Image
Gauck é cumprimentado por Merkel: pela primeira vez, dois ex-alemãs orientais no poder na Alemanha unificada (Foto: euronews.net)

É duplamente simbólica a escolha, por consenso, do militante dos direitos humanos Joachim Gauck, 72 anos, como o próximo presidente da Alemanha, após a renúncia do ex-presidente democrata-cristão Christian Wulff, 52 anos, imerso numa nuvem de acusações de corrupção, favorecimentos ilegais e constrangimento à imprensa.

Gauck, pastor protestante nascido na ex-Alemanha Oriental, cujo pai sofreu os horrores do Gulag soviético na Sibéria, era dissidente do regime comunista e, em reconhecimento a seus serviços e sua bravura, com a reunificação da Alemanha, em outubro de 1990, foi eleito pelo Parlamento como o chefe da agência que apurou os crimes cometidos pela Stasi, a horrenda polícia política alemã-oriental.

Sua escolha uniu todos os partidos políticos da Alemanha – a União Democrata-Cristã (CDU) da chanceler Angela Merkel, seus aliados da União Social-Cristã, a CSU (partido só existente na Baviera) e do Partido Liberal (FDP, bem como os oposicionistas Partido Social-Democrata (SPD) e os ecologistas reunidos na Aliança 90/Verdes.

Na eleição de Wulff, em 2010, Merkel apoiara o presidente agora renunciante contra o próprio Gauck, que não tem partido mas alinha-se em geral à esquerda do espectro político alemão. A popularidade de Gauck, tido como político de honradez inatacável, contribuiu para a chanceler apoiar sem restrições o antigo oponente.

O duplo simbolismo vem do fato de que, além de significar um raríssimo consenso entre os políticos alemães, a escolha de Gauck representará um caso inédito na história da Alemanha reunificada: tanto o presidente da República – que detém poucos poderes, mas se supõe que seja um centro irradiador de moralidade pública e moderação — como a chanceler (primeira-ministra) são políticos oriundos da ex-Alemanha comunista.

Merkel, 57 anos, nasceu em Hamburgo, na então Alemanha Ocidental, mas transferiu-se meses após o nascimento para a pequena Templin, na Alemanha Oriental, para cuja paróquia seu pai, pastor luterano, foi transferido. Ela criou-se, estudou e formou-se em física na Alemanha Oriental e lá viveu até a reunificação, em 1990.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

catorze − nove =

Nenhum comentário

Ricardo Salazar em 25 de fevereiro de 2012

os políticos alemães são um bando de FDP. Todos eles? Os milhares de senadores, deputados, conselheiros municipais, deputados estaduais, prefeitos? Todos eles?

Willer Stedt em 24 de fevereiro de 2012

Setti, o apoio de Merkel ao Gauck saiu na base da briga, Merkel não o queria de forma alguma, existem uma série de motivos para isto. A volta de Gauck ao cenário político alemão é providencial e ele é garantia de dias turbulentos aos políticos alemães, dono de uma coragem civil exemplar, emocional, coerente e ao contrário do que pensam, claramente um Liberal antes de um socialista, ele promete ser o fiel da balança em questões complicadas que passam desde a intervenção militar alemã dentro da OTAN em cenários de conflitos internacionais até a aprovação de pacotes financeiros com implicações europeias(Grécia). Merkel teme perder o brilho contra o carismático orador, teólogo e ativista político Gauck. Na verdade os índices de aprovação deste senhor entre a população do país transformam a eleição, que é restrita à um colégio pequeno, praticamente num plebiscito, isto Merkel tentou evitar de toda a forma indicando outros candidatos, fazendo bloqueio contra a nomeação do teólogo, até ser colocada contra a parede pelo partido júnior da coalização governista que encabeça, os liberais do FDP. Tudo isto é estranho aos olhos dos brasileiros, mesmo os motivos quase banais(numa escala brasileira) que motivaram a derrubada de Wulff fariam políticos de Brasília darem gargalhadas, mas o jogo político que vemos em Berlim é no mínimo emocionante, tanto pelos lances complicados e embebidos em inteligência dentro da arena dos partidos como pelo nível do debate que toma os espaços das mídias, sem comentar o padrão moral que serve de pano de fundo para o desenrolar desta sucessão presidencial. Parabéns pelo Zeitgeist que você demonstrou ao comentar este caso. Obrigado por seu comentário e por sua contribuição, caro Willer. De fato, você tem toda razão quanto aos fatos que derrubaram o ex-presidente Wulff: eu deveria ter incluído que, no Brasil, suas faltas provocariam gargalhadas -- infelizmente. Ainda bem que a Alemanha é um país sério. Um abração -- e volte sempre.

Franco Vítor em 24 de fevereiro de 2012

A Alemanha nazista era guiada por um líder de direita.

Varlice em 24 de fevereiro de 2012

'A popularidade de Gauck, tido como político de honradez inatacável, contribuiu para a chanceler apoiar sem restrições o antigo oponente.' Quantos temos aqui com tal perfil? Honradez inatacável.

Angelo Losguardi em 22 de fevereiro de 2012

Nossa, meu português no comentário anterior foi cruel. Pena que não dá pra editar rsrsrs

Angelo Losguardi em 22 de fevereiro de 2012

Enquanto isso, o pessoal do pt sonha pra implantar aqui aquele regime de horrores dos quais ninguém na Alemanha tem saudades (exceção feita aos psicopatas).

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI