A ordem veio do editor Almyr Gajardoni, jornalista e pessoa de primeiríssima, um de meus dois chefes na seção “Brasil” de VEJA, onde eu chegara há pouco mais de 3 meses e era um dos editores-assistentes:

— Setti, o Médici vai receber uma homenagem de estudantes na PUC de Campinas, e é bom dar uma olhada nisso. Você vai, tá?

Marcos Sá Corrêa, a quem se poderia aplicar igualmente os dois adjetivos, era o outro editor de “Brasil”. Almyr ficava na sede da revista, em São Paulo, e Marcos na sucursal do Rio. A distância geográfica e a diferença de idade e de temperamentos — Almyr mais velho e mais fechado, Marcos expansivo, brincalhão e mais jovem — não impedia que formassem uma dupla em permanente e impressionante sintonia, como se fossem xifópagos.

Os dois recebiam impressionantes maçarocas de laudas dos repórteres e relatos das sucursais e, juntos, manuseando aquela papelada e se revezando na máquina de escrever — eram tempos pré-computador –, iam trocando ideias  entremeadas de brincadeiras até que saíam textos claros, límpidos, articulados e, não raro, repletos de ironia.

Médici, naturalmente, era o ex-ditador Emílio Garrastazu Médici, terceiro dos generais-presidentes do regime militar, que transferira o poder em março do ano anterior para o general Ernesto Geisel e se recolhera, discreto, a seu apartamento no Rio.

Pouco ou nada identificado com o projeto de abertura “lenta, gradual e segura” do regime proposta por Geisel, seu eventual reaparecimento público poderia ter implicações políticas.

Num dia de outubro de 1975, lá fui eu para Campinas, junto com o fotógrafo Sérgio Sbragia, hoje cineasta.

É importante que vocês leiam o texto que escrevi, e está depois da foto abaixo. Saiu na edição nº 371 de VEJA, de 15 de outubro de 1975. É curtinho. Depois eu volto, também em itálico, para contar o fim da história.

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Médici, tendo à esquerda o prefeito Lauro Péricles Gonçalves e o general Mário de Souza Pinto e, à direita, o reitor Benedito Fonseca. Atrás do reitor, cabeludo e bigodudo, eu olho feio para o ex-general-presidente (Foto: Sérgio Sbragia/VEJA)

Três vezes chamado de “nosso eterno presidente” e uma de “o unificador do século XX” por um orador que também não se esqueceu de louvar-lhe a “voz máscula e serena”, o general Emílio Garrastazu Médici foi homenageado terça-feira passada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Inaugurava-se, na ocasião, uma praça no campus universitário que leva seu nome e, ao que parece, um novo hábito na até agora recatada e discreta vida do ex-presidente: o de viajar, ouvir discursos, receber homenagens e conversar com políticos e chefes militares.

O inflamado orador – André Prezzi, presidente da comissão de formatura dos estudantes de Comunicações, que escolheram Médici como patrono em 1974 – teve sua opinião quanto à eternidade do cargo honorífico compartilhado pelo reitor da PUC, Benedito Fonseca, que falou em seguida e louvou a obra do governo anterior. Como resposta, um servidor da PUC leu a protocolar mensagem que o ex-presidente deixara, por escrito, no livro de visitas da reitoria. Médici não discursou.

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Médici com o reitor e o prefeito; em primeiro plano, eu, de cara feia de novo (Foto: Sérgio Sbragia/VEJA)

Visitantes – O general chegou segunda-feira à noite, e na terça, às 8h30, visitou a Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Depois das solenidades na PUC, almoçou num hotel com os formandos. Sempre protegido por uma dúzia de seguranças, visitou ainda uma creche da Prefeitura e no dia seguinte, antes de voltar ao Rio, concedeu audiência ao prefeito de Paulínia – cidade vizinha incluída na área de segurança nacional e sede de uma refinaria da Petrobras.

O prefeito, entretanto, não foi o único visitante recebido por Médici no Hotel Vila Rica: lá estiveram, entre outros, o general Mário de Souza Pinto, comandante da 11ª Brigada de Infantaria Blindada, o coronel José Maria Camargo, comandante da Escola Preparatória, o deputado Ricardo Izar e o ex-governador Laudo Natel.

O ajudante-de-ordens de Médici, major Ivo Pachalli, assegura que tudo isso é fora da rotina, pois o ex-presidente só sai do Rio para atender “a convites irrecusáveis” e em casos extremos.

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Aqui volto eu. Naturalmente, devido ao período negro em matéria de direitos humanos no qual governou o país, como cidadão eu não tinha nenhum apreço pelo general Médici. Como profissional, porém, cabia-me cobrir a visita e apurar o que pudesse sobre sua incursão campineira. Por alguma razão, porém, nas fotos de Sérgio Sbragia em que apareci, apareci de cara feia.

Eu andava destreinado em política, porque, durante praticamente todo o governo Médici (1969-1974), deixara a área política para trabalhar, no extinto Jornal da Tarde, de São Paulo, e posteriormente na também extinta revista Visão, na editoria Internacional, o que me levara, entre outras experiências, a cobrir a eleição do socialista Salvador Allende no Chile.

Nunca tinha estado com Médici, a quem apenas vira de perto uma vez, por acaso, quando, altas horas da noite, eu voltava de um lanche no centro de São Paulo para a redação do Jornal da Tarde e dei com o então presidente, acompanhado de poucos agentes de segurança, descendo de um carro e entrando no Hotel Jaraguá, que ficava no mesmo edifício. Eu me aproximei para observar, fiquei a um metro do general e, para minha surpresa, não levei safanão de nenhum segurança.

Mesmo destreinado, em Campinas não foi nem um pouco difícil descobrir o segredinho embutido na homenagem que os formandos haviam prestado ao ex-presidente.

A última frase de meu texto publicado ali atrás, só para lembrar, era: “O ajudante-de-ordens de Médici, major Ivo Pachalli, assegura que tudo isso é fora da rotina, pois o ex-presidente só sai do Rio para atender ‘a convites irrecusáveis” e em casos extremos”. O texto original, porém, continuava com a seguinte informação, que explicava tudo:

O que não parece ter sido o [caso] de Campinas: segundo o estudante Prezzi, foi a própria assessoria de Médici que lhe telefonou em julho passado, informando que o general gostaria de ir à cidade, já que não pudera comparecer à formatura, seis meses antes.

Vejam no trecho da lauda, abaixo, o corte com tinta vermelha feito pelo censor que então “trabalhava” em VEJA, e que se chamava Richard Bloch:

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O fecho do texto foi proibido pela censura: mostrava que Médici, na verdade, tinha se auto convidado para a homenagem em Campinas

A censura da ditadura quis, portanto, que VEJA não revelasse a seus leitores que o general, para voltar a aparecer publicamente, se auto convidara.

Mas vai ver que os seguranças do general constataram a cara feia do repórter, julgaram tratar-se de um perigoso dissidente do regime e passaram a informação à censura, que imediatamente tomou providências.

É claro que estou brincando. Mas o regime que então oprimia os brasileiros, além de negro, também sabia ser extremamente ridículo. Uma coisa assim poderia até acontecer. O fato é que, embora frustrado por não ver publicada a razão de ser da matéria, acabei depois considerando o corte do censor como uma pequena condecoração.

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18 Comentários

Augusto Ferreira em 23 de maio de 2013

A "cara feia" temos que aceitar por conta de sua palavra. Mas que você parece bem à vontade junto ao general, isso parece. Sou uma pessoa civilizada e estava cumprindo uma missão profissional. Você queria que eu fizesse o quê? Cuspisse nele? Proferisse palavrões?

Pedro Luiz Moreira Lima em 12 de dezembro de 2011

Amigo SergioD: Ao tomar conhecimento do depoimento de ser torcedor do Vasco das Gama - ponho os meus seviços de Pastor - sou Pastor da Igreja Só o Flamengo Salva - irmão SergioD nunca é tarde para a salvação - Aleluia - Senhor ajude o Sergio D encontar os caminhos de Ronaldonho!Ô Flamengo seja louvado! Sinto sua salvação amigo Sergio D - Aleluia! Pedro Luiz, Pastor da Igreja - Só o Flamengo Salva.

SergioD em 11 de dezembro de 2011

Ricardo, você tem muito que se orgulhar desse parágrafo cortado pelo censor de plantão. Ele desnuda o quão a suposta popularidade do General Emílio G. Médice era fabricada. A sua presença constante em jogos de futebol, assim como a conquista da Copa em 1970 contribuíram para gerar essa aura de querido pelo povo que ele tinha. Eu era adolescente na época do seu governo e já descofiava disso. Principalmente da sua suposta predileção pelo Flamengo aqui no Rio (daí, talvez, a minha implicância precoce. Eu um vascaíno doente. Hoje nem tanto). Pelo menos o seu sucessor, o General Ernesto Geisel, não fez questão de procurar essa popularidade fácil, coisa que o quinto governante militar, General João Figueiredo, tentou mas não conseguiu devido aos tempos mais arejados para a imprensa. Quanto ao cpmentário de um companheiro aqui do Blog, concordo que gostaria muito de ler um livro swu com memórias daqueles tempos. Um que nos troxesse o ambiente das redações nos tempos da censura. Que chato esse seu leitor, né? Além de querer paupar o Blogueiro dar pitacos em sua vida profissional. Grande Abraço. PS: contimuo lendo o livro. Caro SergioD, você não é chato, de jeito nenhum. E obrigado pela atenção para com o livro. Espero que goste. Abraços

Ana em 10 de dezembro de 2011

Olá, Ana, não leve a mal, mas comentários de teor pessoal como o seu eu não publico. Um abraço

evandro em 10 de dezembro de 2011

Interessante nessas histórias de censura é que sabemos quem foi censurado, os censores continuam por aí, mas e o nome deles? Melhor ficar no esquecimento?

Octávio em 10 de dezembro de 2011

Eram anos difíceis, sem dúvida. O pior aspecto de todos era, na minha opinião, que a “otoridade” não era um ente definido, restrito aos militares. Todos os níveis da administração pública, da polícia, da fiscalização de qualquer coisa, eram arbitrários e covardes. Bastava um sujeito ser “amigo do primo do vizinho” de um milico, que já vestia o papel de “otoridade”. Qualquer um mal intencionado de plantão poderia aproveitar-se da paranóia coletiva para tirar vantagem. Mas, por outro lado, quando vemos o tipo de democracia corrupta em que o Brasil se tornou, fica difícil dizer quem é pior. Ainda passarão décadas até este país tornar-se uma democracia de fato.

toninho malvadeza em 10 de dezembro de 2011

Setti se servir se consolo,vc estava a cara do falecido Zé Rodrix.abraço.

Pedro Luiz Moreira Lima em 10 de dezembro de 2011

Setti: Que bobagem de "cara feia" coisa sem nexo pessoal escrever isso - por sinal posso abaixar o crucifixo? Grande abraço - sei que foi maldade! Pedro Luiz Amigo Pedro, é bom manter o crucifixo -- e a trança de alho também, por via das dúvidas... Abração

Kitty em 16 de maio de 2011

Caro Ricardo, não ficou sentido pela descripção,ficou? Não quis dizer feio, desde o ponto de vista físico, mas pela cara fechada, malhumorada!!! Abraços De jeito nenhum! Imagine! Um abraço

Kitty em 13 de maio de 2011

Caro Ricardo, Foi uma época de opressão, repressão e cerceamento à liberdade de expressão, nada fácil para os meios de comunicação e os jornalistas sabiam que as únicas armas que poderiam mudar a situação seriam as armas das palavras, as vezes mais poderosas e demolidoras que as armas propriamente ditas, por isso tão temidas para aqueles, que não aceitam o contraditório. A imprensa, em forma geral, sofria uma limitação brutal: a censura representava a espada de Dâmocles para as matérias prontas a serem veiculadas que submetiam aos jornalistas à constante pergunta sobre os artigos prontos: sairiam na íntegra ou seriam tolhidos? Agora, olhando a foto em que você aparece bem perto do ex-presidente militar, que obviamente, você não morria de amores . Ele representava tudo aquilo que Você mais detestava. Com ímpetos próprios da juventude, com um a pitadinha de rebeldia, bastante idealismo e uma vontade tremenda de consertar as coisas que estavam erradas!!!! Justifica-se a sua rebeldia reprimida, que estava resumida, no seu olhar austero,permita-me dizer, de raiva contida. Se eu tivesse que ir mais longe na descrição, diria que seus lábios, escondidos pelos bigodes, estavam apertados em um rito de desdém. Por último, e não menos importante, não poderia deixar de comentar a respeito da frondosa cabeleira, própria da exuberância da juventude!!!! As suas feições são delicadas, mas Ricardo vamos convir, que aquele dia especial, você estava com cara “FEIA”,sim!!!! Mas que diferença gritante com aquela foto tirada em Lima no final de 1985, na entrevista com o famoso escritor( e agora Prêmio Nobel 2010) Mario V. Llosa.Se passaram 21 anos entre uma foto e outra, e a transformação é evidente : o cabelo bem cortado, moderno; veste “casual”mas com estilo; os bigodes bem aparados e um largo sorriso que ilumina o rosto de um homem feliz, bem sucedido e que gosta o que faz : Jornalismo de qualidade!!!!!! Bom, se o crivo da mediação não me censurar e a tesoura não cortar o que aqui está escrito terei logrado a façanha de descrever o periodista Ricardo Setti em duas seqüências importantes da sua vida. Ricardo se cortar for preciso, faça-o sem hesitar!!!! Abraços

carlosvereza@hotmail.com em 09 de maio de 2011

"...sofreu um corte da censura da ditadura. Vai ver foi por..." Vai ver por causa de eu ter esquecido de lustras suas botas naquele dia!

Jotavê em 08 de maio de 2011

O Médici e seus óculos cinemascope...

Márcia Maria em 08 de maio de 2011

Sr.Setti o Sr. por acaso com essa foto, já está em campanha para substituir o Bin Laden.

Marco em 08 de maio de 2011

Amigo Setti: Depois de ver essa tua foto, com certeza hoje tu não entraria nos EUA, ou causaria severos pânicos na aviação. Claro q é gozação ! Abs.

Paulo Cesar Raymundo Ferreira em 08 de maio de 2011

Retificando, você não estava olhando feio, você era muuuuuuito feio!!!!

veiaco em 08 de maio de 2011

Não Setti, foi o corte de cabelo e o bigode. Quando comentei o estrupro da jornalista americana você se horrorizou, eu havia dito que o que motivou o estrupro foi o véu errado ou a falta dele, lá estrupraram a coitada, aqui por sorte foi só o texto.

Angelo Losguardi em 08 de maio de 2011

ahahah Ao ver as fotos, Setti, devo lhe dizer que, assim como a muitos que viveram os anos 70, a idade lhe caiu bem rsrs Com relação ao texto, o censor pescou uma contradição que punha o Médici mal na fita. Se você não tivesse colocado o parágrafo em que ele diz que só saia do Rio em condições excepcionais, tenho certeza que o parágrafo censurado teria passado tranquilamente.

Roberto em 07 de maio de 2011

Setti Não é o caso de justificar nenhuma ditadura, todas elas execráveis, mas sejamos justos, o "período negro" que você citou é céu de brigadeiro comparado ao que ocorria na época bem aqui do lado na Argentina, no Chile, em Cuba, ou até um pouco mais longe (Camboja,China...). Nossa "ditabranda" segundo o Elio Gaspari (que não é nenhum direitista) foi um verdadeiro "chá de senhoras". A propósito, vc tem algum livro publicado com essas memórias? Abraços e bom fim de semana, a vc e aos amigos do blog.

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