Artigo de 2003: Guerra: Lula disse o certo do jeito errado

Artigo de 2003: Guerra: Lula disse o certo do jeito errado Lula, cercado de jornalistas (Foto: domínio público)

E mais: petróleo de Cuba, ACM nem aí, a PF “FBI”, os radicais e Malan, outros aliados de Lula, Palocci e a dívida pública, regulando as reguladoras, um beabá para Babá – e o que faz Frei Betto no governo (uma boa pergunta)

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Deu tudo certo, mas poderia não ter dado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado da primeira-dama, Marisa, percorria as instalações do Alvorada com o arquiteto Oscar Niemeyer, encarregado de supervisionar um projeto de restauração do prédio, por ele projetado. Aos poucos, acabou se aproximando de pessoas, inclusive repórteres, postados junto à cerca externa do palácio. E ali criticou a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque.

Lula manifestou sua oposição à eventual presença de armas de destruição em massa no Iraque, mas disse que o ataque desrespeita a ONU, e que os EUA não têm o direito de decidir sozinhos “o que é bom ou ruim para o mundo”.

Até aí, tudo bem. O presidente, embora com palavras muito duras, expressou mais ou menos o sentimento geral do país – Congresso, partidos políticos, diferentes correntes de opinião. Alinhou-se também com países respeitáveis, a começar por nações amigas da América Latina e da Europa. O problema reside em como foi feito o pronunciamento.

Lula proferiu suas críticas à superpotência americana – assunto de primeira importância, em matéria ultra-sensitiva – de pé, junto à grade do palácio, cercado por gravadores de jornalistas, a um passo de, num empurra-empurra que não é raro, ter o nariz acertado. Isso, convenhamos, não é forma, nem local, nem cenário para o presidente da República fazer declarações de tal relevância. Se as palavras, embora duras, representam fielmente a posição brasileira e refletem mais ou menos o tom geral da sociedade, poderiam não representar nem refletir. Quantas gafes, tropeços e mancadas chefes de Estado já cometeram ao expressar sua opinião de forma improvisada?

Diferentemente do ocorrido com outros presidentes, Lula montou uma equipe de comunicação impecável. São jornalistas experientes, talentosos e respeitados seus principais colaboradores na área: o porta-voz, André Singer, o secretário de Imprensa, Ricardo Kotscho, o presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, e o assessor Ricardo Amaral. O fluxo de informações do Palácio do Planalto com o público, via imprensa, tem sido bastante satisfatório, e o processo de trabalho é organizado e transparente – bem diferente da bagunça reinante, por exemplo, durante os governos José Sarney (1985-1990) e Itamar Franco (1992-1995).

Só que o presidente, espontâneo e informal, é uma força da natureza. Volta e meia, portanto, escapa ao controle de seu pessoal de imprensa. Mas não custa lembrar a ele que os contatos de um presidente com a imprensa são algo de profundo interesse coletivo, por envolverem a dignidade do cargo e o direito de o público ser informado com correção, freqüência e clareza. Improvisação e correria afetam a coerência das respostas e a transcendência de seu conteúdo. Não aconteceu dessa vez, felizmente. Mas pode vir a acontecer – e não será bom para Lula nem para o país.

O ouro de Cuba

Nesses tempos bicudos, e de guerra no Golfo Pérsico, onde repousa mais de 60% do petróleo conhecido no planeta, a Petrobras poderia prestar mais atenção à recente oferta do governo cubano de repassar à estatal, no todo ou em parte, áreas de pesquisa no litoral ilha ora entregues, sob concessão, à YPF Repsol espanhola.

Vale registrar: as áreas estão no leste de Cuba, no limite com o Golfo do México – onde, pelo menos do lado mexicano, tem sido encontrado petróleo de sair pelo ladrão.

Estado de ânimo

A quem interessar possa: o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) não está nem um pouco abatido. Pelo contrário.

A PF, “um FBI

A declaração do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, segundo a qual o governo pretende transformar a Polícia Federal “num FBI”, a polícia federal americana, não deve ser vista como um desabafo emocional diante do gravíssimo atentado à ordem democrática que significou o assassinato do juiz- corregedor dos presídios de Presidente Prudente (SP), Antonio José Machado Dias.

Fazer da PF “um FBI” pode ser um exagero, mas Thomaz Bastos segue o caminho correto: até agora, em diferentes governos, sobraram planos ambiciosos e grandiloqüentes na área da segurança pública. Faltava era o ovo de colombo de começar a reforma criando uma área de excelência.

Nada melhor do que a PF para isso.

No seio do imperialismo

Já pensaram como os radicais do PT vão deitar e rolar se confirmada a possibilidade, levantada pelo jornal Valor, de o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan ir trabalhar no FMI?

O Rolls-Royce não veio da rainha

Nota publicada em versão anterior da coluna sobre o Rolls-Royce conversível usado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua posse motivou várias manifestações de internautas. A nota dizia que o Rolls fora um presente da rainha Elizabeth II, do Reino Unido, ao presidente Getúlio Vargas (1951-1954).Vários internautas, referindo-se a reportagem veiculada há tempos pela Rede Globo, rebateram a história do presente real, afirmando que o carro foi comprado pelo governo brasileiro.

Em parte eles têm razão – só em parte. A rainha, efetivamente, nada tem com a história. Mas tampouco o governo comprou o carro. Quem conta a história é o responsável pelo setor de transportes do Palácio do Planalto, o coronel da reserva do Exército Paulo Renato Caldas Fayão. Getúlio recebeu o veículo – um esplêndido Rolls 1953, com carroceria fabricada pela empresa britânica H. J. Mulliner & Co – como presente de empresários, mas destinou-o a uso oficial.

O motivo da confusão talvez tenha sido um segundo Rolls-Royce localizado nas garagens oficiais – no caso, na algo apertada garagem do Itamaraty, em Brasília – e vindo de Londres. Trata-se de um Rolls 1958, de modelo desconhecido, preto, fechado (não conversível), de corpo mais alongado – quase uma limusine – que no início do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) o então diretor administrativo do Itamaraty, embaixador Carlos Garcia, decidiu transferir para a Presidência.

“Ele está bem baleadão”, diz o coronel Fayão, lamentando os amassados na carroceria, o mau estado dos bancos de couro, da suspensão, do motor e do câmbio da preciosidade. O carro não tinha documentos, certificados ou registros oficiais e não era licenciado. Uma vez no Planalto, e de posse de uma declaração do Itamaraty, o coronel licenciou o carro no Detran de Brasília e, recorrendo aos arquivos da Rolls-Royce, na Inglaterra, descobriu sua origem: o veículo tinha sido comprado pela embaixada do Brasil em Londres. Pela data, tratou-se de mais uma das extravagâncias do então embaixador do país no Reino Unido, o falecido magnata da mídia Assis Chateaubriand.

O coronel, com o carinho de quem cuidou da frota presidencial durante os governos José Sarney (1985-1990) e FHC, e encarregado de fazer o mesmo para o presidente Lula, torce para que um dia haja recursos e o Rolls-Royce possa ser restaurado.

Style news

Escureceram subitamente os cabelos grisalhos do senador Jefferson Peres (PDT-AM)

Com aliados assim…

Esta integra a série “com aliados assim, o presidente Lula não precisa de oposição”.

Utilizando horário gratuito na TV para propaganda eleitoral, o PDT paulista, depois de mandar ao ar spots cobrando do governo aumentos de salário mínimo que seus integrantes sabem perfeitamente serem inviáveis, veio com uma segunda fornada – sempre tendo à frente o deputado José Roberto Batocchio, presidente do diretório regional do partido.

Os spots fecham com o seguinte slogan: “PDT, o verdadeiro partido do trabalhador brasileiro”.

Ninguém quer ceder

Líderes da Coordenação dos Servidores Públicos Federais continuam falando na possibilidade de greve se for retomada, na Câmara dos Deputados, a votação do famoso PL-9 – o projeto de lei do governo anterior fixando, para os funcionários públicos contratados após sua eventual aprovação, teto salarial idêntico aos aposentados do INSS (atualmente de R$ 1.561,00) e permite a criação de fundos de previdência complementar para quem queira vestir o pijama ganhando mais.

A Câmara aprovou o PL-9 Câmara no ano passado, mas ainda resta terminar o exame de alguns de seus pontos que foram destacados para votação em separado no plenário.

É curiosa a implicância dos sindicatos de servidores com o PL-9.

O ex-ministro da Previdência (1988-2001) Waldeck Ornélas já lembrou a respeito, aqui mesmo neste espaço, que o atual teto para os aposentados do INSS é igual ou superior aos salários de 70% dos funcionários públicos federais, de 85% dos estaduais e de 93% dos municipais. Ou seja, mesmo sendo considerado baixo – não chega nem aos 10 salários mínimos pretendidos pela Força Sindical, muito menos aos 20 defendidos pela CUT –, ele já abrangeria a esmagadora maioria dos funcionários públicos do país.

Mas é aquela velha história: em matéria de Previdência, ninguém quer ceder nada.

Viva a notícia ruim

Incêndios devastam Roraima há semanas, engolindo centenas de quilômetros quadrados de selva. Quem quer apostar que tudo vai terminar como em 1998, ano do maior incêndio florestal da história do Estado?

A mídia cobriu durante duas ou três semanas a tragédia, carregando no drama. De repente, mudou o tempo, e passou a chover muito forte em todo o país. No mesmo dia, as TVs manchetavam o que os jornais fariam no dia seguinte: “Chuva provoca inundações em vários Estados”.

Não saiu uma linha informando que a chuva apagou o fogo em Roraima.

As ampliações de J. R. Duran

O fotógrafo J. R. Duran acompanhou, embevecido, as enormes ampliações das fotos que farão parte da exposição a ser inaugurada neste 26 de março na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, para o lançamento de seu primeiro livro de imagens, “J. R. Duran / Fotógrafo”.

O livro, de 200 páginas, terá 150 fotos. Dessas, oitenta foram ampliadas – trinta delas em tamanhos enormes, de 2,10 por 1,50 metros, as outras cinqüenta em também vistosos 1,50 por 1,10 metros. A curadoria da exposição coube ao Professor Rubens Fernandes Junior, diretor da Escola de Comunicação da FAAP e “um craque”, segundo o fotógrafo. “Depois de vê-lo organizando as imagens passei a ver meu próprio trabalho de uma outra maneira”, diz Duran.

Até 2011?

Senadores que ouviram a recente explanação do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado ficaram ressabiados com um ponto. Lá pelas tantas, o ministro exibiu, em meio a vários gráficos, um mostrando cálculos feitos pela equipe econômica sobre a trajetória de queda da dívida pública interna em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) deste ano até o longínquo 2011.

Os cenários, todos, se baseavam em superávits primários de 4,25% do PIB – um esforço brutal, semelhante ao atualmente em curso e que, conforme o próprio PT reconhece, vem exaurindo a capacidade de investimento do país este ano.

Este ano, tudo bem. Mas até 2011? Curiosamente, nenhum senador aprofundou esse ponto.

Regulando as reguladoras

Enquanto corre solto o alarido de vários setores do governo e do PT contra as agências reguladoras criadas durante os oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso, funciona em relativo silêncio e anonimato, sob o manto protetor da Casa Civil da Previdência, um grupo de trabalho encarregado de estudar o assunto e, eventual mas quase certamente, propor mudanças a serem submetidas ao Congresso.

Ao contrário do que defendem integrantes do PT, sobretudo os da ala radical, o governo não pretende extinguir as agências. Mas uma das mudanças em estudo pode ferir de morte o próprio conceito de independência de agências como a Aneel (Telecomunicações) ou a ANP (petróleo): o estabelecimento da “descoincidência” de mandatos entre seus diretores e o do presidente da República.

O conceito da não-coincidência dos mandatos é tido por especialistas como um dos pilares da independência das agências frente a pressões políticas do Executivo e, portanto, como um dos baluartes da estabilidade de regras, tão necessária aos investidores.

Não por acaso, faz parte do grupo de trabalho o ex-líder do PT na Câmara dos Deputados, Walter Pinheiro (BA), membro da chamada ala radical do partido – o mesmo que, logo após a eleição de Lula, provocou controvérsia ao defender a renúncia de todos os diretores das agências reguladoras cujos mandatos entrariam pelo período do novo governo adentro.

Babá e bê-á-bá

Por falar em radicais do PT, inacreditável o deputado João Batista de Araújo, o Babá (PA). Em meio às dificuldades da luta contra a inflação e em plena encrenca no Iraque, continua defendendo, para quem quiser ouvir, a suspensão do pagamento dos juros da dívida pelo governo Lula.

Babá acha, do fundo do coração, que os juros pagos pelo governo vão todinhos para o bolso dos malvados banqueiros. Esquece-se dos dezenas de milhões de brasileiros que, via instituições financeiras, financiam o governo, investindo em cadernetas de poupança e nos diferentes fundos, como os de renda fixa, cujas carteiras são grande ou em alguns casos até exclusivamente ancoradas em títulos públicos.

Falta a Babá, pelo visto, o bê-á-bá das finanças públicas.

Dúvida terrível

Não vale o título oficial do cargo ou a posição no organograma do governo: quem conseguir dizer o que exatamente faz Frei Betto no governo, e sobretudo no Palácio do Planalto, ganha um doce.

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