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A fachada sem placa do Bar del Onze: agradecendo e pedindo desculpas aos vizinhos

Amigos, vejam que boa historinha. Meu filho, minha nora e meu netinho moram num bairro popular em Barcelona, chamado Poble Sec. É muito bem localizado — entre uma avenida que caminha para ser a Broadway da cidade, a Parallel, e o Montjuic, a colina onde se situa o Estádio Olímpico e várias outras instalações esportivas e culturais.

O bairro ainda não foi alvo de especulação imobiliária porque abriga um grande número de imigrantes, sobretudo dominicanos — e isso é considerado um fator de “desvalorização” da área.

A família de meu filho vive num primeiro andar, diante de um bar — um bar modesto, sem placa, mas movimentado. Os donos, o colombiano Eduardo e sua mulher, Paula, espanhola das Astúrias, decidiram mudar-se para Berlim e fecharam o bar (como você pode ver na foto acima).

Antes, porém, em carta entregue de apartamento em apartamento em várias quadras ao redor, em gesto de civilidade, agradeceram aos moradores da região e pediram desculpas pelo barulho causado pelos frequentadores. (A lei antifumo que entrou em vigor este ano na Espanha criou o hábito de muitos frequentadores de bares se servirem no balcão e ficarem do lado de fora, conversando, para fumar).

Note-se que os proprietários, sempre que havia queixas, davam um jeito de resolver o problema do barulho.

A carta:

“Quinta-feira, 26 de maio de 2011.

Queridos vizinhos [a palavra “vecinos” em espanhol, utilizada no original da carta, pode significar “moradores” ou “vizinhos”]:

Dirigimo-nos a vocês para anunciar-lhes que nosso bar ‘La Dodega del Onze’ fechará suas portas no sábado, 28 de maio.

Queremos agradecer a vocês por estes últimos quatro anos de convivência e de respeito em relação ao nosso trabalho. Obrigado por sua paciência, sabemos que não é fácil ter um bar debaixo de casa. E nossas desculpas se em algum momento nós os perturbamos.

Por este motivos, pedimos a vocês um último esforço em razão do ruído que as noites de quinta-feira, sexta-feira e sábado pode causar em razão das despedidas.

Saudações,

Paula e Eduardo

La Bodega del Onze

Calle Blai, número 8, baixos”

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15 Comentários

Kitty em 06 de junho de 2011

Aló Ricardo, Caramba, como poderia imaginar que meu comment tão light pudesse suscitar uma reação,digamos,um tanto exagerada!!! O bar era sim um meio de subsistência para seus donos, e continuo achando simpática a atitude do casal em pedir desculpas aos vezinhos pelo barulho causados pela freguesia. Um abraço/Kitty

Joãozinho em 04 de junho de 2011

AÍ ESTÁ A EDUCAÇÃO COLOMBIANA, JUNTA COM A ESPAÑOLA DE ASTURIAS. Colombiana si señor. As pessoas na Colombia são de uma educação e carinho de dar inveja sô! Buenos dias, como estas, como le va, gracias, a la ordem para servilo, buenos dias, que tengas un feliz dia............. e por aí a fora. Como é bom ser educado e prestativo, faz bem.

sinisorsa em 04 de junho de 2011

Em frente ao meu prédio havia um complexo industrial em desuso, o qual foi demolido e nesse terreno se contruirão edifícios residenciais. Na porta de entrada do meu prédio, que dá de frente com o local da futura obra, há uma cartinha enviada pelos construtores desses edíficios. Pedem desculpa pelos problemas temporários que causarão aos vizinhos, e explicam quais são os problemas um por um: poeira, barulho, tremulação do solo, aumento do tráfego na rua etc. Apesar de viver a 8 anos aqui, eu ainda me espanto com o grau de civilidade finlandesa. Setti, é muito legal ler suas colunas e compreender que nesse mundão enorme há muitos exemplos de cidadania e de convivência pacífica entre comércio e vizinhos. Será que algum dia os brasileiros irão adquirir gosto por esses predicativos? Obrigado por suas palavras gentis, caro Siniorsa. Quanto à sua pergunta final, bem, a esperança é a última que morre, não? Um dia ainda vou conhecer a "sua" Finlândia. Abração

Fernando em 04 de junho de 2011

Caro Setti, obrigado pela resposta. No meu caso infelizmente a polícia não podia mesmo fazer nada (e a minha esposa é policial!), porque o dono do bar brandia uma liminar concedida certamente por um juiz camarada que lhe dava o direito de desrespeitar a lei e aos vizinhos. Te digo sinceramente, pior do que o barulho é o sentimento de impotência, de ser um cidadão correto e pagador dos impostos e ser desrespeitado sem nada poder fazer. Concordo plenamente, Fernando. Como cidadão correto, me sinto o tempo todo feito de bobo. Sigo as regras, cumpro as leis, e vejo malandros levarem vantagem em tudo -- desde invasores de faixas de ônibus nas ruas das cidades até os ladravazes de dinheiro público que permanecem impunes. Abraços solidários

alberto santo andre em 03 de junho de 2011

EM PRATICAMENTE QUALQUER OUTRO PAIS FORA DO BRASIL, QUE VOCE VA A PASSEIO, OU PARA MORAR, VOCE ENCONTRARA UMA COISA QUE PRATICAMENTE NAO EXISTE MAIS, NO BRASIL DA LEI DE GERSON ,QUE HOJE E MUITO MAIS ATUAL QUE A EPOCA QUE FOI CRIADA ,O RESPEITO, EEDUCACAO ,E HONESTIDADE ,COISAS MUITO RARAS HOJE NO BRASIL ,A COMECAR DO MAIS PAUPERRIMO ATE O MAIS RICO ,E PRINCIPALMENTE NA CLASSE POLITICA ,PRINCIPALMENTE SE FOR DO PT.

Marcos em 03 de junho de 2011

Se pudesse, me mudaria para qualquer lugar onde não existissem carros com som MUITO além do normal. Há leis contra isso, mas infelizmente aqui no Brasil tais leis e carta branca para trasgredir são a mesma coisa.

Paulo Bento Bandarra em 03 de junho de 2011

Acho que este comportamento que você narra, do pronto atendimento da segurança pública, como ocorre nos EUA, é que inibe mais a criminalidade. Além do enorme número de viaturas que se envolvem num chamado para fazer uma massa crítica rapidamente num enfrentamento. Infelizmente nós somos totalmente despreparados. Imaginar que o IML de Alagoas, uma capital do Estado, contava só com um termômetro clínico e uma faca para fazer a negrópsia de PC Farias...

Fernando em 03 de junho de 2011

Que inveja do seu filho! No meu antigo endereço (em Brasília) o dono do bar em frente parecia ter prazer especial em infernizar a vizinhança com pagodes e jogos de futebol. Educação e respeito parecem ter se tornado artigos tão raros por aqui, dá gosto ver que ele ainda existe em alguns lugares. Pois é, caro Fernando. E, diferentemente do que ocorre em nosso país, aqui, quando você chama a polícia por causa de barulho, ela vem e resolve o caso. Na verdade, para virtualmente QUALQUER problema, quando você aciona a polícia há uma resposta rápida. Vou até fazer um post, estou esperando recolher alguns dados. Uma velhinha vizinha de meu filho, que mora sozinha, é monitorada eletronicamente por um serviço especial da prefeitura para idosos nestas condições. Pois bem, um determinado dia ela não atendeu ao telefonema especial (ela é surda, além do mais) feito por esse serviço, alguém deu o alarme e acorreram ao local viaturas da polícia, dos bombeiros e uma ambulância. Não tinha acontecido nada com a velha senhora. Por alguma razão ela não percebeu o alerta do telefonema (que ainda preciso investigar se é constituído por luzes ou por algo que vibra e que ela leva consigo). Abração

José Geraldo Coelho em 03 de junho de 2011

Alguém falou em ganha-pão? Trabalho? Ir embora sem dar explicação? Mandar cartinhas é respeitar vizinhos? Tirar o sossêgo de vizinhos vendendo cachaça e criando ambiente para drogas, brigas, prostituição, roubo, é justificavel por ser ganha-pão. Roubar, traficar então também deve ser considerado ganha-pão? Melhor era ter um Bolsa Familia por lá para dar pão para esses perturbadores da ordem. Caro José Geraldo, calma, calma. Não tinha nada disso que você relata no bar abaixo da casa de meu filho. Só o barulho dos fumantes que, não mais podendo permanecer dentro, ficavam do lado de fora. E nas vezes em que vizinhos iam se queixar, o simpático casal proprietário do bar, que servia bebidas mas, como grande parte dos bares daqui, muita comida, sempre dava um jeito de acalmar as coisas. Não havia esse cenário dantesco que você imagina, não. Abraços

JT em 03 de junho de 2011

Aqui no terceiro mundo, na minha cidade, a prefeitura foi corajosa e alterou a lei de uso do solo, proibindo bares e lojas em ruas residenciais. Vários comércios fecharam pois não tinha alvarás definitivos. Muitos migraram para áreas permitidas. Os terrenos em avenidas valorizaram. Logicamente ainda existem muitos comércios clandestinos, mas certamente o colombiano não se arriscaria em mandar uma carta bem humorada como esta, por aqui. O que está estragando o sossego de alguns moradores por aqui,são aquelas chácaras aprovadas como residências, mas que são alugadas para festas. Aí sim eu concordo que estamos no terceiro mundo, mesmo!

Kitty em 03 de junho de 2011

Caro Ricardo, Supostamente os donos do bar estavam cientes do incômodo que estavam causando à vizinhança, mas era seu trabalho, o seu ganha-pão.Eles poderiam ter ido embora, sem se importar em dar explicações.No entanto,tiveram um gesto de civilidade e boa educação,ao entregar a cada "vecino"dos"alrededores del barrio de Poblesec", uma carta de pedido de desculpas pelo barulho que a freguesia do bar fazia, nos dias de mais movimento.Um belo gesto, sem dúvidas!!!! Simpática a sua historinha,Ricardo!! Um abraço/Kitty

Vera Scheidemann em 02 de junho de 2011

Só posso repetir aquela exclamação de costume - "Que inveja !" Vera

José Geraldo Coelho em 02 de junho de 2011

Este "vecino de tu hijo" além de mal educado é um grande cara-de-pau. Depois de perturbar os vizinhos, principalmente em fins de semana, ele vem com uma cartinha pedindo desculpas? Se fosse aqui no meu bairro ele teria sido convidado a fechar sua bodega de várias formas. A primeira seria chamando a polícia, depois a Secretaria de Meio Ambiente. Depois de várias tentativas, se frustradas, nós mesmos iriamos lá e fariamos o serviço. No pau. Isso sim é política de boa vizinhança. O sossêgo vale ouro. E a manutenção do dele é nossa obrigação. Aposto que esse "bom vizinho" sequer teve autorização para reabrir seu butéco em Berlim.

Paulo Bento Bandarra em 02 de junho de 2011

Nenhuma pichação nas paredes???? Que país mais triste!

Ana Maria em 02 de junho de 2011

Que diferença do Brasil !!!

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