E mais: a volta da inflação, renovação massiva no BNDES, conselho de um intelectual a Lula, discrepâncias salariais na máquina pública, os elos entre PT e UDN e entre Collor e Lula, Jorge Bittar favorito, Temer e a reforma política

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A cúpula do PT dá sinais de que começa a se entender sobre a questão de como materializar o programa Fome Zero, prioridade absoluta do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva – se por cartões magnéticos que só permitam aos beneficiários a compra de alimentos, como quer seu formulador, o economista José Graziano Neto, ou que façam chegar dinheiro a quem precisa, como sugere o idealizador do projeto Renda Mínima, o também economista e senador Eduardo Suplicy (PT-SP).

Em qualquer caso, deveria ser chamada a opinar a secretária de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo, Aldaíza Sposati. Mulher ativa e enérgica, mas sempre bem-humorada, três vezes vereadora (atualmente licenciada), ela teve a cara e a coragem de assumir a dificílima e hoje extinta Secretaria das Administrações Regionais da Prefeitura – um gigante que supervisionava todas as atuais 30 subprefeituras da maior cidade do País – na primeira e ultra-inexperiente administração petista de vulto desde a criação do partido, a da prefeita Luiza Erundina (1989-1993).

Em sua atual função, lida com os desvalidos da urbe – de migrantes sem documento a moradores de rua, passando por contingentes de idosos esquecidos pelas famílias, deficientes físicos sem recursos ou, até, por quatro tribos de índios – isso mesmo, índios – que teimam em sobreviver em meio ao turbilhão da maior metrópole brasileira.

Trabalhar na Secretaria significa monotonia zero: um dia desses, por exemplo, seus assistentes sociais descobriram três diferentes moradores de rua que haviam construído barracos no alto de três árvores altas, para fugir de ladrões ainda mais pobres do que eles ou de vândalos que se divertem botando fogo em mendigos. Isso em pleno coração da cidade, na Avenida 23 de Maio, em frente ao Centro Cultural São Paulo que as elites freqüentam.

Na atual função, assim como não quer nada, e sem que muita gente perceba, a Secretaria de Aldaíza Sposati distribui 500 mil refeições por dia – nada menos do que 180 milhões por ano. Para ela, nem o projeto Fome Zero nem o programa Renda Mínima solucionariam por completo o problema da fome no Brasil.

As diferentes formas de carência existentes num país tão heterogêneo, observa ela, vão requerer que a alimentação seja suprida de diferentes formas. Com base em sua experiência com a fome urbana, por exemplo, ela aponta um caso em que nem dinheiro, nem alimentos in natura resolvem: o dos não poucos idosos com dificuldade de locomoção, que sua Secretaria, em São Paulo, atende com comida pronta levada em vans. Outro exemplo: cupom de comida para moradores de rua não vai resolver, pois eles não têm onde prepará-los. Há casos, também, como o de crianças atendidas em creches que, nutridas adequadamente de segunda a sexta-feira, passam fome nos finais de semana. Dar cupom pra quem? E que tipo? E por aí vai.

Aldaíza, professora da Faculdade de Assistência Social da PUC paulista, acha que essas questões não podem ser pensadas apenas do ângulo da economia. E alfineta:

– No social, não se resolvem os problemas com cabeça de economista.

A ameaça dos dois dígitos

As estimativas são do economista Pedro Thomazzoni, do Lloyds Bank: só de inflação inercial causada, sobretudo, pela alta do dólar, o IPCA do IBGE – índice oficial de inflação do país – poderá carregar 7% para 2003.

Se o dólar continuar nas alturas de 3,50 reais, estima ele, o IPCA ano que vem deverá chegar a indesejáveis, problemáticos dois dígitos, batendo nos 12%.  A receita para evitar isso: palavras e ações que, indo na linha da prudência e da austeridade para com as finanças públicas, confiram credibilidade ao novo governo e, assim, derrubem a cotação ainda muito inflada do dólar.

Oxigênio

Uma grande renovação de quadros se anuncia no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): cerca de 500 técnicos de alto nível de diversas áreas deverão se aposentar entre este ano e 2003.

Xô, intelectuais

Intelectual ele próprio – sociólogo e professor da Universidade de São Paulo –, mesmo assim Fernando Augusto Albuquerque Mourão, presidente do Conselho Brasileiro de Relações Internacionais, é um crítico da espécie. Os intelectuais, diz, acham que podem resolver tudo sozinhos. E recomenda ao novo governo:

–Espero que o Lula não se cerque de intelectuais. Seria a desgraça dele.

Salários em desalinho

São malucas as distorções salariais existentes entre ocupantes de cargos públicos de primeiro e segundo escalões na União, Estados e Municípios.

Com o recente aumento aprovado pela Assembléia Legislativa de Pernambuco para os vencimentos do reeleito governador Jarbas Vasconcelos (PMDB), ele passará a ganhar, a partir de 1° de janeiro, 9.000 reais por mês – mais, portanto, que os 8.000 reais embolsados pelo presidente da República. Os secretários de Estado de Pernambuco terão direito a receber 7.000 reais.

Só para comparar: os de São Paulo ganham 4.400 reais por mês – menos até que os secretários municipais de Campinas (SP), por exemplo, que recebem 6.000.

Laços de família

Ironias do parentesco: o secretário-geral do PT, Luís Dulci, é primo-irmão, pelo lado materno, de uma das flores do conservadorismo político brasileiro, o falecido deputado, senador, governador de Minas Gerais e ministro da Justiça Milton Campos (1900-1972), destacado dirigente da falecida UDN. Professor de carreira, Dulci defendeu, nos anos 70, uma tese acadêmica, justamente, sobre o partido do primo, intitulada UDN: Populismo sem Povo.

O mesmo

Ironias da vida: o embaixador Osmar Chofi, designado pelo Itamaraty para tratar dos assuntos do Ministério das Relações Exteriores com a equipe de transição de Lula, é o mesmo diplomata que atuou no Cerimonial da Presidência durante parte do efêmero mandato de Fernando Collor (1990-192). Ele até aparece em fotos da célebre retirada do ex-presidente do Planalto após deixar o cargo, de mãos dadas com sua mulher, Rosane, e sob apupos, a 2 de outubro de 1992, nos estertores do processo de impeachment que o levaria à renúncia.

Ministeriável

Empresários e executivos do setor de telecomunicações já têm candidato a Ministro das Comunicações no governo Lula. Ele é engenheiro eletrônico de formação, titular da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados e foi secretário estadual de Planejamento do Rio (1999-2000).

Trata-se do deputado Jorge Bittar (PT-RJ).

Distrital aos poucos

Político matreiro e experiente, ex-procurador-geral do Estado de São Paulo, duas vezes secretário de Segurança, ex-presidente da Câmara, já indo para seu quinto mandato com reluzentes 252 mil votos, o deputado Michel Temer, presidente do PMDB, acha perfeitamente possível que o governo Lula aprove, como diz pretender, uma reforma política. Observadas, bem entendido, algumas condições.

Em primeiro lugar, diz, o governo precisa efetivamente querer aprovar. Qualquer sinal de corpo mole, e a reforma desanda. Em segundo lugar, é necessário propor a reforma já em 2003, primeiro ano do mandato, pois em 2004 há eleições municipais e novas regras não seriam (nem poderiam, segundo a Constituição) ser aprovadas em cima da hora.

Dois pontos que, segundo Temer, estão “amadurecidíssimos” no Congresso são a fidelidade partidária e o financiamento público de campanhas. Quanto à introdução do voto distrital, defendido por muita gente como forma de melhorar a representação da população, o deputado aconselha prudência e gradualismo. Poderia começar pela divisão de cidades acima de 200 mil habitantes em distritos – cada um elegeria, por voto majoritário, o seu vereador – e pela “distritalização” dos Estados.

Os deputados federais continuariam sendo eleitos pelo voto proporcional enquanto o novo sistema seria testado nesses municípios grandes e nos Estados.

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