Amigos, ninguém me contou nada, eu fui lá e vi: até ontem à noite, sábado, 21, estive na Plaza Catalunya, no coração de Barcelona, vendo a manifestação dos “indignados” que varre a Espanha. E, pelo menos aqui, o que constatei não é nada “revolucionário”: trata-se de um misto de Fórum Social Mundial “light”, descafeinado, com remotas semelhanças com os velhos congressos da UNE e mais um toque de quermesse.

Um novo tipo de esquerda festiva, às vezes mais festiva do que esquerda, outra mais esquerda do que festiva.

Não estou desfazendo das pessoas que se mobilizam, não. Mas, em primeiro lugar, a maioria da multidão que percorri era, sem a menor dúvida, de curiosos: casais de idade que foram ver de perto o fenômeno, jovens casais que levaram os filhos para passear, centenas e centenas de pessoas comuns ávidas por fazer boas fotografias, turistas estrangeiros tentando entender o que acontecia – e por aí vai.

Em segundo lugar, entre os manifestantes, gente descomprometida com grandes projetos políticos: muitos jovens “alternativos” de todo tipo: punks, “okupas” (garotos que vivem ou usam como centro de atividades edifícios ocupados), movimentos de lésbicas (por alguma razão, não detectei grupos de gays homens), motoqueiros.

Uma certa organização, e discursos em catalão

Dentro do possível, o que se poderia chamar de líderes do movimento conseguiram um bom nível de organização – não fosse o evento na corretíssima e ordeira Catalunha: há banheiros químicos obtidos em doação, um centro de preparação de “refeições comunitárias” distribuídas gratuitamente, também com o produto de donativos, placas improvisadas indicando o que se situa em que lugar de grande praça, um grande mapa central, barracas de coletas de assinaturas para abaixo-assinados com distintos propósitos e até um serviço de imprensa.

O problema, amigos, são as mensagens: desencontradas, atirando para todo lado, por vezes de uma ingenuidade colegial. E, vejam vocês, para um movimento que se pretende conectar com o mundo, a primeira “decisão” da grande assembléia reunida na praça foi que todos os discursos e intervenções se dariam… não em espanhol, idioma de 99,9% dos presentes, mas em catalão!

Então, fiquei ouvindo os discursos. Não falo catalão, mas frequento esta magnífica região da Espanha há tempo suficiente para em boa parte entendê-lo.

Críticas a tudo — dos banqueiros à situação das rodovias

Um orador critica os cortes em investimentos públicos em saúde e educaçao realizados pelo governo nacionalista conservador da Catalunha.

Uma professora de Letras protesta sobre as condições vigentes em sua universidade – e se compromete a ensinar literatura ali mesmo, na praça.

É vibrantemente aplaudida. Inevitavelmente, um jovem esbraveja contra “l’Estat espanyol” – é um sinal inequívoco de que o camarada é nacionalista e separatista nunca se referir a “Espanha” –, argumenta que a Catalunha foi massacrada durante a ditadura do general Franco (1939-1975) e, exagerando ao ponto do delírio, argumenta que com a democracia as coisas não estão muito melhores. Mais aplausos.

Outro protesta contra os banqueiros – vilões-mor do movimento – e repete o lema de que os políticos já não representam o povo e que o sistema eleitoral deve ser modificado.

Uma jovem desfia os maus-tratos a que estariam sujeitos os presidiários.

Há até um rapaz que reclama da falta de reparos nas rodovias da região – que, até onde constatei em muitas estadas aqui, são ótimas.

Os cartazes falam dos bancos, dos animais, dos transgênicos…

Enquanto isso, gente circulava, tirava fotografias, se beijava, passeava de mãos dadas, contemplava os monumentos recobertos de cartazes. Um desses mágicos de rua distraía pais e filhos com um marionete de John Lennon entoando canções dos Beatles. Grupos musicais se apresentavam em diferentes pontos da praça.

Os slogans em cartazes improvisados – as pessoas não gritavam, não, ouviam atentamente os discursos – exibem a multiplicidade de preocupações que não convergem para lugar algum:

* Banco resgatado, banqueiro encarcerado

* A banca sempre ganha

* Não vote neles

* Igualdade para todos – animais humanos e não humanos

* Senhores políticos: estamos propongo suas “demissões voluntáris”

* Resistência pacífica

* Uma outra Espanha é possível

* Semeie corrupção e terá revolução

* A sociedade desperta, acabou festa

* Não aos trangênicos!

* Human liberation, animal liberation

* Estamos de saco cheio!

* Basta de falar, agora vocês têm que ouvir

E este aqui misturou tudo:

Não à ONU, não à OMS [a entidade do bem da ONU Organização Mundial de Saúde], não ao FMI, não ao Vaticano, não ao Fed [Banco Central dos Estados Unidos], não à FAO [entidade do bem da ONU dedicada à agricultura e à alimentação], não à OTAN, não à NASA…

O mais criativo, lembrando maio de 1968:

O futuro já não é mais o que era

– – – – – – – – – – – – – – – – –

A única decisão concreta que consegui depreender do que a multidão votou levantando as mãos: a manifestação continuará em Barcelona até o dia 15 de junho.

Para o que, exatamente, não ficou claro.

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16 Comentários

Monica Alencar em 29 de maio de 2011

Caro Setti, fico muito triste de ver como um jornalista do seu nível pode estar tao mal informado. Se esteve mesmo em Barcelona, é óbvio que nao entendeu nada. Às vezes, nossas ideias preconcebidas nao nos deixam ver mais além. Sou brasileira, 45 anos, e moro há mais de 20 anos em Barcelona. Sigo o movimento 15M diariamente e posso dar fé de que sua percepçao nao corresponde em nada com a realidade. Nao vou perder tempo com explicaçoes, pois já há muita informaçao nos sites espanhóis. Abraços de uma leitora fiel decepcionada. Cara Mônica, triste fico eu diante de uma leitora que se diz fiel e escreve: "se esteve mesmo em Barcelona...". Você acha que eu diria que estive ou estou na cidade se não fosse verdade? Me sinto insultado com sua ressalva. Eu não ESTIVE em Barcelona, cara Mônica. Tal como você, moro aqui, embora passe parte do ano no Brasil. Aqui vivem e trabalham minha filha e seu parceiro, há 11 anos, meu filho e a mulher, há 5 anos, e vive desde que nasceu, há 11 meses, meu netinho. Conheço Barcelona há mais tempo do que você -- desde 1982. E minha mulher e eu frequantamos regularmente a cidade há 11 anos. Fico também triste por constatar que uma pessoa do seu nível não consegue conviver com a diferença. Por que você não pode aceitar que eu tenha uma opinião sobre o movimento 15-M diferente da sua? É só isso o que está acontecendo. Abraços de um colunista decepcionado.

Fernando em 24 de maio de 2011

Prezado Setti, O que se propõe na Espanha é claramente uma manifestação contra a NWO (em inglês, Nova Ordem Mundial). Felizmente a WEB é bastante utilizada e isso é muito difundido nas redes sociais. Esse é um movimento que expressa um novo nível de consciência que está despontando como um grande iceberg, diga-se de passagem, em escala planetária. Não é modismo nem representa a expressão ingênua de pessoas mal informadas. Pelo contrário, representa a maturidade que nós, como civilização estamos atingindo para enfim tornarmo-nos cidadãos conscientes e soberanos. Isso tudo remete-nos para além de nossa mente cartesiana, condicionada até então pelas fronteiras de um sistema corrupto e controlador. Pode ser, Fernando. Mas não foi muito o que eu vi pessoalmente aqui em Barcelona, não... Abraços

Rodrigo Moreira em 23 de maio de 2011

Caro Setti, mas tem como um protesto universitário desses nao ser juvenil? Como todo protesto jovem, ele é cheio de utopia, o que é natural. Estranho é se fosse diferente. No mais, como deveria ser? Correria, gritaria, violência? Era um protesto pacífico, ao menos - e, portanto, legítimo. Quanto à pouca objetividade, isso me parece mais um protesto contra um "sistema" que propriamente contra a crise. Juntam-se uma série de demandas contra elementos deste sistema, criticam-se alguns protagonistas eleitos e faz-se o protesto. É assim mesmo. talvez vejamos um acirramento desdas manifestações com o desenrolar do governo do PP. Se eles nao forem bem, a casa pode cair. Mas pelo bem de todos, espero que os conservadores se saiam bem.

JT em 23 de maio de 2011

Excelente matéria, escrita por um jornalista "in loco". Caro Setti, você também tirou as fotografias? Existe uma diferença gritante entre escrever de uma redação - coletando informações com outras agências de notícias e agora também do Google - e escrever diretamente do local onde a pauta da matéria ocorre. Com medo de errar, redatores tendem a resumir os fatos, quando estão numa sala acarpetada e climatizada. Já quando o observador é real, as descrições são mais precisas e valorizam o texto, menos burocrático e mais saboroso. Nunca me empolguei muito com movimentos de massa, por entender que certas pessoas compõem o que se chama de "massa de manobra" - o que, curiosamente, não parece ser o caso da esquerda festiva espanhola. Mas lembro muito bem de me recusar a ir para as ruas com a "cara pintada" para derrubar o presidente Collor. O que muitos alunos da minha sala queriam era apenas matar aula. Eu sabia que meu pai pagava caro pelo colégio, e o mesmo pai me alertava que, na política brasileira, as coisas não se resolviam nas ruas, mas em mesas de gabinete que reuniam poucas pessoas. No fim das contas, poucas coisas realmente importam para as pessoas em geral: dinheiro, para uns; motivos para fazer festa, para outros. Obrigado, caro Jean. Pela pobreza das fotos, você já pode ver que, sim, fui eu quem fiz. Quanto ao texto, foi mais uma crônica sobre o que vi e não uma reportagem. Reportagem tem que conter entrevista com personagens, dados mais concretos e precisos, transcrição de trechos de discursos etc. De todo modo, a impressão que tive, e que se confirma a cada dia, é que a coisa explodiu espontaneamente mas ninguém focou em determinadas direções os protestos e que a turma não sabe para onde ir. O movimento está murchando em Madri e em várias cidades, inclusive aqui em Barcelona. As pessoas dizerem que são contra um montão de coisas sem que proponham nada, por mais vaga que seja a proposta, acaba assim mesmo, não é? Um abração

Leonardo em 22 de maio de 2011

Ah,colocou socialismo no meio dá nisso ae,essa gente quer mamar nas tetas públicas.Só isso,esse é o discurso e sonho eterno dos mesmos.

wilson em 22 de maio de 2011

Na Espanha agora é carnaval o ano todo.

paulo em 22 de maio de 2011

São dignos representantes de um limbo político, se estão desiludidos por um governo socialista mas financeiramente falido, que dirá com os outros governantes que continuarão igualmente falidos. O capital buscou guarida nos emergentes Brasil e China, azar dos jovens e velhos europeus que tinham o céu do bem estar aocial como promessa.

Vera Scheidemann em 22 de maio de 2011

Você, com certeza, está tendo uma visão privilegiada de todo esse movimento. Aqui, pelo que eu pude ver pela TV, parecia ser uma coisa mais séria. Pena que não é... Continue a nos mostrar a realidade. Um abraço ! Vera

alberto santo andre em 22 de maio de 2011

parece-me que todos os paises onde o lula conseguiu amigos, estao se deteriorando, sera que por isto eram amigigos do lula; ou chegaram a isto por serem amigos do lula.

Paulo Bento Bandarra em 22 de maio de 2011

Parece qu7e mais uma vez é aquela turma que tem mil idéias de onde gastar dinheiro, só não sabe gerar renda nem para sim mesmo.

Seilon em 22 de maio de 2011

Aqui,essa gente não trabalha e estuda,não?

Jotavê em 22 de maio de 2011

Esses manifestantes não são um plano de vôo, nem uma pauta específica de reivindicações. Eles são um mal-estar, uma espécie de nojo que aos poucos vai perigosamente tomando conta do jogo democrático. A sensação de que a democracia é uma farsa. De que o voto é uma cerimônia vazia. De que tanto faz quem seja eleito. De que não há razão nenhuma para termos qualquer espécie de entusiasmo pela política tradicional. De que a política se banditizou. De que não há saída dentro das regras do jogo. De que tampouco há saída fora delas. Há uma sociedade toda funcionando para metade da população dos países ricos. Só que a outra metade sabe ler e escrever. Conhece seus (supostos) direitos. Está ligada ao mundo todo pela Internet. E sobrevive com mil euros mensais. Essas manifestações não têm como dar certo. Mas não têm como dar errado. É hora de a sociedade civil ser criativa, e dar forma a esse nojo mais do que justo dessa moçada. Da política, não virá resposta nenhuma.

carlos nascimento em 22 de maio de 2011

Então quer dizer que a Europa também vive momentos de "mediocridade", será contágio.

Marcos Aarao Reis em 22 de maio de 2011

Esquerdismo infantil, estatismo antiquado, manifestações macarrônicas... Já eu penso que os próximos dez anos serão muito interessantes. Quem viver, verá. Forte abraço, caro Setti.

Angelo em 22 de maio de 2011

Prezado Setti, Vi ontem um debate entre um congressita do Partido Popular, um acadêmico e uma protestante. Todos tinham algo interessante para dizer, mas quero chamar atenção para o trecho que começa aos 19 minutos e 29 segundos. http://www.youtube.com/watch?v=Rsa7cahesHs O apresentador tentou, e a meu ver conseguiu, descobrir a natureza do protesto naquele ponto. Parece ser o velho estatismo esquerdista em ação. Ninguém quer fazer nada, no máximo protesta para que alguém do governo faça. Obrigado, caro Ângelo. Tenho visto debates o tempo todo. E, de fato, você tem razão: há um esquerdismo infantil nessa coisa toda. Abração

anonimo em 22 de maio de 2011

Parece que as TV's não conseguem mais completar a necessidade lúdica dos espanhóis. Que manifestação 'macarrônica', não? Alguém fez discurso sobre a unha encravada do dedão?

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