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O Residencial Francisco Hernando, em Sesena, comunidade autônoma espanhola de Castilla-La Mancha: o projeto inicial previa 13.508 moradias, mas apenas 5.096 obtiveram licença e atualmente só 750 pessoas se inscreveram para obter apartamentos (Fotos: Markel Redondo)

A Espanha, depois da China — e por outras razões –, é provavelmente o país do mundo com mais habitações vazias, em grande parte abandonadas. Até recentemente, o governo admitia o número de 1 milhão delas, mas não se sabe mais ao certo, nem sequer se nesse milhão estão incluídas as quase 500 mil que foram devolvidas por famílias sem condições de continuar pagando as hipotecas, uma tragédia humana de proporções colossais.

Recente levantamento divulgado pelo jornal madrilenho El Mundo subiu os números, estimando que na Espanha há espantosos, inacreditáveis 5 milhões de moradias vazias. E quase metade destas casas ou apartamentos seriam construções “virgens”, ou seja, nunca tiveram moradores.

Ao mesmo tempo, cresce a cada dia no país o número de famílias sem-teto. Só as afetadas pelos cruéis desahucios, os despejos por não pagamento da hipoteca, vêm somando mais de 500 por dia. Os suicídios de pessoas que perderam tudo depois de uma vida de batalha estão aos poucos se tornando uma rotina de desespero.

Apontada por todos os especialistas no assunto como um dos pilares da crise espanhola, a chamada “bolha imobiliária” ocasionou estas aberrações sociais e deixou um triste legado físico: conjuntos habitacionais inabitados, condomínios às moscas, aeroportos inúteis…

Atento a este processo, o fotógrafo Markel Redondo, nascido em Bilbao em 1978, visitou locais que simbolizam à perfeição tal desastre econômico.

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Markel Redondo

O resultado do trabalho de Redondo, profissional que já ganhou uma série de prêmios internacionais e colaborou com veículos do porte das revistas Time, Newsweek e Monacle e os jornais The Times, The New York Times e Le Figaro, está em exibição no Centro Cívico Golferichs, em Barcelona, até 27 de abril.

Abaixo, algumas das imagens presentes na mostra:

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Projeto habitacional em Villamayor de Calatrava, em Castilla-La Mancha: vazio
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O mato cresce ao redor da piscina no conjunto La Duquesa, em Casares, na Andaluzia
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Fica no município manchego de Pioz – o mais endividado da Espanha – o projeto Monte Alto, onde existem aproximadamente 600 apartamentos vazios. As caixas de correio lotadas de panfletos publicitários nunca recolhidos são testemunha
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Na turística Marbella, na Andaluzia, à beira do Mediterrâneo, repousam os restos da obra que resultaria no condomínio de luxo El Olivar de los Monteros e seus 1.000 apartamentos
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Este verdadeiro cemitério de pneus é um dos “cartões postais” da mesma Sesena, cidade da foto que abre este post
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Um “finger” que não leva a lugar nenhum: propriedade do aeroporto de Ciudad Real, de 1.234 hectares, também situado em Castilla-La Mancha. Fechou em outubro de 2011 por causa dos prejuízos
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Cortijo Grande: outro condomínio abandonado, em Cádiz, Andaluzia

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15 Comentários

Snowmeow em 04 de abril de 2013

Por que a Espanha não faz um projeto de refúgio de pessoas perseguidas por motivos étnicos, políticos e religiosos, usando esses lugares abandonados como abrigo? Contaria muitos pontos na moral frente à ONU.

Mauricio Magalhães em 03 de abril de 2013

Estive em Barcelona e Madri na semana da Páscoa. O Brasil, para conseguir chegar no nível que a Espanha possui hoje, precisará, pelo menos, de 20 (vinte!!!) anos caso tenha a sorte de ter governos com alguma competência nos próximos anos. Em matéria de respeito à lei, respeito ao próximo e outros temas essenciais da civilização, caro Maurício, e conhecendo a Espanha como conheço -- minha família (filha, genro, filho, nora e netinho) vive lá, e minha mulher e eu vivemos parte do tempo também lá, em Barcelona --, eu diria que 20 anos é muito pouco. Um abraço

Renato Cesar Carvalho em 03 de abril de 2013

Ao generalizar suas afirmações negativas sobre todo o povo espanhol, seu comentário é racista e não será publicado.

patricia m. em 03 de abril de 2013

Uma outra coisa: Espanha primeiro mundo? Portugal primeiro mundo? Grecia primeiro mundo? A gente esta vendo que tudo nao passou de uma maquiagem grotesca para que os caras se juntassem a zona do euro. Primeiro mundo eh o norte da Europa, isso sim. Experimenta deixar uma bicicleta sem corrente na rua em Amsterdam e outra em Barcelona, hehehehehe. . Ei, a unica vez em que fui assaltada (depois de morar 6 anos em Sampa City) foi em... Barcelona! Eh para nunca mais voltar. É uma pena para você. Quem sai perdendo é você. Barcelona, sua cultura, seu sistema de saúde, sua medicina e sua gente são primeiríssimo mundo. Falo com a autoridade de quem mora part time na cidade há muitos anos. Quisera que o Brasil tivesse 10% da civilidade que se encontra lá.

patricia m. em 03 de abril de 2013

Nao estou falando desses ai, mas alguns imoveis, na gana imobiliaria de alcaldes e municipalidades foram construidos sem licenca correta, em terrenos pantanosos, etc etc etc. Li bastante sobre esses casos quando morava na Inglaterra, a maioria dos quais foram vendidos para veranistas ou pensionistas ingleses que perderam todo o dinheiro investido. . Ha que se lembrar que varios imoveis foram erguidos exatamente para os forasteiros. Acontece que os forasteiros nao vieram por causa da crise, tanto em seus paises de origem quanto, pior ainda, a crise espanhola. . Outro ponto polemico: a costa espanhola foi literalmente DEVASTADA por imoveis horrorosos (como alguns das fotos). Acabaram com as vistas, com as areas de preservacao, com tudo, exatamente como os brasileiros fizeram com seus cartoes postais praianos. O negocio eh derrubar essas porcarias inabitadas e deixar a natureza tomar o lugar. . Os sem-teto espanhois obviamente em sua enorme maioria nao estao nessas cidades de praia, mas sim em Barcelona, Madrid e cidades maiores. Ninguem quer se mandar para as cidades de praia mesmo que ganhe o imovel de graca. Achar trabalho como? . De novo, a solucao eh: DERRUBA! Cara Patricia, você tem razão em relação ao que foi feito pela especulação imobiliária insana com boa parte da costa espanhola. O boom imobiliário começou no governo do conservador José María Aznar (1996-2004), que liberalizou a legislação e propiciou uma espécie de vale-tudo nessa área. Alegremente facilitado por administrações locais e municipais, de olho na criação de empregos (mesmo de baixa qualidade) e na arrecadação de impostos. Mas grandes áreas, e belíssimas, foram e continuam sendo preservadas -- na Catalunha, no País Basco, na Galícia e mesmo nas saturadas Andaluzia e País Valenciano. Houve loucuras imobiliárias também nas belíssimas Ilhas Baleares, mas felizmente Menorca mantém a maior parte de seu litoral bem preservado e a menor delas, Formentera, é praticamente selvagem, em pleno Mediterrâneo. Abraços

John Mcfisher em 03 de abril de 2013

Lendo so comentários de alguns leitores fiquei espantado. Incentivar invasão de propriedade privada é crime ! É tentador dar esses imóveis para as pessoas que precisam, mas é preciso lembrar que existem pessoas que pagam em dia suas prestações, que alugam imóveis e que constroem outras casas e conseguem vendê-las na Espanha. O governo não pode permitir a invasão de imóveis, caso contrário, estará prejudicando as pessoas honestas e incentivando o calote de outros imóveis, consequentemente piorando a crise espanhola. A Espanha não é o Brasil, felizmente eles não cairam nessa ideia tipicamente latino.

Massa em 03 de abril de 2013

Comentário do leitor José Henrique: "E assombrosa a forma como o governo Espanhol ignora esse desastre.(...)É irracional tentam remover moradores à força de suas casas enquanto se sabe Só isso deveria ser suficiente para esses bancos, voluntariamente, criarem um plano de aluguel social, que deveria compensar mais do que expulsar moradores sem ganhar nada com isso. O governo da Espanha deveria proibir a polícia de auxiliar a retirada de moradores (...)". Comento: É espantoso como existem pessoas ingênuas no Brasil, oras, se o governo espanhol ou algum banco de lá permitir que as pessoas fiquem nessas casas abandonadas ou recebem imóveis de graça, simplismente as demais pessoas que ainda pagam as suas prestações em dia ou que alugam algum imóvel pra morar irão começar a pensar, por que devo pagar essa maldita prestação para o banco se posso recebeu uma outra de graça ? Por que deveria alugar um imóvel se posso receber um outro de graça ? Enfim, no dia em que o governo espanhol seguir o conselho do leitor José Henrique, o sistema bancário espanhol fecha as portas de vez, pois a maioria da população que paga prestação ou alugal um imóvel irá simplismente dar um grande calote e entrar na fila dos "coitados" que precisam da ajuda do governo.

Claudio Sergio de Sousa em 02 de abril de 2013

Bem feito!Talvez isso os facam lembram o quanto eles saquearam a America Latina!Assaltantes e assassinos!! Quer dizer que os 42 milhões de habitantes da Espanha são responsáveis pelo que aconteceu no século XVI?

Angelo Losguardi em 02 de abril de 2013

O Discovery Channel podia ir lá filmar uma continuação da série "O mundo sem ninguém", dessa vez com a coisa real, sem simulação de computador.

Bueno em 02 de abril de 2013

Por isso que o governo Chines tomou medidas para desaquecer o mercado imobiliario do pais. Aqui no Brasil, os petralhas pouco se importam com a obvia bolha prestes a estourar.

Erika em 02 de abril de 2013

Ja estao invadindo. O El Pais fez um artigo sobre as invasoes. Sim, estou perfeitamente a par. Mas são casos isolados, por ora. Abraços

Paulo em 02 de abril de 2013

Utilizar o know-how brasileiro de invadir? E' que a Espanha e' pais de primeiro mundo. Apesar do caos, o povo e' educado e conhece as leis. A ideia de um aluguel coletivo e' muito boa, Jose'. Se bem que isso so resolveria uma pequena parte da crise ja que a maioria sao residencies que nunca foram habitadas.

selminha em 02 de abril de 2013

Triste, muito triste este quadro, Setti. Adoro a Espanha, sua música, sua culinária, sua arte e suas maravilhosas cidades. Torço para que o país se recupere, e possa dar um destino feliz a tantas moradias abandonadas.

José Henrique em 02 de abril de 2013

E assombrosa a forma como o governo Espanhol ignora esse desastre. As casas vazias não geram lucro para ninguém, enquanto bancos desalojam pessoas que não têm condição de pagar pelas casas, ou seja, não geram demanda. É irracional tentam remover moradores à força de suas casas enquanto se sabe que elas não serão ocupadas por outro inquilino, gerando lucro. Só isso deveria ser suficiente para esses bancos, voluntariamente, criarem um plano de aluguel social, que deveria compensar mais do que expulsar moradores sem ganhar nada com isso. O governo da Espanha deveria proibir a polícia de auxiliar a retirada de moradores de suas casas, pra mostrar aos bancos que eles não têm autoridade nesse sentido e sem o governo eles nem ao menos teriam o direito de propriedade. Então caberia a eles decidir se fazem um acordo com os moradores e deixam eles morarem em suas casas de forma regular ou não fazem nada e os moradores continuam.

Rita Rafaeli em 02 de abril de 2013

Por que os espanhóis não utilizam o know-how dos brasileiros sem-teto, simplesmente invadindo esses elefantes brancos?

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