E mais: os presentes de Dona Marisa, o MST e o superávit, o Brasil atrás dos outros “emergentes”, concorrência para a AmBev, FHC x OLP, os cabelos azuis de Lula, Thomaz Bastos segue adiante, o PT e o MST – e dados estarrecedores sobre homofobia

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Greve é um conflito entre duas partes, e sua decretação implica riscos e conseqüências para ambas. Essa verdade simples e cristalina é familiar a milhões de trabalhadores da iniciativa privada no país desde que imigrantes europeus trouxeram para o Florão da América o conceito de cruzar os braços para defender reivindicações, há mais de um século. Com ela, o líder sindical metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva conviveu por décadas. Mesmo assim, trata-se de algo praticamente desconhecido por grandes contingentes de servidores públicos brasileiros – parte dos quais está, agora, em greve contra a reforma da Previdência.

O direito de greve é assegurado a todos os trabalhadores, dentro de limites legais, pela Constituição, mas não existe legislação regulamentando claramente a questão para funcionários públicos, nem estão claramente classificados os “serviços essenciais” que, diz a Carta, não podem parar. Graças à ausência de normas legais, de um lado, e, de outro, a um cipoal de leis contraditórias eventualmente aplicáveis a uma ou outra greve, não é fácil, dependendo da categoria a que pertence o servidor da União, dos Estados ou dos municípios, fazer com que a falta ao trabalho produza conseqüências, como a perda dos dias parados ou, em casos extremos, a perda do emprego.

Há uma série de brechas legais que permitem ser enérgico com greves abusivas na União, nos Estados e nos municípios, mas os governos, sempre compreensivos, quase nunca as aplicam. Se aplicam, acabam mais adiante voltando atrás e, em acordos para acabar com a greve, fica tudo como estava. Finalmente, quando nada disso acontece e os governos, em ocasiões raríssimas, agem com firmeza, há sempre a Justiça para passar uma borracha sobre episódios grevistas. A greve, em última instância, sempre sobra para a população desatendida.

É contra essa pesada tradição de leniência que se choca a alegada disposição do governo, expressa a assessores pelo presidente Lula e insinuada publicamente pelo ministro José Dirceu, de cortar o ponto de servidores públicos grevistas. A ver.

Certamente terão contribuído para a irritação do governo pelo menos dois aspectos do movimento grevista. O primeiro é que, já de início, as entidades sindicais envolvidas partiram para uma “greve geral por tempo indeterminado”, sem nem sequer cogitar da hipótese de realizar outras ações que deveriam anteceder uma decisão tão extrema e radical – por exemplo, uma greve geral simbólica de advertência que durasse algumas horas, ou greves por setor ou, mesmo, uma greve geral por prazo fixo, e curto.

O segundo motivo de irritação é o próprio objetivo central da greve: em vez de negociar a reforma da Previdência, tentando mudar seus objetivos, reduzir sua abrangência, minorar seus efeitos ou ampliar os benefícios previstos, as entidades grevistas não abrem mão da retirada integral de uma proposta com a qual Lula envolveu os 27 governadores e que está há 70 dias no Congresso.

Ou seja, tanto num caso como noutro, os grevistas estão indicando que, em vez de negociar com o governo, querem sua capitulação.

Os presentes de dona Marisa

É – ou deveria ser – de uma clareza solar a constatação de que a mulher do presidente da República, sobretudo se esse presidente é Lula, com sua trajetória pessoal, sindical e política, não pode em hipótese alguma aceitar ser penteada e maquiada de graça por um cabeleireiro que a qualificou como “um outdoor ambulante” de seus serviços, nem receber produtos de beleza fornecidos por fabricantes, nem ser mimoseada com óculos caros por um profissional do ramo, nem usar jóias e roupas emprestadas por grifes badaladas.

O mais espantoso, no caso dos presentes ou favores com que empresas e profissionais diferentes têm cumulado a primeira-dama, dona Marisa Letícia Lula da Silva, é haver discussão sobre se isso é ou não devido, se é ou não ético.

O silêncio geral em torno do assunto até agora, quebrado com galhardia pela “Folha de S. Paulo”, pode ter várias explicações. Uma delas certamente é a correção política que envolve, como uma aura de santidade, tudo que se refere a Lula e, por extensão, sua família.

Imaginem qual teria sido a reação de políticos e da mídia se, mesmo numa porção infinitesimal, quem tivesse incorrido nessa prática fosse dona Ruth Cardoso.

Timing

Parece de encomenda: bem agora que o MST toca fogo no campo sai o balanço do comércio exterior do “agrobusiness” brasileiro mostrando que o superávit de junho – ou seja, a diferença entre o que a agricultura brasileira importou e exportou no mês – foi o maior da história: 2,3 bilhões de dólares.

Baleias e baleias

O Banco Central (BC), como se sabe, reviu para baixo a previsão de crescimento do Brasil para este ano – de 2,2% para 1,5%.

Enquanto isso, diz o Banco Mundial, três dos “países-baleia” com os quais o governo Lula pretende estreitar relações navegam em mar de almirante: a Índia deve crescer 5% em 2003, a Rússia, 5,4%, e a China 7%.

Osso duro para a AmBev

A brasileira AmBev – produto da fusão da Brahma com a Antarctica – tem pela frente um osso duríssimo de roer em sua pretensão de ampliar seus domínios América Latina afora. Depois de sentar praça na Argentina associando-se à maior cervejaria do país, a Quilmes, e também mirar a Bolívia, a AmBev deve instalar uma fábrica de cerveja no Peru em 2004, mas justamente ali acaba de fincar pé de vez o magnata colombiano Julio Mario Santo Domingo, dono do grupo Bavaria, que arrebatou o controle da Backus, maior cervejaria do país.

Santo Domingo, 76 anos, bilionário, é dono, na Colômbia, de um conglomerado financeiro, cervejarias, jornais, uma rede de emissoras de rádio, várias estações de TV e da empresa aérea Avianca, e tem fábricas de bebidas ainda no Panamá e na Bolívia. Ex-embaixador da Colômbia na China, vive entre Paris e Nova York e tem uma ilha particular perto no Caribe, ao largo da cidade de Cartagena de Índias.

É homem que não mede despesas quando coloca algo na cabeça. Tendo estudado na França, é torcedor do Saint Etienne. Em 1997, colocou dinheiro do próprio bolso para, junto com três amigos de juventude, todos empresários ricos, comprar o clube, mergulhado em dívidas e disputando a segunda divisão francesa. O clube foi recuperado financeira e futebolisticamente.

Uma coisa e outra coisa

Leitura de documento oficial, embora quase sempre chata, é muitas vezes ilustrativa. Vejam só a chamada agenda para o desenvolvimento, divulgada pelo governo poucos dias antes do encontro de cúpula entre os presidentes George Bush e Lula, em Washington. Lá pelas tantas, o documento diz que o governo “se compromete com o estabelecimento de modelos regulatórios transparentes, bem definidos e específicos”, com o objetivo de estimular “a participação da iniciativa privada através de investimentos públicos e de concessões”.

Como será que isso tudo vai se conciliar com a confusão armada com as teles em torno das novas tarifas de telefonia, a incerteza que ronda o setor elétrico e o cerco – um pouco aliviado agora, é verdade, mas ainda em curso – contra as agências reguladoras?

A placa de FHC e o Oriente Médio

Durante seus oito anos de governo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso esmerou-se por manter a política externa brasileira no Oriente Médio eqüidistante das partes em conflito na questão Israel-palestinos.

Fora do poder, e usando um veículo que, tal como uma pequena assessoria e um esquema de segurança, é parte do que a lei atribui a ex-presidentes, FHC involuntariamente propagandeia, agora, um dos lados.

Começa com as letras OLP – sigla da Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat – a placa do Passat preto blindado que o serve.

Azulando

O staff do cabeleireiro Raimundo Santos, que cuida das melenas de Lula, anda errando na dose do xampu desamarelador, necessário para manter o brilho dos cabelos e da barba presidenciais.

Podem reparar: os cabelos e a barba de Lula estão mais para azuis do que qualquer outra coisa.

Aposentados contra as fraudes

O ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, estuda fórmulas legais para permitir a reversão à ativa de fiscais aposentados do INSS. Seria uma maneira de responder às críticas de que a reforma do governo se preocupa exclusivamente com a previdência do servidor público e negligencia os problemas do INSS, entre os quais a gravíssima questão das fraudes.

Está durando

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, completa nesta quinta-feira exatos 6 meses e 10 dias no cargo.

Embora não pareça, trata-se de acontecimento marcante: esse quase nada já é mais tempo do que lá ficaram oito dos últimos vinte ministros nos últimos vinte anos – o que, como essa coluna já lembrou mais de uma vez, dá a preocupante permanência média de um ano por ministro em uma função detentora, entre outros, do encargo de apoiar os Estados na vital questão da segurança pública.

Proteção aos trancos e barrancos

Por falar no ministro: acaba de chegar a 600 o número de pessoas abrangidas pelo Programa Federal de Proteção à Testemunha – que pretende preservar a vida e a integridade dos heróis que se dispõem a denunciar criminosos mas têm razões concretas para temer represálias.

O programa é uma das meninas-dos-olhos do ministro, que pretende revigorá-lo e aperfeiçoá-lo. Carente de dinheiro, de instalações e de especialistas, vem funcionando aos trancos e barrancos graças ao empenho anônimo de dezenas de ONGs por todo o país.

Números irrelevantes

O quatro em macheteria “O Grito do Ipiranga”, que enfeita a parede de uma das ante-salas do presidente Lula no 3° andar do Palácio do Planalto, foi oferecido a 7 de setembro de 1947 pelo então governador do Paraná, Moysés Lupion, ao presidente Eurico Gaspar Dutra, e é constituído de 3.513 diferentes peças de diferentes madeiras do Paraná.

Números relevantes

O governo federal tem 852 mil funcionários públicos na ativa, 532 mil aposentados e 401 mil pensionistas.

Erundina tucana?

A hipótese vinda à tona de que a deputada e ex-prefeita Luiza Erundina (PSB-SP) poderia tornar-se a candidata dos tucanos à sucessão da prefeita Marta Suplicy (PT) em São Paulo em 2004 junta duas pontas soltas de um mesmo enredo político: de um lado, uma candidata de boa reputação e bom potencial que não tem estrutura partidária (Erundina); de outro, um partido forte, comandado por um governador bem avaliado como é Geraldo Alckmin, que não tem candidato visível (o PSDB).

Gays ameaçados

A deputada Maria do Rosário (PT-RS) recolheu junto a grupos de defesa dos direitos de gays a estarrecedora estatística de que a cada três dias um homossexual é morto no Brasil justamente por isso – ser homossexual.

Não toquem no meu

O castigo veio a cavalo: anda mudo e taciturno o deputado Alceu Collares (PDT-RS), um dos mais vociferantes opositores da reforma da Previdência proposta pelo governo, depois que se descobriu seu especial interesse no assunto. Collares embolsa nada menos de quatro aposentadorias oriundas dos cofres públicos: como deputado federal em mandatos anteriores (1971-1983 e depois 1999-2003), ex-prefeito de Porto Alegre (1986-1988), ex-governador do Rio Grande do Sul (1991-1995) e ex-funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT).

Quem planta…

Com todo o respeito ao PT “responsável” que está no governo com Lula, não há como tirar razão do empresário Antonio Ermírio de Moraes ao comentar a alta voltagem observada no campo, com ocupações em massa de propriedades e prédios públicos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST):

– O governo está colhendo hoje aquilo que plantou no passado.

Grisalhos anos rebeldes

Um jantar comemorou dias atrás, no restaurante Chácara Santa Cecília, em São Paulo, o 35° aniversário de um daqueles acontecimentos emblemáticos, típicos do ano rebelde de 1968: a “tomada”, por estudantes, da tradicionalíssima Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Com base na pauta oposicionista genérica da época – contra a reforma universitária do regime militar, contra o acordo entre o governo e a agência para o desenvolvimento internacional dos Estados Unidos (o famoso acordo MEC-Usaid), contra muitas outras coisas – os estudantes ocuparam as instalações da faculdade após uma assembléia noturna. No plano logístico, foram beneficiados por uma coincidência: no meio da ação, apareceu um caminhão de tijolos em busca do local de descarga. Os estudantes não tinham a menor idéia sobre o dono dos tijolos, mas indicaram a frente da escola – e pronto, ali estava, caída do céu, uma barricada.

Uma vez na escola, e temerosos de uma imediata incursão policial ao velho prédio, os jovens besuntaram salas e corredores com óleo combustível – o que os obrigou a conviver com condições precaríssimas de habitação pelas três semanas seguintes, tempo que durou a ocupação. Tudo terminou quando o diretor da faculdade, Alfredo Buzaid – futuro ministro da Justiça da fase mais aguda da ditadura – autorizou a polícia a invadir a escola. Todos foram conduzidos, presos, ao hoje extinto Dops.

Agora, 35 anos depois, com muitos anos e quilos a mais, os jovens ocupantes de 1968 reencontrados incluíam um desembargador do Tribunal de Justiça, um ex-deputado federal, vários empresários e um ex-secretário da Justiça.

De Malan a Alceu Valença

Um almoço nesta sexta, 11, dá seqüência, em São Paulo, às providências para refundar a extinta Associação Universitária Interamericana (AUI), entidade bancada em parte pelo governo americano e em parte por empresas e profissionais liberais brasileiros que, nos anos 60 e parte dos 70, levava estudantes universitários do Brasil para visitas e cursos em universidades americanas, especialmente Harvard.

A lista dos veteranos da AUI inclui um variado leque de personalidades, que vão do ex-vice-presidente Marco Maciel e dos ex-ministros de FHC Pedro Malan (Fazenda) e Paulo Renato (Educação) ao atual ministro da Educação Cristovam Buarque e o cantor AlceuValença.

Disseram

De Epicteto, filósofo estóico grego (50-125 d. C.):

– O grande poder é perigoso para o iniciante.

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