Por Daniel Setti

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Cruyff posa em frente a cartaz de sua fundação, em Barcelona (Foto: Claudio Versiani)

Presença confirmada em 100% das listas dos melhores jogadores da história do futebol; maior futebolista europeu do século XX, segundo a FIFA; ganhador de três Liga dos Campeões da Europa consecutivas (entre 1971 e 1973) com um time até então inexpressivo, o Ajax, da Holanda; cérebro da “Laranja Mecânica”, a seleção holandesa que encantou o mundo na copa de 1974 e que até hoje serve de referência para o jogo bonito e eficiente; melhor e mais vencedor técnico da história do Barcelona – 11 títulos conquistados entre 1988 e 1996 — até a chegada do atual detentor do cargo, Pep Guardiola, seu mais devoto discípulo; ex-presidente de honra do clube catalão; sinônimo de futebol ofensivo e guru inspirador do maravilhoso Barça atual.

Com um currículo assim, qualquer um sentiria pelo menos uma grande tentação em se acomodar. Não é o caso do grande Johan Cruyff, 64, nascido em Amsterdã, na Holanda, justamente o personagem descrito no parágrafo acima. Independentemente do que já tenha conquistado esportiva ou financeiramente, El Flaco (“O Magro”), como era conhecido na Espanha nos tempos em que vestia a eterna camisa 14, quer mesmo é continuar aguçando suas inquietações.

E não só por manter a língua e a ponta da caneta afiadas nas entrevistas que concede ou nos artigos que escreve toda segunda-feira para o jornal El Periódico, de Barcelona, onde vive até hoje.  Cruyff trabalha também, com extrema dedicação, a favor de um elemento que quase ninguém considera parte do esporte: a educação.

Uma fundação ativa em vários países – inclusive o Brasil

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Por meio da Fundação Johan Cruyff, há 16 anos o ex-craque que encantou o mundo busca parceiras com prefeituras e empresas de cidades de diversos países do mundo para construir campos de futebol com infraestrutura adequada em bairros menos favorecidos. O objetivo é educar, divertir e integrar jovens, dando particular atenção aos os que possuem deficiências.

“Nós educamos os usuários, e eles passam a cuidar do próprio campo”, explicou Cruyff a este repórter, na sede da entidade em Barcelona, durante entrevista que teve trecho publicado pela Revista da ESPN Brasil em sua edição de janeiro (leia a matéria completa aqui). “Depois de tantos anos de experiência, os mais velhos do bairro passam a querer participar. Isso faz de tudo muito melhor”.

A fundação conta com a ajuda de outras associações, mas também investe o dinheiro do próprio patrono nos projetos. Só na Holanda, onde recebe apoio de uma porção de compatriotas de peso – Sjneider, da Inter de Milão, e Robben, do Bayern de Munique, quiseram o projeto em suas cidades –, já inaugurou 110 campos, marcando presença também em países como Marrocos e África do Sul e tendo aberto um no ano passado em Ermelino Matarazzo, bairro com grandes carências na zona leste de São Paulo. “O Brasil tem muito, muito potencial. Tem que ser muito tonto para não aproveitá-lo”, afirma Cruyff.

O Instituto Cruyff

Para Cruyff, o esporte ainda não recebe da sociedade um tratamento digno na maioria dos países. “Nos Estados Unidos você vai para a Universidade por fazer esporte, enquanto na Europa ou na América do Sul, estudar e praticar esportes ao mesmo é tempo é impossível. É um absurdo”, aponta

Obcecado pela ideia de que os esportistas têm que ter instrução para poder ser pessoas produtivas e responsáveis durante e depois da carreira, há doze anos o jogador criou também o Instituto Cruyff, que forma especialistas em gestão esportiva.

O instituto, com sedes na Holanda, na Espanha, no México, no Peru e na África do Sul – e mais projetos desenvolvidos junto a organizações de países como Brasil, Equador e Estados Unidos – , oferece um mestrado com duração de um ano, ou 250 horas de aula, além de programas de ensino virtuais. Em 2010, 1500 alunos participaram dos diferentes cursos ministrados pela organização.

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O número 14 em ação na Copa de 1974: massacre de 4 a 0 na forte Argentina — com dois gols dele

No Brasil, 20 ex-craques da seleção estão abaixo da linha de pobreza

Uma das prioridades do instituto é ajudar ex-atletas a ter atividade produtiva (e rentável) depois que deixam de competir. “A maioria dos frequentadores de nossos cursos é formada por ex-esportistas, não só do mundo do futebol”, explica o holandês. “Os ex-jogadores de futebol são os mais difíceis, ganham muito dinheiro. Sempre você pode gastar e dinheiro para viver bem, mas jogar dinheiro fora é absurdo”.

A preocupação do inesquecível número 14 com seus colegas que dependuraram as chuteiras acentuou-se com o que ele constatou no Brasil. Diz Cruyff: “Com nossas organizações, estivemos em São Paulo. Os números são chocantes. Por exemplo, entre 80 ex-jogadores que já haviam participado de alguma Copa do Mundo, cerca de 15, ou seja 20%, se encontravam abaixo da linha de pobreza! E estou falando do país do mais alto nível [futebolístico]. É um desastre total, não só para o jogador, mas para qualquer criança que o tenha como um herói e o veja caindo”.

Palavra de um herói — que, com sua atual atividade, na qual não revela quanto coloca do próprio bolso, continua sendo um exemplo.

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1 comentário

Marco em 20 de setembro de 2011

Amigo Setti: Bonito exemplo de quem não só queria vencer nos campos, mas tbm d querer a vitória em cidadania ! Abs.

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