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O ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos, dizendo, em Bruxelas, que o resgate não era resgate (Foto: rtve.es)

Negando o que faria – e fez – mais vezes e mais enfaticamente do que Pedro negou a Cristo, o governo da Espanha finalmente acorreu no final de semana aos 17 países do Eurogrupo, que adotam o euro como moeda no seio da União Europeia, com um pedido de socorro para não quebrar sua banca, e foi atendido.

Como se sabe, 100 bilhões de euros (250 bilhões de reais) serão direcionados, a conta-gotas, ao abalado sistema bancário da Espanha, com recursos do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF, por suas iniciais em inglês) – o mecanismo provisório de socorro que será este ano substituído pelo definitivo Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEF).

A conta-gotas porque a liberação do dinheiro para o FROB – espécie de Proer espanhol –, que por sua vez os repassará aos bancos com ativos podres, dependerá do monitoramento a ser exercido pela chamada troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia – o executivo da União Europeia – e FMI) sobre o andar da carruagem da consolidação fiscal e das reformas estruturais do governo do primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy, no poder desde novembro.

Patéticas tentativas de negar o resgate

Diante do tamanho e da gravidade da crise que afeta o país, soaram patéticas as tentativas do governo de negar a ocorrência do resgate – palavra maldita banida dos discurso e entrevistas oficiais. Negou-se que haveria um resgate e, uma vez promovido o resgate, negou-se que o resgate seja um resgate.“Um empréstimo em condições extremamente favoráveis”, denominou a operação o ministro da Economia, Luis de Guindos, referindo-se aos juros de cerca de 3% ao ano que custará esse dinheiro aos bancos, com aval do Estado espanhol. “O ocorrido ontem (sábado”), repetiu diversas vezes, no domingo, o próprio Rajoy, ao explicar o resgate.

A operação constituiu, obviamente, um resgate, mas de fato um resgate mais soft em relação aos já ocorridos até agora no âmbito da crise – os de Grécia, Portugal e Irlanda. Mais soft porque se restringe aos bancos, e mais soft porque sem as condições draconianas impostas aos outros três países.

Mesmo assim, ninguém duvida de que Bruxelas, a capital da Europa, estará empurrando o governo de Rajoy rumo a novos apertos, como o corte na gastança das comunidades autônomas (algo equivalente aos governos estaduais no Brasil) – que exigirá mudanças na legislação –, algum tipo de reforma das aposentadorias (medida que Rajoy jurou durante toda a campanha eleitoral jamais seria feita) e aumentos de impostos, a começar pelo IVA (equivalente ao ICMS), contrariando outra garantia de Rajoy aos eleitores.

Guindos procurou ressaltar que o enorme empréstimos à banca foi feito em condições “muito favoráveis”, impossíveis de encontrar no mercado, e que seus efeitos positivos logo se farão sentir, porque os bancos, fortalecidos, poderão reativar o crédito às famílias e às empresas e fazer rodar a economia, em grave recessão e com um índice de desemprego próximo aos 25% da força de trabalho.

A Moody’s elogiava a banca espanhola no final de 2010

O ministro não explicou, porém, como levar os bancos a arriscar-se a emprestar em vez de, como ocorreu em dois socorros domésticos anteriores, tentarem se capitalizar investindo o dinheiro em títulos públicos de países que andam bem e pagam juros, ou especularem com moedas sólidas como o franco suíço.

O desabamento da banca espanhola surpreende para quem acreditou na agência de análise de riscos Moody’s – que no final de 2010 considerou-a a terceira mais sólida da zona do euro, atrás apenas dos bancos de Finlândia e França e à frente, vejam só, até da Alemanha.

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A bolha imobiliária: o resultado final são 1 milhão de imóveis vazios e sem comprador, e dívidas de 100 bilhões de euros (Foto: EFE)

Mas não surpreende os especialistas que há anos se preocupavam com a causa de toda essa encrenca: a famosa bolha imobiliária espanhola, que explodiu no final de 2007, antecipando-se ao estouro do banco americano de investimentos Lehman Brothers, em 2008, responsável pela crise que, com efeito dominó, atingiu o mundo inteiro e faz sentir seus efeitos até hoje.

Os comos e porquês da bolha imobiliária, a causa da crise

A bolha é a grande responsável pelo afundamento dos bancos e pela crise espanhola. Em que consistiu/consiste o fenômeno? Resumidamente, um estouro na construção de imóveis que

Engoliu a maior parte dos investimentos do país

Reduziu de forma brutal a base produtiva da Espanha, não permitiu o crescimento de outras áreas nem o desenvolvimento de novas tecnologias e, assim, jogou no chão a capacidade de o país competir no mercadointernacional

Levou a uma colossal montanha de dívidas não pagas.

Vamos a alguns números que dêem uma ideia do problema.

Em 1997, o conjunto do crédito imobiliário oferecido por bancos, caixas econômicas e cooperativas de crédito significava perto de 40% de todo o crédito do setor privado da economia – e, em valores, superava 28% do PIB espanhol.

No ano seguinte, essa situação, que já significava um desequilíbrio, agravou-se com a chamada Lei do Solo absolutamente liberalizante aprovada pelo governo conservador do primeiro-ministro José María Aznar: em resumo, a lei proclamava como “urbanizável” todo pedaço de terra em qualquer lugar do país onde alguma outra lei não proibisse, expressamente, a construção de imóveis.

No mesmo ano, com a febre imobilária se acelerando, 14% dos empregos no país já se situavam na construção civil – 5 pontos percentuais acima dos 9% do Reino Unido e o dobro do que representava na Alemanha. Até 2007, a temperatura da febre subiu astronomicamente: foram construídos nada menos do que 5,7 milhões de imóveis, 30% mais do que tudo o que existia na Espanha antes da bolha. Os preços subiram quase 200% em dez anos.

Diferentemente do que pretendia e anunciava o governo Aznar – o aumento no número de residências faria baixar os preços –, a especulação desenfreada teve efeito oposto: pessoas e empresas compravam casas e apartamentos não porque fossem baratas, mas porque, embora caras, seriam ainda mais no futuro. O fenômeno levou a uma onda de euforia, gastança pública e corrupção Espanha afora, com prefeituras mexendo nas leis de zoneamento, não raro com o “estímulo” de propinas a políticos.

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Em 2008, Zapatero ainda tinha prestígio suficiente para ir apoiar, na França, a candidata socialista à Presidência, Ségolène Royal (Foto: AFP)

Com a vitória eleitoral do socialista José Luís Rodríguez Zapatero, em 2004, nada mudou: Zapatero surfou na prosperidade que a bolha trouxe ao “tigre latino”, a Espanha. Nada de furar a bolha, que enchia os cofres públicos de recursos e permitia bondades como presentear com 2.500 euros (6,3 mil reais) cada casal que tivesse um filho — o “cheque-bebê”. O dirigente socialista era apontado como exemplo, e seu prestígio o levou até a apoiar candidatos a eleições em outros países, como a França.

Com três anos de governo socialista, em 2007, aquele crédito imobiliário que representava dez anos antes 40% do total de crédito ao setor privado já passava de 60%, e os pouco mais de 28% doPIB de 1997 transformaram-se em espantosos, alarmantes 102%.

Bolhas, como se sabe, chegam ao fim. A pouca diversificação da economia espanhola, com a concentração de investimentos no setor imobiliário, acabou aumentando o desemprego em áreas como a indústria e os serviços, o mercado imobiliário saturou-se, começaram os calotes de incorporadores, construtoras e compradores – e a bola de neve iniciou sua rápida corrida montanha abaixo. O saldo específico do setor é de 1 milhão de imóveis vazios, sem compradores, e 100 bilhões de euros de créditos em atraso.

De todo modo, os principais analistas coincidem em que 70% do setor bancário espanhol está em boa forma, e que o saneamento dos outros 30% necessita entre 40 e 50 bilhões de euros. Os 100 bilhões obtidos, dessa forma, propiciam uma folga considerável para realizar reformas pelas quais Bruxelas certamente vai, que incluem o fechamento e fusões de bancos, sem contar cortes de privilégios espantosos permitidos pela legislação atual – até bancos que sofreram intervenção do governo por má gestão e perdas brutais premiaram dirigentes com bônus de milhões de euros e aposentadorias milionárisas.

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Rajoy (polegar levantado) falou rapidamente aos jornalistas sobre o resgate e depois foi a Gdansk, na Polônica, ver a partida Espanha 1 x Itália, 1. Na foto, o príncipe herdeiro, Felipe (terno claro) e a princesa Letícia (Foto: EFE)

No final das contas, sem cair no abismo grego, o governo de Rajoy acaba tendo um novo fôlego para enfrentar o bombardeio da crise. Ele bem que precisa: com apenas seis meses no Palácio de la Moncloa, o chefe de governo já sofre um grande desgaste político – até pelo estranho hábito de não aparecer no Parlamento ou diante da imprensa para explicar medidas cruciais que seu governo adota, como o resgate.

Ele deixou o protagonismo todo ao ministro de Guindos, e só falou è imprensa, por pouco mais de 20 minutos, no domingo, ontem – antes de viajar à Polônia para assistir à partida em que a seleção de futebol da Espanha empatou com a da Itália pela Eurocopa.

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Pedro Luiz Moreira Lima em 08 de janeiro de 2013

Razão simples - salvamentos dos RICOS e la Mie--da aos Povos independentes de países. Pedro Luiz

carlos nascimento em 12 de junho de 2012

As crises que estão pipocando, são tragédias previamente anunciadas, qualquer leigo em economia sabe deduzir que os modelos econômicos atuais estão gerando "bolhas assassinas", pois são verdadeiras arapucas especulativas. Vamos resumir o raciocínio: os políticos irresponsáveis geram déficits imorais, gastos perdulários, investimentos sem retornos, obras faraônicas, custos sem retorno, enganam os trouxas dos pequenos investidores, ai o chamado "mercado" que nos EUA é alcunhado de "Wall Street", rodam a bicicleta, transformam tudo em papéis especulativos, alguns completamente tóxicos,quem por aqui assistiu o filme - Margin Call - que faz analogia sobre a quebra do Banco Lehman Brothers, estão lembrados, então, a coisa funciona dentro daquele prisma, essa roda financeira está espalhada mundo afora, a festa está acabando, é chegada a hora de fazer o acerto, o elo da corrente está se esfarelando, vai sobrar para os indefesos, o pobre do contribuinte, vai arcar com a tragédia do default. Vamos trazer essa situação para uma análise micro, é como se numa família, pais e filhos gastassem anos a fio, dez vezes mais do que suas receitas, se financiando em dívidas diversas,junto aos bancos, parentes, agiotas, etc.., um dia chega a hora do balanço, os credores querem receber as faturas, cai na real e verifica que está QUEBRADINHO DA SILVA.(ponto) Crescimento só é possível com investimentos produtivos, que gere retorno em aumento da produtividade, alavancando a matriz da força de trabalho e produção. Papéis sem lastro é engodo. A querida Espanha do meu amigo RS, está pagando a conta de anos de deslumbramento, já pensou custear os salários astronômicos dos jogadores do Barça e Real, dá nisso, vivem fora dos padrões de lastro. Não quero ser pessimista, mas fico aqui pensando.... e se a economia do gigantesco Dragão Chinês for também uma dessas "bolhas", pobre anos 2010, os anos 1930 poderão ser doces lembranças.

Tico Tico em 11 de junho de 2012

Prezado Setti. Sou cidadão comum de conhecimentos não muito extensos, no entanto, tento compreender o por quê, da Irlanda chegada numa birita, a Espanha, Portugal e Grécia, que vivem do turismo e da azeitona, sendo os ibericos também chegados numa tourada, e mais dois países um pouco melhores, coincidentemente latinos, exploradores do turismo, cultivadores de azeitonas e uvas, que são descansados, chegados num socialismo e paradoxalmente religiosos, estão incomodando.

Roberto Souza em 11 de junho de 2012

Setti, o último parágrafo do seu texto me parece emblemático, mostra bem como são coisas, ou quem é quem no moderno capitalismo tão pródigo em socializar prejuízos. Depois de mais esse "tungamento" de 100 bilhões de Euros dos contribuintes espalhados pelo mundo, a vida de alguns segue ótima. Rajoy falou rapidamente com a imprensa para não se atrasar para algo mais importante que era assistir futebol da Eurocopa. É provável que desfrutou de uma tribuna especialíssima, depois, como ninguém é de ferro deve ter se fartado em algum banquete naturalmente regado a vinhos nobres, tudo bancado por alguns dos beneficiários dessa "generosidade". Enquanto isso, a burocracia internacional prepara os planos que irão definir como e quando nós todos, de alguma forma pagaremos a conta. Irão também esmerar-se em produzir extensas e inteligíveis explicações de como esse dinheiro aparece assim rapidamente e tentarão ainda provar que os cidadãos comuns, contribuintes, enfim, os mortais, nada perderão com isso porque tratou-se sim de um hercúleo esforço de governantes bem intencionados e empresários pródigos e bondosos.

gilson em 11 de junho de 2012

Com a política do PT, será que amanhã não seremos como a Espanha e a Grécia??

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