Histórias secretas de “Playboy” (3): o dia em que contratei a filha de Fidel Castro para posar nua (2ª parte)

Ana, Alina e Ariani (Foto: arquivo pessoal Ana Maria Moreno)

Ana, Alina e Ariani (Foto: arquivo pessoal Ana Maria Moreno)

(Caro leitor, este post é continuação do anterior, que você pode ler aqui. Sem isso, a história da contratação da filha de Fidel Castro para posar nua para Playboy não vai fazer sentido. Obrigado.)

DE MACACÃO, EMPURRANDO UM CARRO ENGUIÇADO — Naquele 8 de julho de 1998, minhas duas emissárias de confiança em Playboy seriam recebidas por Alina Fernández Revuelta, a filha de Fidel Castro, no decadente apartamento que ocupava na central calle Bárbara de Braganza: móveis gastos, paredes com manchas, decoração modesta. A dona da casa não impressionou as visitantes: chegou atrasada ao encontro e vestia uma espécie de jardineira ou macacão cheio de manchas.

Explicou que tinha ajudado a empurrar o automóvel enguiçado de um amigo. Como sempre, todavia, demonstrou simpatia e amabilidade. Enquanto Jaime, seu companheiro de então, preparava uma refeição constituída de várias e apetitosas pequenas porções, Alina exibia para as duas brasileiras lembranças de quando ele viajava pela Marinha Mercante. Em certo momento, Jaime contou à dupla de Playboy que a passada anorexia da mulher deixara sequelas: ela não gostava de comer diante de outras pessoas, tanto que mal tocou nos pratos servidos.

O contrato, no entanto, não seria assinado ainda dessa vez. Alina queria um pequeno reajuste no preço, na tentativa de livrar-se de parte dos impostos. De volta ao hotel, Ana Maria me telefonou. Dei o OK por conta própria, certo da aprovação posterior do diretor Nicolino Spina, o que efetivamente ocorreu. A ética me impede de mencionar cifras precisas, mas havíamos atingido um volume de dinheiro suficiente para a compra de um apartamento de três dormitórios num bairro nobre de São Paulo.

A CELEBRAÇÃO, NUM RESTAURANTE MEXICANO — O documento, em versão final saída da própria impressora da interessada, enfim receberia a firma de Alina Fernández Revuelta no dia seguinte, 9 de julho de 1998. Ela se aprontara apropriadamente para a ocasião, com um vestido fino, bons sapatos, maquiagem e jóias. E se abriu com Ana, com quem estabeleceu desde o início grande empatia, dando conta de que mudara em boa parte as intenções desde a conversa comigo, em março:

– Estou cansada de ajudar a todo mundo. Agora preciso pensar em mim e em minha filha.

E expressou o desejo de que o ensaio fosse feito em Madri mesmo. Não queria viajar. Foi mostrar o que lhe parecia uma locação adequada – um apartamento pertencente a um amigo, sem nada de especial, a anos-luz do bom gosto e do luxo que usávamos para fotos em ambientes fechados. Ana e Ariani desconversaram.

Aproveitaram, porém, para fotografar Alina com suas câmeras, material que levariam ao fotógrafo que escolhêssemos. Um pouco como celebração, o grupo decidiu almoçar num restaurante mexicano, Entre Suspiro y Suspiro, de um restaurateur amigo do casal que, tal qual o Alkalde de meu jantar de meses atrás, existe até hoje. Jaime ofertou a Ana e a Ariani, cada uma, uma caixa de caramelos da mesma e magnífica La Pajarita que eu já provara.

O implacável verão de Madri vivia o auge, com um calor de 40 graus à sombra. Ana me telefonou novamente, exultante, contando que a novela terminara. A dupla de Playboy tinha vôo marcado para a noite do dia subsequente, e almoçou num restaurante da Plaza Mayor antes de voltar ao Brasil. Estava para acontecer a grande aventura.

A ESCOLHA DO FOTÓGRAFO: J. R. DURAN, CLARO — Chegara finalmente o momento de planejar o ensaio. Desde havia muito me decidira pelo fotógrafo: J. R. Duran, cujo trabalho e imagem estavam fortemente associados à revista. Até ali, Duran fotografara nada menos que 121 ensaios de Playboy (e atingiria o espantoso recorde de 243 até outubro deste ano de 2010).

Tratava-se não somente de um grande fotógrafo, mas de alguém que eu conhecia desde os anos 80, quando tive passagem anterior pela revista, com quem desenvolvi amizade fraterna e em quem confiava sob todos os aspectos. Após estudar as fotos de Alina trazidas de Madri, sugeriu que a clicássemos em Roma, distante de qualquer implicação política, e no charmoso Hotel Excelsior.

Duran descreveu recentemente o hotel em seu blog: “Foi construído em 1906 e fica na Via Veneto. Bem no fim dela, lá no alto, quando a rua se encontra com os jardins da Villa Borghese. O prédio foi catapultado para o estrelato (o prédio, isso mesmo) no filme La Dolce Vita, de Fellini. Foi por entre as mesas espalhadas na rua, de seu bar – o Doney –, que apareceram as figuras dos primeiros e alegres paparazzi que depois se multiplicaram e reproduziram de uma maneira que nem o Marcelo Mastroianni poderia imaginar. Foi nessa mesma calçada que o desconhecido ator americano Lex Barker, fotografado brigando com a mulher, se pegou de tapas com os fotógrafos e ficou famoso.”

“A partir dos cabelos de Alina, como vi nas fotos”, relembraria recentemente Duran, “imaginei recriar uma atriz italiana, talvez a Laura Antonelli, de lingerie e espartilhos pretos, estabelecendo no ensaio um tipo de relação com Fellini, com a Via Veneto, ou um clima meio Visconti, meio Lampedusa”, referindo-se ao escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor do romance Il Gattopardo, em que se inspirou o filme de título idêntico dirigido por Luchino Visconti, com Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon (O Leopardo, no Brasil).

A suíte alugada por Ariani, repleta de sofás, poltronas e cortinas de veludo vermelho, favoreceria, sobretudo, o clima viscontiano.

O quarto do Hotel Excelsior fotografado por J.R.Duran: palco do ensaio fotográfico com Alina

Canto da suíte do Hotel Excelsior, em Roma, em foto de J.R.Duran: palco do ensaio com Alina Fernández Revuelta, a filha de Fidel Castro

EROTISMO COM SUTILEZA E ELEGÂNCIA — Para ter algum controle sobre os passos de Alina, achei conveniente enviar Ana Maria a Madri para, de lá, partirem as duas e Jaime para Roma. Ana aportou no dia 5 de setembro na capital espanhola e, seguindo as instruções de Ariani, combinou com Alina irem, no dia seguinte, a um salão de beleza. À noite, pagando de seu bolso, foi assistir ao Balé e Orquestra da Ópera de Kiev no Teatro Lope de Vega, na Gran Via.

A ida ao salão de beleza trouxe um pequeno contratempo: Alina não queria submeter-se a tesouras, pinças, tinturas e cremes de nenhum dos locais anteriormente pesquisados e julgados convenientes por Ariani, preferindo um cabeleireiro de sua confiança, num estabelecimento modesto. Mas hidratou e tingiu os cabelos, fez manicure e pedicure e teve as sobrancelhas depiladas.

Os três provenientes de Madri se encontraram no hotel de Roma com a equipe vinda do Brasil: Duran, Andrea – uma assistente de seu estúdio –, Ariani e o cabeleireiro e maquiador Kaká Moraes. Se a equipe era pequena, trouxe uma bagagem imensa, com todo o conjunto de produção selecionado por Ariani. “Escolhi uma produção com base no preto – roupas, lingerie, sapatos”, conta Ariani.

“Alina já não sendo mais uma garota, segui a norma de que o preto sempre afina a silhueta. Além do que é mais elegante, com ele se corre menos riscos, sem contar que, sendo um clássico, tinha tudo a ver com nossa locação. Levei também espartilhos, para alongar a região do ventre e muitas transparências, como musselinas e rendas, e sapatos de salto alto, devido a sua pouca estatura, 1,65 metro. Queríamos fazer uma matéria elegante, sutil – me preocupei muito com a sutileza da nudez. Imaginava o erótico do trabalho com vestidos entreabertos, pernas e sexo entrevistos, sem exageros”.

A elegância incluía, somadas às malas de produção de Ariani e do vasto material de embelezamento de Kaká Moraes, jóias da H. Stern e de Antonio Bernardo. A experiência em viagens internacionais para a revista levara Ariani, espertamente, a colocar em si própria as jóias, como se dela fossem, para evitar maiores embaraços na alfândega italiana.

No esplêndido Hotel Excelsior, com seu saguão de mármore, seus lustres de cristal, vitrais, quadros a óleo e pesadas cortinas, Ana e Ariani se instalaram na grande suíte que serviria de locação, onde também guardaram o que Ana denomina ter sido “uma montanha de malas de produção”. Para que Duran pudesse trabalhar na suíte, elas pulariam da cama às 6 da manhã dos três dias de trabalho previstos.

O PRATO PREDILETO DE ROBERTO MARINHO — O primeiro encontro de Duran com Alina se daria no bar do saguão, com as bebidas iluminadas em azul no balcão de serviço, emoldurado por um vitral decorado e cadeiras de couro sobre as quais pendia um enorme lustre cor de âmbar. Duran notou que Alina, sorridente e tranquila, só comia uma ou outra azeitona. Não quis jantar com a equipe, preferindo que Jaime providenciasse algo para comer no quarto.

O trabalho começaria logo de manhã, e o time de Playboy refez as energias no restaurante Nino, funcionando desde os anos 30 perto da Piazza di Spagna. Duran se lembra de haver pedido fagioli al fiasco, um prato à base de feijão branco com sálvia que o dono lhe segredou ser o preferido por um frequentador brasileiro assíduo e célebre: o dono das Organizações Globo, Roberto Marinho.

O bom clima da véspera não se repetiria na suíte pronta para o ensaio. “Quando ela olhou para as roupas”, relata Ariani, “não conseguia esconder uma expressão de insatisfação”. Alina não se constrangeu em despir-se diante do fotógrafo. Estava, entretando, travada e alheia. Ainda por cima, carrancuda: não sorria de jeito nenhum. “Ela estava péssima, e dizia às claras que não se interessava pelo ensaio, e sim pelo dinheiro”, recorda-se Ana Maria. “Mostrou-se desde o início extremamente blasée”, completa Ariani.

UM PROBLEMA: ELA NÃO CONSEGUIA SORRIR — Experiente, Duran deixou o barco correr. “Nunca me preocupo com o primeiro dia porque a feitura de um ensaio é um processo”, ensina. O panorama passou realmente a pesar no segundo dia. “Normalmente levo as coisas para o terreno de to play, em inglês, ou seja, brincar, que consiste em a pessoa deixar de ser ela mesma para se transformar em alguma personagem”, diz Duran. “Com Alina, porém, essa situação nunca acontecia”.

Durante o primeiro encontro no bar, rememora Duran, “parecia tudo excelente, não percebi um sinal do que iria encontrar. Talvez eu fosse mais inocente do que sou hoje”. O problema dela, acrescenta, “não foi a nudez, foi que ela não estava lá”.

Ariani vai na mesma linha: “Eu tinha certeza de que ia dar certo. Ela não transparecia esse ar pesado que surgiu depois”.

Durante as sessões de foto, Ariani procurava animá-la:

– Está ficando ótimo! Olha que foto linda!

E Alina, próxima ao descaso:

Sí…

Ana Maria rememora que Duran provocava, brincava, sugeria:

Rite um poco! (“Ria um pouco”).

E Alina:

Reir de qué?

“Na nossa conversa no bar, ela riu bastante”, ressalta Duran. “Foi a última vez que a vi rindo”. A certa altura, o fotógrafo pediu que todos – Ariani, a assistente, o maquiador – saíssem e conversou a sós com Alina. As coisas estavam indo bem, ela apareceria bem nas fotos, havia harmonia na equipe, não se divisava problemas à vista – mas era necessário ter um ar mais entusiástico, um olhar mais insinuante. Era preciso sorrir.

– No río jamás – alegou Alina, contra todas as evidências testemunhadas anteriormente por Werneck, Ariani, Ana e o próprio fotógrafo.

“Sem algo que crie uma empatia com o leitor da revista”, explicaria Duran em recente conversa, “um ensaio de nu não funciona. É preciso um olhar interessante e pelo menos um meio sorriso. Pode ser uma Gioconda. No caso de Alina, no começo tudo parecia ótimo, mas acabou se tornando um pesadelo”. Ariani não se esquece: “Ela tinha uma tristeza permanente nos olhos, uma mágoa constante. E não dizia ‘estou insatisfeita’, mas ‘sou uma pessoa insatisfeita’”.

Ana, Duran e Ariani depois de um longo dia de trabalho

Ariani, J. R.  Duran e Ana em jantar no restaurante Nino, em Roma, na véspera do primeiro dia de trabalho  (Foto: arquivo pessoal Ana Maria Moreno)

30 ROLOS DE 36 FOTOS, E O DESAPONTAMENTO — Com dois dias e meio de sessões de fotos, de três programados, Duran declarou o trabalho terminado. Clicara cerca de 30 rolos de 36 fotos cada, em cromos (slides). Ana e Andrea aproveitaram a folga imprevista para conhecer as Catacumbas. Ariani começou a arrumação de toda a vasta bagagem. A equipe voltaria na noite do quarto dia, em vôo para São Paulo.

No tempo restante, Alina animou-se a acompanhar Ana e Andrea e conhecer o Vaticano. Ariani, que estivera anteriormente em Roma a passeio e trabalho, preferiu caminhar um pouco pela esplêndida vizinhança do hotel e comprar, para presentes, garrafas de limoncello, licor de limão típico do sul da Itália. Feitas as despedidas, ela preocupava-se com o que os filmes mostrariam.

Não sem razão. Em São Paulo, o próprio Duran não escondia o desapontamento quando levou uma seleção de fotos já reveladas à redação, no 15º andar do moderno e imponente Edifício Abril, na Avenida Marginal de Pinheiros. Trazendo o selo de qualidade de Duran, elas estavam impecáveis: a luz, os enquadramentos, as poses, os ângulos, os fundos, as cores.

Para quem eventualmente se preocupava com as formas de Alina, não havia maiores problemas: as fotos exibiam uma mulher madura, mas dotada de encantos, com seios firmes e pernas bonitas. A expressão da filha de Fidel, porém, configurava um anticlímax: rosto sério, quando não fechado, ar indiferente ou mesmo contrafeito. Em centenas de slides, nem um mísero sinal de felicidade a iluminá-la.

Depois de muito ver e rever as fotos, discuti-las com o próprio Duran e com nosso campeoníssimo diretor de Arte, Carlos Grassetti – profissional extremamente meticuloso e exigente –, pensar e repensar, levei-as a Thomaz Souto Corrêa com meu veredito: daquele jeito, não queria publicar.

Explicaríamos a Alina as razões, procederíamos a um distrato, pagaríamos uma multa, mas o leitor de Playboy não veria uma mulher tristonha e sem luz nos olhos. Thomaz chegou a hesitar, diante do tamanho do furo em alguma medida jornalístico que tínhamos em mãos, mas concordou. Grassetti também, e igualmente Marcos Emílio Gomes, jornalista de grande quilate que me acompanhara em diferentes redações e, àquela altura, trocara o posto de editor especial com Werneck e assumira como redator-chefe. Duran, no final das contas o autor das fotos, aprovou integralmente a decisão.

O distrato assinado por Alina Fernández: fim da história

PIQUEI TODOS OS FILMES EM PEDACINHOS — O diretor de Masculinas entendeu minhas razões e passamos ao distrato, que não representou grandes dificuldades, exceto uma sangria nos cofres da Editora Abril de aproximadamente 11% do valor do contrato e um indisfarçável dissabor de Nicolino. Eu e Ana Maria conversamos várias vezes com Alina por telefone, trocamos um bom número de mensagens de fax e acertaram-se os detalhes.

Os papéis seguiram por correio expresso e voltaram assinados. Cumprida a burocracia do Banco Central, Alina recebeu a multa e nos enviou um recibo. O processo todo alongou-se até abril de 1999. Uma das exigências incluídas no distrato: se qualquer das fotos viesse a ser publicada por uma revista da Abril ou de alguma forma vazasse, deveríamos pagar-lhe o valor integral do acordo.

Não houve, porém, esse perigo. Duran, naturalmente envolvido no processo de discussão sobre a não-publicação, concordara com minha decisão e me trouxe todos os rolos de filmes, incluindo os cromos inaproveitáveis. Com a Abril de posse do recibo de quitação, um certo dia, esperei a redação esvaziar-se e, na mesma noite, com uma tesoura e muita pena, dediquei-me a picar, um por um, os rolos e as fotos. Gastei meia hora e ganhei dedos doloridos.

Finalmente, tomei o cuidado de recolher os pedacinhos, um a um, num envelope, levá-los para casa e jogá-los no lixo doméstico. Tudo terminado – quase quatro anos de esforços literalmente jogados no lixo –, julguei cumprido meu dever para com a qualidade da revista e para com o leitor. Alina, por seu turno, declarou-se aliviada. Em carta pessoal posteriormente enviada a Ana Maria, e que Ana teve a gentileza de me mostrar, escreveu: “Como ya sabes, esta operación abortada casi me satisface más que si hubiera sido todo um éxito”.

CONCLUSÃO DA HISTÓRIA: DEI UM TIRO NO PÉ — Alina, posteriormente, regressou da Espanha aos EUA, onde seu livro autobiográfico foi traduzido como Castro’s Daughter: An Exile’s Memoir of Cuba e publicado em 1998 pela editora St. Martin’s. Escreveu um segundo livro, igualmente publicado nos EUA, mas em espanhol, sobre anorexia, em parceria com uma pesquisadora quase homônima, Aliana Fernández, Uma Hoja de Alface – Anorexia, una Enfermedad (editora Plaza y James, 2002) .

Hoje vive próximo a Miami, é âncora de um talk show de rádio diário e noturno na emissora WQGA-1140 AM e escreve a cada dois domingos artigos, em geral, mas não exclusivamente, sobre assuntos cubanos no jornal The Miami Herald. Falei com ela dias atrás. Contou-me que não está mais unida a Jaime, que vive em Barcelona, mas continuam muito próximos e amigos.

A filha, Mumín, 32 anos, naturalizou-se cidadã americana numa solenidade em Miami Beach, em 2004, e mantém sua privacidade sob espesso muro de silêncio, recusando-se a falar com jornalistas em qualquer circunstância.

Hoje, Alina vive próximo a Miami, onde é âncora de um talk show de rádio e escreve artigos

Leal a um pedido meu, Duran guardou absoluto segredo sobre esse assunto durante esses 12 anos. Recentemente voltamos ao tema, e perguntei-lhe se Alina fora a mulher mais travada que já fotografara.

Ele respondeu:

– Foi a única. E foi a única matéria minha que não saiu.

Pois deixe-me surpreender Duran e, provavelmente, minha ex-equipe e quem leu esta história até aqui: se pudesse voltar no tempo, a matéria teria, sim, saído. Levei anos para chegar a essa conclusão, mas arrependi-me da decisão tomada em 1998.

Hoje, considero que agi com rigidez excessiva em relação aos parâmetros de qualidade que exigia da revista e, com isso, dei um tiro no pé. O ar sisudo de Alina não tirava a beleza das fotos, nem prejudicava a revelação de seu corpo e muito menos impediria a edição de Playboy de ser um furor, com a filha de Fidel Castro, nua, no esplendor de uma suíte de um hotel de luxo de Roma.

Agora, porém, em todos os sentidos, é tarde demais. E não existe uma foto, uma única foto, para mostrar como poderia ter sido.

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39 Comentários

  • Arthur Mas

    Sensacional história. Nunca soube que isso havia ocorrido. Continue, Ricardo. Abraço

  • Zé Marcelo

    Cara, isso dá um livro. Digo, essas histórias todas de sua carreira. Pense nisso.

  • Wilson Santource Díez

    Gostei muito, e quero mais.

  • Bruno Rondinelli

    Belas histórias. Como alguém já escreveu outro dia, prezado Setti, por que você não pensa em escrever uma espécie de livro de memórias profissionais, ou algo assim? Não estou com isso querendo dizer que você já está no fim de carreira, para olhar pra trás. É que a gente percebe que voc~e viveu muitas coisas interessantes. Falo no bom sentido, memórias do que já ocorreu. O que vier daqui pra frente pode se tornar um outro livro. Fica a sugestão.

    Obrigado, caro Bruno. Tenho pensado no assunto. Vamos ver.
    Abraços

  • Maria Cecília Leite Furtado

    As histórias de Playboy são boas, mas gostei muito também de outras como a eleição do general Castelo Branco, a questão do voto de Juscelino. Vá em frente, caro Setti.

    Logo trarei histórias políticas de novo, cara Maria Cecília. Aguarde o próximo fim de semana!
    Abraços

  • Pascoal Maragall

    Não é qualquer jornalista que viveu tantas histórias, creio eu. Então, é bom vê-lo compartilhar com os leitores.

  • Narciso L. Costa Neto

    Puxa, tanto tempo batalhando para no fim as fotos não saírem publicadas! E mais tarde você se arrependeu. Bem que eu gostaria de ter visto o ensaio com as fotos da filha do “Homem”, de cara fechada ou não. Paciência, né?

  • Laércio Gabilondo

    Boas notícias de bastidores, espero que você continue nos brindando, caro Ricardo.

  • Atento

    É uma boa história! Grato por contá-la para nós.

    Também acho que as fotos poderiam ter sido publicadas. O furo histórico compensaria a falta de charme da modelo, e sempre se poderia atribuir sua sisudez à “uma preocupação com a reação do papá”. Mas não adianta lamentar: foi decisão avaliada e tomada com os parâmetros da época. E fim.

  • Márcia freitas

    Foi realmente uma pena,vocês foram muito rígidos na época porque as fotos deveriam ter sido publicadas.o fato da Alina Fernandez,não se soltar,estar sempre triste na fotos,não passar alegria só mostra o mal que a história dela fêz e faz com as pessoas que são submetida a regimes totálitários.Seria até importante para tirar essa aura de romantismo que persiste em algumas pessoas aqui no brasil do regime dos Castro.Desnudaria por completo o regime.

  • Frederico Hochreiter/BH

    Uma pena o anticlimax. Não é à toa que no meu primeiro comentário me surpreendi por nunca ter visto ou ter ouvido falar sobre a filha de Fidel na Playboy. E é uma pena que a rigidez da sujeição aos critérios estéticos tenha impedido algo que seria um estouro de reportagem em qualquer lugar do mundo.

    Caro Frederico,

    Você tem razão. Por isso é que admiti, publicamente, que errei naquela ocasião.

    Se pudesse voltar atrás…

    Abraços

  • Marco

    Caro R. Setti: Q nada Setti, o q a equipe da Playboy fez, foi respeitar o retrato pessoal da moça, na expressâo do seus traços (internos)externos encontrados. Acho q a exposição, seria melancólica para todos. Seria pior !
    Abs.

  • Lílian

    Ricardo Setti,
    Gosto de ler e “fazer um filme” na minha mente. Acabei de ler a 2ª parte de Histórias secretas de “Playboy” (3). Parabéns pelo excelente trabalho!
    Eu gosto de filmes que, o final me surpreenda! (nada previsível).
    Mas, Setti eu realmente acreditei que Alina, a filha de Fidel Castro, tinha sido capa da revista “Playboy” no Brasil, eu estava acompanhando todo o processo de construção de uma produção, o caminho percorrido, e…
    ……a assinatura do distrato, surpreendeu-me!

    Eu não creio em tiro no pé. Foi uma decisão diante das fotos.

    Obrigado pelo consolo, cara Lílian.

    Um abração

  • Helder Luciano Graci

    Como colecionador da revista, foi uma surpresa e tanto essa história. Até então, só sabia do caso da Neuzinha Brizola, e alguma coisa da Adriane Galisteu. Tive uma excelente tarde de domingo, chuvosa, lendo esses fantásticos relatos.

    O fato da não publicação do ensaio – hoje arrependido – pra mim mostra o respeito tido com seus clientes, os leitores. E tranquiliza, saber que tal preocupação perdura até então.

    Engrosso o coro na questão: QUANTOS DE NÓS SERÃO NECESSARIOS, PARA CONVENCE-LO NESSE LIVRO.

    Obrigado, caro Helder, por suas palavras e pelo estímulo. Estou pensando no assunto livro, embora minha prioridade seja no momento o blog. Nos Bytes de Memória, porém, juntando as histórias, aos poucos se delineia um possível livro.

    Quanto à Neusinha Brizola, o fato ocorreu há muitos anos, na década de 80. O pai, o então governador do Rio, Leonel Brizola, entrou com um processo na Justiça e o ensaio acabou não acontecendo. Já a Adriane Galisteu foi no meu tempo, e correu tudo bem: ela estrelou a edição dos 20 anos da revista, em 1995, que bateu todos os recordes de venda até então, como narrado no texto.

    Um abração e obrigado também por “favoritar” o blog.

    grande abraço

    * “favoritei” seu blog.

  • Lamento

    Eu vou lendo e as imagens passando em minha mente…
    Quer saber? Pobre mulher! É difícil se recuperar de ser filha de quem é. Da forma como foi gerada, enfim… Não creio realmente que ela pudesse sorrir…Na verdade como mostrar alegria à uma revista, sabendo da sua própria realidade?
    Talvez vocês tenham feito a leitura errada, ela estava lá o tempo todo…Triste e magoada.
    A verdadeira Alina estava lá sim, talvez nas fotos que você cortou, pudesse ver isso hoje!
    Mas enfim, o que passou, passou, não é mesmo?
    Eu devo ter feito confusão, mas lembro dela sendo entrevistada por uma revista… Enfim

    Mas valeu a experiência né?

    Beijocas
    Carla

    Valeu, sim. Muito! Abraços, Carla.

  • celsoJ

    Tá vendo porque torço para que o Alzheimer não alcance você?

    Ahahahahaha, caro Celso, obrigado pela torcida.

    Abraços

  • RitaZ

    Olá Setti,
    surpreendente final! Imagino como deve ter sido difícil para você tomar uma decisão dessas, depois de tanto, tanto trabalho…
    Incrível essa história, como todas que está nos contando com riqueza de detalhes e com qualidades de grande escritor.
    Abs,
    Rita
    PS: A formigona pergunta? Esses caramelos só existem em Madri, ou podem ser encontrados também em Barcelona? Tenho uma amiga que mora lá, e se lá existirem, ela vai ter que dar um jeito de enviá-los para mim, rsrs

    Obrigado por seu comentário, sempre ultra-simpático, Rita.

    Infelizmente a secular “bomboneria” La Pajarita não tem filial em Barcelona. Barcelona, porém, tem incontáveis chocolaterias e lojas de caramelos e similares, acho até que em maior número do que Madri. Uma delas chama-se Xocoa. Há uma tradicionalíssima cujo nome infelizmente não me vem à memória agora, e não tenho como consultar (não estou no escritório). E há várias modernas, de “grife”, com caramelos, chocolates e outras delícias.

    Um abraço

  • Angelo Losguardi

    Puxa vida, Setti, esse seu rigor impediu a gente de ver a “barba” da filha do ídolo do lula rsrsrs

    Essas histórias todas, sem dúvida, vão dar um belo livro.

    Obrigado, caro Ângelo.

    Abração.

  • LEIAM!

    Aproveitem para fazer-me uma visita:

    http://www.youtube.com/results?search_query=sadrak7f&aq=f

    Para os que possuem blogs e quiserem postarem algo, está liberado.

    Grato pela visita,

  • Jacques Gros

    Belo artigo, mas o contrato “printado” estragou quase tudo.

    Abraço

    Vou atender a seu toque, caro Jacques. Vamos mudar para “impresso”. Abração

  • José Américo C Medeiros

    “Pois deixe-me surpreender Duran e, provavelmente, minha ex-equipe e quem leu esta história até aqui: se pudesse voltar no tempo, a matéria teria, sim, saído. Levei anos para chegar a essa conclusão, mas arrependi-me da decisão tomada em 1998”

    Antes de ler esses parágrafos eu estava lamentando a não publicação.
    A beleza da mulher não se restringe à sensualidade e o sorriso, mas transcende também pelo olhar.
    A tristeza, desilusão, ou o que a tenha marcado, poderia suscitar no leitor uma leitura terna em um conteúdo diverso do habitual da Playboy.
    Mas, como Alina ficou feliz pelo desfecho, foi melhor assim.
    P.S. O licor de limões chama-se “Limoncello”, e não “Limonello”.

    Obrigado por mais um comentário precioso, caro José Américo. E pela correção no nome do licor, que vou acertar.

    Abração

  • Matarael

    Você estava certo Setti. A mulher é um jaburu, se fosse publicada teria sido a 2° pior playboy de todos os tempos, só perdendo para a da (sai capeta!)Hortência. Alias, como a Playboy cometeu aquele crime de convidar a Hortência? Abraços.

  • Abreu

    Olá Ricardo,
    A vida do executivo de grandes organizações é assim mesmo, havendo histórias com finais felizes e outras com finais absolutamente ordinários (no sentido de comuns) mesmo quando o ordinário pareça extraordinário – por causa das expectativas criadas.
    O incomum ou anormal nessa história, me pareceu apenas a expectativa, pois desde a primeira parte da narrativa, podia-se prenunciar problemas (ainda que todas as “estrelas” dos ensaios pareçam criar problemas – que nós, leitores, nunca conhecemos).
    Aliás, a própria mudança de atitude da Alina em relação ao dinheiro – que num primeiro momento se destinaria à causas humanitárias dos cubanos exilados e depois passou a atender às próprias necessidades poderia ter algum significado –, certamente difícil de julgar naquela época.
    A história me prendeu, foi interessante pela honestidade, mas confesso que fiquei frustrado porque esperava por um gran finale com a “mulher travada” sorrindo à larga, espontaneamente…
    Mesmo assim, não deixe de trazer os relatos que lhe derem mais satisfação, que lerei com igual prazer – sabendo, contudo que embora a “vida real” seja dura, e que nem sempre “o bem suplante o mal”, não vou ao cinema para ver o bandido ganhar do mocinho (hehe!).
    Ih! Me alonguei demais! Bem feito! “Culpa sua”! Hehe!
    Abraços,

    Caro Abreu, suas visitas e comentários são sempre benvindos. Não se preocupe, você não se alongou demais, não.

    Quanto ao desfecho, bem, a vida é assim mesmo, como você mesmo diz.

    O importante é que leitores como você gostaram de ler.

    Um abração

  • Cristina Machado

    Mais uma vez … Sensacional!!!

    Embora eu tivesse colhido pistas do final ao longo do texto, ele foi surpreendente!!

    Não podia acreditar que tanto esforço e empenho na cristalização desta idéia (genial, diga-se de passagem) e que, aparentemente, não teria outro curso que não fosse o sucesso certo, estivesse de tal forma fadada a não acontecer.

    O texto ilustra, de forma magnífica, que existem sim percalços e decisões difíceis a serem tomadas no dia-a-dia de todo profissional que consegue manter o foco e o interesse em preservar e aprimorar cada vez mais a qualidade daquilo que faz …

    Parabéns pela matéria!! … Espero ficar atenta e não perder as próximas!!! =)

    Oi, Cristina, obrigado por seu comentário entusiástico. Espero também que você não perca as próximas.
    Abração

  • silvia

    Quer dizer que vocês pegam uma mulher triste, com óbvios problemas de auto-imagem (anorexia, etc, e ficam surpresos de não ter dado certo. Como mulher,e Dermatologista, não gosto dessas revistas masculinas, que trazem vários problemas de auto-estima para nós.
    Grande parte das minhas pacientes são mulheres, de várias idades, bonitas ou não, com exigências absurdas de imagem, graças ao Photoshop de vocês. Vocês realmente deveriam analisar melhor esse comércio que tira toda a dimensão humana dessas mulheres. Quer dizer que a cara triste da coitada não importava, desde que as fotos estivessem boas? francamente!

  • marcos moraes

    é …realmente. Era só botar a culpa no Fidel e no socialismo, que deixam marcas indeleveis…

    E hoje, ein? Imagine, com Lula e os filhos, Dilma, aborto,…Barbaridade.

    Beleza de texto! Li de uma vez. Parabéns!

    MAM

    Obrigado, caro Marcos. Um abraço.

  • Luis

    Caro Setti,
    Simplesmente saborosíssimas as histórias “secretas” de Playboy. Por favor, continue… Sábado pela manhã qual não foi minha decepção ao, no final da primeira parte, ler o “continua….” Como só voltei a acessar o site hoje (segunda feira) aguardei ansiosamente durante o final de semana por este momento. Confesso que desde o início do post eu já desconfiava que o ensaio não havia sido publicado. Lógico que não imaginava o tamanho da aventura, mas não me recordava de ter visto/ouvido falar sobre o ensaio. Mesmo assim a cada linha que lia, torcia para que minha memória tivesse me enganado e a história houvesse terminado com um “final feliz”. Hoje, após o término da leitura, fico imaginando a decepção que vc deve ter sentido por tanto tempo. Pela minha experiência, percebo que é algo que demoramos muito tempo para digerir. Mesmo com o cérebro “sabendo” que não é o fim do mundo, etc e tal, o vazio que fica no coração demora muito a sumir… É a vida…. Termino com um pedido: continue nos brindando com histórias sensacionais como estas. Grande abraço

    É, caro Luís, não foi fácil, não. Mas você não ouviu falar sobre o caso porque mantivemos tudo em sigilo. Eu menciono no texto que o Duran, por exemplo, jamais tocou no assunto.

    De todo modo, é como você diz: a vida é assim. E, sim, continuarei trazendo bastidores da carreira jornalística, não só de Playboy, que representou parte até pequena do que pude viver graças à profissão.

    Um abraço

  • Joe

    Prezado Setti, não pretendo fazer uma análise sociológica da decisão, até porque não sou sociólogo, como também não sou leito da Palyboy, mas penso que não há do que se arrepender.
    É verdade, teria sido um furacão mundial a publicação das fotos da filha do Coma Andante, mas, acredito que, na época a sua análise foi feita sob a ótica do editor e do leitor da PB.
    Acredito que Alina poderia ter algumas qualidades estéticas, que estavam precisando de alguns cuidados para aparecer, porém, aparentemente estavam abaixo do padrão de mulher costumeiramente exibida pela PB.
    Nessa situação, ela seria tratada mais como uma “avis rara” do que efetivamente pelos seus atributos.
    A análise feita por vc, com a consciência de hoje, está muito mais ligada à do jornalista do que do editor de revista masculina. Não há dúvidas de que do ponto de vista histórico, e possivelmente de provocação ao Comediante en Jefe, teria sido uma revista inesquecível, não pelas fotos e sim pelo reflexo delas no mundo, porém, penso que a análise feita na época, infelizmente acertada, é que, abstraindo o fato de ser Filha do Homem, ela atenderia os requisitos do leito da revista ? Pela sua drescrição, acredito que não.

  • Sergio Lima

    Que Delicia ler isso meu caro Setti.
    Obrigado por nos propiciar momentos de tamanho prazer de leitura.
    Concordo contigo. Foi um tiro no pé que poderia ter dado certo. Tivemos alguns tiros nos pés ao longo dos nossos 35 anos, que hoje são classicos, ta ai Rosenery Melo para nos provar.
    De qualquer forma, é de admirar tamanha retidão do seu caráter.
    Abraços
    Serginho

    Obrigado pelas palavras, Serginho.
    Abraços

  • Epell

    Caro Ricardo Setti…
    Excelente essa história dentro de “Histórias Secretas…”. Lembrei-me de uma frase dita, há muito tempo, por um amigo meu: “Quem haverá de escrever a história daquilo que poderia ter sido?”
    Pois é.
    Penso no seguinte, visualizando você esperando a redação ficar vazia, e depois picando, meticulosamente, todo o material fotográfico até os dedos doerem.
    a-) Por que destruir as fotos, usando uma tesoura e não queimando-as em segurança, o que seria muito mais fácil e indolor, fisicamente falando?
    b-) Por que destruir as fotos e não guarda-las, sei lá, num armário da lavanderia de sua casa?
    c-) Por que não hoje, 08/11/2010, abrir o tal armário da lavanderia, olhar as fotos, ter um acesso, ligar para Alina e, talvez, estabelecido um novo contrato, publicar “aquilo que poderia ter sido?”
    Bem…é claro, existe a ética, a palavra, o senso, o dever profissional, a honestidade enfim que nos trazem à realidade.
    Mas, fica aquele insondável “IF”. E se…?
    Maravilhosa história. Se o ensaio tivesse sido publicado, faria furor. Mas, talvez, já estivesse totalmente esquecido, bem como a personagem principal, que, hoje, é praticamente anônima. E a história nao existiria. E, existindo, como aqui está provado, respondeu à pergunta feita há decadas atras por aquele meu amigo: “Quem haverá de escrever…?” Você escreveu. Uma dessas histórias.
    Grande abraço.
    Edison Penelli.

    Muito obrigado por email tão simpático, caro Edson. Esse “poderia ter sido” resultou até em poema do Fernando Pessoa, não é mesmo? Se bem me lembro, começa mais ou menos com “Ah, o que poderia ter sido/Esta é a verdadeira história da Humanidade”.

    Respondendo a suas dúvidas, não queimei os negativos por não haver lugar seguro na redação de então para fazer isso. E não guardei porque o compromisso era destruí-las, e o risco de um “vazamento”, além do principal — a questão ética –, ainda custaria uma fortuna para a empresa. A terceira pergunta, portanto, está prejudicada

    Fico contente por você ter gostado da história.

    Outras virão, e, claro, não apenas de Playboy.

    Abração

  • Julio

    Caro Ricardo,
    Nossa existência é cheia desses quase acontecimentos abortados pelas mais diversas razões. O arrependimento nada mais é que a releitura sob outra ótica de um fato passado, mas que não tem volta.
    Fantástica a história, aliás, como todas as outras.
    Um abraço,
    Júlio

    Obrigado pelo “fantástico”. Se Deus quiser, mais histórias virão, não apenas de Playboy, evidentemente.

    No próximo fim de semana vou falar de uma bobeada gigantesca que pratiquei quando era repórter iniciante, diante de um dos generais-presidentes.

    Abração

  • Lapeno R

    Caro Ricardo,

    Como sempre e um prazer imenso visitar esta coluna e ler seus maravilhosos textos.
    Que historia incrivel.
    Bom, a vida e assim mesmo, o tempo passa e faz a gente ponderar as coisas por outros angulos, mas nao tenho nenhuma duvida que quando tu estava la, a 12 ano atras picando os cromos das fotos, tinha certeza que de aquela era a melhor decisao.
    E por isso somos todos seres humanos, as vezes acertamos ou erramos, nao importa, o mais importante e a analise e caso seja, o reconhecimento do arrependimento ou da gloria conquistada.

    Um Grande Abraco!

    Caro Júlio, obrigado pela visita, pelo comentário e por sua generosidade para comigo.

    Um abração

  • V.H.

    História legal e apesar de ter ficado decepcionado com todas as fotos terem sido destruídas , o importante é que a Alina ficou feliz!!

  • Flavico

    Caro Setti,

    Poucos são os que tem a oportunidade de viver histórias como essa, e menos ainda são os que sabem contá-las com tanta vivacidade. História deliciosa essa. Comecei a ler e não consegui parar. Gostei muito também daquele post do episódio do almoço com o Kissenger. Não conhecia o seu trabalho antes da Veja. Pode me considerar um seu novo fã.

    Abração,
    Flavico

    Caro Flavico, muitíssimo obrigado por email tão gentil. Espero que continue gostando do nosso blog.

    Seja benvindo e um abração.
    Ricardo Setti

  • Flavico

    Setti,

    A Lilian comentou logo aí embaixo que “foi uma decisão diante das fotos” (a de não publicar o ensaio). Eu, na minha humilde opinião, acho que a decisão deveria ter sido tomada diante dos fatos e não das fotos. E o fato é que teria sido uma publicação histórica, disputada até hoje a tapas em leilões de Londres e Nova York. Não pela beldade em questão, mas pelo significado ideológico em si: a filha bastarda do último herói mítico comunista clicada nua para as páginas de uma das maiores revistas icônicas do capitalismo.

    Abração de novo,
    Flavico

    Pois eu não disse que me arrependi, caro Flavico?

  • sebastiao maurilo arsani

    COMO DIZIA LEONEL BRIZOLA.
    “EMPRESÁRIOS DE MULHERES PELADAS”
    QE QE ISSO????

  • Grace Olsson

    Acho que vc foi ético. E bato palmas. Já nao se faz gente assim.
    Em setembro passado, ocorreu as eleicoes na Suécia. Aqui, Ricardo, a ética está acima de tudo. E se um politico tem um caso extra-conjugal, a vida dele acaba. Eu fiz umas fotos de uma tailandesa com um sueco. Fiz as fotos, peguei os arquivos em RAW e coloquei no cofre do banco, como todos que faco, desde que me transformei em fotógrafa.
    Uma bela tarde, o telefone toca e o homem pergunta: POSSO TE ENCONTRAR ÁS 4 DA TARDE?TENHOALGO URGENTE PARA TE PEDIR!
    Era o homem das fotos com a tailandesa. Euf alei que sim e ele veio. Ele, politico,em véspera de eleicoes, casado, pai de dois filhos, tinha um romance com uma mulher tailandesa casada com sueco.
    O medo dele? que eu vendesse as fotos para um jornal sueco.
    Aquela era a minha chance de ficar famosa num pais estrangeiro, Ricardo! Eu mostraria as fotos feitas em estudio, onde ele, um politico casado, estava, aos beijos com a amante. As fotos foram feitas em celebracao aos 5 anos de relacionamento dos dois.
    Eu

    Cara Grace, ocorreu um problema técnico que não consigo resolver: respondi a este seu comentário, cumprimentando você por sua dignidade, mas na hora de colocar no ar sumiram minhas palavras e parte de seu texto.

    Se não for um incômodo enorme, peço a você, além de desculpas, a gentileza de repetir o comentário, porque se trata de uma história que merece ser lida pelos amigos do blog.

    Abração

  • Ana Luíza Franco Andrade

    Perfeito!!!!!Comecei a leitura do texto pelo impacto que me causou o título. Esta história renderia um livro e um filme, com desfecho triunfal. Você, me perdoe a liberdade, e sua equipe extremamente competentes conseguiram o resultado extraordinário de fotografar o corpo e a alma de Alina. Através da riqueza dos detalhes descritos conseguimos imaginar a beleza das fotos. Concordo com o comentário do Sr. J.A.C Medeiros e acho perfeitamente compreensível chegar a conclusão da beleza e particularidade deste trabalho 12 anos mais tarde. Vocês tiveram em mãos o retrato fiel da História de Cuba, não apenas fotos, mas uma ousada obra de arte. A grandiosidade do resultado impactou os criadores a ponto de tomar a decisão de não publicar. Parabéns, é uma história fantástica. Abraços, Ana.

    Muito obrigado por seu comentário tão gentil, prezada Ana.
    Abraços pra você também.

  • Beto

    Ola, Setti!
    Que bom que voces acabaram nao publicando as fotos da Alina. No fundo ela nao queria fazer as fotos, estava fazendo sem vontade mesmo, tinha as tristezas dela, o peso que carregava de decadas de problemas, de dramas familiares, decepçoes etc. Nao teria sido uma boa para ela nao e isso eh o principal…
    A decisao colegiada de nao publicar foi acertada. Nao se arrependa nao, Setti. No fim das contas, voces acabaram prestando um favor a Alina, que passou pela experiencia da negociaçao, dos entendimentos, das viagens, das fotografias e ela refletiu mais sobre a vida, sobre sua condiçao de mulher, sobre a sua historia, sobre seus problemas e reais necessidades…
    As fotos causariam grande impacto midiatico sim, mas, a medio prazo, seriam um grande arrependimento para a Alina e para a Mumin e dinheiro algum que a Alina recebesse seria suficiente para dar a ela algum tipo de alivio. Prejudicariam o emocional dela e a relaçao dela com a filha a longo prazo, seriam motivo para ainda mais tristeza nos altos e baixos emocionais da Alina, que nao teve uma vida facil nem uma figura que transmitisse confiança a ela. As fotos, se publicadas, poderiam causar constrangimento e depressao para a Alina com o passar dos anos.
    De fato fiquei satisfeito em saber que a revista – voces – decidiram pela nao publicaçao.
    Gostei muito dos relatos.
    Um abraço!