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Zapatero, acompanhado da mulher, Sonsoles, cumprimenta o Rei Juan Carlos antes do almoço no Palácio Real: elogios à “figura-chave da transição democrática” na Espanha. À esquerda do Rei, a Rainha Sofia (Foto: ABC)

O que não faz a ganância, não é mesmo?

Veja-se o caso de Iñaki Urdangarin, duque de Palma de Mallorca, suspeito de envolvimento em dois espetaculares escândalos de superfaturamento de eventos e desvio de dinheiro público por meio de duas fundações sem objetivo de lucro que dirige.

Genro do Rei da Espanha, Juan Carlos I, bastião da restauração democrática no país, Urdangarin — ora sendo responsável por um brutal desgaste do monarca e da própria monarquia constitucional — é desde o berço abençoado pela sorte.

Nascido de uma família burguesa do País Basco, alto, forte e bem apessoado, foi durante longos anos ídolo do handebol – esporte muito popular na Espanha –, tendo atuado em 14 temporadas pelo Barcelona, onde obteve 12 títulos internacionais e, entre títulos nacionais de pequena, média e alta significação, abiscoitou nada menos do que 40.

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O Rei com os três filhos, a nora, o genro e os oito netos. Saiu das fotos oficiais um ex-genro, separado da filha mais velha, Elena (de vermelho). Urdangarin é o mais alto na foto

Defendeu a seleção espanhola em três Olimpíadas, levando duas medalhas de bronze para casa.

Não bastasse isso, casou-se em 1997 com uma jovem bonita – Cristina, que além do mais vinha a ser a segunda dos três filhos do Rei. Com ela, teve três filhos e uma filha, todos bonitos e saudáveis.

Salário anual de 1 milhão de dólares

Portador de um diploma de economia, outro de administração e dois másters, sempre teve bons empregos e, atualmente, ganha o confortabilíssimo salári de 1 milhão de dólares por ano como presidente da Comissão de Assuntos Públicos da multinacional Telefónica para os Estados Unidos e a América Latina, razão pela qual desde 2009 ele e família residem em Washington.

Precisava mesmo se enfiar em manobras obscuras, para dizer o mínimo, a ponto de o Rei tê-lo afastado da agenda oficial da família real por seu comportamento “não exemplar”?

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Iñaki Urdangarin, Cristina e os quatro filhos

Nada foi provado ainda contra Urdangarin, mas o assunto não sai das manchetes dos jornais e dos noticiários e programas de fofocas da TV, num momento especialmente delicado para o país, mergulhado em profunda crise econômica, abatido pela dúvida dos mercados quanto a sua capacidade de fazer frente a sua dívida pública e em transição de um governo socialista, derrotado nas urnas, para um conservador, do Partido Popular.

O momento também não poderia ser pior para o Rei, que nesta semana está recebendo líderes de todos os partidos para os contatos obrigatórios antes de chamar o líder do PP, Mariano Rajoy, para que forme um governo.

Apoios importantes

É verdade que o Rei vem merecendo apoios importantes, mesmo que não se mencione especificamente o escândalo.

Num almoço de despedida que ofereceu no Palácio Real – em grande parte um museu, utilizado apenas para cerimônias – ao ainda presidente do governo (primeiro-ministro) José Luís Rodríguez Zapatero, sua mulher, Sonsoles Espinosa, e todos os atuais ministros, Juan Carlos ouviu de Zapatero que ele foi “figura-chave na Transição” (o período entre a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, e a entrada em vigor da Constituição democrática de 1978) um agradecimento “de coração” por seu “compromisso com a Espanha”.

No Congresso de Deputados, Juan Manuel Albendea (PP), o deputado mais velho, que presidia interinamente a sessão inaugural, destacou que o Rei desenvolve “exemplarmente” seu papel há 36 anos, e pediu que os presentes rendessem a ele “uma merecida homenagem de gratidão, respeito e carinho”. O plenário prorrompeu em aplausos, excetuados os deputados nacionalistas bascos e catalães.

Também o atual líder dos socialistas, Alfonso Pérez Rubalcaba, candidato derrotado nas eleições de 20 de novembro, expressou o “apoio sem fissuras” do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ao Rei, e destacou as decisões adotadas pela Casa Real para “avançar no caminho da transparência”. (O Rei decidiu colocar todas as contas e despesas da Casa Real à disposição do público, na internet).

O principal jornal da Espanha, El País, de centro-esquerda, assinalou, em editorial, que o gesto de transparência “é a melhor garantia para dissipar dúvidas acerca de uma instituição que conta com o afeto majoritário dos cidadãos, principalmente pelos serviços que prestou em momentos difíceis da Transição, nos quais esteve em jogo o futuro da democracia e da Monarquia constitucional”.

Estrago já feito

O problema, porém, é que, mesmo ainda sem Urdangarin ter sido indiciado em inquérito, um estrago está feito. A Espanha tem sido um país monárquico desde sempre, excetuadas a curtíssima experiência republicana ocorrida entre 1873 e 1874, e, depois, a avançada mas trágica República restaurada em 1931 para, em 1936, ver explodir contra ela o levante fascista comandado por Franco e a guerra civil que terminou com a vitória dos chamados “nacionalistas”, em 1939.

Mesmo tendo o país vivido períodos republicanos tão curtos, não foi fácil a restauração da monarquia, após a morte de Franco, que se auto-intitulou Caudillo e permaneceu, por conta própria, como o teórico regente de um trono inexistente.

Juan Carlos havia sido designado sucessor do Caudillo como chefe de Estado, num esquema arquitetado pelo ditador em que caberia ao futuro Rei ser peça decorativa. O regime autoritário, em que tudo estaria, segundo expressão da época, “atado e bem atado” seguiria em frente.

Desconfianças diante do jovem Rei e da monarquia

Morto Franco, o jovem Rei de 37 anos era visto com compreensível desconfiança, ainda mais que fora educado sob o controle de Franco. As desconfianças se estendiam não apenas a ele, mas à instituição monárquica.

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O Rei Alfonso XIII, avô de Juan Carlos: vaidoso e mundano, deu seu beneplácito a uma ditadura e abdicou após vitória dos republicanos numa eleição

O pai de Juan Carlos e aspirante à Coroa, don Juan de Borbón, levava uma vida pessoal dissoluta e apregoava convicções democráticas nunca confirmadas na prática, tendo sido simpatizante de Mussolini e Hitler durante um tempo e flertado com a ditadura franquista com o objetivo supremo, muitas vezes manifestado com avidez, de ir para o trono fosse como fosse.

Don Juan, porém, nunca mereceu a confiança de Franco, até por seus constantes ziguezagues políticos, e não foi sem dificuldade que engoliu ser preterido pelo filho.

O avô foi um rei odiado

Seu pai, o último rei da Espanha, Alfonso XIII, avô de Juan Carlos, vaidoso e mundano, conduziu a o país de forma tão desastrosa em que a certa altura, premido por uma sucessão de crises e de insatisfação popular, abençoou um golpe de Estado: em 1923, o general Miguel Primo de Rivera assumiu como ditador após suspender a Constituição, dissolver o Parlamento e calar a imprensa, governando, sob beneplácito real, até 1930 – quando, num gesto raríssimo, o general-ditador renunciou e mudou-se para Paris. Doente, morreu um mês depois.

Pode-se dizer que o Rei era odiado e, quando tentou restabelecer um regime democrático, realizando eleições, viu os partidos republicanos terem grande maioria de votos e abdicou, em 1931.

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O Rei Alfonso XIII com o general Miguel Primo de Rivera

O jovem Rei, porém, mostrou-se ousado e corajoso mal assumiu com a morte de Franco. Em poucos meses, livrou-se do veterano homem de confiança que o ditador instalara como chefe do governo, Carlos Arias Navarro. Para seu lugar, trouxe o jovem quarentão e simpático Adolfo Suárez, membro do partido oficial mas sem um passado negro pelas costas, e com ele manobrou de tal forma que as Cortes, o Parlamento biônico da ditadura, decidiram se autodissolver.

O Rei e Suárez convocaram eleições gerais e um Parlamento saído das urnas redigiu uma Constituição democrática que entrou em vigor em 1978, cautelosamente adotando a monarquia, com apoio praticamente unânime dos parlamentares, inclusive dos historicamente republicanos socialistas e comunistas. Submetida a plebiscito, a Carta foi aprovada por grande maioria.

Em fevereiro de 1981, quando altos chefes militares tentaram um golpe de Estado e um tenente-coronel da Guarda Civil, com um grupo de homens armados, ocupou o Congresso , o Rei se legitimou de vez.

Como comandante supremo das Forças Armadas, convocou ao Palácio de la Zarzuela ou falou diretamente por telefone com generais leais – que conhecia por ter cursado as três academias militares, do Exército, Força Aérea e Marinha –, chamou às falas militares rebeldes, ordenou a prisão de um general de alto coturno que fora esteio da ditadura e lutara na Guerra Civil, Milans del Bosch, e foi à televisão denunciar os golpistas e reafirmar sua convicção democrática.

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O príncipe herdeiro, Felipe de Borbón (à direita), com o presidente do governo nacionalista catalão: “gesto nítido de apoio à monarquia” (Foto: El Periódico)

Toda essa longa trajetória, agora, está abalada. Não se discute, na Espanha, apenas o “caso Urdangarin”. Discute-se, agora, a própria conveniência da monarquia. De ontem, quarta, para hoje, quinta, dia 15, os sete principais jornais espanhóis publicaram 57 artigos sobre o escândalo, e não poucos questionavam a necessidade e a conveniência de se manter o regime.

O herdeiro promete “adaptar e adequar” a Coroa aos novos tempos

Justamente por isso, e não por acaso, durante uma solenidade que presidiu em Barcelona, o príncipe herdeiro, Felipe, 43 anos, acompanhado da mulher, Letícia, e uma vez mais sem tocar no escândalo, acentuou seu propósito de “adaptar e adequar” a Coroa aos novos tempos e, muito aplaudido, falou em “rigor, seriedade e coerência”.

Curiosamente, a solenidade foi prestigiada em massa pelo governo nacionalista catalão, tendo à frente seu presidente, Artur Mas, no que o centenário jornal La Vanguardia interpretou como “um gesto nítido de apoio à monarquia através dos príncipes Felipe e Letícia”.

Que ninguém se iluda, porém. A crise não passou.

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patricia m. em 03 de abril de 2013

Boa mesmo eh a monarquia inglesa, cheia de escandalos, pao e circo para o povo. Acho inclusive que eles sao pagos para isso, para entreter o ze povinho. Hehehe. . De lascar os monarquistas brasileiros saudosos de D Joao VI. Vou explicar porque o rei espanhol recebia atencao na America Castelhana: eh porque ele trazia divisas ($$$ dim dim, que evaporou ja, por sinal), nada mais. Ja que Portugal nao traz divisas, por que raios iriamos dar a minima para um rei portugues? Ai, haja paciencia. . E olha o tipo de monarcas que tivemos, na nossa curta historia: D Pedro I, um fanfarrao, dissoluto, mulherengo, que se mandou para Portugal para virar Pedro IV e deixou o herdeiro menor de idade para tras. Dai tivemos o regente, e por fim o segundo monarca, D Pedro II. Eh dele que vcs tem saudades? . Bom, eu sou uma republicana fanatica, detesto monarquias em qualquer lugar da terra. E sou presidencialista ainda por cima.

Marcelo em 19 de dezembro de 2011

Quem me dera o Brasil fosse uma Monarquia Parlamentar Constitucional. Tivéssemos um Imperador nos moldes de sua Majestade Pedro II, com certeza nosso país estaria melhor. Vale lembrar que a Monarquia só caiu no Brasil graças ao golpe militar que pegou de surpresa o país, naquele fatídico 15 de novembro. A Marinha apoiava o Imperador. Em 1884 aproximadamente 5.000 pessoas o aguardavam em Paranaguá, demonstrando que, ao contrário do que a maioria pensa nos dias de hoje, a Monarquia era popular no Brasil sim e não estava moribunda não. As primeiras leis de emancipação dos escravos sempre foram apoiadas pelo Imperador. É claro que hoje não teria muito sentido falar de Monarquia num país tão carente de necessidades mais óbvias e carente mais ainda de educação de qualidade, mas um Monarca que assegurasse estabilidade política baseada no cumprimento à risca da Costituição não faria mal algum por estas paragens.

Cil em 18 de dezembro de 2011

Ele foi banido dos eventos familiares??? Pena que os ministros corruptos não sejam banidos com a mesma eficiência.

Geneuronios em 16 de dezembro de 2011

Ah, agora entendi a crise na Europa.

Licínio Miranda em 16 de dezembro de 2011

O Rei Dom Juan Carlos I é um exemplo para qualquer Chefe de Estado, seja de regime monárquico ou republicano. Os espanhóis ainda não aprenderam (ou ao menos a minoria que deseja uma república) que devido a sua cultura, o país só dá certo como monarquia parlamentarista (e portanto, democrática). A república simplesmente não funciona na Espanha. Acaba sendo instável e levando a regimes ditatoriais caudilhescos. Na melhor das hipóteses, a Espanha se tornaria um Portugal um pouco maior, mas igualmente insignificante. Alguém pode imaginar um "presidente" espanhol tendo a moral e o respaldo para mandar um "Por que tu não te calas?" É óbvio que não. Quando Dom Juan Carlos I visita as nações hispano-americanas, ele é recebido com grande respeito e admiração. Alguém aqui se importa quando o presidente português nos visita? Agora tentem imaginar se um "Dom João VII" o fizesse, seria bem diferente. É só relembrar o apreço e curiosidade que praticamente todos tiveram pelo casamento do príncipe William do Reino Unido.

Mari Labbate *44 Milhões* em 16 de dezembro de 2011

Realmente, as monarquias extinguir-se-ão, nesse Terceiro Milênio! Poder conquistado com SANGUE "REAL" não é REAL! REAL é a VITÓRIA conquistada através da PALAVRA REAL e do VOTO REAL! Não sobrará nem a insana "Monarquia dos Dilullas", defendida com EXTREMO SANGUE...

Allejo em 16 de dezembro de 2011

Uma aula de história, obrigado Setti! Obrigado, caro Allejo. Volte sempre. Abraços

Eduardo em 16 de dezembro de 2011

O escândalo, sem dúvida, salpica os integrantes da casa real espanhola, mas creio que de forma alguma "coloca a monarquia na berlinda", pois a forma de governo daquele país está definida na sua Constituiçao. Em particular, o Título II, que trata da Coroa, só pode ser revisado ou alterado mediante uma reforma total da Constituiçao, que é o sistema mais complexo de reforma constitucional, previsto no art. 168 (Título X). Esse dispositivo permite uma total revisao da carta magna espanhola por meio de um intrincado processo legislativo, que nunca foi tentado nos trinta e tantos anos de democracia. De fato, até hoje os espanhóis só fizeram duas mini alteraçaos em sua Constituiçao: uma, nos anos 90, alterou o dispositivo que permite o estrangeiro residente no país votar nas eleiçoes das entidades locais (necessário para adequar a Constituiçao ao Tratado da UE e permitir a entrada da Espanha) e outra recentemente, limitando os gastos públicos a uma percentagem do PIB (exigência da UE ante a precária situaçao fiscal espanhola). No geral, os partidos políticos têm ogeriza a alteraçoes na Constituiçao, pois essa foi a primeira e única concebida dentro de um clima de concórdia entre as facçoes políticas. Nesse contexto, a Coroa, encarnada pelo Rei Juan Carlos, foi de primordial importância no processo de consolidaçao democrática e constitucional do país, razao pela qual o povo espanhol, em geral, tem grande respeito pela figura do mesmo. De fato, a Coroa foi essecial no processo de transiçao democrática e nao é por menos que essa instituiçao figure, junto com o que há de mais importante para o povo espanhol, que saos Direitos e Deveres Fundamentais (Título I), na hipótese mais difícil de revisao constitucional. Concluindo, creio que o escândalo vai ter sérias consequências para as pessoas envolvidas, mas nao atingirá a instituiçao monárquica espanhola. Abraço.

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