Image
Mariano Rajoy com sua vice-presidente, Soraya Saenz de Santamaría (contra a qual não pesam denuncias): como se nada estivesse acontecendo (Foto: EFE)

Em muitos aspectos, e apesar da brutal crise econômica que lhe suga as energias, a Espanha é indubitavelmente país de Primeiro Mundo. Em certas coisas, porém, lembra o Brasil, inclusive na rotina de praticamente estourar um escândalo por dia.

Essa peculiaridade está ajudando o presidente do governo (nome oficial do primeiro-ministro) Mariano Rajoy, do conservador Partido Popular, a ir aqui e ali escapando de uma grave crise desatada quando o ex-tesoureiro do partido há 20 anos, o ex-senador Luis Bárcenas — atualmente na cadeia–, resolveu falar à Justiça sobre o caixa 2 da agremiação e, sobretudo, da distribuição de dinheiro sujo feita a políticos — inclusive, supostamente, o próprio Rajoy.

Seria uma espécie de mensalão — com a fundamental diferença que não se destinou, como no caso do brasileiro, a comprar o voto de ninguém. Era um reforço ilegal de salário, um sobresueldo, como vem sendo chamado na Espanha.

O escândalo vai e vem nas manchetes, e esteve em baixa porque descobriram que o presidente do Tribunal Constitucional da Espanha, Francisco Pérez de los Cobos, é militante do PP — situação obviamente incompatível com o cargo que ocupa e que ele omitiu durante anos. Militante desses de pagar mensalidade e tudo.

Mas volta com força porque, depondo perante o juiz Pablo Ruz, o ex-tesoureiro Bárcenas, que antes mencionara o pagamento de quantias relativamente modestas — 25 mil euros (75 mil reais) a políticos como  Rajoy e a uma figura-chave do PP, María Dolores de Cospedal, secretária-geral do partido e chefe do governo da região de Castilla-La Mancha, acabou entregando serviço mais grave.

Image
Pérez de los Cobos: presidente do Tribunal Constitucional — mas filiado de carteirinha ao PP. Pode? (Foto: EFE)

Segundo vazou da audiência, Rajoy, por exemplo teria recebido, ao todo, 343.700 euros (pouco mais de 1 milhão de reais). O ex-ministro das Finanças Rodrigo Rato — que foi diretor-gerente do FMI! — haveria embolsado precisos 182.458 euros (550 mil reais). A um desconhecido do grande público, Pedro Arriola, um dos principais colaboradores de Rajoy no PP, caberia a maior bolada, 1,4 milhão de euros (4,2 milhões de reais).

O grande problema é que Bárcenas, que vem se auto-incriminando e confessando crimes fiscais, entre os quais ter conta secreta e não declarada na Suíça, não tem provas testemunhais nem documentais, excetuados os cadernos em que anotou tudo caprichosamente, à mão, ao longo dos anos — o que não se sustenta. Dinheiro negro nunca comporta recibos, como se sabe. E quem recebe não fala.

O que mais compromete Rajoy são ações comprovadas: a série de mensagens em SMS trocadas com Bárcenas, depois que o ex-tesoureiro já estava atolado até o pescoço em investigações judiciais. Nelas, lhe deixa claro seu apoio e faz recomendações que sugerem recompensá-lo por seu silêncio em implicar figurões do PP, inclusive ele próprio. “Seja forte”, diz uma das mensagens. “Luis, nada é fácil, mas fazemos o que podemos. Ânimo”, expressa outra. “Tranquilidade é a única coisa que não se pode perder”, aconselha uma terceira.

Um chefe do governo modelo de decência pessoal, como Rajoy sempre se apresentou mesmo quando líder da oposição, dificilmente trocaria mensagens desse teor, suspeitíssimas, com um réu da Justiça.

Image
A vice-presidente do Congresso de Deputados, Celia Villalobos, cujo marido teria recebido 1,4 milhão de euros: “nada a dizer, tenham os fatos ocorrido ou não” (Foto: El Mundo)

Mas o presidente do governo finge que nada está acontecendo. Escorado em confortável maioria absoluta no Congresso de Deputados e no Senado, até agora não decidiu se e quando comparecerá às Cortes, o Parlamento, para dar explicações.

Rajoy, desde que assumiu, em dezembro de 2011, se esconde de entrevistas minimamente reveladoras, comparece o mínimo possível ao Parlamento para prestar contas de seu governo — mesmo sobre medidas de austeridade duríssimas que adotou — e prefere se comunicar com o público por meio de declarações formais à imprensa, sem possibilidade de perguntas.

Uma rara exceção ocorreu esta semana, durante visita do primeiro-ministro da Polônia, Donald Rusk. No Palácio da Moncloa, sede do governo, durante a “entrevista coletiva”, depois que ambos governantes falaram, permitiram-se duas perguntas — só duas — a cada um deles.

A Rajoy coube, como primeira, uma anódina que partiu de um jornalista “amigo”. À segunda, o repórter foi ao que interessava — as mensagens suspeitas de SMS.

Rajoy fugiu do assunto, dizendo que “o Estado de Direito não se chantageia” e que, “quando o governo tiver algo a dizer, dirá”.

Os partidos de oposição, a começar pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), o maior deles, quer apresentar uma moção de desconfiança que, teoricamente, poderia derrubar o governo. Faltam-lhes número e faltam-lhes unidade: as agremiações de extrema esquerda pretendem que sejam convocadas novas eleições, mas o PSOE acha que, devido ao período difícil por que passa a economia do país, seria mais adequada a renúncia de Rajoy, além do prosseguimento das investigações.

A despreocupação e o quase deboche com que algumas figuras do governo encaram a crise pode ser resumida na atitude da deputada Celia Villalobos, esposa de Pedro Arriola — aquele, que teria embolsado 1,4 milhão de euros — e vice-presidente do Congresso de Deputados:

— Não tenho nada que dizer sobre as questões que [Bárcenas] afirma terem ocorrido, tenham elas ocorrido ou não.

Há quem veja só uma forma de acelerar as preocupações do governo: a volta, às ruas, dos “indignados” que sacudiram o país em 2011. Clima para isso não falta, a começar pela brutal taxa de desemprego de 27%, a pior entre todos os países da União Europeia.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

cinco − quatro =

10 Comentários

carlos nascimento em 21 de julho de 2013

Ricardo, Voltando a comentar sobre o mensalão espanhol, veja se pode me informar, quem seria o tesoureiro e o articulador chefe ? O tesoureiro, como expliquei nos posts, é o ex-senador Luis Bárcenas. Durante 20 anos! O articulador-chefe ainda está por ser descoberto... Abraço

Alberto Franco em 20 de julho de 2013

Por isso que Brasil é um país corrupto. Portugal e Espanha, são os berços da corrupção e do "jeitinho". ps: de um comentarista com família portuguesa e espanhola.

José Figueredo em 20 de julho de 2013

Tanto lá como cá.Será uma maldição "latina"?Que mania de fazer na vida pública coisas da "privada".Caro Setti,como é difícil a travessia da tênue corda bamba de se administrar o bem comum sem sujar as mãos.Em Países distintos os escândalos muitas vezes resultam em trágicos arrependimentos,entre os descendentes do "LÁCIO" geralmente se busca um tapete "persa" vistoso para tentar varrê-los para baixo.É vergonhoso e chega a ser estimulante,tornando-se um círculo vicioso odiento.Nem a religião que é tão poderosa no nosso meio,consegue aplacar a insanidade do desejo de "PODER pelo PODER".

Reynaldo-BH em 20 de julho de 2013

Setti, estas seguro de que la señora de la foto no es Ideli con el pelo teñido de rubio? Hahahahah, em lembrado... Abração

AlexRio em 20 de julho de 2013

Como se vê e como se sabe, a corrupção não é monopólio da esquerda em lugar nenhum.

Iza em 20 de julho de 2013

Sua acusação, gravíssima, não foi comprovada por nenhuma instância da Justiça. Portanto, deletei seu comentário.

Sylvio Haas em 19 de julho de 2013

El Mensalón! O Roberto Jefferson deveria cobrar royalties pelo uso do termo.

carlos nascimento em 19 de julho de 2013

Ricardo, Lamento, minha tese defendida tempo atrás, sempre colocou os espanhóis na linha perigosa da corrupção, a instabilidade por lá sempre foi latente, eis a presença de Confúcio: "o tempo é o Senhor das soluções", chegou à conta, o lixo debaixo do tapete veio à tona. Um exemplo no campo esportivo....Alonso é um campeão movido aos bastidores, o presidente do Barça é o cara....amigo do rt, quer mais.....o bom da Espanha é a sua comida, vinhos, arquitetura, e......encontrar com RS por lá, talvez no Santiago Bernabéu, ou no Camp Nou......rs.rs.rs.

RONALDE em 19 de julho de 2013

Vamos colocar os pingos nos i(s). O escândalo espanhol é grave, como grave foi o mensalão, porém, o nosso escândalo foi financiado através do nosso dinheiro. O caixa dois da Espanha, salvo melhor explicação, foi financiado por empresas particulares.

Reynaldo-BH em 19 de julho de 2013

Setti, certamente não tenho o seu conhecimento sobre a Espanha. Compartilho porém do imenso carinho para com esta terra mágica. Aliás, a família toda.. rsrsrs. Creio que estes escândalos - que já ocorreram com o PSOE e ficou por isto mesmo e chegiu a atingir a Casa Real - fazem com que teses separatistas e de profunda descrença no futuro, sejam incentivadas. O "welfare state" espanhol (e não só da Espanha!) - agora definido como Estado Social - era 9e é) claramente uma equação que não fecha. Viveu dos Fundos Comunitários em uma farra irresponsável, seja fiscal ou até de Segurança Social. Ainda creio que Rajoy não vai ter como se manter. O PP vai acabar descobrindo - se tiver juízo - que em nome de defender o poder atual (e Rajoy) acabarão todos em um abraço de afogados. Valeria a pena os deputados espanhóis lerem o que aconteceu (e acontece) com o PT no Brasil. A defesa cega dos mensaleiros só foi abandonado pelo PT após as manifestações. (O PT já informou que os antes candidatos - certamente eleitos - ao Diretório Nacional, a saber: José Dirceu, Genoíno e João Paulo não mais serão candidatos.) Os indignados da Espanha já estão nas ruas a tempos. Não será difícil que retornem (esta semana em Madrid, voltaram às ruas com o enfoque na exigência de renúncia de Rajoy). Eu espero que as ruas obriguem o bandido abandonar o cargo. E que hajam novas eleições. A Espanha já nos deu diversos exemplos. Ao mundo todo. Moncloa, el Rey Breve, o parlamentarismo de moldes mais intensos, o fim do ETA, etc. As ruas, exceto no Oriente Médio, conseguiram pouco. Pouco na Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha. Mas ainda creio que conseguirão mais.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI