Grécia: as enormes dificuldades de um novo governo começam pela obrigação de eliminar as bandalheiras

Antonis Samaras do partido Nova Democracia declarou vitoria nas eleições gregas

Antonis Samaras, líder do partido Nova Democracia: sua enorme série de desafios, se liderar o governo grego, começa com a arrumação da casa, que está caindo aos pedaços (Foto: John Kolesidis / Reuters)

Amigos do blog, quem se informa um pouco sobre a situação da Grécia sabe as brutais dificuldades que enfrentará o provável governo de Antonis Samaras, o líder do partido conservador Nova Democracia, que, por peculiaridades da legislação eleitoral grega, não chegou a alcançar 30% dos votos mas elegeu uma forte bancada de 129 deputados num Parlamento de 300 integrantes.

(A Constituição prevê para partido que obtém mais votos, seja qual for seu percentual, o direito a uma espécie de bônus de 50 deputados adicionais aos que elegeu. A Nova Democracia elegeu 79, e ganhou mais 50).

A primeira dificuldade, cronologicamente, será consolidar as tratativas em andamento para aliar-se com os antigamente majoritários socialistas do Pasok e com o grupo Esquerda Democrática, de forma a ter 179 deputados — mais do que a maioria absoluta. Cada partido vê com diferentes nuances o resgate imposto pela Uniao Europeia à Grécia para evitar sua quebradeira e cada um propõe determinados tipos de mudanças nos acertos feitos pelo governo anterior de tecnocratas, chefiado pelo ex-vice-presidente do Banco Central Europeu Lukas Papademos.

A mídia do mundo inteiro tem se concentrado sobretudo nas dificuldades sobre esses acertos: prazos, totais da dívida, condições, se se pode relaxar o arrocho para que o Estado falido grego faça investimentos etc etc.

Isso está retratado em notícias em toda parte.

Gostaria, portanto, de me concentrar em outro tipo de obstáculos a que o novo governo não terá como fugir: a incrível rede de mamatas, maracutaias e irregularidades que sucessivas administações foram fazendo com o dinheiro público — o que, obviamente, foi a principal causa do estouro das finanças do país.

Vamos a alguns exemplos? Vou enumerá-los — e eles, naturalmente, não são tudo:

1. Sonegação de impostos: economistas e estudiosos gregos de todas as tendências concordam em que não pagar impostos é o esporte nacional. Calcula-se que saem pelo ralo mais de 30% do PIB grego.

Relaciono um exemplo que seria divertido se não fosse uma barbaridade. Entre os hoje empobrecidos 11 milhões de gregos há, como em toda parte, uma elite riquíssima. Pois bem, o governo passado instituiu um imposto sobre piscinas, mediante declarações espontâneas dos proprietários: entre dezenas de milhares de gregos que desfrutam de piscina em casa ou na residência de férias, só 6 (sim, seis) declararam o bem.

greek-women (Foto: Feminema)

Na Grécia, há 40 mil filhas solteiras de funcionários falecidos que recebem pensão do Estado (Foto: Feminema)

2. Barbaridades da previdência social (1): a confusa legislação da Grécia a respeito foi inchando a lista de profissões e atividades supostamente de “alto risco” a ponto de incluir, hoje, cerca de 600 categorias. Assim, cabeleireiros ou tintureiros são considerados profissionais de “alto risco”, e têm direito a aposentar-se aos 50 anos, com 95% do último salário recebido.

3. Barbaridades da previdência social (2): o governo de Papademos já havia localizado, até deixar o poder no mês passado para um primeiro-ministro interino, mais de 10 mil famílias que recebiam a aposentadoria de pessoas mortas, algumas há 10 ou mais anos.

4. Barbaridades  no funcionalismo público (1): por bondade espantosa do Tesouro, há 40 mil filhas solteiras de funcionários falecidos que recebem pensão do Estado. É claro que, na vida real, a esmagadora maioria delas tem marido e filhos. Até a atual crise, a maioria tinha, também, empregos.

5. Barbaridades no funcionalismo público (2): os funcionários públicos, entre outros benefícios, recebem prêmio por chegar pontualmente ao trabalho. Ou seja, uma obrigação elementar significa mais dinheiro no contracheque no final do mês.

6. Barbaridades no Estado grego (1): as compras feitas pelo Estado grego estão minadas pela roubalheira. O governo de tecnocratas chegou a detectar casos em que marcapassos fornecidos a segurados custaram aos cofres públicos 40 vezes mais do que o preço de mercado. O mesmo e efêmero governo — que durou de novembro a maio –, ao fazer um levantamento sobre hospitais públicos, descobriu, entre outras surpresas, que um deles, onde faltavam enfermeiras, tinha, em compensação, 145 jardineiros para cuidar de um gramado e meia dúzia de árvores.

Forças Armadas da Grécia: poderio militar desproporcional (Foto: Erepublik.com)

Forças Armadas da Grécia: poderio militar desproporcional (Foto: Erepublik.com)

7. Barbaridades no Estado grego (2): às voltas com um interminável conflito potencial com a velha rival — e muito mais poderosa — Turquia, a Grécia, com 11 milhões de habitantes, sustenta Forças Armadas com 156 mil homens. Em comparação, a Alemanha, país mais rico e mais populoso da Europa, com 82 milhões de habitantes e consideráveis compromissos internacionais, tem 250 mil soldados.

Poderíamos nos estender mais neste texto. Mas acho que esses oito itens dão uma ideia do que espera o novo governo grego. Antes de consertar uma casa caindo aos pedaços, como se tem tentado até agora, é preciso refazer seus alicerces. Em outras palavras, eliminar a enorme lista de bandalheiras que levaram à situação atual.

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Nenhum comentário

  • ari alves

    Os canalhas do governo comuno-lulo-petista não estão fazendo coisa muito diferente “nefte país”. Quem viver verá!

    Saudades de governos honrados, como o do digno presidente Médici.

  • bereta

    Caro Setti
    Que tal se você aproveitasse a oportunidade e enumerasse as barbaridades praticadas no senado federal e na câmara federal? Como também, nas demais câmaras estaduais ou municipais do Brasil? Creio que certas revelações colocariam no chinelo as práticas gregas. lv

  • ari alves

    O lulalato vai fazer com o Brasil mais ou menos o que o post descreve da Grécia. Aguardem!

  • danilo

    Muito parecido com o Brasil em muitos pontos.

  • Marco

    Dom Setti: Puxa, com um grande texto desses, me faz lembrar a época dos gregos antigos, quando eles diziam q não é pelo acaso q se reina ou governa mas sim pela necessidade. Acho q tu mostrou o problema e ainda deu a resposta! Abração.
    PS: Uma perguntinha q não quer calar o coração vai bater para quem entre Azzurra e Inglaterra…

    Obrigado pelo comentário, amigo Marco. Quanto à partida, o coração vai bater pela Azzurra do velho e grande Pirlo e do goleiraço Buffon. A Inglaterra está péssima, irrreconhecível. Depois que o boboca do técnico preferiu levar o Terry, com comentário racista sobre o irmão do Rio Ferdinand e tudo, e não convocou o grande zagueiro, já perdeu pontos comigo. Vendo jogar o time, sobretudo hoje — pareciam 11 cabeças-de-bagre –, não dá pra torcer, não.

    Abração!

  • amanda

    A Grécia é o Brasil amanhã.

  • Bain

    O Estado grego perdeu a legitimidade para cobrar impostos há muito tempo. Todo mundo sabe que o dinheiro vai e não volta. É a mesma coisa na Itália e no Brasil.
    A diferença é que os gregos são mais descarados. Por exemplo, o lago Copais começou a ser drenado em 1957 e a tarefa se encerrou no mesmo ano. A agência responsável pelo lago existia até 2010, não sei se fecharam ou ainda existe.
    Os corruptos brasileiros fazem diferente, eles não terminam o serviço nunca para não perderem a mamata. Lembra do tal Luz Para Todos? O programa não acaba nunca e a famiglia Sarney continua levando nosso dinheiro.

  • duduvieira10

    Sensatez do povo Greco. Não esqueça de mandar os funcionários públicos devolver os Porches Caiynne. Multiplica 300 pilas vai dar uma graninha para pagar as contas!!

  • Carlos

    Caro Setti… de todas as mazelas relacionadas, o Brasil sofre de todas elas… claro, algumas com maior ou menor relevância. A diferença entre a Grécia e o Brasil, é que este último é tão rico, tão rico, tão rico… que acaba não quebrando. Isto é…, até hoje.

  • G. Carvalho

    Apesar de todos os defeitos, os gregos não se deixaram seduzir pelas sibilantes sereias do Syrisa, o partido que pretendia ver o país caranguejando. Não obstante reconhecessem o cinismo do PASOK e sobretudo o deboche dos Conservadores, os gregos rejeitaram as teses utópicas da vanguarda do atraso. Seu futuro, bem ou mal, está na Eurozona. Não na zona das ideias fracassadas.

  • Willer

    Os problemas que você relacionou são enormes, um desafio seria tentar entender o tipo de mentalidade que conduz ao caos do quadro grego, como já comentaram ele não vem de agora, na verdade ele é tão antigo quanto a própria Grécia *moderna*, senão vejamos:
    “A Grécia é o único país conhecido em que desde seu nascimento vive uma situação de bancarrota total. Se a Inglaterra ou França vivessem um único ano a situação que este país vive, poderíamos esperar catástrofes terríveis, mas a Grécia já vive vinte anos em paz com sua falência. Todos os orçamentos gregos, do primeiro ao último, apontam para o deficit.”
    Apesar das aparências, o texto, entre outras passagens de atualidade impressionante, consta na obra “Greece and the greeks of the present day” de Edmond About, escritor francês(link no final), o detalhe é que o “present day” repousa em 1854, desde a época as coisas não mudaram, é de se presumir que não mudem nunca.
    O erro foi ignorar as manobras gregas para sua aceitação na zona do euro, que o Goldman Sachs estava colaborando na maquiagem dos dados econômicos que colocaram a Grécia dentro dos critérios de Maastricht, isto era sabido e já demonstrado, apesar de negativas aqui e ali, é difícil ignorar o caso. Os motivos disto já são outros quinhentos, todos desconversam, afinal filho feio de político não tem pai, mãe nem nome. Que três nomes intimamente ligados ao Goldman estejam hoje em postos chave da UE, isto é aterrador, Mario Monti, uma pedra no sapato de Merkel, Mario Draghi, atual presidente do Banco Central Europeu e o próprio Papademos, os três atuavam na instituição financeira na época, isto também é amplamente conhecido e a matéria foi devidamente explorada no Le Monde há tempos atrás.
    No todo, o comportamento nacionalista grego, a eleição de um “novo governo” que de novo não tem nada, o Pasok e ND são responsáveis pela lambança grega, a maneira como praticam chantagem dentro da UE, prometendo um abraço de afogado caso os coloquem contra a parede, a constatação de que existem dezenas de bilhões de euros ilegais da Grécia descansando em contas na Suíça e que poderiam ser repatriados caso as autoridades gregas assim quisessem, mas não querem e por fim…
    A constatação de que os militares gregos andam passeando pela França e Alemanha com a listinha de compras nas mãos(http://tinyurl.com/greece-weapons-DieWelt), querendo tanques Leopard, peças de artilharia, munições diversas incluindo mísseis , fragatas e até submarinos , procedimento coberto por clausula que excluí gastos militares do pacote de austeridade da troica, estes fatos não permitem grande otimismo.
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    Greece and the greeks of the present day
    Edmond About, 1854
    Google Books, obra gratuita.
    http://tinyurl.com/greece-and-the-greeks-eabout
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    Le Monde
    Goldman Sachs, le trait d’union entre Mario Draghi, Mario Monti et Lucas Papadémos
    http://www.lemonde.fr/europe/article/2011/11/14/goldman-sachs-le-trait-d-union-entre-mario-draghi-mario-monti-et-lucas-papademos_1603675_3214.html
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    A batalha entre a Alemanha e Grécia foi profetizada pelo Monty Python, e como todo mundo aqui é meio fanático por futebol, fica a dica:
    Nota, a Alemanha vai pegar a Grécia de verdade na copa europeia, vai ser a briga do século.
    http://www.youtube.com/watch?v=ur5fGSBsfq8
    grande abraço, caro Setti.

    Outro grande abraço para você, caro Willer, um leitor que honra este blog com sua atenção.