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No realismo mágico de Fernando Portela, fantasma do século passado se irrita com exposição de deu corpo (Foto: reprodução do filme “O Fantasma da Ópera”)

É difícil saber se Fernando Portela é melhor jornalista ou melhor escritor. Nas duas atividades, sempre brilhou. Nos anos recentes, este escritor de raro talento e humor especialíssimo vem-se inclinando mais pela literatura e, depois de publicar 47 livros de papel, a maior parte para o público juvenil — suas obras na coleção Viagem para a Geografia bateram no milhão de exemplares –, Portela acaba de lançar seu primeiro um e-book, na book store internacional da Amazon. É o livro de contos A Velha Chama e a Negra Solidão.

Portela, titular de um site de histórias em que compartilha também a produção de seus livros, alguns já esgotados, torna-se agora um dos pioneiros de um mercado já consolidado no exterior, mas que, no Brasil, ainda dá seus primeiríssimos passos: o livro virtual.

Chegar ao público brasileiro que vive fora do Brasil

“É uma experiência inteiramente nova, mas torço muito por ela”, diz Portela. “Minha intenção principal é chegar ao público brasileiro que vive fora do Brasil. Quero, naturalmente, chegar também ao Brasil, apesar das pesquisas indicando que brasileiros ainda têm um pouco de dificuldade com lojas virtuais estrangeiras. Mas não custa tentar.”

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O escritor e jornalista Fernando Portela (Foto: arquivo pessoal)

Portela se diz ciente de que no mercado brasileiro tradicional livros de contos vendem “pouquíssimo”. Aliás, não só os de contos, observa: “É constrangedor o número de 1,3 livro por ano consumido, em média, espontaneamente, por nossos 95 milhões de leitores”, lamenta. “Os americanos leem, de sua própria iniciativa, 11 livros por ano, em média; os franceses, 7. Os colombianos leem quase duas vezes mais do que nós: 2,5 livros por ano.”

O que resta ao escritor fazer, diante desse quadro?

“Bem, diante dessa tragédia, ou a gente desiste de vez de escrever ou vai à luta. Como desistir e morrer é a mesma coisa, saí atrás de um mercado imaginário de brasileiros que moram no exterior e que, espero, devem consumir como os gringos que os hospedam. Por que não procurá-los? A Amazon é um bom caminho e dizem que ela, ao lado da Apple, estará no Brasil até o fim do ano…”

Flashes do dia a dia de um país perplexo e confuso

A Velha Chama e A Negra Solidão é composto de 75 histórias, teria 158 páginas se fosse impresso e se diferencia um pouco dos livros anteriores de contos do autor — uma trilogia iniciada por Allegro (2003) e que prosseguiu com O Homem dentro de um Cão (2007) e Memórias Embriagadas” (2009).

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A capa do livro virtual, de autoria de Nicolás Sueldo

Na trilogia, não há minicontos, com nesse último livro, e as histórias possuem certa identificação: seriam, todas, flashes do dia a dia; instantes da vida das pessoas em um país perplexo e confuso, facilmente identificável como o Brasil, às vezes nas grandes cidades, às vezes no sertão nordestino — Portela, radicado há décadas em São Paulo, é pernambucano de boa cepa –, e até no sul, próximo da tríplice fronteira. Nas histórias da trilogia, é possível identificar, sem dúvida, o olho do repórter que Fernando Portela nunca deixou de ser.

O estilo deste novo livro, no entanto, continua fiel ao que descreveu o também excelente escritor e jornalista Humberto Werneck, na apresentação do Allegro:

Como em Nelson Rodrigues, o bizarro também é normal

“O que (Fernando Portela) escreve é bizarro e é normal. Como em Nelson Rodrigues, inútil tentar distinguir uma coisa da outra. Inútil tentar ver fronteiras claras entre, por exemplo, malignidade e compaixão. Mais vale entregar-se, deixar-se levar pela imprevisível imaginação do autor”. Curiosamente, o avô de Portela era vizinho da família de Nelson no Recife, e se dava com Mario Rodrigues, pai do escritor e tão genial — e muito mais genioso — do que o filho.

Em A Velha Chama e A Negra Solidão, as histórias são curtas, curtíssimas e, em alguns casos, até longas, como o conto-título, uma saga emocional, compassiva, vivida na antiga zona de prostituição do Recife, que abrangia todo o bairro portuário, o mais antigo da cidade, enfeitado de prédios históricos.

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A policromia de Olinda influencia contos de Fernando Portela (Foto: Vanessa Maranhão)

No livro, o realismo colorido e quase sempre desconcertante do Brasil se expõe ao leitor, com toques do que foi chamado no passado recente de realismo mágico — algo que, na verdade, sempre existiu na literatura: uma centopéia gigante entra numa agência bancária e conversa com o segurança, como se nada de mais estivesse acontecendo; um fantasma se revolta com a exposição comercial do seu corpo fluídico; uma senhora de 80 anos engravida de um anjo; um homem, atônito, percebe o nascimento de seios em seu corpo; outro só se realiza, sexualmente, ao compartilhar ônibus lotados.

E por aí vai. Nunca houve limites para a literatura de Fernando Portela. Ele próprio revela que, para quem nasceu na policromia colonial da cidade histórica de Olinda e passou a infância ouvindo histórias, o mundo tinha de parecer assim, diverso, surpreendente, trágico ou cômico.

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2 Comentários

Maria Cândida Claro em 29 de agosto de 2012

Meus filhos foram leitores de livros juvenis belíssimos e interessante de Portela e eu sou fã de suas demais obras também. Parabéns e votos de sucesso para o e-book!

Flávio Tiné em 27 de agosto de 2012

Concordo com o autor do artigo ao registrar as qualidades do jornalista e escritor Fernando Portela, que faz muito bem em aderir às novas formas de editoração. Felizmente ainda existem interessados nesse tipo de atividades quase fora de moda.

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