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Hollande: o candidato socialista, se eleito, quer renegociar os fundamentos da política de estabilidade da Europa (Foto: veja.abril.com.br)

As eleições na França, cujo primeiro turno foi vencido ontem, domingo, pelo candidato socialista François Hollande, ainda não tem vencedores definitivos, uma vez que, como se sabe, ele deverá enfrentar num segundo turno, a 6 de maio, ao presidente Nicolas Sarkozy.

O resultado eleitoral acabou sendo bom para a democracia francesa, por haver eliminado da disputa tanto a candidata fascistoide e xenófoba Marine Le Pen quanto o desvairado ultraesquerdista Jean-Luc Mélenchon, cuja plataforma se assemelhava à dos estudantes rebeldes de maio de 1968.

Sarkozy sai severamente chamuscado, após 5 anos no poder: é o primeiro presidente da V República francesa, fundada em 1958, a ser derrotado num primeiro turno. E o rival sai como franco favorito para o segundo.

Mas há um possível grande perdedor, seja qual for o resultado: o processo de integração da Europa.

Sarkozy, que caminhou cada vez mais à direita à medida que a campanha se desenvolvia, prometeu revisar o Tratado de Schengen, o extraordinário avanço social e humano que abriu as fronteiras de 26 países da Europa para a livre circulação de pessoas e mercadorias. (O tratado, assinado por poucos países em 1985, teve implantação gradativa e, embora integrado aos mecanismos da União Europeia, é também uma estrutura à parte: há países da União que não o integram, e países de fora da União que dele fazem parte).

Hollande promete complicar a vida da União Europeia ainda mais. Ele pretende uma revisão do Pacto Orçamentário Europeu, aprovado e assinado após duríssimas negociações por 25 dos 27 países da União Europeia que, entre outras medidas, introduziu a chamada “regra de ouro”, limitando legal e/ou constitucionalmente o déficit orçamentário dos membros da UE e atribuindo à Corte de Justiça da Europa, com sede em Luxemburgo, o poder de sancionar os governos que não cumpram os limites.

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Sarkozy com Merkel em Berlim (ao fundo, o Parlamento alemão, o Bundestag): a dupla “Merkozy” agiu em sintonia para combater a crise econômica na Europa

O candidato socialista considera que já houve cortes orçamentários e austeridade demais na Europa, e que é preciso investir para retomar o desenvolvimento. Por isso, ele rechaça os princípios fundamentais do Pacto Orçamentário. Propõe, por exemplo, flexibilizar (ou seja, alongar) os prazos já combinados para que os países reduzam seu déficit público e sua dívida, introduzir medidas que favoreçam o crrescimento, e renegociar a filosofia supranacional do acordo – que é o coração de tudo o que foi pactado.

Quer, também, entre outros objetivos, que o Banco Central europeu não mais irrigue o sistema monetário por meio de empréstimos a bancos, mas aos governos.

Não se pretende, aqui, dizer se essas medidas são boas ou más. O que certamente vai acontecer é que haverá um “apagão institucional” na União Europeia e sobretudo na zona do euro, que abrange 17 países, porque a renegociação de todos esses pontos tomaria meses e até anos, deixando em compasso de espera uma Europa que caminhava em uma direção e que o Hollande, se eleito, tenciona que mude de rumos para vencer a crise.

Uma vez no Palácio do Eliseu, a primeira tarefa de Hollande será acertar-se com a chanceler alemã Angela Merkel, mentora das políticas de austeridade europeias. O eixo franco-alemão é a base da União Europeia desde seus primórdios e, no enfrentamento da atual crise, Merkel teve Sarkozy como firme aliado na defesa das principais medidas, a ponto de cunhar-se o termo “Merkozy” para batizar o entendimento da dupla de governantes.

O mandato de Merkel vai até outubro do ano que vem.

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Ismael em 24 de abril de 2012

Porque o Brasil e a China estão dando certo e a Europa está falindo? acho que a resposta é que aqui e não lá tem maior equilíbrio social, senão vejamos: O Brasil tem basicamente tres grupos sociais, os pobres que tem direitos e são cortejados por todos os partidos por serem a maioria dos eleitores, uma classe média rela (não aquela que ganha 1,5 mil por mes) e que paga impostos e só tem deveres e uma elite que contribui com as camapnhas eleitorais, recebe prebendas do BNDES e tem privilégios. Recapitulando: Eleitores tem direitos, contribuintes tem deveres e financiadores de campanha privilégios. Equilíbrio. Na Europa, todo mundo tem privilégios, deveres e direots, chamam a isso Estado de Bem Estar Social. Pura ilusão. Quem paga a conta? Completando, a China, que é o sonho e consumo da esquerda tem uma porrada de escravos e uma elite de burocratas comunistas, ou seja todos por uns poucos, que também representa equilíbrio. Podem achar cruel, mas é a pura realidade, não dá pra todo mundo ser rico.

Ismael em 24 de abril de 2012

Como o Hollande pretende aumentar benesses e passar novamente a conta para o BCE? será que ele pretende convencer a Alemanha, e só resta ela, a continuar injetando dinheiro novo no BCE? A plataforma de Hollande é populista e irrealista. A única saída agora, depois de tanta irresponsabilidade, é a Europa primeiramente desfazer-se do Euro, controlar os gastos públicos limitando-os a políticas emergenceiais de saúde e combate contenção da pobreza e cada país investir mais em setores que dêem lucro. Agora seria o momento ideal do Brasil fazer pressão pelo fim dos subsídios à agricultura européia em troca de novos acordos comerciais, mas sem por nosso lado as amarras do mercosul. Bom, isso já é sonhar demais.

Aparecida Heinzer em 24 de abril de 2012

A campanha de Hollande teve dois lemas bem conhecidos dos brasileiros - "vamos mudar tudo isto que esta ai" e a diabolisaçao do oponente como sendo o responsavel pela crise que assola a França e amigo dos banqueiros e dos ricos . Hollande, se ganhar as eleiçoes, logo descobrira que nao " combinou tudo com os investidores " e tera que rever seu programa , segundo a Economist .

Pedro Luiz Moreira Lima em 23 de abril de 2012

Setti: Uma eleição é para manter ou conservar - ao que indica a decisão de mudança é total do povo francês. Viva a democracia! Pedro Luiz

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