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Garitano com o punho levantado de antigamente: em busca de cidadãos que são bascos “puros”, lembrando a Alemanha nazista (Foto: gara.net)

Os extremos se tocam em política – a cada dia isto fica mais claro. Pois é o que está em curso no momento na Espanha, mais especificamente no País Basco.

O governo de extrema esquerda, ultranacionalista e separatista de uma das três províncias bascas, Guipúzcoa, primeiro colocou em marcha um estranho censo sobre quem, na província, fala o idioma basco (os últimos dados disponíveis sobre a totalidade do País Basco mostram que apenas cerca de 35% da população têm o domínio da dificílima língua tradicional, o euskera).

Políticos de diferentes partidos reclamaram, temendo discriminação – por exemplo, nos empregos públicos – de quem não seja corrente em euskera.

Nacionalista que debocha das instituições

Agora, a coisa ficou pior. O “deputado-geral” de Guipúzcoa, Martín Garitano — espécie de mini-governador –, um dos dirigentes da coligação Bildu, no poder, pretende realizar outro censo, desta vez para identificar os guipuzcoanos por seu lugar de nascimento.

Garitano é um daqueles nacionalistas bascos extremados que debocha das instituições espanholas: recusou-se durante bom tempo a hastear a bandeira nacional no edifício em que administra a província — até ser obrigado judicialmente –, ainda é do tempo de fazer discurso com o punho levantado, vai a solenidades oficiais vestido de qualquer jeito, com camisa aberta no peito e calça desbotada, jamais, em qualquer hipótese, refere-se a “Espanha” (é sempre “o Estado espanhol”, ou seja, uma entidade à parte) — e por aí vai.

Guipúzcoa é província importante. Sua capital é a magnífica cidade litorânea de San Sebastian.

O órgão da diputación (o governo da província) encarregado da Migração informou que o objetivo do rescenseamento é estabelecer que cidadãos nasceram “dentro ou fora de Euskal Herria” [entidade que nunca existiu, um país mítico e irrealizável que, além do atual País Basco, incluiria um pedaço do norte da França], com “atenção para o lugar de nascimento de pais e mães”.

“Bascos puros” e a independência

O diretor de Migração, Marcos Nanclares, justifica a medida dizendo que “mais de 25% da população de Guipúscoa nasceu fora de Euskal Herria”. Segundo ele, é preciso criar políticas de integração para somar os “estrangeiros” à província aos ideais de independentismo do governo. “Não apenas isso”, continua, “mas também existem outros 25% da população cuja mãe, pai ou ambos nasceram fora”.

Ou seja, não seriam “bascos puros”. Lembra sinistramente a Alemanha nazista.

Com a maior naturalidade, Nanclares afirmou também que “Euskal Herria jamais poderá alcançar a independência se não formos capazes de criar alianças com as pessoas que vieram de fora de Euskal Herria, de incorporá-las a esse processo”. Ou seja, o governo provincial viola a Constituição, ao pregar a divisão do país — coisa que cidadãos, jornais ou partidos políticos obviamente podem fazer, mas que não se admite sejam parte do trabalho de um governo eleito segundo as normas do país.

Três categorias de cidadãos

É a primeira vez, desde que se instalou a democracia na Espanha, em 1976, que um agente público discrimina oficialmente, de forma criminosa, cidadãos – como se os cidadãos nascidos em Guipúzcoa que têm pais e mães bascos pertencessem a uma determinada espécie (possivelmente superior), os nascidos ali, mas de pai e/ou mãe não basco(s), constituíssem outra categoria de cidadãos, e os demais membros da comunidade fossem uma espécie de terceiro time.

É também a primeira vez que dirigente admite que o governo a que serve trabalha politicamente, lançando mão dos recursos públicos, visando separar o País Basco da Espanha. (No caso do tal “Euskal Herria”, falta só combinar com a França, naturalmente).

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Deputada Rafaela Romero: políticas do governo de ultraesquerda da província são “racistas, sectárias, totalitárias e xenófobas, próprias da extrema direita” (Foto: YouTube)

“Políticas racistas, sectárias, totalitárias e xenófobas”

Muito corretamente, a líder do Partido Socialista nas Juntas Generales, o parlamento da província, Rafaela Romero, classificou o censo sobre a origem “racial” dos guipuzcoanos como uma “nova segregação”, que ela equiparou às “políticas mais racistas, sectárias, totalitárias e xenófobas próprias da extrema direita”.

A diputación é uma extravagância – absurda, por falar nisso – da organização política da Espanha. É como se, no Brasil, além do governo federal, dos governos estaduais e das prefeituras, existisse, entre os governos estaduais e as prefeituras, uma outra instância de governo, que tivesse uma série de atribuições, um governador, deputados, funcionários etc etc.

É um absurdo, mas os deputados-gerais, que governam as 50 províncias distribuídas pelas 17 comunidades autônomas do país – como a Catalunha, a Andaluzia ou a Galícia, para citar três – dispõem de poderes, inclusive para praticar idiotices como essa.

Nas eleições do final do ano passado, apesar da impugnação do governo e do equivalente ao Ministério Público espanhol, o Tribunal Supremo considerou válida uma coligação de extrema esquerda, Bildu, próxima à organização terrorista ETA, que até recentemente, e durante 44 anos, pregou a luta armada como forma de tornar independente o País Basco.

É essa turma que está procurando bascos com e sem “pureza racial”.

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J.P. em 07 de agosto de 2012

Olhe, Setti, não sou pró-independentista basco, nem radical de esquerda ou de direita, mas acho que não se pode misturar alhos com bugalhos, isto é, a questão da segregação racial com a da defesa da língua. Não considero "estranho" o censo dos falantes de euskera: ações pró-euskera vem sido tomadas no âmbito dos governos autônomos locais e regionais bascos desde 1979 em governos de todos os espectros político-ideológicos, isto é, desde os moderados liberais do PNV até a esquerda independentista representada pelo Bildu. Ou seja, as políticas públicas em defesa do euskera no País Basco vem transcendendo ideologizações e partidarismos desde a volta da democracia em defesa de um dos elementos básicos da cultura basca, antes que a língua morra ou seja "museificada". E para atuar num difícil cenário em que o castelhano (espanhol) é hegemônico, é imprescindível atualizar, de vez em quando, indicadores tais como o número de falantes, até para conferir se as estratégias tem dado certo ou não. Agora, em relação ao censo abarcar também a origem dos entrevistados, bem, isso é esquisito mesmo...

Ricardo ( Highlander) em 19 de maio de 2012

Kaixo..!! Mas Claro setti: pode ter a certeza que onde quer que a Causa da Autodeterminação dos Povos esteja Eu lá estarei , mesmo que seja na imprensa Reacionária , em Particular a Causa de Minhas Três Pátrias ( de Meus Antepassados ) que ainda Hei de Ver Livres , Fortes e Independentes , a qualquer que seja o custo: Euskal Herria , Irlanda ( Northern Ireland/Ulster ) e Galícia Celta. A Internet é um Local Públicoo , Eu Suponho e a Justiça tarda mas não falha e , de repente , pode chegar , também para o Valoroso País Basco bem antes do seu Devaneio sobre improváveis viagens espaciais realizadas de bicicleta. Agur..!!

Ricardo ( Highlander) em 19 de maio de 2012

Gora Euskal Herria Askatuta..!! Você, de novo, por aqui? Já abraçou seu terrorista assassino da ETA hoje? "Euskal Herria" vai existir como um país no mesmo dia em que o ser humano for a Plutão de bicicleta.

Corinthians em 14 de maio de 2012

cacalo kfouri - 11/05/2012 às 18:25 É isso mesmo. Tão parecidos que se confundem. Ou iguais na essência e na execução.

Paulo em 13 de maio de 2012

Se o Pais Basco, ainda que o frances, for no N da França, então faz fronteira com a Bélgica. O pior da ignorância é se acreditar nela. Estude um pouco e melhore. Faz bem para você e seus leitores. Noroeste da França. Quem deve estudar para ter mais educação é você.

Leonardo Carvalho em 12 de maio de 2012

Não me surpreende. Não existe diferenças entre o nazismo e o Stalinismo. Os dois são regimes de esquerda.

Paulo Cesar Ferreira em 12 de maio de 2012

Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, era o partido de Hitler. Tanto Stálin, quanto Hitler eram de esquerda, mas concorrentes. Os dois foram ditadores e genocidas. Líderes da direita por exemplo foram: Adenauer, Churchill. Os dois foram grandes líderes democratas. É impressionante como tentam imputar à direita e ao pensamento conservador, o legado do Nazifacismo, quando ambos são diametralmente opostos.

Ismael em 12 de maio de 2012

Os nazistas, obcecados pela questão ariana, procuravam a origem comum entre as raças mais antigas da Europa ainda não "contaminada", segundo eles, pelas migrações asiáticas pós romanas. É possível que tenham influenciado os bascos como um possível ramo dessa raiz comum pré-céltica. Mas a história mostra que entre as populações européias houve tanta mistura ao longo dos milênios que qualquer teoria de pureza racial é ridícula. O post não fala nos "bascos" como um todo, DE MODO ALGUM! Menciona uma iniciativa desvairada de uma administração de extrema-esquera ultranacionalista.

Mari Labbate *44 Milhões* em 12 de maio de 2012

O território da Espanha já está bem definido: não sofrerá qualquer alteração. Estão brigando por nada: apenas acumulando Carmas. "Os extremos se tocam em política" = COMISSÃO DA VERDADE = irmão X irmão = FOGO. Ponto-de-bênção: CENTRO. Obviamente, a melhor posição.

Angelo Losguardi em 12 de maio de 2012

Lamento ser o cara chato que acaba com a ilusão e as fantasias dos esquerdistas escoceses, mas nada disso é estranho à história das esquerdas. Mas enquanto a idealização preguiçosa prevalecer, vamos ler coisas assim. E isso sem contar às menções à tal "extrema direita", que nada mais é que uma mera dissidência esquerdista. Mas entendo a tal líder socialista... sem fantasias, a máscara dessa gente cai.

Titus Petronius em 11 de maio de 2012

São oportunistas. Os bascos não estão engajados nisso. O radicalismo da ETA surtiu efeito contrário ao pretendido, arrefecendo o entusiasmo dos bascos pela separação. Conheci bem a Espanha ao percorrer os Caminhos de Santiago. Minha convivência com os povos que compõem o país me leva a concluir que os catalães são mais nacionalistas do que os bascos. Ouso dizer que se houvesse um grande levante na Espanha hoje, os catalães teriam o separatismo mais fervoroso. O perigo para a Espanha hoje é que o agravamento da crise econômica sirva de estopim para o recrudescimento de movimentos separatistas. É tudo o que a Espanha não precisa nesta altura do campeonato...

Paulo em 11 de maio de 2012

Sul da França. Euskal Herria existiu, mas só no passado. Na época que se falava o euskera na região da Catalunha, por exemplo. Como, sul da França, caro Paulo? O sul da França dá para o Mediterrâneo! A região basca da França é no OESTE. E Euskal Herria nunca existiu como país. E você dizer que se falava euskera na Catalunha é como se dizer que, antes de Cabral, se falava chinês no Brasil. O idioma catalão vem do latim vulgar, o euskera é um mistério linguístico, cujas origens até hoje desafiam os especialistas.

cacalo kfouri em 11 de maio de 2012

setti, conhece alguma coisa mais parecida tal como extrema esquerda e extrema direita?

rod em 11 de maio de 2012

Deputada Rafaela Romero: políticas do governo de ultraesquerda da província são "racistas, sectárias, totalitárias e xenófobas, próprias da extrema direita"... Nem acredito em esquerda-direita, mas é tão difícil assim assumirmos todos que comunistas e nazifascistas são tão diferentes quanto elefante e mamute?

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