Artigo de 2002: Ex-financiador de campanhas agora entoa mantras

Artigo de 2002: Ex-financiador de campanhas agora entoa mantras Foto: domínio público

E mais: a organização do comitê paulista do PT, Mantega e os investidores, Lula e FHC na mesma entidade, Aldo Rebelo e os diplomas, o não-voto de Erundina, Berzoini fazendo a ponte e números espantosos sobre segurança privada em São Paulo

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O grande ausente da campanha eleitoral em São Paulo é um personagem de perfil público discreto, mas que, como lobista, fez história na política do Estado. Trata-se de Roberto do Amaral, 65 anos, ex-diretor e por mais de 30 anos funcionário da empreiteira Andrade Gutierrez.

Na Andrade, como a empreiteira é conhecida, ele estabeleceu relações, algumas muito fortes, com boa parte dos políticos importantes de São Paulo, prestou favores a torto e a direito e arrecadou dinheiro para campanhas eleitorais de diferentes partidos. Simultaneamente, ajudou a Andrade Gutierrez a conquistar obras colossais. Entre outras, parte da Rodovia dos Trabalhadores, hoje Ayrton Senna, uma esplêndida estrada estadual em duas pistas de concreto que corre paralela à federal Via Dutra, no governo biônico de Paulo Maluf (1979-1982); o ramal Avenida Paulista do metrô da capital, no governo Orestes Quércia (1983-1987); e um dos grandes túneis viários construídos durante a administração do prefeito Jânio Quadros (1986-1989).

Um levantamento feito no ano passado pela revista Veja mostra que, entre as gentilezas distribuídas por Amaral a políticos, constam inúmeros vôos grátis para Quércia, seu sucessor, Luiz Antônio Fleury Filho e Maluf num dos catorze aviões executivos que a empreiteira chegou a possuir entre os anos 80 e os 90. Vez por outra, até o hoje presidenciável e quase presidente Luiz Inácio Lula da Silva – para cujas campanhas a Andrade Gutierrez, aqui e ali, contribuiu – teria estado a bordo dos jatinhos. Na luxuosa sede de sua fazenda Guanabira, em Bananal, no interior paulista, ele recebia e hospedava poderosos. Foi lá que Fleury, depois da campanha eleitoral de 1990, descansou junto com a mulher, Ika.

Amaral se aposentou em 1998 e transferiu-se para Paris. Mesmo ausente, aparecia de vez em quando no noticiário, como ocorreu no ano passado, quando publicou um vasto anúncio em linguagem cifrada em jornais de São Paulo, cheio de referências maliciosas, comunicando a realização de uma missa pela morte de seu sucessor na empresa, José Rubens Goulart Pereira – que estava vivo e forte no cargo. O anúncio ainda citava Quércia, Maluf, o pianista João Carlos Martins (ex-arrecadador de fundos para Maluf) e dois sócios da empreiteira, além de pessoas a quem ele deu apelidos cujo significado depende de quem interpreta.

Agora, amigos de Amaral informam que ele mudou de rumos. Trocou Paris por uma finca no interior da Espanha, teria se convertido ao budismo, raspado a cabeça e engordado enormemente, batendo nos 170 quilos. Passa boa parte dos dias meditando e entoando mantas.

Parece banco

Os convidados de fora do Rio de Janeiro para o evento em que Lula apresentou seu projeto para a área cultural diante de quase duas mil pessoas na segunda-feira, 21, no Canecão, receberam passagens de avião, de ida e volta, e, em caso de necessidade, hospedagem em hotel. As passagens e vouchers foram emitidos e entregues pela agência BB Tur, do Banco do Brasil – que, para isso, venceu uma concorrência feita pelo comitê de Lula.

Impressionado com a organização do comitê, um intelectual de São Paulo que esteve presente ao evento comentou:

– Parecia coisa do BankBoston.

Com medo de Lula

À parte a brigalhada sobre se existe ou não “terrorismo eleitoral” de membros do governo FHC contra a perspectiva da já praticamente certa eleição de Lula, e deixando de lado os ataques a um governo petista desferidos pelo tucano José Serra, o fato é que investidores estrangeiros de grande peso que se encontraram recentemente com dirigentes do PT saíram de cabelos em pé.

Um grande banco europeu, por exemplo, levou um grupo de clientes para conversas com o presidente do PT, deputado José Dirceu, e o assessor econômico Guido Mantega. É possível que tenha havido questões de clareza e até de tradução na conversa, mas os investidores entenderam de parte dos petistas mais ou menos o seguinte: vamos engolir o programa com o FMI em 2003 porque não tem jeito. Mas, se não der certo, como achamos que não dará, vai ficar nisso. O FMI é parte dos nossos problemas e não das nossas soluções.

Depois de encontro semelhante com Mantega, uma equipe de um grande banco de investimentos americanos relatou a um economista brasileiro ter saído com a impressão de que, se a economia não crescer, existe a hipótese de um governo petista optar por uma suspensão de pagamentos. Mantega, que tem sido extremamente cuidadoso em entrevistas, e negado enfaticamente essa possibilidade, pode ter dito que, se a economia não crescer, a crise de pagamentos viria e a suspensão de pagamentos se tornaria inevitável. Mas os americanos entenderam como uma espécie de repto: ou a economia cresce ou um governo petista pode suspender pagamentos.

Caminho das pedras

Produto de sua experiência, a definição do economista Roberto Macedo, professor da Universidade de São Paulo e da Universidade Mackenzie e ex-secretário de Política Econômica do governo federal, hoje assessor do presidenciável tucano José Serra, pode até ser ouvida como um conselho a um governo Lula:

– Para governar, é preciso saber como fazer para as coisas aparecerem no Diário Oficial. Às vezes, elas somem no meio do caminho.

Lula there

Esta coluna informou recentemente que o presidente Fernando Henrique Cardoso, uma vez fora do poder, vai, entre outras atividades, ser chairman of the board do influente Diálogo Inter-americano (The Inter-American Dialogue), entidade sediada em Washington, dedicada a assuntos do Hemisfério Ocidental e o único think tank na capital americana especializado em América Latina e Caribe (site: www.thedialogue.org).

O Diálogo, de que faz parte, entre outros, o ex-presidente americano Jimmy Carter, recém-agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, foi fundado em 1982 por um grupo de ex-altos funcionários, políticos, acadêmicos e empresários americanos e latino-americanos preocupados com a política belicista do governo Ronald Reagan (1981-1989) na então convulsionada América Central e interessados em oferecer alternativas de política mais construtivas.

Adivinhem quem figura entre os fundadores? Um dirigente metalúrgico chamado Luiz Inácio Lula da Silva.

Pelos com-diploma

Do deputado Aldo Rebelo (PC do P-SP):

– O Lula deveria reagir menos emocionalmente à questão do diploma, até para não criarmos preconceito contra os com-diploma.

 Fico

A ex-prefeita de São Paulo e deputada federal reeleita Luiza Erundina (PSB) decidiu: apesar de sua reaproximação com o PT na atual campanha eleitoral – ela está apoiando Lula desde o primeiro turno e não fez campanha para Anthony Garotinho –, não vai voltar ao partido.

Erundina deixou o PT em 1997, após quatro anos de conflitos internos iniciados com sua decisão de aceitar, no início de 1993, ser ministra da Administração do governo Itamar Franco, ao qual os petistas haviam resolvido fazer uma “oposição propositiva”.

Ponte de Lula com o mercado

Uma eficiente ponte entre Lula e o mercado de capitais é o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP). Engenheiro, funcionário do Banco do Brasil e ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Berzoini figurou em estridentes passeatas de “Basta de FHC e FMI” e fez piquetes em frente a bancos. Elegeu-se pela primeira vez em 1998 com 63 mil votos.

Com Lula já em campanha, este ano, e a fase “Lulinha paz e amor” em vigor, um Berzoini bem menos raivoso tornou-se figura-chave para que o PT apoiasse, no Congresso, a isenção de cobrança da CMPF nas operações de compra e venda de ações na Bolsa. A isenção veio embutida no projeto de emenda constitucional que prorrogou até 2004 a vigência do chamado “imposto do cheque”.

A cobrança era um dos fatores que matava de inanição a Bolsa, e o trabalho de Berzoini acabou sendo um dos fatores de aproximação entre o presidente da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), Raymundo Magliano Jr., e Lula. Berzoini também ajudou Lula no processo de deixar de enxergar as bolsas como “ninho de especuladores” para considerá-las um importante fator de captação de recursos para as empresas. Ele esteve, ainda, entre os articuladores do documento de Lula em favor do mercado de capitais, lançado com grande alarde na semana passada, na sede da Bovespa.

O deputado conseguiu ser reeleito no dia 6 passado com 132 mil votos.

Exército privado 

Os números, espantosos, foram levantados pelo candidato do PT ao governo de São Paulo, deputado José Genoino: chega a 400 mil o total de homens empregados em empresas de segurança privada no Estado.

Esse contingente supera o total das Forças Armadas brasileiras – Exército, Marinha e Aeronáutica –, que mal passa dos 300 mil homens.

 

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