Artigo de 2004: Escondendo notícia boa

Artigo de 2004: Escondendo notícia boa A prisão na base militar americana de Guantanamo, em Cuba (Foto: Reuters)

E mais: Ciro e os “articulistas alugados”, a reforma da Previdência e o nepotismo, Ronaldo no aguardo, a “novidade” do MEC, o PT e o monopólio do aparelhamento, a refoma do Judiciário fora das prioridades, O JN e a morte de Brizola – e o partido de Collor junto à “esquerda” paulistana

 

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de que os prisioneiros mantidos na base militar de Guantanamo, em Cuba – sem culpa formada, sem acesso a advogados, sem a proteção da Convenção de Genebra sobre prisioneiros de guerra, debaixo do esdrúxulo rótulo de “combatentes ilegais” – têm, sim, direito às garantias do sistema legal americano, ao contrário do que queria o governo Bush, é uma vitória para todos, no mundo inteiro, que ainda acreditam nos valores da democracia e do Estado de Direito.

Essa foi a notícia mais importante dos últimos muitos dias – mais que a diminuição do número de vereadores para as próximas eleições no Brasil, mais que as novas críticas do vice-presidente José Alencar sobre juros, mais que a seleção portuguesa do Felipão, mais até talvez que a transferência de poder capenga e desmoralizante dos Estados Unidos para o governo interino do Iraque.

Nossa mídia, porém, escondeu direitinho a notícia, relegada em alguns casos a cantos de página nos jornais e mal balbuciada nos principais telejornais.

Valentia verbal

Em mais um de seus rompantes, o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, acusou “articulistas alugados” de “desmoralizar qualquer um que queira pensar alternativa que não seja a ortodoxia imposta por este modelo econômico”. Tais jornalistas seriam “gente paga” para tanto.

Pena que a valentia verbal do ministro não o faça jamais chegar aos nomes – de quem recebe e também de quem paga.

Nepotismo e “discriminação”

Não se sabe se a reforma do Judiciário sai este ano do Congresso, mas já é possível prever que a bateria de medidas contra o nepotismo nela incluída – um dos progressos incluídos pelo Congresso no pacote –, se finalmente receber o OK de deputados e senadores, vai ser contestada mais adiante na própria Justiça.

O texto em tramitação prevê que juízes e tribunais serão proibidos de nomear ou contratar para cargos comissionados (os chamados cargos “de confiança”, em que não se exige concurso) cônjuges, companheiros ou parentes até segundo grau “de juízes” – ou seja, acaba com a festa de um desembargador de determinado tribunal, por exemplo, para não dar na vista, pedir a colegas que contratem seus parentes, retribuindo na mesma moeda.

Vários tribunais já decidiram que é inconstitucional esse tipo de barreira, por supostamente “praticar discriminação” contra familiares de magistrados.

Empacou e saiu da lista

A reforma do Judiciário, depois de sofrida tramitação de 12 anos no Congresso, foi aprovada pela Câmara, recebeu modificações no Senado e, voltando à Câmara conforme determina a Constituição, ali empacou.

O governo Lula, que poderia jogar sua força na aprovação da reforma, como prometeu, retirou o assunto de sua lista de prioridades para este ano, sabe-se lá por quê.

Prognóstico

Se continuar em cima do muro na briga entre o presidente do BNDES, Carlos Lessa, e seu teoricamente superior hierárquico, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, o presidente Lula corre o risco de acabar ficando sem os dois.

A Sadia e o governo

Diante do fato de que a Sadia, grande produtora de alimentos pertencente à família de Furlan, contratou 2.473 novos trabalhadores com carteira assinada só nos cinco primeiros meses do ano, defensores do ministro agora podem dizer que até do lado de fora ele ajuda o governo.

O “Fenômeno” fica esperando

Como o técnico Carlos Alberto Parreira resolveu dar folga aos titulares da seleção brasileira de futebol durante a Copa América, que começa na próxima terça, 6, no Peru, a tabela dos artilheiros e dos jogadores que mais atuaram com a camisa amarela permanecerá inalterada até a próxima partida das eliminatórias da Copa, contra a Bolívia, dia 9 de setembro, no Morumbi.

Com seus 53 gols em partidas oficiais, portanto, Ronaldo só então poderá reiniciar sua batalha para atingir os 77 de Pelé, o maior artilheiro da história. Entre os que mais jogaram, o líder disparado de atuações continua sendo o capitão Cafu, com 126 partidas, seguido por Roberto Carlos, com 103.

Quase nos 10 mais

Além de perseguir a marca de Pelé, Ronaldo se aproxima rapidamente da lista dos dez craques que mais vezes vestiram a camisa pentacampeã – que, à exceção de Cafu e Roberto Carlos, não tem nenhum atual titular da seleção. Ele está em 12º lugar, com 79 partidas, logo atrás do hoje técnico e ex-goleiro Leão, que tem 80, e de Aldair e Jairzinho, o “Furacão” da Copa de 70, ambos com 81.

Os números são das imbatíveis estatísticas do jornalista Celso Unzelte, autor do best-seller “O Livro de Ouro do Futebol Brasileiro” (Ediouro, 2002) e do “Almanaque do Timão” (Abril Multimídia, 2000) e responsável pelo site correspondente  – o mais completo arquivo existente sobre o Corinthians.

O MEC, a roda e a UnB

O Ministério da Educação está reinventando a roda. Ao apresentar como grande novidade em uma das 15 diretrizes da reforma universitária que pretende realizar a criação de um ciclo básico de dois anos – antes de o aluno começar a ter aulas ligadas à profissão que escolheu –, esqueceu-se de que isso já existiu no Brasil.

Era exatamente assim que funcionava, nos seus primórdios – de 1962 a 1964 – a Universidade de Brasília, conforme o projeto de seus criadores, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. Os diferentes ciclos básicos disponíveis se chamavam, então, “cursos-troncos”.

Ilegalidade pelo correio

A permanente situação de impunidade em todos os setores, inclusive nos casos de violação da privacidade garantida pela Constituição, leva a coisas assim: uma determinada empresa está oferecendo abertamente, por meio de e-mails, uma “mala-grampo para celular” destinada a fazer escuta e gravar clandestinamente telefonemas (o que é crime no Brasil) emitidos ou recebidos por aparelhos em vários sistemas, como GSM, TDMA ou CDMA.

O e-mail diz que o equipamento inclui um decodificador Omega 3230 “importado de Israel” e fornece mais características técnicas da mercadoria: “cabos data RPM 1132057 (DAU9) e áudio P2, transceiver de 1900 mHz – e por aí vai. Diz que a operação é fácil e garante um manual de instruções em português.

O preço é de 4,7 mil dólares e, mediante “pequeno sinal”, o cliente pode receber o material em casa, pelo correio, para testar antes de fechar negócio.

Vizinhos

O aparelho ilegal pode ser comprado pela internet. Ou por telefone.

Ah, claro: os números de telefone e fax são, todos, do Paraguai.

Seria cômico se…

Chega a ser cômica a manifestação de 58 deputados do PT protocolada formalmente há várias semanas no Ministério da Previdência e na Casa Civil com o objetivo de barrar o que chamam de “aparelhamento político” das gerências regionais do INSS em favor do PMDB, partido do ministro Amir Lando.

É como se o PT, que está tomando de assalto com seus quadros desde o segundo escalão dos Ministérios até as estatais e os fundos de pensão dessas empresas, tivesse preenchido todos esses claros com “técnicos”.

Venha a nós

Os 58 deputados, em outras palavras, estão dizendo o seguinte: aparelhamento do Estado só pode se feito por um único partido da base aliada, o PT.

Números

A corveta “Purus”, doada pelo governo da Namíbia e atualmente navegando rumo a sua capital, Windoek, foi lançada ao mar em novembro de 1954 e retirada do serviço ativo da Marinha em outubro de 2002. Durante seu período de vida útil no Brasil, permaneceu um total de 2.902 dias no mar e navegou quase meio milhão de milhas.

O mínimo, o PSDB e o PFL

Tem duas caras a atitude de PSDB e PFL em relação ao salário mínimo de 260 reais aprovado pelo rolo compressor do governo na Câmara dos Deputados. De um lado, seus parlamentares tentaram emplacar um mínimo de 275 reais e assestaram baterias contra o governo petista. De outro, não dizem uma palavra sobre seus próprios governadores que poderiam, se quisessem, decretar um salário mínimo regional bem maior em seus Estados.

A legislação que permite a regionalização do mínimo, por sinal, foi aprovada durante o governo FHC, que os dois partidos apoiavam.

Rio e Rio Grande

Há Estados que lançam mão dessa lei sem grandes problemas. No Rio Grande do Sul do governador Germano Rigotto (PMDB), por exemplo, o mínimo é de 338 reais. No Rio de Janeiro da igualmente peemedebista Rosinha Garotinho, varia de 290 a 349 reais, conforme a categoria profissional.

Mediawatch

Com quase 29 minutos de seus tradicionais 45 dedicados ao fato, foi impecável, jornalística e eticamente, a cobertura feita pelo “Jornal Nacional” na terça, 22, sobre a morte na véspera de seu maior adversário e crítico desde sempre, o ex-governador Leonel Brizola.

Ônibus e votos

Tinha razão o jornalista Elio Gaspari quando prognosticou que o recém-implantado bilhete único no sistema de transporte coletivo da cidade de São Paulo daria forte impulso à candidatura da prefeita Marta Suplicy (PT) à reeleição. A novidade permite que o usuário tome quantos ônibus quiser durante duas horas usando o mesmo bilhete.

Apesar de estar em terceiro lugar no índice de intenção de votos da pesquisa do Datafolha divulgada no domingo, 27, com 20% –  contra os 30% de José Serra (PSDB) e os 24% de Paulo Maluf (PP) – e de também ter um alto índice de rejeição (42%, contra 10% de Serra), a boa avaliação de Marta disparou no quesito transporte público. Só 11% dos eleitores consideravam que esta era a área de melhor desempenho da prefeita no último levantamento, há menos de dois meses. Agora, são 24%, com tendência a subir.

Quem pode, pode

Para obter o apoio do PFL e os respectivos minutos do tempo de propaganda na TV, os tucanos de São Paulo precisaram agasalhar na chapa de José Serra o deputado federal Gilberto Kassab, detentor no currículo de uma passagem no secretariado do hoje execrado ex-malufista e ex-prefeito Celso Pitta (1997-2001).

Manobra semelhante havia feito, nas eleições de 2002, o governador Geraldo Alckmin, que para selar a aliança entregou o posto de vice ao pefelista Cláudio Lembo.

Já o falecido Mario Covas (1995-2001) governou boa parte de seu mandato e meio com o apoio do PFL, mas sempre tendo um tucano – o próprio Alckmin – como vice.

Collores

No saco de gatos de apoio à candidatura da prefeita Marta em outubro próximo – que inclui, além do PT, o PTB, o PC do B e o PL – conseguiu infiltrar-se o PRTB. Para quem não se recorda, é o partideco pelo qual o ex-presidente Fernando Collor (1990-1992) tentou sem sucesso voltar ao governo de Alagoas em 2002 e ao qual continua filiado.

Jeca

É despropositada e jeca a reação dos setores que torceram o nariz à inauguração de uma suíte presidencial de 160 m2 no Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek, em Brasília.

Estão misturando a montagem da suíte com o deslumbramento de Lula diante do futuro Airbus presidencial, mas se trata de coisas diferentes: as instalações do aeroporto destinam-se menos ao presidente – que costuma embarcar e desembarcar da contígua Base Aérea de Brasília – do que a visitantes internacionais. Qualquer aeroporto decente do mundo dispõe desse conforto.

Só para registrar

O Supremo Tribunal Federal (STF) vai reiniciar em poucas semanas, no começo de agosto, o crucial julgamento no qual será decidido se os integrantes do Ministério Público (MP) – procuradores da República, no nível federal, e promotores de Justiça, no estadual –podem ou não, à luz da Constituição, realizar investigações, ou se este é um monopólio da polícia. O julgamento foi interrompido em outubro do ano passado, quando o placar era de 2 votos a 1 contra essa possibilidade.

Quem pediu vista do processo para melhor examiná-lo, e será o primeiro a dar o voto no reinício do julgamento, foi o ministro Joaquim Barbosa. Até ser designado para o STF, no ano passado, ele era procurador da República.

Disseram

De Leonel Brizola (1922-2004), ao perceber, pelo andamento das apurações, que iria protagonizar uma das maiores voltas por cima da história política brasileira, vencendo a eleição para o governo do Rio de Janeiro em 1982, depois de ter passado boa parte da campanha como azarão:

– Está pelada a coruja.

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