Junte um jornalista de primeiríssima — disparado um dos melhores, contados nos dedos, de sua geração –, um excelente escritor, com obra consagrada como biógrafo, autor de não-ficção e cronista, e acrescente uma dose privilegiada de wit, a quase intraduzível palavra inglesa que significa sagacidade, ironia fina, sacadas curtas, irônicas e certeiras sobre a vida.

Arremate com um trabalho, ao longos dos anos, de paciente pescaria de espécimes desse demônio sempre à espreita para derrotar um bom texto — o lugar-comum. E pronto: teremos o divertido O Pai dos Burros (Arquipélago Editorial, 240 páginas, 2014), em segunda edição, revista e ampliada para acrescentar 900 itens às 4.500 expressões que o autor, Humberto Werneck, já colocara nas livrarias em 2009.

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Capa – O Pai dos Burros

Werneck, meu amigo querido, companheiro em diversas redações e jornalista obcecado pelo apuro e limpidez da linguagem, vem há décadas colecionando clichês, lugares-comuns e frases que tiveram seu tempo e lugar mas terminaram estropiadas pelo uso excessivo e inadequado. Ao longo desse período, eu próprio presenciei a divertida satisfação do colecionador em detectar e capturar mais um exemplar para seus arquivos, não raro sugerido por amigos e colegas.

Em 2009, ele resolveu compartilhar com o público seu velho passatempo e surgiu a primeira edição do O pai dos burros, com 2.000 verbetes e 4.500 expressões que iam de “água que passarinho não bebe” e “analfabeto de pai e mãe”, na letra A, a “dar zebra” e “ser um zero à esquerda”, na letra Z. Agora, o sucesso da primeira edição, já esgotada, e o crescimento da coleção proporcionam a chegada da segunda edição, revista e ampliada.

Entre as 900 expressões acrescentadas estão clichês surgidos com fenômenos políticos e sociais mais recentes — como “o país acordou” ou “bombar nas redes sociais”.

Uma novidade saborosa é a reprodução do carimbo pessoal do autor na folha de rosto. Por meio do selo, borrado e imperfeito como um carimbo velho, o comprador do livro, editado com capa dura e em formato pequeno e prático, poderá obter um autógrafo especial de Werneck ou fazer do livro um presente personalizado e auto-irônico, optando por uma dedicatória contendo expressões como “com admiração e apreço” ou “com estima e consideração”.

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Werneck: grande jornalista, autor de obra já consagrada e implacável com o uso do idioma — a começar por ele mesmo © Foto: Companhia das Letras

Por falar em redes sociais, Werneck não se conforma em descrever o novo usando expressões envelhecidas. “No caso do jornalismo, é um contrassenso pretender dizer o novo com linguagem velha, cansada, artrítica”. Ele expõe com fluência sua opinião sobre o tema, mas tem alguma dificuldade — perfeitamente compreensível — quando perguntado sobre qual é o lugar-comum sobre o qual tenha especial aversão. “São tantos…”, diz.

“Por exemplo, ‘amigo pessoal’, largamente usado por gente que, sendo do ramo da leitura e da escreveção, já não teria o direito de fazê-lo. Pode um amigo ser impessoal?”. E cita outro na mesma linha: “elo de ligação”. Com a pergunta inevitável: “Por acaso existe elo que não seja de ligação?”

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A página de rosto, já com carimbo para dedicatórias brincalhonas usando, justamente, lugares-comuns

Além de acrescentar verbetes e do carimbo na folha de rosto, Werneck fez duas outras pequenas mexidas no livro. “No texto de apresentação”, explica, “acrescentei as quatro últimas linhas do primeiro parágrafo da página 10, na tentativa de neutralizar de saída os chatos que vierem dizer que o O Pai dos Burros não é exatamente um dicionário. Ei, falei primeiro!”

A apresentação ganhou também um p.s. bem-humorado para reforçar a ideia de que o objetivo do autor nunca foi o de policiar linguagem alheia — como faz, isto sim, e sem descanso, com a dele próprio. E pergunta: “Já pensou eu me expor a que achem lugares-comuns no que escrevo? O fato é que, nesse departamento, ser autor de O Pai dos Burros  me levou a ficar ainda mais vigilante ao escrever. Na primeira versão da frase anterior, por exemplo, por pouco não passou um ‘vigilância redobrada'”.

Na nova edição, lá foi a expressão para a página 231. Werneck é implacável quando se trata do bom uso do idioma — e, como se vê, principalmente com ele mesmo.

O livro é um pequeno tesouro que recomendo enfaticamente.

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5 Comentários

Marcos F em 15 de janeiro de 2015

Gostei gostando. Comprarei com certeza (eles aceitam certezas como pagamento?).

sandovalsader em 15 de janeiro de 2015

Caro Jornalista, Obrigado pela indicacao. Vamos adquirir. Este livro me lembra um do Falecido Mauro Almeida, pernambucano radicado aqui nas Minas, infelizmente falecido, Parachoques de Caminhao. Compilacao demorada que, lancado na decada de 70, fez enorme sucesso aqui. Abracos.

Angèlìka em 15 de janeiro de 2015

Setti, sou amante de livros[bons e ruins]antes mesmo de completar a maioridade. A leitura sempre foi uma imposição saudável em minha família. Para completar, não há como escaparmos de textos engraçados que nos chegam via REDES. Você também deve ter recebido este: - Eu e a minha vizinhança sofríamos assaltos regularmente. De saco cheio dessa situação, pensei melhor e desativei meu sistema de alarme, suspendi o pagamento do guarda noturno e dispensei a vigilância do bairro. No jardim da minha casa, finquei 3 bandeiras: Uma do Afeganistão, outra do Paquistão e entre elas, uma bandeira NEGRA do Estado Islâmico. Agora somos vigiados pelas polícias Civil, Militar, Federal, pela Segurança Pública e a Interpol durante 24horas, 7 dias por semana. Meus filhos são seguidos quando vão à escola, minha mulher quando sai de casa, e me seguem quando vou e volto do trabalho. Ninguém mexe com a gente! Já me disseram que se eu botar uma bandeira da CUBA ainda ganho um dinheirinho da Dilma. - Obrigada pela dica do livro do Werneck. Vou comprar! Aprender se divertindo é muito bom. Abç.

Fabio Lucio Barbosa em 15 de janeiro de 2015

Sr. Ricardo Setti, vou comprar este livro. Adoro este tema. Será que ele tem o insuportável "BOM DIA A TODOS"??? Algumas pessoas ainda exageram: BOM DIA A TODOS E TODAS. Quando escuto essas abomináveis frases tenho calafrios, tremores, etc.

Bob Esponja em 15 de janeiro de 2015

Esse livro, cairia bem, se fosse distribuído para o Ministério da Educação, e dado gratuitamente, para o executivo, legislativo e judiciário, já que todos são órfãos.

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