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A profissão de jornalista me propiciou muita coisa boa -- e a raríssima e feliz circunstância de, um dia, chefiar o jornal onde comecei minha carreira para valer.

Comecei minha vida de repórter na sucursal de O Estado de S. Paulo em Brasília, no remoto dia 1º de maio de 1966.

Era encarregado da cobertura dos principais ministérios. Durante um certo período, meus chefes me deslocaram para a cobertura do Judiciário -- nada mau para quem estudava Direito, e gostava.

Em 1967, porém, Evandro Carlos de Andrade, jornalista de grande bagagem e enorme talento, assumiu a chefia da sucursal e, no segundo semestre, resolveu me experimentar na área política.

Como sempre gostei muito do tema, tratava-se de um peixe sendo arremessado à água.

Da cobertura política para o Estadã Evandro acabou me levando a escrever para o Jornal da Tarde, então em seu fulgurante início, e acabei me tornando exclusivo do filhote do Estadão até me mudar para São Paulo e ir trabalhar na sede do JT.

A vida passa -- e, do JT, passei ao longo dos anos para a extinta Visão, para Veja, para IstoÉ, para Playboy, para o Jornal do Brasil e, lá pelas tantas, em 1990, meu velho amigo Augusto Nunes, diretor de Redação do Estadão, me convida para ser o editor-chefe do jornal, o sujeito que tocava o dia-a-dia de uma redação com 300 jornalistas e dezenas de sucursais e correrspondentes. Entre as sucursais, a de Brasília, onde eu começara... 24 anos antes!

Alguns dos jornalistas que ensinaram aquele foca de 20 anos a partir de 1966 ainda se encontravam lá.

A trabalheira como editor-chefe não me impedia de escrever com frequência e pude, mesmo, realizar algumas entrevistas e reportagens.

A experiência no Estadão, que ambicionávamos tornar o The New York Times brasileiro -- para isso fizemos uma grande reforma, trouxemos para o time de colaboradores gente como Paulo Francis, Joelmir Beting, Luis Fernando Verissimo e Rubem Braga --, durou pouco mais de quatro anos para Augusto e pouco menos de dois anos para mim.

Divergências entre os acionistas constituíram o grande obstáculo para terminarmos o que pretendíamos.

Mas foi inesquecível: como esquecer que dirigi o jornal em que comecei para valer na grande imprensa?