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Os cereais, base da alimentação de todo o planeta: preço disparando por causa da especulação em bolsas de futuros

Os tão amaldiçoados mercados, que quase todo mundo culpa pela crise financeira que afeta a maior parte do planeta, não mexem apenas com as finanças, especificamente.

A FAO, agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura, acaba de divulgar dados mostrando que os jovens engravatados que especulam nos mercados de futuros de alimentos, especialmente na Bolsa de Mercadorias de Chicago, a Chicago Mercantile Exchange, fizeram com que em 2010 os preços dos alimentos comercializados internacionalmente subissem espantosos 39% — e estarrecedores 71%, se nos fixarmos apenas nos cereais, base de alimentação de praticamente toda a Humanidade.

Como se sabe, há muito tempo generalizou-se, especialmente nos grandes países produtores de alimentos, a prática, por meio de diferentes tios de financiamentos e seguros, de os agricultores venderem sua produção antes de colher. Com isso, o agricultor em geral assegurava seus ganhos, a salvo de contratempos da natureza, e o comprador conseguia um bom preço, para revender com lucro lá adiante.

Até que se percebeu que era possível recomprar e revender os direitos sobre essas colheitas ainda inexistentes, ou seja, convertê-los em valores bursáteis, comercializáveis em bolsa. Foi aí que surgiram os mercados futuros de alimentos, onde se compram, vendem, recompram e revendem colheitas teóricas, boiadas teóricas etc.

Não demorou para que um tsunami de dinheiro proveniente de todo lado, desde grandes investidores até investidores institucionais como fundos de pensão, ingressasse nesse mercado de apostas. O resultado é que poucos estão ganhando muito – e muitos estão pagando mais pelo que comem.

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8 Comentários

Edinei em 09 de novembro de 2011

Em visita na bolsa de Chicago por um familiar em setembro/2011, comentaram que um projeto no Senado americano foi aprovado para pôr fim nas especulações. O Diretor não soube ou não quis informar a respeito do que acontecerá no mercado mundial.

Lapeno R em 08 de novembro de 2011

E no Brasil essa concentracao de ganhos futuros e subsidiada com grana do proprio povo otario que financia o BNDES e esse empresta para mega fusoes de frigorificos, plantadores de soja, usineiros e afins. Tou para ver o dia (nao esta longe) que o kg da picanha estiver custando 100 USD em sampa e o povo achar ''normal''.

JEOVAH SANTOS em 06 de novembro de 2011

EU VENDO ESSE GRAOS, TIVE UMA IDEIA COMO MOSTRAR A DESIGUALDADE IMORAL DO SALARIO BRASILEIRO ! VEJAM E FAÇAM CADAUM EM SUA CASA PRA VER A DIFERENCIA, E ASSIM : PEGUE SEIS GRAOS DE MILHO OU FEIJAO, PONHA EM CIMA DE UMA MESA, CADA GRAO REPRESENTA CEM REAIS.DEPOIS PEGUE A QUANTIDADE DE GRAOS QUE REPRESENTA O SALARIO DE UM PARLAMENTAR OU DE UM HOMEM DA JUSTIÇA ! COM CERTEZA SO COM UM SALARIO VOCE VAI ENCHER A MESA ! O SALARIO DO POBRE VAI CABER EM UMA TAMPA DE CERVEJA, E O SALARIO DO PARLAMENTAR OUN O HOMEM DA JUSTIÇA, JUIZ OU DESEMBARGADOR, SERA PRECISO UM PRATO FUNDO PARA CABER OS GRAOS, QUE REPRESENTA REAIS! jeovah 86 88048848

Reynaldo-BH em 06 de novembro de 2011

Setti, abusando de sua boa vontade, volto a comentar temas relativos ao seu post. Como creio que ninguém lerá (existem outros mais recentes e que atraem bem mais interessados, o que é normal) serve mais para expor a você algumas tolices e preocupações. E quem sabe você volta ao(s) tema(s) e mais pessoas (além da patricia m.) se interessem por algo absolutamente essencial para nosso futuro. Abraços. ............... Existem temas que não dão IBOPE. Sejam por que parecem ser herméticos – e não são – ou por não envolver disputas partidárias. Refiro-me à falta de políticas públicas no Brasil. Que país se faz sem enxergar o futuro? Sem saber onde estamos, para onde queremos ir e de que modo? Não existe exemplo na história mundial. A sensação que eu tenho é que no Brasil estamos vendendo o almoço para pagar o jantar. Quais setores devem ser incentivados? Qual plano educacional de médio prazo? Onde estas as diretrizes para estes caminhos? Qual nossa política externa? São perguntas essenciais que não temos respostas. Vamos ao sabor do vento. A tese bolivariana de Chávez (e Evo, Lugo, etc) já identificou o culpado: o império? Que império cara-morena? Quantos no Brasil ainda comungam da mesma ideia. Se na Venezuela o Brasil também fará parte do império (se mudar o governo), por cá continuamos a creditar aos USA os males econômicos que atingem o mundo. Não é. Acabei de ver um debate na Globonews de lavar a alma, pois que quando as ideias expostas são as mesmas nossas, parece que não estamos sozinhos. E descobri dados que desconhecia. 1 – Em 1990, 70% da riqueza mundial era produzida pelos países desenvolvidos. Em 2016 este percentual será de 50%. E em 2020, de menos de 40%. Os ditos emergentes serão responsáveis pela maior parte da riqueza produzida no mundo. 2 – O desequilíbrio atual, nos países desenvolvidos, se dá pela necessidade econômica (e de mercado) dos desenvolvidos superavitários financiarem os desenvolvidos deficitários, aí incluídos USA e Europa (exceto Alemanha e França). E sem este financiamento não há consumo pelos deficitários. Sem este consumo, não há superávit. É um círculo vicioso terrível. 3 – Quando se fala em emergentes, pensa-se nos BRICS. Porém mais de 50% dos mesmos pertencem à China. 4 – 48% das exportações dos países asiáticos (do Pacífico e são 37!) se dá entre eles mesmos! Ou seja, um mercado interno maior que o da Europa e USA somados. É uma “união asiática” sem moeda única e sem propaganda. 5 – Mais de 90% da cadeia produtiva de manufaturas chinesas está na própria China. (A partir daí tive curiosidade de pesquisar o tema no Google. Achei um artigo de Paul Krugman que cita os dados americanos. Lá está em queda. Chega (nas manufaturas leves) a menos de 35%.) Este é o ponto. Eu tenho uma verdadeira obsessão (a lá Mafalda de Quiño, quem leu sabe) com os chineses. E esta percepção, concorde por todos os participantes do debate, me anima a esperar que um dia no Brasil, a “ficha caia”. Aquilo que sinto na pele em minha área de atuação, é claramente standard em todos os setores. E o Brasil não sabe, não enxerga e não se prepara para o verdadeiro embate. A China. Enquanto pudermos exportar commodietes que são essenciais à China (minério e grãos) estaremos sendo úteis. Quando nossas empresas perderem inteiramente a competitividade no mercado interno, nem esta troca será uma saída. O Brasil não sabe para onde ir no cenário internacional. Escolheu uma política agressiva na África. Nada contra o continente negro. Mas em Angola, a China chegou com 10 anos de atraso em relação ao Brasil. E em 2010 já investia 12 vezes mais que nós por lá. (São dados meus, que coletei em Luanda). Não sabe como se comportar com os USA e Europa, que serão dependentes ao extremo de emergentes, sejam estes quais forem. Não sabe como enxergar a China, como se estes fossem os negociantes de algum bairro de São Paulo. Nossa política externa lembra a de ditadores do extremo-oriente. Personalista e com necessidade de reconhecimento. Quer cadeira no Conselho de Segurança. Para que? Em que isto auxilia na definição do futuro do Brasil? Quer cotas no FMI. OK. Se colocou recursos tem que se ter mais cotas. A China deve aportar 60% das novas necessidades do FMI. E terá 60% (ou mais!) das novas cotas. Isso nos livra do complexo de vira-latas. E daí? Sei que isto é só um desabafo. Se não conseguimos sequer mobilizar a sociedade para protestar contra a corrupção; se não conseguimos - com números – convencer os idiotas de plantão que o país de Lula não é real; se não conseguimos provar que a história real não é a que eles tentam distorcer, o que dirá debater uma agenda de futuro que obrigatoriamente precisa de definições de políticas plurianuais? Afinal, no futuro estaremos todos mortos. O problema é que nossos filhos não! Ótimo comentário, Reynaldo. Candidato forte a Post do Leitor! Abração e obrigado

Reynaldo-BH em 04 de novembro de 2011

Para patricia m. Seus argumentos não colidem - e menos ainda, se chocam - com os meus. Qubras de safras sempre ocorreram. Seja em trigo, soja (essencial para alimentação animal, além da humana), milho (idem) e até café. Ações deletérias de governos em busca de proteção a um mercado interno pouco ou nada competitivo, idem. Subsídios? O que há então de novo? Os 7 bi de pessoas a alimentar? Com os avanços de controle de pragas, aumento exponencial de área plantada, redução no custo de produção por hectare, transgênicos, análises exatas de solo e época de plantio, etc? Houve algo sim, patricia. Não concordo - como disse - em colocar a culpa em um único ator deste palco. Até por que culpar uma entidade tá indefinível como "mercado" é fugir ao debate. Assim como defender cegamente este mesmo mercado. Repito: não há uma causa em um desastre. É sempre um somatório delas. Há um desastre alimentar em curso? Alguém duvida? As causas são variadas. Até as que você apontou. E que os jogadores destes cassino sempre souberam usar. Abraços.

patricia m. em 04 de novembro de 2011

Esclarecendo mais uma coisa: pode parecer que eu defendo a acao dos governos, como no meu exemplo do sudeste asiatico. Vale dizer que a acao dos governos tambem pode ser deleteria. E cito outro exemplo: . O preco do trigo aumentou nao apenas devido a catastrofe climatica que destruiu a producao russa, nao. A Argentina eh um dos mais importantes paises exportadores de trigo. Mas o que fez a Dona Cristina, que vive em pe de guerra com os agricultores argentinos? Proibiu que uma grande parcela de trigo argentino fosse exportada para o mundo, porque antes teria de ser consumida por argentinos. Guess what? Isso contribuiu para o aumento mundial do preco do trigo...

patricia m. em 04 de novembro de 2011

Colocar toda a culpa no mercado de futuros eh, no minimo, ingenuo. Ha 7 bilhoes de pessoas no mundo que precisam ser alimentadas - esse numero so cresce a cada dia que passa. Ha catastrofes naturais que reduzem a colheita em escala mundial. Lembra a destruicao do trigo russo o ano passado? E por ultimo ha acoes de governos e organismos internacionais que mais prejudicam do que ajudam. Vou citar um exemplo: . Os paises do sudeste asiatico, que antes tinham autossuficiencia alimentar em termos de graos (arroz basicamente) hoje nao tem mais. E por que? Porque antigamente o governo controlava o preco desses produtos, por meio de estoque. Comprava a producao e se o preco estava alto, vendia subsidiado. Sacou? Ai veio o FMI e disse que isso estava errado, que eles tinham que parar de interferir no mercado. Hoje eles nao tem mais esse mecanismo. Guess what? . Eh facil apontar o dedo para um culpado invisivel, o odiado mercado dessa gente iluminada de hoje em dia... Mas as coisas nao sao bem assim...

Reynaldo-BH em 04 de novembro de 2011

Setti, a demonização de qualquer ponto de vista é o caminho mais curto para não haver caminhos. Concordo com você que o dito “mercado financeiro” transformou-se no eterno culpado de tudo o que ocorre hoje no mundo. É mais fácil eleger um único culpado do que enxergar que desastres nunca ocorrem por uma única causa. São tempos interessantes de se observar e acompanhar. A CADA DIA, UMANOVA EMOÇÃO. Diria até que se eu não estivesse também dentro dele (e afetado como todo mundo está sendo ou irá ser!) seria divertido. Na Europa o welfare state dos países que acreditavam na existência de almoço gratuito, aliado a uma montagem artificial de uma união dos 17 dos 27 países da UE, levaram o caos e medo a todo o continente. O início deste pesadelo atual nasceu com o fim da ciranda, com a quebra – em 2008 – do Lehman Brothers.E talvez com a Islândia servindo de laboratório. Mesmo quebrando, sequer serviu de aviso. Disto todos sabemos. A fonte secou e de repente. A ciranda financeira criada com os tais derivativos tinha fim previsível. Uma imensa “pirâmide” onde o último a entrar (comprar) assumia todos os riscos. E o primeiro a sair (vender), todos os lucros. Operações de hedges sempre existiram. Protegem produtores de oscilações de moeda. Derivativos expõem investidores e bancos a menores alavancagens (precisam colocar cash somente parte do que dizem possuir. Às vezes, nada.). A arbitragem (diferença do preço que compro e vendo o mesmo produto/moeda) é nossa velha conhecida. Na hiperinflação, um diretor financeiro que conseguisse arbitrar rápida e seguramente um recebimento, trazia mais lucro a uma empresa que toda uma linha de produção. Afinal era comum o lucro da arbitragem ser maior que a margem de contribuição, ou seja, o lucro. A novidade foi a falta de freio para a especulação. Até cassino tem regras. Eles criaram um cassino sem regras. Li uma vez em algum lugar que um determinado título – famoso na city londrina – era composto de 38 índices! Desde variações cambiais ao preço do... mel industrial! Sério, existia mesmo. Qualquer fórmula de montagem da roleta era válida. O argumento sempre foi que um “produto” (moeda, variação de preços de insumos, commodities e COMIDA, aliada a índices de crescimento de países e até fatores sazonais) protegeria problemas com os outros. Daí nasceu os títulos de um mercado futuro com alimentos! Em um mundo onde se morre de fome 90% das operações hoje feitas nos mercados de compra/venda de safras e alimentos já não se dá pelo antigo “preço de balcão”. As Bolsas de Mercadorias funcionavam como imensas CEASAS onde o produtor vendia o seu produto. Depois, passou a ser negociado por brookers ou atravessadores. Hoje é só o que eles chamam de “realização de lucros”. Ou seja, o LUCRO entre a aposta feita meses/anos antes e o obtido no bater do martelo. Enquanto isto, este papel que garante a operação passou por mil mãos. Em um mundo onde milhões de dólares são movimentados por hora, via comando de um notebook ou celular, é fácil imaginar a bola de neve. Seu post é histórico. Não só muitos pagam muito mais pelo que comem como muitos mais sequer conseguem comer. Não é só a China com um novo e insaciável apetite para uma população assombrosa que faz com que alimentos estejam em valores cada vez mais restritivos. É a especulação. É a globalização, essencial, irreversível e necessária . (Parto do princípio que se uma ideia ou ação vai mal, antes de atacá-la ou abandoná-la é o caso de tentar melhorá-la. ). Estas anomalias já chegaram ao Brasil. Já não há azeite de oliva brasileiro (que era de qualidade inferior e que ninguém se preocupou em melhorar): todos são portugueses, espanhóis, argentinos ou gregos. Alho no Brasil só o plantado na Argentina. O suco que acompanha o Big Mac ou o Whoopy em San Diego é de laranja de Ribeirão Preto. TODOS frutos de contratos derivativos. Todos precificados a partir de apostas. Não se trata de dar um passo atrás. Fechar fronteiras e levantar barreiras. Creio mais em passos à frente. Regular este mercado. Impor fiscalizações e limites. Quais? O da dignidade humana, por exemplo. Ou da consistência financeira que deve ser ética para gerar lucro, seja social ou econômico. Não é exagero, mas houve uma tentativa na Alemanha - em Frankfurt - de se cotar INSULINA ANIMAL como mercadoria passível de entrar nesta dança mórbida. Rejeitada não por argumentos éticos, mas por que não se conseguiu demonstrar até onde a produção bovina afetaria este mercado. Alguns ganham muito. E a imensa maioria perde, dia a dia. Sensacional seu comentário, Reynaldo. Muito melhor do que meu post! Abração

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