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Crise na Grécia: bancos privados estão engolindo um enorme sapo (Foto: Julien Jorge/Wikimedia Commons)

Amigos do blog, há um aspecto na crise da dívida pública da Grécia, importante e raro, que, não sei a razão, não vem obtendo o destaque que merece no amplo noticiário a respeito do assunto.

Refiro-me ao papel dos bancos privados no caso.

Recapitulando: a Grécia está quebrada, vivendo uma catástrofe econômico-financeira que ameaça a coesão e até a existência da União Europeia e da moeda comum de 17 de seus 27 membros, o euro.

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Giorgos Papandreu: herdeiro de crise que ameaça a União Europeia e o euro  (Foto: Georges Gobet/AFP)

Para evitar uma hecatombe, a chamada “troika” — o Banco Central Europeu (BCE), o FMI e as própria União Europeia, por meio de seus fundos –, além de bancos privados, emprestaram há pouco mais de um ano 100 bilhões de euros (cerca de 242 bilhões de reais) à Grécia em crise.

Não foram suficientes, e fez-se necessário um segundo e maior empréstimo de 160 bilhões de euros (387 bilhões de reais) ao governo de Atenas, após negociações dificílimas, conduzidas sobretudo pela chanceler alemã Angela Merkel e pelo presidente francês Nicolas Sarkozy e sob condições draconianas, que estão todas explicadas neste post já publicado. Sugiro que vocês dêem uma olhada no texto.

A primeira parte desse novo dinheiro deverá entrar no Tesouro grego no começo do próximo mês. Sem isso, o governo do primeiro-ministro socialista Giorgos Papandreu – herdeiro de crise deixada pelo governo conservador da Nova Democracia, que governou a Grécia durante seis anos, até 2009 – não conseguirá pagar nem os salários do funcionalismo.

Povo paga a parte mais difícil

Todas as partes cederam um pouco na tentativa de estancar a hemorragia grega e seus efeitos.

O governo grego entregou sua alma a Deus. O povo grego paga a parte mais difícil – sofre as consequências de cortes, restrições, queda de atividade econômica e desemprego, e não por acaso já ocorreram mais de trinta greves gerais este ano, fora os choques de rua com quebra-quebras e feridos.

Os países da UE, à frente Alemanha e França, lançaram mão de seus próprios Tesouros, pagando um preço financeiro por isso e afetando, inevitavelmente, políticas públicas em andamento ou em vias de implantação. O BCE e o FMI se viram forçados a adiantar os recursos em boa parte com juros abaixo do que gostariam.

Bancos engoliram sapo que pode chegar a 135 bilhões de euros

E os bancos privados? Não sei porque essa informação praticamente não circula, mas o fato é que mais de 80% das centenas de bancos envolvidos de forma direta ou indireta nas operações aceitaram engolir um enorme sapo, assumindo “possíveis perdas” de até 54 bilhões de euros (130 bilhões de reais) até 2014, que poderão chegar a 135 bilhões de euros (327 bilhões de reais) até 2019.

Uma grande novidade, pois: os bancos estão fazendo sua parte, obrigados pelos governos e por instituições intergovernamentais, e desmentindo, no caso da crise grega, a tese segundo a qual “os mercados” passaram a dar as cartas, passando por cima dos governos e dos políticos eleitos.

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Paulista indignado em 13 de outubro de 2011

Depois da farra (olimpíada) vem a conta. Meu medo é que poderá ocorrer coisa pior, depois da gastança irresponsável, aqui no Brasil.

Estêvão Zizzi em 13 de outubro de 2011

Assumir erros...confessar erros...admitir erros publicamente ( ou na frente de quem deveria)...taí uma coisa difícil que os governos utilizam para tirar "os encargos das costas". Ainda mais agora, numa época em que o individualismo e o egoísmo prosperam...são inclusive valorizados! Mas quem alcançou esta maturidade merece meu aplauso, todo o meu respeito, porque não é pra qualquer um, é pra quem tem coragem.

Jefff em 13 de outubro de 2011

estado incompetentes

Jefff em 13 de outubro de 2011

Pobre banca privada recebe trilhões de dolares de socorro dos governos a ainda sofre como todos nos. Meu deus quanta injustiça com a sistema financeiro. Eles quebram e recebe ajuda do papai estado. Sim o mesmo papai esatdo que deve ser duro com os desempregados tem que socorrer os incopetentes da banca privada. È de dor o coração esse post.

Ulisses em 13 de outubro de 2011

Sinceramente não entendi o ponto...é lógico que a população vai como sempre em uma economia dominada pela mercado pagar o pato. Os bancos não vão ter de engolir sapos, é só ver o quanto seus CEOs ganham de bônus, é muito fácil apostar com o dinheiro dos outros e depois dizer "é despulpa, mas nós erramos, posso pegar seu dinheiro de novo??" Os bancos não vão ter de engolir sapo nenhum, eles nunca tiveram esse dinheiro, gastaram o que não tinham e depois vem com desculpas, francamente viu.

Jo Rolex em 12 de outubro de 2011

Até aí não há nenhuma novidade, faltou concluir que, apesar de prejuízos, a banca não vai quebrar porque será socorrida pelo dinheiro público dado pelos governos. Ou seja, o mercado não precisa governar, apenas se apropria dos recursos oficiais, deixando o serviço sujo para os seus políticos testas de ferro.

Alberto Porém Júnior em 12 de outubro de 2011

Sabe Setti, vou fugir um pouco do tema hoje porque não tem como não divulgar tais fotos do link abaixo. É aterrador a comparação, mas lembra as teses em que o estuprador estupra porque foi estuprado. Horror simplesmente, em pleno séc XXI. http://whatreallyhappened.com/IMAGES/GazaHolo/index.html

Think tank em 12 de outubro de 2011

Pode usar eufemismo como: “O governo grego entregou sua alma a Deus.” Mas caso queira realmente entender de fato e a situação, precisa perguntar se caso a Grécia fosse um startup, com este perfil grego, que tipo de Venture Capital colocaria seu dinheiro? O que todas essas lorotas dos políticos europeus hoje escondem é um fato que está diante dos olhos, mas poucos enxergam ou fingem não enxergar; títulos, letras, e notas destes países não passam de um gigantesco esquema do famoso Ponzi, prestes a estourar ou já estourado. Se fosse uma instituição privada os dirigentes gregos já estariam a caminho da prisão como aconteceu com Madoff. Os países como a Alemanha e a França jogaram bilhões nestes países, que antes financiavam suas farras de desgoverno por meio de MEGA inflação ou MEGA juros, na esperança de nivelar e estancar a onda de imigração do que fugiam do caos e em busca de melhor padrão de vida, mas não previram este gigantesco side effect que agora pipocam. Emprestar mais dinheiro ao individuo viciado em estourar as contas do cartão de credito, faz dotar este individuo com inteligência financeira?

Reynaldo-BH em 12 de outubro de 2011

Setti, já postei por cá minha admiração pelo jornalista/escritor/crítico Miguel de Sousa Tavares de Portugal. Envio um link no qual o primeiro vídeo parece fazer coro com minhas observações anteriores. Por incrível que pareça - e para mim é sinal de que ando bem da cabeça! - me orgulho de ter opiniões coincidentes. Sobre a crise européia. E alguns dados sobre o Brasil. Abraços. http://aeiou.expresso.pt/merkel-e-sarkozy-falam-em-nome-da-europa-toda-e-ninguem-acha-estranho=f679434

Reynaldo-BH em 11 de outubro de 2011

Um comentário meio que tangencial ao post. A China comprou hoje, ações de 4 bancos estatais coo reforço de caixa e blindagem à crise que mesmo a China não está imune. Quando os "serristas e alckmistas" que esconderam FHC por anos irão se manifestar e defender o PROER? Onde vou ler críticas de petistas ao governo da China (e de resto dos USA e de TODA a Europa!) pelo socorro aos bancos para evitar um colapso que não pode ser precificado? Onde está o Mercadante com os delírios e acusações banais, típicas do ignorante econômico que sempre foi? Será que nem mesmo o PSDB irá lembrar a autoria do plano que fez com que o Brasil, hoje, possa estar mais protegido? Ou José Serra continuará a propor creches Lucy Montoro em Itumirim/MG? E a chamar de Lula esta "acima do bem e do mal"? Será que nem mesmo a HISTÓRIA ensina? Eu sempre desconfiei que Wen Jiabao, primeiro-ministro chines, era um neo-liberal....

Reynaldo-BH em 11 de outubro de 2011

Algumas lições podemos - mais, devemos! - aprender com esta crise anunciada, prevista e até por isso inevitável. É mais um exemplo da profecia auto-realizável. Economistas são experts nesta arte. Costumam divergir de si mesmos: são sábios quando dizem que amanhã pode chover ou fazer sol. Se não, podem ocorrer chuvas com períodos de céu claro! Não erram nunca. E nunca dão soluções. São comentaristas de futebol. Ótimas analistas de jogos encerrados. Alemanha e França já falam em nome da Europa. Sarkozi e principalmente Fraulein Merkel, já dizem "a Europa precisa" ou "a Europa vai fazer", etc. em nome não mais de seus países. mas da CE. E não sem razão. Eles - e em destaque a Alemanha - é que vão pagar a conta! Qual a saída? Ninguém, honestamente, sabe. Até então a Comunidade Européia reunia inimigos históricos, culturas antagônicas, estágios econômicos diversos sob um mesmo guarda-chuva. Nunca antes experimentado. Este é o primeiro (será o último?) teste desta união artificial mas essencial, enquanto caminho de sobrevivência em um mundo com novos atores, como China, Oriente Médio e outros países onde o dinheiro escolheu para abrigo. A fórmula da troika é a adequada? Para econoimias díspares como Irlanda, Espanha, Portugal, Itália e Grécia? O que é traço comum a estes países? Uma imensa euforia derivada de uma fantasia do paraíso alcançado pela simples queda de fronteiras e acesso a fundos comunitários. O povo grego (ou espanhol, português, irlandês) tem alguma culpa? Inegável que infelizmente sim. Não é fácil alertar o naufrágio no meio do baile. Nem no Titanic foi possível. O preço é mais alto que deveria, certamente. Não há como bancos escaparem. Se bem que nos USA, escaparam. Com arranhões e alguns estragos. Mas, sobreviveram. Bancos são demonizados desde a invenção do dinheiro, no reino da Lídia. E sempre existirão. E sempre estarão adequados às regras do jogo, sejam estas quais forem. Me assusta a pouca (ou nenhuma) importância que se dá no Brasil (falo dos ditos atores políticos!) a este cenário. Estamos - sem qualquer dúvida - vivendo um tempo de mudanças e quebra de paradigmas que nem mesmo as guerras mundiais conseguiram produzir. Não se trata de acompanhar os índices das bolsas de Atenas, Milão ou Londres. Nem a NYSE. È mais intenso. É um modelo que, se der errado, altera a geopolítica mundial. E afeta A TODOS: o encanador, funcionário público, banqueiro, pesquisador, etc. Que vai reformar o sistema de Saúde, de aposentadoria, de educação, de assistência social e de emprego. Em minha visão não só os dados relativos aos bancos que estão sendo desprezados. Todos os outros, exceto as reuniões em Bruxelas, são considerados acessórios. No fundo, eles são essenciais para que possamos entender o que virá. E como será.

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