Artigo de 2006: Fizemos progressos na cobertura das eleições

Artigo de 2006: Fizemos progressos na cobertura das eleições Ilustração: Pixabay

Ainda há muitas melhoras a serem feitas no jornalismo que acompanha as eleições, mas o trabalho da grande imprensa brasileira durante o pleito presidencial de 2006 indica um grande e importante salto desde o retorno da democracia, há duas décadas

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Reeleito o presidente Lula e terminada a maratona eleitoral de 2006, o signatário destas linhas vai respeitosamente divergir de vários colegas, de diferentes veículos, para considerar que o saldo da cobertura das eleições pela imprensa foi positivo.

Não é possível, naturalmente, ignorar a intensa polêmica que cercou a divulgação do escândalo do suposto dossiê que um grupo de petistas, com ramificações até mesmo na campanha pró-reeleição de Lula, tentou adquirir com dinheiro suspeitíssimo para enlamear os tucanos. Nem dá para discordar dos colegas — como o ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, e Luiz Weis, colunista deste Observatório — que criticaram pesadamente o fato de órgãos da grande mídia terem mentido a seu público sobre as famosas fotografias da pilha de dinheiro destinado à aquisição do dossiê, feitas e vazadas à imprensa pelo delegado da Polícia Federal Edmilson Pereira Bruno. O delegado combinou com jornalistas que diria a seus superiores que o CD com as fotos fora roubado de sua mesa, de forma a afastar de si as suspeitas de vazamento, e a versão mentirosa chegou a leitores e ouvintes.

A polêmica principal sobre a divulgação das fotos envolveu a Rede Globo — sempre o principal alvo de críticos durante as eleições, devido a seu passado muito pouco recomendável no jornalismo político. Teria dado maior ênfase ao aparecimento das fotos do que ao gravíssimo desastre com o avião da Gol em Mato Grosso, ocorrido no mesmo dia, influenciando, portanto, o resultado do primeiro turno com um noticiário carregado de suspeitas contra o PT. Levou bordoadas de muita gente, a começar das desfechadas pelo jornalista Paulo Henrique Amorim em seu blog. As da CartaCapital contra a Globo, como sabem os leitores, acabaram sobrando, inclusive, sem o menor fundamento, para este Observatório.

A Globo vem se redimindo do passado

O saldo geral da grande imprensa diante da eleição, no entanto, está longe de ser ruim. Sem a menor pretensão de esgotar o tema, que é amplo, comecemos pela própria Globo. Baixado o teor de predisposição ideológica, ainda forte entre nós, jornalistas, é justo e sensato afirmar que a Globo sofreu críticas exageradas. A emissora, na verdade, se comportou corretamente. Como vem acontecendo há várias eleições, realizou trabalho competente e isento, tanto na eleição presidencial como nas demais. Certas concessões, como o precioso tempo dedicado diariamente no primeiro turno a candidatos nanicos à Presidência, donos de legendas de aluguel, em troca de mantê-los fora dos debates, acabaram sendo um jeito criativo de driblar loucuras da nossa legislação eleitoral e permitiram que o debate do primeiro turno não virasse piada.

É claro que senões sempre ocorrem. Os que enxergaram uma Globo agindo contra Lula provavelmente não quiseram ver alguns escorregões no exato sentido oposto — por exemplo, o destaque conferido, como se se tratasse de atos rotineiros de governo, a certas solenidades oficiais obviamente eleitoreiras promovidas pelo presidente, como o encontro com catadores de papel. Também é coisa feia, provinciana e não profissional a postura arrogante de fingir que não existiram os debates Lula x Alckmin nas concorrente Bandeirantes, SBT e Record. Sem contar que, acima de tudo, isso desinforma e prejudica seu próprio público. Mas chegou a hora de reconhecer que a poderosa rede vem se redimindo do passado, deixando o passivo de festejar a ditadura, ignorar a campanha das diretas-já e outras mazelas cada vez mais distante.

Nosso teor ideológico baixou

O restante da mídia, excetuadas militâncias conhecidas em prol de uma e outra candidaturas presidenciais, especialmente entre as revistas semanais, realizou progressos em relação a eleições anteriores. A começar do parti pris ideológico. Parece fazer um século que ocorreu a disputa de Lula contra Fernando Collor, em 1989, em que o fenômeno adquiriu contornos assombrosos.

Augusto Nunes, que como brilhante diretor de redação do Estadão iniciara no ano anterior profundas reformas no jornal, viria posteriormente a diagnosticar muito bem as pressões enormes a que naquele ano estiveram submetidos os jornalistas com responsabilidade de comando nas redações: viam-se imprensados entre os patrões, de um lado — apavorados diante da perspectiva de vitória de um Lula de plataforma delirante, que prometia do calote da dívida externa para cima — e, de outro, por um reportariado que, com escassas exceções, portava a estrela vermelha do PT em lapelas, bolsos de camisa, corações e mentes. Quem viveu aquela época se recorda de episódios absurdos, impensáveis na profissão, como o coro de Lula-lá entoado por repórteres frustrados pela recusa de Collor em conceder entrevista após participar do antigo Programa Ferreira Neto.

Um depoimento pessoal

Nesse cenário, o Jornal do Brasil de então terá sido uma exceção. Seu proprietário, o falecido M. F. do Nascimento Brito, o “dr. Brito”, embora detestasse as propostas de Lula, jamais passou dos limites com o diretor de redação do JB responsável por um período especialmente glorioso da vida do jornal, Marcos Sá Corrêa. E permita o leitor um rápido testemunho pessoal. Eu próprio, que dirigia a sucursal de São Paulo e, como tal, participava regularmente de reuniões com o comando no Rio e com o dr. Brito, nunca recebi dele ou o ouvi mencionar sequer um fiapo de sugestão sobre favorecer qualquer candidato na cobertura — e a sucursal, na época com um timaço que orgulharia qualquer chefe, estava encarregada da apuração básica de nada menos do que cinco concorrentes à Presidência no primeiro turno baseados em São Paulo: Lula (PT), Mário Covas (PSDB), Ulysses Guimarães (PMDB), Guilherme Afif Domingos (PL) e Paulo Maluf (do velho PDS, antecessor do atual PP).

Não havia pressões indevidas da direção, e os jornalistas do JB, especialmente em São Paulo, trabalharam de maneira exemplar. Se lida hoje, por exemplo, o furo de Luiz Maklouf Carvalho que desvendou para a opinião pública em abril de 1989 a existência de Lurian, filha até então desconhecida de Lula, continua irretocável: apuração perfeita, todos os envolvidos entrevistados — inclusive o hoje presidente da República –, a jovem fotografada na casa em que vivia com a avó. O uso sórdido do caso, meses depois, pela campanha de Collor é outra história. Também, entre várias, a reportagem de bastidores sobre as razões de Lula ter ido tão mal no derradeiro debate com Collor — provável causa de sua derrota –, apurada com incansável persistência e rigor por Marcos Emílio Gomes, é de consulta obrigatória para quem quiser escrever a história daquele período.

Devidamente computada a exceção JB, polarização ideológica como a ocorrida naquele 1989 praticamente deixou de ser um fator na cobertura, pela grande mídia nacional, da eleição que acaba de terminar. Isso não é pouco.

Outros sinais de melhoria

E pode-se registrar outros sinais de progresso. Houve um esforço, palpável e constante, para se fugir à mera narrativa “corrida de cavalos” da eleição. Por meio de debates na TV, entrevistas individuais ou participação e sabatinas realizadas por veículos, a imprensa de novo fez o possível para extrair dos candidatos algo além da lorotagem marquetológica.

Os coordenadores dos dois programas de governo, o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) e o presidente do PT, Marco Aurélio Garcia, mereceram uma atenção jamais ocorrida nas eleições anteriores. Números, cifras e percentagens sobre economia e supostas realizações dos dois candidatos foram submetidas a intenso escrutínio, e diferentes veículos flagraram distorções de dados, incongruências e limitações orçamentárias que tornam vãs, quando não mentirosas, promessas de ambos os concorrentes do segundo turno. Editores, pauteiros e repórteres esforçaram-se para focar o que britânicos e americanos chamam de issues — as questões de fundo com as quais, uma vez no Planalto, um candidato precisará lidar, longe da coreografia ilusória de palanques e programas do horário eleitoral. Uma bela gama de articulistas de várias especialidades, principalmente mas não apenas nos jornais, contribuiu para enriquecer o público consumidor de noticiário.

Ainda é preciso caminhar muito

Conseguimos, então, uma cobertura excelente? Claro que não. É preciso caminhar muito ainda, no futuro. Começando por repensar os debates entre candidatos na TV. Ainda que variasse de algum modo os formatos, a área de jornalismo das emissoras não conseguiu um jeito de torná-los realmente reveladores. Além do que continua constrangedor e impróprio submeter políticos que poderão ocupar o mais importante cargo público do país a regras que, muitas vezes, reduzem-nos a patéticos escolares bagunceiros levando, cabisbaixos, “pito” de jornalistas mediadores. (Ao final do debate da Globo, todos se lembram, Lula e Alckmin, titulares de mais de 100 milhões de votos dos brasileiros, tiveram que engolir, como meninos bem comportados, o elogio de William Bonner por seu “comportamento exemplar”).

Outros pontos do trabalho jornalístico merecem reflexão e reparos. Com algumas exceções, não conseguimos, até hoje, dar a devida importância (na verdade, a menor importância) às eleições para o Legislativo, cruciais numa democracia. A cobertura das eleições nos Estados que não os cinco ou seis principais é irregular e quase sempre raquítica. O levantamento de uma questão-chave da campanha no segundo turno presidencial — o caso do dossiê contra os tucanos –, como tantas outras que envolvem a polícia, foi modestíssima na apuração própria, para mencionar somente um exemplo adicional.

O principal desafio

O mais difícil, porém, sempre será sempre enfrentar o desafio que há tempos preocupa luminares da área de ciência política, principalmente nos Estados Unidos, e que afeta diretamente a mídia: as campanhas eleitorais, a começar pelas presidenciais, tornaram-se cada vez mais sofisticadas, rigorosas e caríssimas disputas que acabam decidindo, no final, quem tem mais capacidade de vencer uma eleição, e não quem reúne mais condições para governar.

Para a imprensa, enfrentar o problema implicaria em baixar o grau de interesse por assuntos apimentados e chamativos como manobras de bastidores, brigas e ciumeiras, negociações políticas, alianças partidárias e as pesquisas de intenção de voto – que invariavelmente se tornam o centro de tudo o que a mídia faz na temporada eleitoral –, em favor de tópicos como destrinchar as razões do rombo da Previdência, esquadrinhar corretamente a questão das privatizações ou explicar porque a agricultura está em crise. São temas pesados, árduos, difíceis de digerir. Mas, fechadas as urnas, encerradas as apurações e empossados os eleitos, tópicos como esses é que irão realmente interferir na vida dos cidadãos. A imprensa vai servir tanto mais à sociedade quanto melhor conseguir decifrá-los e, sobretudo, fazê-los chegar, palatáveis, ao leitor/telespectador/ouvinte/internauta.

Publicado no Observatório da Imprensa nº 405

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