passo inicial, qual seja a moeda única e queda de fronteiras. Somente a Itália - se recorrer a este empréstimo desmentido pelo FMI - terá quase tres vezes que Irlanda, Grécia e Portugal como empréstimo emergencial. Itália é membro fundador da Zona Euro. Está no epicentro do terremoto. E levara consigo Espanha e - pavor de Sarkozy - a França. Qual a saída? Exceto Dilma Rouseef, ninguém sabe! O processo empírico tem se mostrado desastroso. Austeridade que gera recessão que leva a maiores juros para financiamento. Haverá tempo hábil para o desmonte das estruturas carcomidas destes aparelhos estatais inchados? Resta o caminho óbvio: aumento de impostos e corte em benefícios e salários. Sequer discuto a necessidade destas ações. O que me angustia é ver que há um descompasso temporal entre a eficácia dos resultados esperados e o aprofundamento - este imediato - da geração de renda (e receita de impostos) nestes países. Há a componente da especulação. Eu não emprestaria dinheiro a quem sabidamente tenha chance de ma dar calote. Pouco importa o juro. Calote é descumprimento. Se não posso pagar juros de 4% menos ainda de 7%. A lógica deste aumento se sustenta no mercado secundário, transformando dívidas soberanas em subprime de luxo. Que são obrigatoriamente trocadas muito antes do prazo de vencimento. O tom das declarações está subindo, de lado a lado. A dupla "Merkozy" ameaçando. Uns países pagando para ver. Outros apostando na falta de lógica do suicídio franco-germânico se vier cumprir as ameças de implodir a Zona Euro. O futuro irá esclarecer o que está havendo. Hoje só nos resta tentar entender o que ninguém entende. Ou melhor: só a sra. Roussef sabe o que está acontecendo e melhor, tem a solução. Ainda bem que ninguém a ouve...

Think tank em 28 de novembro de 2011

Depois de Bunga-bunga, invariavelmente sempre vem Monti de títulos para pagar.

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