Artigo de 2005: Fala à Zagalo de Lula não cala perguntas incômodas

Artigo de 2005: Fala à Zagalo de Lula não cala perguntas incômodas Lula discursa em Garanhuns-PE, em 3 de agosto de 2005 (Foto: Ricardo Stuckert)

E mais: a estratégia de Dirceu, Chávez tentou ajudar Sayad, o PT pagando advogados de Delúbio e Silvio, Severino e o STF, o “Delúbio tucano”, o festival de esquivas das CPIs, um recado de Bush a Lula, a comédia Valdemar Costa Neto e os números do goleirão Dida

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A estridência do presidente Lula continua – agora é a fala à Zagalo do “vão ter que me engolir” em 2006, proferida em sua cidade natal, Garanhuns (PE). Ir às classes C, E e E, clamar ao povão que a elite pretende enxotá-lo, fazer-se de vítima, lembrar praticamente todo dia a figura de sua falecida mãe… Sua estratégia demagógica segue firme.

Em contrapartida, é crescentemente incômodo o silêncio do presidente sobre pontos realmente relevantes da onda de escândalos que assola o PT e o governo, a começar do absoluto mutismo sobre a mãe de todas as questões: afinal, ele sabia ou não do suborno do “mensalão” pago a deputados para apoiarem o governo?

A essa pergunta-chave somam-se dúvidas adicionais sobre o papel do presidente, algumas delas vindas na esteira do longo do depoimento do deputado José Dirceu (PT-SP) ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados nesta terça, 2, e da subseqüente troca de estiletadas com o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Veja nas notas seguintes.

A missão a Portugal

Jefferson, em sua intervenção no Conselho, atribuiu a Dirceu a iniciativa de um encontro no Palácio do Planalto entre Lula e a direção da multinacional Portugal Telecom. Depois, insinuando alguma participação do presidente, trouxe a tiracolo a afirmação de que, com base em acordo feito com Dirceu, dois emissários – um do PT e outro do PTB – teriam ido a Lisboa negociar com a empresa uma operação para quitar dívidas dos dois partidos. Os emissários seriam Marcos Valério, pelo PT, e o tesoureiro do PTB, Emerson Palmieri.

Numa conversa com a “Folha de S. Paulo” cujo teor pedira para não publicar, mas que acabou liberando, Jefferson deixou as insinuações de lado e claramente afirmou que o presidente Lula “sabia de tudo”.

Sabia?

Dívida do presidente

A documentação sobre uma retirada feita no Banco Rural no dia 30 de dezembro de 2003, incluindo cópia do cheque número 413794 – de numeração próxima à de outros cheques comprovadamente destinados ao caixa 2 do PT – desapareceu dos arquivos da CPI dos Correios. E continua sem resposta a indagação sobre quem pagou uma dívida de 29,4 mil reais do presidente Lula com o PT no final de 2003.

Quem foi?

Dívida de campanha

Beneficiário de depósitos no total de 457 mil reais, segundo lista entregue pelo empresário Marcos Valério à Polícia Federal e ao Ministério Público, o secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional, Márcio Lacerda, informou que o dinheiro se destinou a quitar uma dívida contraída no segundo turno da campanha do presidente em 2002. A dívida seria com uma agência de publicidade que prestara serviços à candidatura do hoje ministro da Integração, Ciro Gomes (PSB), e que, no segundo turno de 2002, integrou-se à campanha de Lula, cujo nome Ciro apoiou.

Lula sabia?

Dirceu e sua estratégia

Haverá mil interpretações sobre os objetivos ocultos do deputado José Dirceu no depoimento ao Conselho de Ética, mas não há dúvida entre gente que sabe o que diz de que, entre outras coisas:

1. Dirceu vai levar até onde for possível a luta pelo mandato, inclusive ao Supremo Tribunal Federal

2. Ele está incluído na turma que quer empurrar toda a culpa pelo escândalo do “mensalão” para determinados dirigentes do PT, embora fossem, todos, homens de sua confiança pessoal.

3. Não se deve excluir a possibilidade de, no curso do processo, seus advogados contestarem uma decisão do Conselho de Ética a seu respeito, uma vez que permaneceu licenciado do cargo – como ministro-chefe da Casa Civil – e, portanto, não integrava os quadros da Câmara durante todo o período em que se teria armado o esquema do suborno do “mensalão”.

Chávez tentou ajudar Sayad

Fracassou uma manobra de última hora do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para salvar a candidatura do economista e ex-ministro do Planejamento João Sayad à presidência do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID), no dia 27 passado.

Em troca de indicar um dos vice-presidentes da instituição se Sayad fosse eleito, Chávez se comprometeu com o presidente Lula a despejar no economista, além do voto da Venezuela – que para isso retirou seu candidato, o ex-ministro das Finanças José Alejandro Rojas –, os de quatro países caribenhos previamente comprometidos com Caracas, de quem compram petróleo abaixo do preço do mercado internacional.

Pressões americanas, no entanto, fizeram com que os quatro votassem no candidato preferido dos Estados Unidos, Luís Alberto Moreno, ex-embaixador da Colômbia em Washington. Moreno, como se sabe, venceu a disputa, com 26 votos (20 de países das Américas, 6 de outras nações associadas ao BID) contra 11 de Sayad (7 de países das Américas, 4 de nações não-regionais, inclusive Portugal).

Rever o triunfalismo

A votação de Sayad – um economista respeitado, cuja reputação e nome não estavam em jogo – deveria fazer o governo meditar sobre sua postura triunfalista em política externa. Países do Mercosul, como o Uruguai e o Paraguai, votaram no candidato colombiano. A Alemanha, suposto “grande aliado” do Brasil na luta – dificílima e inglória – pela ampliação do número de membros permanentes no Conselho de Segurança da ONU à revelia da vontade dos EUA, se absteve.

A derrota de Sayad é o segundo revés do Brasil em organismos multilaterais neste ano. Em maio, o francês Pascal Lamy foi escolhido o novo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), após derrotar três candidatos, incluindo o embaixador brasileiro Luiz Felipe Seixas Corrêa.

Nada mais natural, pois, que o jornalista Elio Gaspari baixe o sarrafo no governo Lula que, diz ele, “meteu-se numa diplomacia de nós-ganhamos-eles-perderam e agora se vê na zona de rebaixamento, acumulando a maior galeria de fracassos da história do Itamaraty”.

CPIs

Nunca tantos disseram tanto que não conhecem tanta gente e não sabem de tanta coisa.

Conhecimento de causa

Quando vociferou contra o deputado José Dirceu no Conselho de Ética e atribuiu ao ex-chefe da Casa Civil poderes que Dirceu sistematicamente negava, o deputado Roberto Jefferson falava com conhecimento de causa.

Pois pelo menos uma das gravações de conversas telefônicas de integrantes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) ligados a Jefferson, feitas com autorização judicial pela Polícia Federal e reveladas pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, mostra dois agentes extremamente preocupados com a possibilidade de mudança em postos-chaves da corporação no Rio, por “cobrança da Casa Civil”.

Aparentemente se tratava de cobrança do bem: as gravações, que incluem telefonemas do próprio Jefferson, revelam um vasto esquema de ilegalidades, começando pela liberação, mediante propina, de cargas apreendidas.

Por que será?

Se traíram a confiança do PT, por que mistérios o PT é que está pagando os advogados de Delúbio Soares e Silvio Pereira?

Ao Supremo contra Severino

Vai haver briga feia no Supremo Tribunal Federal (STF) se o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), cumprir o que promete e não submeter ao plenário pedidos de cassação de mandatos de deputados envolvidos no recebimento do suborno do “mensalão” que eventualmente venham a ser propostos pelo Conselho de Ética antes da conclusão da CPI dos Correios.

É uma das atribuições precisas e específicas do Conselho sugerir cassações de mandatos por falta de decoro parlamentar. Severino quer primeiro esperar as conclusões da CPI dos Correios – que poderá estender-se até janeiro. Vários parlamentares da oposição já deixaram claro que não vão se conformar com a decisão de “segurar” durante tanto tempo as cassações e o clima de crise.

Nada de “questão interna”

E o Supremo não deverá recusar-se a decidir a pendenga, já que deixou de ser cláusula pétrea da vida política do país a suposição de que o tribunal não atua em casos que muitos políticos consideram tratar-se de “questão interna” do Congresso. Isso ficou comprovado pela decisão do STF que mandou o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), instalar a CPI dos Bingos – a mesma que, por boicote dos líderes partidários pró-governo, tinha sido mandada para o arquivo por seu antecessor no cargo, José Sarney (PMDB-AP).

Nariz pra cima

Apareceu finalmente um nariz empinado no banco de testemunhas da CPI dos Correios: essa Simone Vasconcelos, diretora administrativo-financeira da agência SMP&B, de Marcos Valério, não é brincadeira. Diante de sua atitude em várias passagens do depoimento desta quarta-feira, 3, faltou a integrantes da CPI a firmeza exibida aos borbotões perante testemunhas mais frágeis.

O Delúbio tucano

Com toda sua aura de respeitabilidade, avaliada até pelo sempre ácido ministro Ciro Gomes, o senador Eduardo Azeredo (MG), presidente do PSDB, está simplesmente providenciando um Delúbio Soares ao empurrar para Cláudio Mourão da Silveira, seu ex-secretário de Recursos Humanos e Administração no governo de Minas e, posteriormente, tesoureiro de sua frustrada campanha para a reeleição em 1998, a responsabilidade pela existência de um caixa 2.

Autoridade moral

O depoimento espontâneo de Eduardo Azeredo à CPI dos Correios não deve eximi-lo de comparecer novamente à CPI como convocado e de, eventualmente, enfrentar o Conselho de Ética do Senado, sob pena de retirar qualquer autoridade moral aos tucanos na atual crise.

O recado de Washington

Embora programada desde 2003, a visita ao Brasil do secretário do Tesouro americano, John Snow, representou uma oportunidade de ouro para o governo George W. Bush dar o recado, claríssimo para bons entendedores, sobre a crise: o importante, para Washington, é “o bom conjunto de políticas públicas” adotadas pelo governo brasileiro.

O presidente Lula “abraçou o palco do mundo”, o presidente Bush é “amigo” de Lula e tudo o mais – mas o principal não é Lula, e sim “o bom conjunto de políticas públicas” que o governo brasileiro adotou, e que Washington espera que continue abraçando.

Livre, leve e solto

A aguardada renúncia ao mandato do presidente do PL, o agora ex-deputado Valdemar Costa Neto (SP), não é nefasta apenas pelo estouro da boiada que pode significar entre a grande manada de parlamentares suspeita de embolsar (e adicionalmente, no caso de Costa Neto, de distribuir) o suborno do “mensalão”. E também não somente por assegurar a impunidade eleitoral do ex-deputado que, de posse dos direitos políticos, tem o direito de tranqüilamente candidatar-se de novo nas eleições de outubro do ano que vem.

Aos olhos do público, a renúncia não significará, na prática, mudança alguma na vida do ex-deputado. Costa Neto continuará vivendo na mansão nababesca que montou para o PL às margens do Lago de Brasília e despachando das dependências do PL no Congresso Nacional, prosseguirá orientando a bancada do partido e mesmo, como é direito de ex-deputados assegurado no Regimento Interno da Câmara, poderá circular livremente pelos plenários da Casa e do Senado.

Quáquáquá

Qualquer pessoa que tiver convivido dez minutos com o ex-deputado Valdemar Costa Neto não tem outra reação a não ser cair na gargalhada diante do argumento por ele apresentado, no discurso de renúncia à Câmara, para seu partido ter embolsado 12 milhões de reais de dinheiro escuso: “Fui induzido ao erro quando aceitei receber recursos (…) sem a devida documentação que oficializasse a doação”.

Amigo é coisa pra se guardar

Não conhece limites a generosidade do empresário Marcos Valério, aquele que empresta mais de 50 milhões ao PT porque, afinal, o amigo Delúbio Soares pediu.

Quer dizer que o tesoureiro do PTB, Emerson Palmieri, o acompanhou na misteriosa viagem a Lisboa – em vôo de primeira classe da Varig – apenas por ser seu “amigo” e por estar “estressado”?

Tem “mensalão” na Receita

Leitor desta coluna, o jornalista Jones Rossi, de São Paulo, lembra que quem inventou a palavra “mensalão” não foi nem o pessoal do PT acusado de subornar deputados de outros partidos para votar com o governo nem o responsável pela revelação do escândalo, o deputado Roberto Jefferson.

“Mensalão” – claro que com acepção bem diferente – é velha invenção da Receita Federal. Diz o site da Receita: “O recolhimento complementar (mensalão) é um recolhimento facultativo que pode ser efetuado pelo contribuinte para antecipar o pagamento do imposto devido na Declaração de Ajuste Anual, no caso de recebimento de duas ou mais fontes pagadoras pessoa física e jurídica, ou mais de uma pessoa jurídica. (…)”.

Se quiser conferir, clique aqui.

Números relevantes

Os 40 milhões de habitantes do Estado de São Paulo constituem uma população superior à de 178 dos 207 países existentes no mundo.

Números irrelevantes

Mede quatro metros de diâmetro a escultura “Meteoro”, de Bruno Giorgi, que enfeita o espelho d’água do Palácio do Itamaraty, em Brasília.

Dida entre os 10 mais

Se nada de anormal ocorrer e o goleiro Dida, titular da seleção brasileira de futebol, vestir como sempre a camisa 1 contra a Croácia no amistoso programado para o próximo dia 17, em Split – bela cidade de 17 séculos e 200 mil habitantes às margens do Adriático –, ele passará a ocupar sozinho a posição de 10º jogador que mais atuou pelo time amarelo em todos os tempos, com 82 partidas.

Dida, que já supera em um jogo o ex-goleiro Leão, deixará para trás agora o atacante Jairzinho “Furacão” e o zagueiro Aldair, ambos com 81 partidas.

Ilegal não, mas…

É provável que nada tenha de ilegal o depósito de 70 mil reais realizado em 2004 pela empresa SMP&B, de Marcos Valério, em favor de uma entidade de magistrados federais – a Associação dos Juízes Federais da 1ª Região (que abrange o Distrito Federal e 13 Estados). Afinal, o dinheiro se referia a um convênio de patrocínio firmado entre a entidade e os Correios, empresa responsável pela ordem de depósito – e é normal que o pagamento de patrocínios seja feito pela agência de publicidade que detém a conta da empresa patrocinadora.

… conflito de interesses, sim

O que há de realmente cabeludo na história é que os magistrados não deram sinal de perceber estarem diante de um episódio clássico de conflito de interesses. O patrocínio se destinou a cobrir parte dos custos – como passagens aéreas, hospedagem e refeições – do evento denominado “Encontro de Estudos entre Desembargadores e Juízes – Ação Promocional”, gostosamente programado para se estender por seis dias na Costa do Sauípe (BA).

Ora, os Correios, como empresa, são parte em incontáveis ações que juízes e desembargadores federais do DF e de 13 Estados julgam. Como ostentar isenção ante a parte contrária, se os Correios ajudaram a financiar o evento jurídico-social no litoral baiano?

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