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O presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, em fala recente ao Congresso de Deputados (Foto: correodiplomatico.es)

O financiamento ilegal de campanhas eleitorais — o câncer da atividade política em qualquer latitude — parece ter atingido em cheio o governo de maioria absoluta do chefe do governo da Espanha, Mariano Rajoy, cuja “demissão imediata” foi oficialmente pedida pelo líder do Partido Socialista Operário Espanhol, o principal de oposição, o ex-ministro do Interior Alfredo Pérez Rubalcaba.

Rajoy, invariavelmente apresentado por seu Partido Popular, de centro-direita, como modelo de integridade política e pessoal, viu-se emaranhado de forma constrangedora no chamado “escândalo Bárcenas”, que leva o nome do ex-tesoureiro do partido, Luis Bárcenas, atualmente na cadeia por haver mantido um caixa 2 e contas milionárias, longe do alcance do fisco, na Suíça.

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Rubalcaba: o chefe do governo não pode ficar no posto “um minuto mais” (Foto: eldiario.es)

O que pode derrubar Rajoy, há apenas um ano e meio no governo, e num momento dificílimo para a Espanha, em grave crise econômica há cinco anos, é a série de mensagens em SMS trocadas com Bárcenas, depois que o ex-tesoureiro já estava atolado até o pescoço em investigações judiciais. Nelas, lhe deixa claro seu apoio e faz recomendações que sugerem recompensá-lo por seu silêncio em implicar figurões do PP, inclusive ele próprio. “Seja forte”, diz uma das mensagens. “Luis, nada é fácil, mas fazemos o que podemos. Ânimo”, expressa outra. “Tranquilidade é a única coisa que não se pode perder”, aconselha uma terceira.

Como quase invariavelmente ocorre em casos de dinheiro ilegal para campanhas, o crime se espalhou para outros tipos de bandalheira: Bárcenas, que chegou a ter 22 milhões de euros em contas na Suíça — os extratos foram enviados pelas autoridades suíças à Justiça da Espanha –,  distribuía sobresueldos (o eufemismo “complementação salarial”) com o dinheiro negro para dirigentes do PP, deputados, senadores e ministros.

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O ex-tesoureiro do PP, Luis Bárcenas: contas na Suíça, caixa 2 para eleições e uma mesada ilegal para figurões do partido e do governo (Foto: elmundo.es)

Cadernos de contabilidade de Bárcenas, divulgados inicialmente pelo jornal El País e posteriormente também por El Mundo, indicam que o próprio Rajoy poderia ter recebido esse dinheiro extra e ilegal ao longo de meses. Rajoy, acusou Rubalcaba, não pode continuar “nem um minuto mais” à frente do governo, porque os SMS trocados com Bárcenas — que agora o PP, tentando desesperadamente dissociar-se do ex-tesoureiro, chama de “delinquente” — provam que não houve apenas “compreensão” com o réu, mas “conivência”.

“Sua permanência [de Rajoy] constitui um dano incalculável para o país”, atacou Rubalcaba. “A gravidade da situação nos coloca num ponto de não retorno”.

O PP e o governo se mantêm em espantoso silêncio, com exceção da declaração da vice-presidente do governo, Soraya Saenz de Santamaría, segundo a qual “não houve qualquer negociação com Bárcenas [para ajudá-lo a livrar-se das acusações], tanto é que ele está na cadeia”.

Os socialistas, porém, que deixaram o governo em dezembro de 2011 sob grande impopularidade, não pedem novas eleições, mas sim que Rajoy “dê lugar a outro dirigente”. Quem quer a dissolução do Congresso de Deputados e do Senado é a Esquerda Unida (IU, por suas iniciais em espanhol), principal partido de esquerda. “Se o PP ganhou as eleições com financiamento ilegal, sua vitória eleitoral foi ilegal e a única saída para esta crise é a dissolução do Parlamento e a convocação de novas eleições”, disse o líder do partido, Cayo Lara.

Outros grupos de esquerda estão reunidos hoje e muito provavelmente se juntarão à IU. Alguns pequenos partidos nacionalistas já informaram que são a favor de novas eleições.

Rajoy, que comparecerá daqui a pouco ao Congresso de Deputados para compromissos anteriormente assumidos, deverá dar alguma explicação — o que parece difícil — para as mensagens trocadas com o ex-tesoureiro.

No momento em que este post está indo para o ar, Bárcenas já está há três horas prestando declarações perante um juiz, em Madri.

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10 Comentários

Corinthians em 16 de julho de 2013

Setti, Não é a Espanha um dos exemplos de financiamento público de campanha e de voto em lista fechada ? Segundo a cantilena petista isso não iria acabar com os crimes de, parafraseando Delúbio Soares, "caixa dois" ? Pois é...

Reynaldo-BH em 15 de julho de 2013

Sobresueldos... Agora dá para explicar para os da Espanha o que vem a ser mensalão! E mensaleiros. Sou capaz de apostar que o governo irá cair! Da Espanha, óbvio. E que por cá, os lulopetistas vão, em uníssono, afirmar: "Tá vendo? Até lá eles fazem!". Vale a pena rever um vídeo. Antigo e já prá lá de conhecido. Mas, lembrei-me dele. Abraços https://www.youtube.com/watch?v=LhvYJ8r5Ak8 Grande Reynaldo, A única diferença é que a grana paga aos parlamentares do PP espanhol não se destinava a comprar seus votos. Era só um reforçozinho no orçamento -- com dinheiro ilegal, claro. Abraço

Natal Santana em 15 de julho de 2013

Corrupção há no mundo todo. A diferença é que em alguns países, os corruptos são presos!

Paulão em 15 de julho de 2013

Bom dia Setti, Desculpe! Me enganei de jornalista, na mensagem anterior. Não tem problema. É uma honra ser confundido com meu irmão Augusto Nunes. Abraço

Paulão em 15 de julho de 2013

Bom dia Augusto, Se o Luis Bárcenas vivesse no Brasil, com certeza seria condenado a retirar seu sustento da atividade de lobbysta junto ao desgoverno federal, atendendo sua clientela numma saleta de hotel luxuoso em Brasília, tendo o desgastante trabalho de dar UM telefonema para resolver as pendências de seus clientes. ................ Aqui nestepaiz temos paraíso para ladrões de alto(?) nível.

joca em 15 de julho de 2013

Em meu comentário das 10:29, quis dizer " capitã da nação" , dado o vasto poder que acumulou, devida ou indevidamente através de conquistas, muitas por desejo e anseio da nação, outras por lobbie junto aos os constituintes de 88.

neil ferreira em 15 de julho de 2013

Lá como cá.. Que saudades de Felipe González. Que saudades de FHC.

Joshua Ghosn em 15 de julho de 2013

Vá passear e não me amole a paciência.

Bruno Sampaio em 15 de julho de 2013

Enquanto isso, no Brasil...

joca em 15 de julho de 2013

Nenhum comentário sobre seu texto. Estou aproveitando a onda e pedir-lhe amplificar esta sacanagem institucionalizada. Na FSP, 14/7/ -caderno AC Poder ,um artigo de nome "Filhas da Corte".A malfadada CF/88, sucumbindo ap imenso lobbbie da OAB, que é vista como uma cafetã da nação, instituiu o famigerado "quinto constitucional" na compor os tribunais superiores. E este quinto, óbvio, por indicação da OAB. Neste clima, os ministros do STF( FUX e Marco aurélio) estão fazendo um lobbie desgraçado para enplacar uma das suas filhas. Inexperientes e inexpressivas. E api, respondendo a uma crítica à seu lobbie vergonhoso a favor de uma inexpressiva advogada, ele retrucou:" é pecado a indicação ? é justo de nossos filhos tenham que optar por uma vida de monge "? Mas não é muita cara-de-pau, sarro, cinismo? Ela que trabalhe, aprenda, preste concurso para juiz, seja aprovada, mostre suas qualidades etc. etc. Seguramente o caso do toffolli está fazendo escola

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