Amigos, é impressionante a massa de informações positivas que se publicam sobre a China, seu crescimento espetacular, a saída da miséria de centenas de milhões de seus cidadãos, seu progresso tecnológico, seu futuro econômico mais do que promissor.

Claro que também se abordam aspectos repelentes da ditadura do Partido Comunista, sua perseguição aos dissidentes, com “técnicas” que vão da tortura ao sumiço, passando pelos enforcamentos “legais”, seu controle absoluto sobre os meios de comunicação, a ausência de direitos civis — e por aí vai.

Mas eu diria que as notícias positivas prevalecem de forma esmagadora.

Vamos a um exemplo: a 13 de fevereiro anunciou-se no mundo inteiro que a China havia ultrapassado o Japão em tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) e passou a ser a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Mesmo o Japão tendo saído de uma pasmaceira de mais de dez anos e crescido sólidos 3,9% em 2010, a China engordou em 10,3% seu PIB, que passou a 5,8 trilhões de dólares, contra 5,4 trilhões do PIB japonês.

No mesmo dia, poderia igualmente ter sido anunciado, porém, que o PIB per capita do Japão — que dá conta do bem-estar do povo japonês — é quase 5 vezes maior do que o da China, que neste quesito está atrás de 93 países do mundo, do Equador ao Azerbaijão.

Pois vamos falar um pouco do lado ruim da China.

“Proteção do patrimônio histórico” que é censura e sufocação

Vocês viram as novas diretrizes que o governo chinês colocou em vigor dias atrás para os meios audiovisuais, “com o objetivo de proteger o patrimônio histórico do país”?

Essa “proteção” é, na verdade, mais um elemento de censura e sufocação para a cultura chinesa. Vejam só:

O governo chinês, estabelecem a certa altura as tais diretrizes, “desalenta os roteiros que contenham elementos de fantasia, compilações a esmo de históricas místicas, tramas bizarras, técnicas absurdas e inclusive a propaganda de  superstições feudais, fatalismo e reencarnação, lições moralmente ambíguas e falta de pensamento positivo. Além do mais, os dramas não devem incluir personagem que viagem ao passado e reescrevam a história”.

Vocês já imaginaram o pobre roteirista de cinema ou de TV na China tendo que imaginar se está ou não escrevendo algo que contenha “técnicas absurdas”, “lições moralmente ambíguas” e “falta de pensamento positivo”?

Treva, treva, treva.

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6 Comentários

freetibet em 26 de abril de 2011

Eu,como uma formiguinha, vou cotucando o elefantão trevoso. Alguém ainda lembra do pequeno TIBET LIVRE, literalmente esmagado, ocupado e transformado em uma reles província esquecida? Você tem toda razão. Uma barbaridade, e um genocídio cultural, com a forçada "chinesação" do país invadido e conquistado.

José Geraldo Coelho em 26 de abril de 2011

A China nunca vai se livrar da pior miséria do mundo. A miséria cultural.

duduvieira10 em 25 de abril de 2011

"Entre a Cruz e a Espada", Penso meu prezado R. Setti, evidente que a China não é um exemplo de democracia, mas fica aquele eterna dúvida: Seria melhor a didura de Mao (o da grande marcah) que massacrou o povo em 50 anos e o povo continuou na miséria, ou essa que colocou a China como a Noiva que todo mundo quer casar, que nãos seja uma democracia mas o seu povo está feliz. Devemos olhar para o nosso umbigo! E a nossa democracia? Tudo funciona livre, mas Brasília o Congreso é um bom exemplo? E a violência rural e urbano onde morre centenas diariamente sem estarmos em guerra por omissão, negligência ou ausência do ESTADO é um bom exemplo? É a democarcia que queremnos? Não saberia dizer meu caro Sr. Setti!! sds.

Elisa Cristina em 25 de abril de 2011

Éééééé.....Dados estatísticos devem ser lidos e interpretados, comparados, analisados, criticados. Nosso nível de alfabetização também deve ser medido a partir das operações mentais utilizadas no momento em que lemos tabelas e gráficos ( e outros estilos de textos ). Pobres chineses. Quanta manilulação da história de um povo com um passado tão rico !!!! Elisa Cristina Excelente artigo, Ricardo. Obrigado, cara Elisa. Abração

lll em 25 de abril de 2011

Meu Deus, o que seria de Martin McFly na China?!

Jotavê em 25 de abril de 2011

Pois é. O caso da China dá mesmo o que pensar. Não apenas porque o NOSSO juízo a respeito deles envolve uma certa tolerância com o desrespeito aos direitos humanos, mas principalmente porque o juízo que ELES PRÓPRIOS parecem fazer sobre o regime em que vivem parece envolver o MESMO grau de tolerância. Mais ainda, esta última não parece se explicar APENAS em termos das possíveis consequências do protesto - assim como a aprovação QUASE UNÂNIME do regime autoritário no Brasil não se explicava apenas em termos de ignorância, medo, ou de uma mistura das duas coisas. Havia no Brasil, e parece haver na China, um apoio motivado pela percepção de prosperidade e pela desconfiança (em grande parte BEM fundada) de que essa mesma prosperidade não seria possível, dadas as circunstâncias, em ambiente democrático. Não sou economista, mas meus amigos economistas me dizem que taxas de câmbio dóceis pressupõem um tipo de controle de que um país democrático simplesmente não dispõe. Se queremos olhar o monstro nos olhos, precisamos estar prontos para a admissão de que ditaduras podem, sim, ser vantajosas do ponto de vista econômico e gerencial. Numa país com as dimensões e a diversidade cultural e étnica da China, centralismo é artigo de primeira necessidade. Está dando bons frutos. O povo apoia. Nenhum brasileiro com mais de 50 anos tem o direito de dizer que não conhece essa história. A liberdade é um valor? É claro que sim. É um valor para nós, que vivemos no Brasil redemocratizado, era um valor para os jovens que se reuniram na praça Tiananmen, no final dos anos 80, para a multidão que aplaudiu Médici no Maracanã, ou para os jovens consumistas que andam hoje pelas ruas de Pequim. Essa antipatia pelos grilhões vai além até mesmo do âmbito humano. Nenhum cachorro enfia o pescoço numa coleira se não estiver esperando uma recompensa à altura. Queremos, como qualquer cachorro, ser livres. E, além disso, como seres humanos, reconhecemos nesse desejo um BEM a ser positivamente valorado. Só que não é um bem único, nem absoluro, nem soberano. Essa mentira que começamos a contar para nós mesmos desde o final do século XVIII, e na qual começamos a acreditar piamente, com uma espécie de fervor religioso, desde o final da década de 80, essa mentira, eu dizia, tem que ser denunciada. Temos que começar a tomar a liberdade por aquilo que ela realmente é- um valor entre outros, que deve ser defendido, mas que estará inevitavelmente em perigo caso OUTROS valores igualmente importantes forem esquecidos. Querem um? A paz. Maquiavel sabia bem disso - tudo se cala diante da possibilidade de uma guerra civil. Melhor a violência que instaura a paz do que a violência que perpetua a destruição. Muitas vezes, está é, SIM, a escolha a ser feita. Querem outro valor? A prosperidade. Outros? A igualdade (com todos os seus qualificativos). A justiça. A felicidade. Todos esses valores são, em medidas variadas conforme as circunstâncias, importantes para o ser humano e competem entre si. Quando um deles está em falta, os inimigos do regime vigente irão fazer seus discursos inflamados tomarem esse valor como eixo argumentativo. A liberdade é precondição para a justiça? E quem disse que a justiça não pode ser exibida como uma precondição para a liberdade? A China teria a mesma prosperidade se fosse um país democrático? É uma aposta. Arriscada, eu diria. Poucos chineses parecem estar dispostos a fazê-la. É impossível ser feliz sob uma ditadura? Tome a concepção de felicidade associada à NOSSA sociedade de consumo, e tente encontrar, se puder, um único vestígio de contradição com a ausência de democracia. O que eu quero dizer é que a liberdade é um valor FRÁGIL. Não tem essa força toda que queremos associar a ela. Pode ser facilmente desacreditada numa sociedade que, por qualquer motivo, resolva dar as costas aos demais valores. Não estou dizendo, enfim, que seria desejável que voltássemos aos tempos da ditadura, ou que lutássemos pela instalação de um regime autoritário de tipo chinês. Mas estou dizendo, sim, que um chinês não precisa ser um bobalhão ideologicamente manipulado para ter na boca uma justificação perfeitamente aceitável para o tipo de regime em que vive. E estou dizendo que NÓS precisamos deixar de lado esse discurso baseado na autossuficiência ou primazia ética da liberdade enquanto "valor universal". A liberdade é um valor universal mas APENAS no sentido de que sempre está disposta a subir no ringue para combater seus adversários. Não é universal no sentido de ser imbatível. Olhemos com preocupação para a segurança pública, e para a guerra do tráfico e suas consequências. Olhemos com preocupação para a desigualdade escandalosa na aplicação da justiça em nosso país. Olhemos com preocupação redobrada para a piada em que as promessas meritocráticas se transformam em sociedades desiguais como a nossa. O discurso liberal tem que se reexaminar, e se purgar dos exageros que o entusiasmo com o fim da Guerra Fria acabou produzindo. Se der para compreender que estou defendendo os MESMOS ideais, teremos dado um passo.

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