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Parte do centro de Detroit ainda em condições, ao fundo; em primeiro plano, edifícios abandonados — há espantosos 78 mil mil imóveis vazios (Foto: Detroit Free Press)

De lá saíram um terço de todos os veículos que ainda circulam pelas ruas e estradas do planeta. Mas a outrora orgulhosa Detroit, a durante décadas poderosa Capital do Automóvel, cujo governo solicitou falência na quinta-feira, 18, diante de uma impagável dívida de 18,5 bilhões de dólares, começou a ter problemas já em meados dos anos 50, quando os gigantes automobilísticos General Motors, Ford e Chrysler deixaram de produzir centenas de milhares de veículos de todo tipo para o esforço bélico dos Aliados na II Guerra Mundial.

O processo se acentuou nos anos 70, diante da concorrência da cada vez mais competente indústria automobilística do Japão — e os resultados passaram a bater duro na gigantesca cadeia industrial que terminava nas três grandes montadoras.

Os resultados foram desastrosos para a cidade. Vejam só: da quinta mais populosa dos Estados Unidos em 1950, com 1,8 milhão de habitantes, desabou para o 18º posto, com 700 mil habitantes. 36% da população vive abaixo do patamar da pobreza. A taxa de homicídios é a mais elevada em 40 anos e está em nível do pior Terceiro Mundo: 36 por cada 100 mil habitantes — quase o dobro do Rio de Janeiro, o que a torna a segunda pior cidade dos Estados Unidos nessa matéria, atrás apenas de New Orleans.

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Fábrica da Chrysler fabrica tanques Sherman durante a II Guerra: auge da prosperidade (Foto: ClassicStock / Masterfile)

A cidade atingiu o auge da prosperidade durante e logo após a II Guerra Mundial (1939-1945), quando as três grandes e outras empresas do ramo que não mais existem passaram a fabricar em massa jipes, caminhões militares, veículos de transporte de tropas, tanques e blindados — primeiro para que o presidente Franklin Roosevelt suprisse os britânicos, que enfrentaram sozinhos a poderosa máquina de guerra da Alemanha nazista depois da capitulação da França, em junho de 1940, e, a partir de 1941, para as próprias e gigantescas Forças Armadas dos Estados Unidos.

Agora, porém, outrora colosso virou uma cidade fantasma: há inacreditáveis 78 mil imóveis vazios, inclusive arranha-céus, em boa parte depredados, caindo aos pedaços e frequentados por desocupados e viciados em drogas. O esvaziamento industrial e a fuga da população derrubou dramaticamente a arrecadação de impostos ao longo dos anos.

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Não apenas zonas residenciais, mas áreas industriais inteiras de Detroit foram abandonadas: cidade fantasma (Foto: ballmultimedia.com)

Admiráveis edifícios de outrora são implodidos. Bairros inteiros estão desabitados. Imensas áreas industriais viraram destroços. Constantes guerras raciais e de gangues tornaram tudo pior, e os mais abonados ou se mudaram de Detroit ou vivem em bairros-fortaleza.

Os serviços públicos estão perto do colapso. A polícia demora em média 58 minutos para atender uma ocorrência, quando a média nacional é de 11 minutos e, em muitas cidades de médio e grande porte, o cidadão é atendido em 2 a 3 minutos. Apenas um terço das ambulâncias públicas funcionam.

Por lei, a falência permite certas facilidades de pagamento para o devedor e, no caso de Detroit, que o gerente de Emergências da cidade, Kevyn Orr, responsável ela renegociação da dívida, possa dispor de bens e de reservas da cidade. Mas a decisão de falência tomada pelo governador de Michigan, Rick Snyder, está sendo contestada na Justiça por dois fundos de pensão de funcionários que temem riscos para o patrimônio destinado a aposentados e seguro-saúde.

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15 Comentários

Anônimo em 23 de agosto de 2014

Esforço de guerra pra II Guerra Mundial NOS ANOS 50? Num Delorean?

Luiz em 19 de julho de 2014

Isso pode nos ensinar uma coisa..somos muitos criticos com o Brasil e muito acham que o estados unidos é exemplo de País,sempre comparam com eles..o governo gasta trilhões de Dólares em Guerra,e ajudam até país da África,que não tem problema algum.. olha como esta essa cidade em um país mais rico do mundo ? Eles queriam a Olímpiadas de 2016 que vai ser no Rio de Janeiro,mas não levanta a sua própria cidade,por isso não fico babando pelos estados unidos,sei que lá tem pessoas boas e ruins como aqui,como eu moro aqui e não lá,prefiro ser eu mesmo e valorizar o que aqui tem.

João Batista do Carmo em 19 de julho de 2014

O problema de Detroit é resultado da cegueira e do comodismo que envolve o mundo. Os dirigentes se deixam levar pela inversão de valores e o resultado vem com juros. Ou seja falam bonito, muita teoria mais nada de realizações ou medidas contensivas necessárias.

Maria Luisa em 03 de julho de 2014

Fico impressionada como uma cidade que faz parte dos EUA, chega a este ponto e fico assustada de constatar quanto frágeis somos! Mas pergunto, uma cidade onde predomina a juventude como isto pode acontecer! Não quero pensar que a cor da pele influencia este marasmo como acontece em tantos países africanos...Juro que não sou racista, é apenas uma constatação.

Diih em 24 de junho de 2014

Isto deveria ser o fim a todos e a toda cidade que alimenta e participa guerra. Enquanto vocês buscam respostas materiais, eis que vai além disso..

Ze da esquina em 08 de junho de 2014

a comunidade negra dessa cidade simplesmente perseguiu e expulsou os brancos de la. quem conhece a historia da cidade sabe.

BRUNO_RJ em 16 de fevereiro de 2014

Não publico comentários racistas.

virgulino em 24 de novembro de 2013

muita gente ganhou com a falência de Detroit. vamos perguntar a J.P. Morgan, Goldman Sachs, City Bank, Bank of America, Wall Street... a bolha imobiliária depredou Detroit. a grana está com eles! isso é só o começo... que Deus proteja a America e seu Povo alienado!

Henriette em 02 de novembro de 2013

Não consigo me conformar com isso: uma cidade inteira vazia, população dizimada pelo desemprego, pelas drogas, cada vez mais dominante e o que o governo americano vai fazer para ajudar? Gente, não é possível que não haja nenhuma política pública para ajudar aquela cidade, aqueles 700 mil habitantes que não saíram de lá porque não tem para onde ir! E os grupos empresariais não se interessam por prédios...terrenos estão sendo vendidos a R$1.150,00 ....

Luiz Pradines em 23 de julho de 2013

A ficção se torna realidade: Detroit era a cidade decadente e devastada pelo crime retratada em Robocop.

Paulo Peregrino em 23 de julho de 2013

Caro Ricardo, creio que esse é o mais impressionante retrato de como a falta de planejamento e visão de futuro pode arruinar inclusive uma cidade como Detroit, ex-primeira renda per capita do país. A cidade teve todos os sinais para promover uma diversificação de sua base produtiva e ignorou as mudanças e tendências do mercado. Certamente deve ter atacado os sintomas da queda de receita com aumento de impostos, enquanto os serviços pioravam. Receita certa para gerar um círculo vicioso de esvaziamento, menos arrecadação, mais taxação. Deu no que deu.

David em 23 de julho de 2013

Caro Setti. Parece-me exagerada a afirmação de que taxa de homicídios de Detroit (36 homicídios por 100 mil habitantes) é quase o dobro (100% maior) da cidade Rio de Janeiro (23,5 homicídios por 100 mil habitantes [1]). Na verdade, a taxa de Detroit é 1,53 vezes a do Rio de Janeiro (ou 53% maior). O que mais entristece é constatar que se taxa da segunda pior cidade dos EUA a inclui entre o pior do terceiro mundo, algumas de nossas grandes cidades deveriam ser incluídas em uma categoria a parte. Só para constar - Maceió 94,5; João Pessoa 71,6; Vitória 60,7, Salvador 59,6 e Recife 47,8 homicídios por 100 mil habitantes. Uma lição a se considerar é: não adianta ter um grande parque industrial capaz de montar grandes quantidades de um produto (carros, bicicletas, celulares) se este parque não entregar um produto final de qualidade e a preços competitivos. Além disso, esta é uma mostra de que a globalização não é essa ‘coisa’ que só privilegia os países/cidades desenvolvidos. [1] http://oglobo.globo.com/pais/mapa-da-violencia-2013-brasil-mantem-taxa-de-204-homicidios-por-100-mil-habitantes-7755783#ixzz2ZrfYLbw2 Eu devo ter trabalhado com dados desatualizados, porque utilizei taxa de 18,8 homicídios por cada 100 mil habitantes na cidade do Rio, que ainda estava válida no final de 2012-início de 2013. Quanto à globalização, sua assertiva é verdadeira, mas Detroit começou a desabar bem antes de o fenômeno se dar como tal. Após o boom da II Guerra Mundial, não demorou muito para a cidade começar a ter problemas. Abraço

Marcel em 23 de julho de 2013

O que ninguém fala, todo mundo esconde, 52 anos de governos democratas ininterruptos, é o apogeu de um governo progressista, nem vereadores republicanos tinham chance na cidade,se não me engano só teve um, segundo li por aí. Ah, o mais fabuloso, hoje li na mídia americana, tem uma uma tv lá nos EUA de notícia chamada MSNBC, e não é que teve um apresentador que teve a maior cara de pau do mundo de falar que a cidade faliu por causa de políticas republicanas,sim, falou isso, já está um degrau acima da desonestidade.

Charles A. em 23 de julho de 2013

O grande responsável pelo esvaziamento de Detroit foi o racismo ,uma vez que os negros perseguiram e mataram os brancos, expulsando-os da cidade e extinguindo qualquer chance de recuperação do município.Mas a Prefeitura de Detroit,de maioria negra, sempre poderá recorrer ao governo dilma.O que são 19 bilhõezinhos de dólares para a possante mundial das finanças?É só cumprir as formalidades do BNDES, com juros baixinhos,baixinhos, com a diferença paga pela milionária classe média brasileira.E tudo por mera formalidade.A dívida, depois, será generosamente perdoada pelo divino e engarrafado lulla.A única exigência é Detroit apoiar o pt nas próximas eleições e fazer campanha para lulla, o mestre de todos os mestres,o ganhador de centenas de títulos de doutor honoris causa , ganhar o prêmio Ignóbil de astronomia,pela sua teoria da terra quadrada e apoiá-lo na luta por uma cadeira permanente na ONU - Organização das Nulidades Universais.

Marco em 22 de julho de 2013

D. Setti, Tb deve ter sido por sindicatos ostensivos, tenho quase certeza. É mais ou menos o q ocorreu aqui, com o Paim e o Marcos Maia em Canoas. Abs.

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