União Europeia começa a reagir à ditadura das agências de classificação de risco

Demorou, demorou enormemente, mas finalmente uma alta autoridade dos países ricos bate de frente com as chamadas agências de classificação de risco – essas mesmas que fracassaram estrondosamente ao não prever nada da catástrofe financeira que se abateria sobre o planeta em 2008 e nas quais jovens executivos engravatados, dentro de seus gabinetes refrigerados, decidem sobre a vida e a morte de países, elevando ou baixando o grau do suposto risco que representam para investidores em razão do volume de suas dívidas.

A última proeza de uma dessas agências, a Moody’s, foi a de rebaixar a nota de Portugal, no momento objeto de uma colossal operação de resgate a cargo da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI, o que está provocando um corre-corre entre os mercados, a queda em bolsas de valores e a ameaça de contágio do pânico à Itália, um dos grandes países, e país fundador, da EU.

Diante do fato de que, apesar do fracasso de 2008, a “ditadura” das agências prossegue, implacável, o comissário europeu de Serviços Financeiros, o francês Michel Barnier, propôs endurecer as regras aplicáveis a essas organizações, simplesmente proibindo-as de dar nota aos países que são alvo de um plano de resgate internacional.

Como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também não se mostra satisfeito com os superpoderes dessas agências, seria uma excelente ocasião para podar-lhes as asas.

As agências de classificação de risco, hoje em aparente lua de mel com o Brasil, prejudicaram consideravelmente o pais em passado recente, ao sistematicamente deixarem de lado os progressos que diferentes governos brasileiros realizavam em matéria de responsabilidade fiscal.

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16 Comentários

  • ricardo

    bem merecido pro berluscome e o cartel da máfia de roma…

  • fernando

    Não concordo.
    Para mim isso tem cheiro de censura, ou lei da mordaça internacional. Ninguem é obrigado a acreditar no dizem tais escritóios.

  • Ronaldo

    É, Ricardo.

    Muita ironia.

    A Europa agora está sentindo na pele o que os países em desenvolvimento e pobres sempre sentiram. O mundo dá muitas voltas.

    No entanto, caindo os europeus e americanos, os principais compradores do mundo, caem também os vendedores, Brasil incluído, ainda mais com as contas fora de controle. É esperar pra ver onde vamos parar.

  • Luciano

    Patético, não há ditadura nenhuma. Essas agências são consequência da liberdade de expressão, não há obrigação nenhuma de alguém acreditar ou seguir as recomendações das agências.
    O que você quer Setti, que os governos sejam as únicas agências de avaliação de risco ? Calando a força a sociedade ? Ditadura assim, na cara dura ?
    Quando você resolver defender a liberdade eu volto ao seu antes impecável blog.

    Jornalista só não quer a censura dele próprio, as liberdades dos outros são apenas utilitárias. Ou alguém já viu jornalista contra a ditadura da OAB por exeplo ? a OAB, que impede advogados de exercerem suas profissões com suas provinhas e obrigam, no mais puro stalinismo, seus escravos a pagarem impostos para poderem exercer a profissão.

    Vergonha dessa mentalidade medíocre que assola o Brasil.

    Calma, Luciano, tome uma água com açúcar. Meia dúzia de linhas sobre as agências de avaliação de risco e já sou um censor tenebroso, que faz pouco da liberdade dos outros? Meu Deus, calma.

    Se você leu alguns posts meus até hoje sabe que a última coisa que eu quero é que governos tenham o monopólio de avaliação de risco. Aliás, governos não deveriam ter monopólio de nada, excetuadas as funções típicas de Estado — segurança nacional/Forças Armadas, política externa, segurança pública, administração da Justiça etc.

    Eu me cingi à proposta de um alto dirigente da União Europeia. Essas agências, apesar de desmoralizadas pela sucessão de erros e omissões que cometeram ante a crise de 2008, continuam tranquilamente a produzir pânico nos mercados e o caso específico da União Europeia se atém a que tais avaliações — sabe Deus a montanha de interesses que há por trás delas — sofram restrições durante o resgate a países com problemas, como ocorre agora com Grécia e Portugal, nos quais estão sendo investidos centenas de bilhões de dólares.

    E não me parece que essas agências, manipuladas por especuladores de Wall Street e outras praças, sejam “a sociedade”.

  • Luiz Carlos

    Ué? Ditadura? Quando eles davam palpite aqui no malfadado governo FHC, em que quebramos 2 vezes, eram os gênios das finanças, verdadeiros oráculos de Delfos…todo mundo na imprensa tupiniquim vivia louvando estas agências…agora quando o pau deixa de dar no Chico para dar no Francisco, os caras não prestam mais?? Quando os avaliados estão na metróple a avaliação não tem mais valor?? Nada como um dia após o outro…..

  • Paulo Bento Bandarra

    Não concordo em nada do que dizes. Primeiro, a informação é para dar segurança ao investidor e não quebrar ou favorecer países. Ele tem direito de ser informado para tomar suas decisões, assim como tem direito ao jornalismo para obter informações. Não há diferença alguma. Pior é barrar informações de quem anda mau das pernas para levar investidores a perder, ou, mais provável, provocar a fuga total por falta de informações. A Europa está reclamando porque vive uma verdadeira farra da gastança, da irresponsabilidade fiscal, da ameaça de gastar tanto que o risco de dar o calote vai ficando evidente. Não por sua boas práticas administrativas e governamentais.
    .
    O Brasil esteve com mal cotação pela mesma coisa por décadas. Até mesmo com Sarney se deu calote de verdade. Gastos descontrolados, dívida interna e externa brutal, inflação e juros altos absurdos. Não foi por uma ditadura, mas por uma bagunça mesmo. Passamos com o PT e o Lula pregando virar a mesa e dar calote por 20 anos. Que culpa tinham as agências e os investidores se o país abrigava um candidato de péssimo caracter e político fisiologista?
    .
    A proposta parece semelhante mandar os médicos embora para não nos preocuparmos com os doentes. Não tendo quem diagnostique, parece tudo normal!

  • patricia m.

    Concordo 100% com o Paulo Bento Bandarra. A Europa eh refem das escolhas (erradas) que fez, e agora culpa as agencias de risco… Uma grande bobagem!!!!

  • patricia m.

    Como o Setti outro dia mesmo elogiou as gastancas da Espanha com a saude publica: a Espanha pode gastar horrores com a saude publica mesmo nao dispondo de capital para isso (gastando o dinheiro dos alemaes, por exemplo), e por isso mesmo, PORQUE GASTA ERRADO, deve restringir a acao das agencias de risco. Afinal, como diz o Setti, a Espanha eh pais de primeiro mundo, porque da medicamentos de graca a uma grande quantidade de pobres, nao eh mesmo? Esquece o Setti que nao existe “almoco gratis”. Os 20% de desempregados nao pagam um p*to de imposto de ao governo e consomem tudo… Justo? So na visao (socialista) do Setti…

  • Paulo Bento Bandarra

    Capa de Zero Hora hoje: Ameaça de calote da Itália assusta a Europa! Parece que o problema de saúde não está no termômetro, mas no paciente mesmo.

  • Ailton

    Fiquei perplexo com o fato da China não possuir divida interna nem externa, sua “divida externa” hoje são apenas duplicatas de importações vencíveis a longo prazo( a falta de dividas se dá em boa parte aos salarios baixos praticados, na China um salario minimo vale a U$30,00/mês).
    Será que regimes politicos de base comunista, associado a uma economia capitalista é a saida? Seria isso a QUARTA VIA? A TERCEIRA VIA foi o Neoliberalismo, o que foi um fracasso estonteante. Vemos que todos os países envolvidos na crise de 2008 são de cartilha neoliberal, a maioria deles ainda não se recuperaram, e outros já estão a mergulhar nas recentes crises, como Portugal,Espanha,Grécia, Itália Finlândia e agora o Irlanda.
    A China é um país comunista onde suas empresas particulares e estatais operam com ações em bolsa de valores, operam em suas próprias bolsas de valores, bolsas de valores que eram algo impensável para países comunistas de anos atrás.

    Esse é o caminho? É essa a saida para as economias mundiais? Ser um comunocapialista?
    China por ser um país comunista de economia capitalista, que está a obter grande sucesso economico, em 2014 será a maior economia do planeta, em 2025 dobrará o seu PIB, terá a economia equivalente a dois EUA de hoje, ou seja U$24.0 trilhões de dolares.

  • Ailton

    Europa começam a reagir contra as agência classificadoras, é porque a bola da vez, quando o Brasil era classificado como “lixo”, com 2700pp de riscos, a Europa levava em conta, a seriedade dessas agências, agora são eles a serem classificados, seis países de sua comunidade receberam a classificação máxima para perigo de investimentos, e dois a classificação de extremo riscos, ou seja classificação “lixo”, aí, ficaram magoados, sentidos a com ‘beicinhos’ e muitos ‘muxoxos”. Agora agências não servem mais, agora São ditadoras? Tá bom!
    As agência por serem de maioria americana, são recebidas com suspeitas pela Europa, porém essas mesmas agência classificam a economia dos EUA, como riscos moderados ou 189pp enquanto Brasil recebeu uma classificação de 49pp(um dia já fomos classificados com 2700pp)
    Ora pois! Que Experimentem do seu próprio veneno, um dia eles usaram essas mesmas agência para impedir o crescimento do nosso país.

  • Paulo Bento Bandarra

    Esta manhã, o editor, Políbio Braga, conversou com o economista e ex-secretário da Fazenda do RGS, Aod Cunha, que informou:
    .
    – A crise econômica européia não tem solução, terá efeitos globais, e não se resolverá em menos de 20 anos. É o fim de um ciclo de crescimento econômico global. Culpa do termômetro?

  • Ailton

    Como disse o jornalista Carlos A. Sardenberg (Globo), “-acusar as agências pela crise da Europa, seria o mesmo que acusar o médico por descobrir a doença do paciente”.
    Ele completa, “-a Crise européia existe e não foram as agências que criaram ou causaram”.

    Então, caro Ailton, você é um adepto dessas agências, que tanto acertaram em relação à crise de 2008? Puxa, quem diria, um petista tão convicto…

    O Sardenberg tem absoluta razão em relação à crise da Europa. As agências não causaram, não. Mas o que elas cometeram de besteira e de irresponsabilidade desde há alguns anos…

  • Ailton

    Amigo Ricardo Setti,
    Claro que não, apenas critico pelo fato de só agora a Europa descobrir que essas agência ajudam a destruir ainda mais uma economia já combalida, uma economia mergulhada em dificuldades, como as que vivemos por trinta anos afio.
    Agora ela(Europa) vem dizer que agências só dificultam os seus países de sairem da crise em que mergulharam?
    Eu só questiono o porque de só agora tomarem essa posição com relação a essas agências? Quando elas ‘detonavam’ o Brasil em decadas passadas, a Europa simplesmente aceitava e ainda rezava nas classificações dessas agências para não investir no Brasil ou mesmo não emprestar dinheiro ao nosso país, sob riscos de perder tudo conforme diziam agências.
    Como disse o Sardenbeg, a cise européia existe e não foram as agências que criaram, assim como as nossas crises foram de nossas culpas. Europa agora esta a experimentar desse veneno que usou contra os outros ao dar mais créditos a agências que a propria capacidade do Brasil de sair da crise nos anos noventa.
    Foi isso que eu quis dizer.

  • A. Santos

    Concordo com quase tudo no comentário do Ricardo Setti.
    1ª Conclusão: Existe efetivamente uma crise de dívida soberana em vários países europeus, resultante de políticas radicalmente keynesianas e de um crescimento do consumo interno não indexado à produtividade das economias de muitos (a maioria) dos países da EU. Acresce que estão por fazer algumas reformas estruturais que poderão acrescentar produtividade e competitividade à economia da zona Euro.
    2ª Conclusão: As agências de notação limitam-se a refletir, neste caso, nas suas análises a saúde das finanças públicas dos estados e a capacidade para solverem as suas dívidas. O que é questionável é o timing em que são feitas as avaliações, que sugerem haver uma agenda por detrás. Reparem que, hoje mesmo, o rating da Irlanda foi rebaixado apesar deste país estar a cumprir todas metas do resgate financeiro; na passada semana, o rating de Portugal foi rebaixado antes mesmo do plano de estabilização económica começar a ser executado (?)
    Permita-me acrescentar duas perspetivas complementares que vêm sendo discutidas e que explicam parte do descontrolo e exagero que vem sendo cometido quer por agências de notação, quer pela UE, quer pela apreciação da opinião pública:
    1. Assistimos a uma guerra de moedas (Dólar/Euro) e as agências de notação serão parte interessada no enfraquecimento do Euro? Grande parte dos acionistas destas agências foram severamente penalizados nos últimos anos com a ascensão do euro – isto é um facto.
    2. Os investidores estão a gerar lucro rápido e libertar fundos para atacar “as próximas vítimas”? Quais são os países que mais necessidades de financiamento vão ter nos próximos anos? O crescimento económico dos BRIC e alguns outros (Turquia, África do Sul, etc), até hoje assente em sectores primários da economia só pode ser mantido com uma reestruturação profunda do tecido económico e das infraestruturas (telecomunicações, transportes, redes viárias, plataformas logísticas, etc.), e a ascensão das suas classes médias só é sustentável se a economia destas nações se tornar mais rentável (ver PIB per capita dos BRIC). Para a economia destas nações se tornar mais rentável, como é evidente, necessita de reconverter a sua malha produtiva, apostando em sectores de maior valor acrescentado. O que isto significa? Que estes países vão ser responsáveis por triliões de investimento durante os próximos anos, e, se a China é um caso à parte (pelo vigor do crescimento mas também pelo desequilíbrio do desenvolvimento interno), o Brasil, a Rússia, a Índia, a Turquia, etc, etc, etc, não geram ainda liquidez suficiente para atender a estas necessidades pelo que vão inevitavelmente recorrer a financiamento externo, e… chegamos ao ponto!
    Este é um problema europeu de que os europeus são responsáveis, mas pode ser um problema bem mais grave. Especulando… poderemos em 2020 assistir a uma crise de dívidas soberanas global. Que impacto teria isso no mundo, tal como o conhecemos?
    Abraço e obrigado por este espaço de debate

  • Ailton

    EUA pediram ao congresso para elevar a sua divida para U$15,8trilhões, ou seja, U$1,4 tri. a mais que o próprio PIB.
    Isso ‘cheira” a uma crise violenta que vem por aí.
    Cada vez mais o Brasil deve se segurar com os BRICS, saimos ilesos da crise de 2008 devido a essaa união de emergentes.
    Temos que ‘pensar’ desde agora como não ser respingados por mais essa crise.