FUTEBOL: Alguns (outros) exemplos do Barça para o combalido futebol brasileiro

Xavi (segundo à direita), novo capitão do Barça, com os substitutos Busquets, Messi e Iniesta: escolhidos por eleição com voto secreto, acumulam 48 anos e quase 2 mil jogos pelo clube (Foto: Miguel Ruiz - FC Barcelona)

Xavi (segundo à direita), novo capitão do Barça, com os substitutos Busquets, Messi e Iniesta, invergando o uniforme número 2 do Barça e exibindo a faixa que usarão: escolhidos por eleição com voto secreto, acumulam 48 anos e quase 2 mil jogos pelo clube (Foto: Miguel Ruiz – FC Barcelona)

Com doses de pompa e mistério, o F. C. Barcelona anunciou na quinta-feira o que muita gente já esperava: Xavi Hernández, que há até poucas semanas não tinha como certa sua permanência, será o novo capitão do time.

O genial meio-campista substituirá o grande Carles Puyol, recém-aposentado após nada menos que 19 anos na equipe, dez como portador da faixa vermelha e amarela.

E não só: o comunicado do clube catalão especificava também os outros três capitães substitutos, listados por ordem hierárquica: Andrés Iniesta, Lionel Messi e Sergio Busquets.

Os dois últimos, embora já tenham usado a braçadeira com as cores da bandeira da Catalunha em uma ou outra ocasião, são as novidades entre os comandantes oficiais. Além de Puyol, outro jogador que acumulava mais de uma década de Barça, o goleiro Victor Valdés, também se despediu no final da última temporada, abrindo a segunda vaga na “panelinha”.

Capitão quem?

Rogério Ceni, a gloriosa exceção, recebe em abril certificados do Guinness Book por três recordes, incluindo o de maior número de vezes capitão por um  mesmo clube (866, até novembro de 2013) - Foto: Rubens Chiri - São Paulo Futebol Clube)

Rogério Ceni, a gloriosa exceção, recebe em abril certificados do Guinness Book por três recordes, incluindo o de maior número de vezes capitão por um mesmo clube (866, até novembro de 2013) – Foto: Rubens Chiri – São Paulo Futebol Clube)

É grosseira a diferença de abordagem entre o Barça e, por exemplo, os grandes clubes do futebol brasileiro.

Sem pensar muito, tente responder quem é o capitão de seu time neste momento. Pode não ser tarefa das mais fáceis.

Sempre há uma ou outra exceção – Rogério Ceni, com seus assombrosos 20 anos e mais de 900 jogos na liderança do São Paulo, é a mais óbvia -, mas o fato é que, em nossa cultura, infelizmente, já não se espera quase nada de um capitão.

Contenta-se com sua participação no cara ou coroa prévio aos jogos e o recebimento de um troféu em caso de título. Sendo assim, praticamente qualquer jogador do elenco está apto à tarefa.

Democracia

Outro elemento que chama a atenção na definição do quarteto de líderes do Barcelona é o método: eleições diretas entre os jogadores, com voto secreto. Alguns até poderão rir e achar exagerado, mas a verdade é que isso prova a imagem de respeito que o capitão culé ainda significa, dentro e fora do clube.

Ainda mais em se tratando de uma entidade cujo slogan é Més que um clúb (“Mais que um clube”, em catalão), o que, dependendo da gestão em vigor, pode ser interpretado como um grito claro de afirmação catalã e até de independência em relação a Espanha.

O então capitão Peo Guardiola, em jogo da temporada 1999-2000 contra o Spartak de Praga no Camp Nou (Foto: Arquivo FC Barcelona)

O então capitão Peo Guardiola, em jogo da temporada 1999-2000 contra o Spartak de Praga no Camp Nou (Foto: Arquivo FC Barcelona)

Portanto, se o capitão é nascido na Catalunha, como Puyol, Xavi, Valdés, Busquets ou o hoje técnico do Bayern de Munique Pep Guardiola – que também usou a faixa em seus tempos de jogador –, melhor ainda.

Maltratando os ídolos

Também serve de exemplo ao futebol brasileiro a importância do Barcelona na carreira de cada um dos novos eleitos para chefiar a equipe em sua nova etapa.

Enquanto por aqui comemoramos se nosso ídolo permanece milagrosamente por três ou quatro anos em nosso time, estes quatro novos capitães do Barça foram formados nas divisões de base do clube, e nunca mais se foram. São tratados com enorme respeito e, caso um dia mudem de camisa, continuarão a ser aplaudidos em suas eventuais visitas ao Camp Nou como adversários.

Emerson Sheik e o "pecado" de beijar o amigo; ao lado, os xingamentos (Foto: Instagram)

Emerson Sheik e o “pecado” de beijar o amigo; ao lado, os xingamentos (Foto: Instagram)

Todo o oposto do que acontece frequentemente no nosso futebol. Vejam o Corinthians, por exemplo. O caso mais recente é Emerson Sheik, o grande herói da final da Libertadores 2012, quando marcou os dois gols da vitória contra o Boca Juniors no Pacaembu. Bastou uma brincadeira nas redes sociais – dar um selinho na boca um amigo – e foi condenado ao ostracismo, para finalmente ser varrido do clube pela intolerância obtusa de torcedores.

48 anos e 1939 jogos

Xavi praticamente nasceu no Barcelona, enquanto Busquets chegou aos 17 anos, Messi veio da Argentina aos 13 e Iniesta, que não nasceu na Catalunha, mas na região de Castilla-La Mancha, aos 12. Todos jamais atuaram profissionalmente por outros times.

Os números do quarteto são estarrecedores. Juntos, eles somam nada menos que 1.939 partidas com o time principal, e transcendentais 48 anos ativos com as mesmas cores. Xavi, que tem 34 anos, disputará sua 17 ª temporada com o Barça (723 jogos e 83 gols); Iniesta, 30, a sua 13 ª (507 jogos e 50 gols); Messi, 27, a sua 11 ª (425 jogos e 354 gols); e Busquets, 26 a sua 7 ª (284 partidos e 11 gols).

É. Estamos, sim, muito atrasados.

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7 Comentários

  • IVO ANTONIO

    COR DE ROSA !?!?
    sãopaulino na área 🙂

  • Antonio

    Espero que os dirigentes do Grêmio leiam essa matéria.

  • MILTON SIMON PIRES

    A PEDRA E O URSO POLAR – JAMAIS DESISTIR

    Milton Pires

    Há, em cada conversa entre amigos, algo de doloroso..de melancólico e às vezes quase torturante que nos faz, com alguma frequência, lembrar que certos inimigos são melhores..Os amigos, quando muito próximos, queridos ou inteligentes trazem, todos eles, na vida de cada um de nós, algo em comum e muito perigoso: nós não os escolhemos..eles aparecem e entram na nossa história sem se explicar..sem pedir e nós não podemos notá-los, não podemos percebê-los até que um dia se vão e, aí sim, sabemos que tínhamos grandes amigos porque os perdemos. Alguém já disse que podemos escolher nossos inimigos..Nossos amigos; não..
    Dia desses, num dos plantões da minha vida, eu conversava com uma amiga…Nosso tema não era amizade. Pelo contrário; falávamos sobre inimigos..Sobre um tipo novo de inimigo que parece, aos poucos, ir entrando na vida brasileira de uma maneira que mais lembra àquela das fortes amizades que acima descrevi. São inimigos por acaso e aquilo que os define não é, de maneira alguma, o ódio mas a mais completa indiferença..
    Às vezes, quando me recordo de pessoas que muito me prejudicaram profissional e pessoalmente aqui em Porto Alegre eu consigo, finalmente aos, 44 anos de idade, reconhecer gente assim. Eu imagino, num exercício muito paranoico mas ainda assim muito filosófico, pessoas que um dia julguei inimigas perigosas falando, com a máxima sinceridade, em termos amenos sobre mim..em termos quase piedosos e, diria eu, possivelmente até generosos no que se refere às lembranças por mim deixadas….nos enfrentamentos e discussões..nos xingamentos e conflitos que fazem com que aquele que de mim se recorda adote um tom acidental…um tom sem raiva nem rancor que traz um pouco daquela tristeza dos que se lembram de certos acidentes..de certas tragédias ou eventos de uma natureza qualquer que traz em si sempre a mesma substância comum…sempre a eterna impressão de que eram, todos eles, inevitáveis..
    Houve pessoas na minha vida com quem percebo ter colidido..ter batido de frente com aquilo que era, até então, a rota de vida escolhida pelo infeliz..Essas pessoas, penso eu, nada fiz para magoar, humilhar ou ofender..eu nada fiz para machucar ou desmerecer mas, imagino, consegui “atrapalhar”..consegui “obstruir” como uma pedra enorme no meio do caminho e que precisa, a qualquer custo, ser removida.
    Sobre pedras há que se dizer o seguinte: nos ofende sua indiferença..sua “agressividade passiva” que nos obstrui impávida a estrada da nossa ambição..da nossa enlouquecida ambição por aquilo que nem Freud soube explicar e que hoje se vulgarizou na palavra poder…palavra que descendo à planície do povo perdeu seu elemento mágico, seu caráter transcendental e próprio do que nos seria capaz de infundir respeito e que, justamente por não infundir respeito algum, precisa tanto do temor..desse temor silencioso que nos ronda no dia a dia ..que nos cala mais que às pedras e nos redução à condição da “melancolia feliz” daqueles que sabem que vamos todos morrer e que ignoram, coitados, que nem todos vamos viver antes disso que escolhemos chamar de morte…
    Quando hoje penso nesses que um dia chamei de inimigos não é mais ódio a sensação que tenho..isso se foi faz tempo e, se me perguntarem se os perdoei, respondo de todo coração que não sei…O perdão pode existir entre inimigos verdadeiros..entre aqueles que se escolheram como tais e juras e ofensas trocam com a mesma intensidade dos amantes e dos enamorados que a razão perdem para expressar o que sentem…Imagino eu ter chegado, e queira Deus seja isso verdade, numa fase da minha vida em que não tenho mais inimigo algum…em que sou simplesmente um protagonista de um acidente….de um certo tipo de constrangimento inusitado….como naqueles cenários gelados no extremo do mundo em que se encontram uma enorme pedra e um velho urso polar…A pedra condenada a não se mover..o urso; a jamais desistir…

    Para Cláudia…

    Porto Alegre, 8 de agosto de 2014..

  • Jeff

    Thiago Silva também foi capitão por eleição direta.

  • Paulo Henrique

    Setti,eu gostaria de te desejar um dia dos pais maravilhoso,para você e para toda a família.Felicidades!
    Você é uma figura que eu aprendi a respeitar muito,não só pela excelente qualidade dos textos,pela riqueza dos conteúdos abordados.Mas principalmente pelo grande caráter,educação e respeito que sempre demonstra por todo o público,independente da orientação ideológica que cada um siga.Você é uma excelente figura e eu o respeito muito.Tudo de bom nesse dia e muitas felicidades em sua vida.Fique com Deus!

    Muito obrigado, caro Paulo Henrique. Retribuo com prazer seus bons votos.
    Um grande abraço

  • Cronos

    Não vamos agora começar a copiar qualquer besteirinha só porque vem da Europa.
    Particularmente,acho que a Europa tem muito a nos ensinar no campo administrativo.No campo desportivo alguma coisa.Vale lembrar que daqui do Brasil já saíram muitas ideias boas que foram,inclusive,adotadas pela Fifa.
    O spray utilizado pelo juiz para marcar o correto local da barreira é invenção brasileira.Parece-me que o aumento do número de bolas à disposição durante o jogo também é sugestão brasileira.
    Sem falar que a nossa medicina esportiva é muito bem conceituada no mudo todo.
    Até agora não vi nenhum ataque a questões cruciais.Por exemplo:ninguém fala em acabar com a famigerada Lei Pelé que está deixando os clubes nas mãos de aventureiros cuja preocupação exclusiva é levar o garoto o quanto antes para a Europa.Esse tráfico de jogadores tem que acabar.
    O clube deve ser considerado, de fato e de direito, empresa e o dirigente responsabilizado de acordo com a “Lei de Improbidade Empresarial”.
    O calendário deve ser mudado para que os clubes voltem a excursionar como faziam no passado.
    Na década de 60 qualquer garoto do Santos ou do Botafogo quando chegavam à seleção já conheciam o mundo viajando por seus clubes.Esse intercâmbio,por si só,evitava que fôssemos surpreendidos.
    Se o Brasil não encontrar uma fórmula de segurar seus jogadores o maior tempo possível,a derrocada dos clubes brasileiros, e por tabela do próprio futebol brasileiro, é só uma questão de data.
    Tem moleque assinando contrato com time europeu a partir dos 6 anos.Essa farra não pode continuar.
    Outra coisa que tem que mudar é a relação dos clubes com a tv.A transmissão do produto futebol não pode ser exclusividade de uma só emissora.O monopólio da Globo tem sido um mal que deve ser combatido e exterminado.

  • carlos alberto

    Caro Setti, lia com satisfação e fluidez seu belo texto de glorificação da figura de capitão do time que desfruta no Barcelona, que entre outros predicados o respeito à tradição do clube se destaca, até que chegou o Emerson Sheik para colher uma surpreendente “intolerância obtusa de torcedores”, que rejeitaram o selinho do capitão Emerson num amigo.
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    Pense no glorificado Barcelona se uma atitude semelhante ocorreria lá e se a torcida apoiaria? O Emerson, com certeza, não respeitou a tradição do clube, faltou a dignidade que um capitão deve ter e cultivar.
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    Os obtusos torcedores têm tradição.