Por mais que os principais “barões” do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) estejam recomendando que seus quadros concentrem forças nas eleições regionais e locais do dia 22 de maio próximo, inevitavelmente começou, dentre os socialistas, uma surda corrida pela sucessão do primeiro-ministro José Luís Rodríguez Zapatero, que, para surpresa de não poucos, anunciou no final de semana que não concorrerá a um terceiro mandato nas eleições gerais do ano que vem.

O jovem, promissor dirigente que em 2004 retomou para os socialistas o comando da Espanha depois de 8 anos de governo do conservador José María Aznar, do Partido Popular (PP), assegurou estar convencido desde que assumiu de que dois mandatos eram o período razoável para estar à frente dos destinos do país, mas é inegável que foi devorado pela crise econômica que abate a Espanha desde 2008.

Decisão em eleições primárias

Para a sucessão de Zapatero como candidato não haverá, no PSOE, o dedazo – o sistema personalista pelo qual o chefe que sai aponta (como se fosse com o dedo, daí a expressão) o chefe que o substituirá, tal como ocorre no rival PP. O novo candidato, e líder do partido, será escolhido em eleições primárias, nas quais votarão os militantes socialistas de toda a Espanha. Com o PSOE mais de 15 pontos atrás do PP nas pesquisas de intenção de voto, espera-se que a mobilização pelas primárias possa injetar nos socialistas um ânimo de que o partido está desesperadamente carente.

As atenções se concentram em torno de dois possíveis candidatos a essas primárias que, conforme anunciou Zapatero, terão data marcada pelos organismos de comando do partido em reunião que ocorrerá seis dias após as eleições de maio: o ministro do Interior e primeiro vice-presidente do governo (equivalente a vice-primeiro-ministro), Alfredo Pérez Rubalcaba, e a ministra da Defesa, Carme Chacón.

Rubalcaba, 60 anos, velha raposa do PSOE, é o preferido dos barões socialistas e, ao longo dos 7 anos de governo de Zapatero, foi consistentemente considerado em pesquisas de opinião pública o ministro mais bem avaliado, sobretudo por sua dura e bem sucedida luta contra os terroristas da organização separatista basca ETA: só nos últimos quatro anos, a Polícia Nacional, a Guarda Civil e os serviços secretos comandados por Rubalcaba chegaram a prender, sucessivamente, nove altos dirigentes da organização, quatro deles, sucessivamente, chefes supremos, e centenas de quadros.

Embora a direita mais raivosa do PP tente incriminar o ministro num confuso caso de vazamento de uma operação policial visando extorsões cometidas pela ETA contra empresários do País Basco, ocorrida em 2006, Rubalcaba é visto como incansável no combate aos terroristas, tendo chegado ao extremo de, com a família, mudar-se para as dependências do Ministério, em Madri – como medida de segurança e afirmação pública, e um tanto marqueteira, de seu comprometimento com a rendição da ETA.

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O ministro do Interior, Alfredo Pérez Rubalcaba, e a ministra da Defesa, Carme Chacón: dois possíveis candidatos para a sucessão de Zapatero

A novidade catalã: mulher, jovem, bonita e popular

Carme Chacón, 20 anosmais jovem que Rubalcaba, bonita e popular, representa uma nova geração de socialistas. Deputada de três mandatos, foi ministra da Educação, vice-presidente do Congresso de Deputados e, posteriormente, a primeira mulher a assumir o Ministério da Defesa no país – ainda por cima grávida, condição na qual visitou as tropas espanholas em combate no Afeganistão.

Embora Zapatero pretenda se manter neutro na disputa, a escolha de Chacón — mulher, jovem e catalã — de alguma forma consolidaria ideais do primeiro-ministro, um feminista de carteirinha, pregador de uma “mudança de geração” na política espanhola e defensor de uma “Espanha plurinacional”, distante da hegemonia de Madri.

Se eleita, tornar-se-ia o único político da arredia e importante comunidade autônoma da Catalunha, a mais rica do país, a chegar ao posto desde os breves 37 dias em que o jurista e escritor Francisco Pi y Margall exerceu o cargo, em 1873, durante a efêmera I República espanhola (1873-1874).

A Rubalcaba ou Chacón caberá enfrentar o dirigente conservador Mariano Rajoy, líder máximo do PP, que, embora derrotado duas vezes por Zapatero — em 2004 e 2008 –, lidera agora, disparado, as pesquisas de intenção de voto.

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3 Comentários

Murilo Menonn em 04 de abril de 2011

Setti, será que depois do Lula enganar os portugueses, virando "doutor honoris causas", o Ricardo Kotcho vai dar o golpe nos espanhois também? O que ele tá fazendo lá? rsrsrsr Hahahahaha, amigo Murilo Menon, saudades de você. É uma brincadeira com nosso amigo Kotscho, grande jornalista e grande caráter. O ministro Rubalcaba realmente é parecido com ele! Abração

Marcio em 04 de abril de 2011

Caro Ricardo, Muito bom seu resumo da situação. Faço apenas algumas considerações: - Zapatero não adota o "dedazo" porque não tem moral pra isso, é um cadáver político. Se pudesse, o faria. Sempre que o PSOE adota as primárias, o resultado é divisão interna. O próprio Zapatero ganhou o posto de líder do partido depois que brigas resultantes das primárias destruíram Joaquin Almunia, atropelado por Aznar em 2000. - Chacón é um grande produto de marketing. Como ministra não praticamente nenhuma realização para oferecer. Seu forte é a bem cuidada imagem, de mulher, jovem e catalã, como você apontou. Substituir o fraquíssimo Zapatero por ela seria uma grande temeridade. - Um grande problema do PP, como você apontou no comentário do Joe, é Mariano Rajoy. Um líder nada carismático, um burocrata que não anima o eleitorado a sair de casa pra votar nele e que já perdeu duas eleições. Sem Zapatero na disputa, não poderá apelar para o voto de rejeição ao primeiro-ministro. De qualquer modo, muita água vai rolar até 2012. Vale a pena prestar atenção nas eleições regionais e municipais do mês que vem, onde o PSOE deve sofrer uma pesada derrota. Um abraço, Márcio Obrigado pelo comentário, caro Márcio. O "dedazo" não pode mais ser adotado porque as primárias passaram a fazer parte dos estatutos do PSOE. E você tem razão quanto às eleições regionais e municipais. Estou em Barcelona, cheguei ontem -- aqui vivem minha filha, meu filho e meu netinho -- e vou acompanhar de perto. Abração

Joe em 04 de abril de 2011

Prezado Setti, talvez a surpresa tenha sido para muitos, mas certamente não para vc que, como sabermos, acompanha de perto o desenvolvimento da política na Espanha. Zapatero é amplamente rejeitado pelo eleitor espanhol e as chances de o Partido Socialista diminuiriam sensivelmente caso ele disputasse as eleições. O turbilhão provocado pela inepta política econômica dos socialistas portugueses, sob o comando de José Sócrates, encontrou paralelo em Zapatero e, neste momento em que Portugal está tecnicamente quebrado, o contágio da Espanha parece muito próximo. Eu estava na Espanha em 12 de outubro e as vaias que Zapatero recebeu nas solenidade públicas foram muito grande, assim como os gritos para que renunciasse, chegando a causar, inclusive, grande constrangimento ao rei Juan Carlos. Talvez a vitória da social democracia de Cavaco Silva em Portugal, que está para dissolver o Parlamento e convocar novas eleições, sejam o indicativo de que a Espanha seguirá o mesmo rumo. Vc tem razão, caro Joe. Mas Zapatero não pretende pedir ao rei que convoque eleições antecipadas, já disse isso publicamente. Acredito, porém, que ele vá governar muito enfraquecido até o final do mandato, no primeiro trimestre do ano que vem. O curioso é que o líder conservador Mariano Rajoy, do Partido Popular, tem rejeição pessoal maior do que a de Zapatero, mas ainda assim por ora o PP está disparado como favorito nas pesquisas de intenção de voto. Um abraço

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