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Uma das 569 transações diárias envolvendo ouro em Barcelona, na Espanha (Foto: Josep García – “El Periódico”)

Salta aos olhos de quem anda pelas ruas de Barcelona a grande quantidade de lojinhas de comércio de ouro que vêm abrindo desde que a crise assolou de vez a Espanha, em 2008. E até mesmo antes.

Quase tão onipresentes quanto as lojinhas de bugigangas geralmente dirigidas por chineses e os mercadinhos predominantemente comandados por paquistaneses, os estabelecimentos identificados por um inconfundível cartaz com os dizeres Compro Oro – e cuja procedência nacional dos donos gerência é mais heterogênea – são um sintomático componente da atual paisagem urbana da cidade catalã.

Aumento estarrecedor

No começo da década passada, estes locais não passavam de 30. Agora, segundo dados compilados até o final do ano passado pela Consellería d’ Interior – órgão do governo da Catalunha responsável por, entre outros assuntos, mapear o comércio desta comunida autônoma -, há 280.

Ou seja, aumentou em mais de nove vezes. E isto se nos atermos aos números oficiais, já que há estimativas de que pelo menos mais 120 pontos ilegais também funcionem em Barcelona.

O período de maior ocorrência deste boom deu-se a partir de 2006, dois anos antes de que se “oficializasse” nos noticiários a crise espanhola, europeia e mundial, mas quando o país ibérico já vivia uma fase de grande indefinição.

Ainda de acordo com o mesmo levantamento, naquele ano foram efetuadas cerca de 30 mil operações comerciais envolvendo ouro em Barcelona, uma média de 82 por dia; em 2011, este índice se multiplicou por 7, resultando em 208 mil transações, média de 569 diárias.

Um verdadeiro fenômeno “bola de neve”, já que a tendência é que quanto mais compradores de ouro estiverem disponíveis, mais poder de negociação os vendedores terão. Isso movimenta o setor.

Dentes de ouro

Os números da Consellería d’Interior não especificam com exatidão os números dos artigos que as pessoas mais têm oferecido para venda nestas lojas.

Mas entre as observações conclusivas do estudo, além da óbvia referência ao problema do desemprego brutal em toda a Espanha – atualmente ao redor de 25%, o maior índice da Europa e um dos maiores do mundo – , chama a atenção um fato especialmente triste e dramático: muitas pessoas têm vendido, além de relógios e joias, suas próteses dentais e obturações de ouro.

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9 Comentários

sidnei em 25 de outubro de 2012

So quem ja foi deportado da espanha,ou teve algum amigo que não foi aceito por eles sabe oque eu quero dizer;BEM VINDO AO TERCEIRO MUNDO!por ai.

Tico Tico x ESSA GENTE ORDINÁRIA QUE NOS GOVERNA em 06 de outubro de 2012

Com a proteção de São Tiago e de Nossa Senhora da Coluna, digo do Pilar, padroeiro e padroeira da Espanha, as coisas vão se ajeitar. Num primeiro momento sobrando para ir a touradas e para um futebolzinho, já começa a ficar bom. Até porque, há mais ao norte da Europa, alguns países que teimam em ser organizados, eficientes no trabalho e na economia, que lhes proporcionarão uma ajudazinha. Mas o doutor, digo Don Juan Carlos I tem que economizar um pouquinho nas caçadas de elefantes.

ClaudioM em 04 de outubro de 2012

Bem-estar social banguela? Nestas horas vai bem um almoço grátis, Setti. Ou pelo menos uma sopinha...

bereta em 04 de outubro de 2012

Caro Setti. Embora você seja magnânimo, talvez um dia se aborreça ao me ver citar a bíblia como fonte de conhecimento e não publique meu comentário. Lá no Egito, muito antes da era cristã, já se sabia que é no tempo das vacas gordas que se faz economia. Claro que não tenho a menor satisfação ao ver a situação de Espanha, Portugal, Grécia ou qualquer outro país, com pires na mão. Não faz muito tempo a Espanha era considerada um país pobre. Não conheço as razões, mas como num passe de mágica, passou a mostrar sinais exteriores de riqueza, sendo até cruel com pessoas que procuraram entrar no seu território. Vistas a brasileiros sumariamente deportados, muitos dos quais nem mesmo chegaram a cruzar os limites dos aeroportos. Não escrevo isso tripudiando sobre a condição dos espanhóis, pois não sou rancoroso. Só escrevo para registrar que não se deve pisar nas mãos de quem tenta subir a mesma escada, pois poderá encontrá-lo quando estiver a descer. Aceitamos espanhóis em grande escala, como imigrantes. Povo genioso, mas muito trabalhador, fizeram fortuna, misturaram-se aos que aqui estavam e tocaram a vida. Hoje, diante de sucessivas crises mundiais, o texto relata uma condição indigna para muitos. Quem não sabe quão vergonhoso é perder um dente? Pior ainda, se a necessidade obrigar a pessoa a arrancá-lo. Victor Hugo nos fez ver essa condição quando mostrou Fantine sem dois dentes. Sem cabelos, sem dentes, com fome, com frio e prostituta. Só que Fantine caiu nas mãos de seres desumanos. Não sei nas mãos de quem a Espanha caiu. Muitos de nós nos comportamos de forma idêntica quando amealhamos algum dinheiro, numa corrida louca para gastá-lo. Por essa razão citei o Egito antigo. Foi de lá que nos veio a história das vacas gordas. Economizar é bom, é fundamental. Deveria ser matéria escolar básica. Não a sovinice, mas a economia para tempos difíceis. Como disse Stephen Kanitz, dez por cento do que ganharmos e, se possível, um pouco mais. Caro Bereta, de onde você tirou a ideia de que eu não publicaria algum comentário seu por citar a Bíblia? Aqui se pode quiser o que quiser -- de "O Capital" até o "Livro dos Mórmons" --, desde que não se ofenda ninguém, nem se cometam grosserias, incitação ao crime e coisas semelhantes, algo que você jamais passou sequer perto de fazer. Abração!

Júlia em 04 de outubro de 2012

Isso é verdade, pois vivo atualmente em Portugal é o fenômeno é o mesmo, multiplicaram-se as lojas para compra e venda de ouro, mas tem outra explicação que não apenas a crise europeia, é que o ouro está muito valorizado.

Noiado em 04 de outubro de 2012

Esperto é quem está comprando ouro ao inves de ficar com um papel moeda que só desvaloriza. Eu adoraria receber meu salário em ouro, mas infelizmente temos um governo que nos força a utilizar uma porcaria de papel moeda sem lastro. Por quantas crises teremos que passar ainda até a maioria dos cidadãos percebam que o Banco Central e o Real são duas desgraças para o Brasil?

Rico Monte em 04 de outubro de 2012

“Los españoles padecemos una enfermedad del corazón, la cual solo la cura el oro”. Velha história por diferentes motivos!!!!!

Rico Monte em 04 de outubro de 2012

“Los españoles padecemos una enfermedad del corazón, la cual solo la cura el oro”. Velha história!!!!!

Marco em 04 de outubro de 2012

Dom Setti: Bela matéria, pois é, o q dizer,vão se os anéis ,dentes e fica o q... Muito rigorosa e dura essa situação, infelizmente. Abs.

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