Inflação deve subir a partir de junho e corte de juros pelo Copom não se justifica, diz especialista

Amigos, a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central divulgada nesta quinta, 15, a respeito da reunião da semana passada em que se decidiu baixar 0,75 ponto percentual na taxa Selic, que agora está em 9,75% ao ano, indica para os especialistas que na próxima reunião, em maio, haverá nova redução de 0,75 ponto percentual.

Muitos especialistas entendem que a redução, contrariando a tradicional prudência do BC, é prematura. Um deles é o respeitado jornalista Celso Ming, que publicou o artigo abaixo no Caderno de Economia do Estadão, sob o título

INFLAÇÃO AINDA FORTE

A inflação de fevereiro medida pela evolução do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mostra desaceleração, mas não dá para confiar em que esse ritmo seja sustentável nos próximos meses, como sugeriu nesta sexta-feira o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

O IPCA não importa não só por dar ideia de como evolui a renda real do brasileiro, mas também porque é a medida de inflação usada como referência pelo Banco Central para definir sua política monetária (política de juros).

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São dois os fatores positivos nos números do IPCA de fevereiro: (1) redução das pressões do chamado núcleo de inflação, a estrutura de preços menos sujeita a grandes variações, como ocorre com os alimentos; e (2) menor índice de difusão, ou seja, os preços subiram em menor número de itens (apenas 58,2%) do que nos meses anteriores, especialmente em janeiro (64,7%).

Em compensação, a esticada dos preços dos serviços e dos preços no mercado atacadista não autoriza ninguém a se desarmar em relação ao avanço da inflação neste ano.

Dentro do cestão de preços do IPCA, os serviços têm um peso de 30%. Uma das peculiaridades do segmento é de que quase nunca pode ser substituído por artigos importados. O preço da roupa fabricada no Brasil, por exemplo (que não é serviço, mas mercadoria), não pode disparar, porque importados fazem concorrência. Isso não se dá com os preços do transporte, da escola, dos serviços pessoais (barbeiro, manicure, consultas médias).

E o que se tem sobre a mesa é um avanço dos preços dos serviços de 1,25% em fevereiro (foi de 1,05% em janeiro). Em 12 meses, saltaram 9,35%, enquanto, no período, a inflação foi de 5,85% (veja o gráfico). Esse fator concorre decisivamente para manter a pressão sobre a inflação.

O avanço nos preços do atacado foi realçado nesta sexta pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), como se vê no Confira. Em fevereiro, esse indicador apontou evolução negativa de preços (queda de 0,06%). Mas a primeira prévia de março já indica avanço positivo de 0,23%. Como o que acontece no atacado (cujos preços pesam 60% na cesta de preços do IGP-M) tende a se espraiar também para o varejo (custo de vida), é preciso contar com nova fonte de tensão no IPCA.

Essas observações podem parecer áridas, ainda mais num fim de semana. Mas ganham importância quando analisadas sob a ótica da política de juros do Banco Central.

Somente a desaceleração da inflação de fevereiro não chega a justificar o aumento da dose no corte dos juros decidido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, 7.

Em março, abril e maio, a evolução do IPCA em 12 meses ainda deve mostrar desaceleração. No entanto, a partir de junho, a tendência de avanço para os 6,0% ao ano tende a se acentuar.

No gráfico acima, a evolução do IGP-M, que embute uma alta dos preços no atacado

No gráfico, a evolução do IGP-M, que embute uma alta dos preços no atacado

Isso significa que o governo Dilma deverá enfrentar uma puxada mais forte dos preços justamente nos meses mais próximos às eleições municipais que se realizarão em outubro, quando cresce o uso político desse indicador.

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Nenhum comentário

  • Varlice

    Há voos mais altos e bem mais belos do que a subida da inflação para se ver: http://vimeo.com/6518109

  • Sergio

    Não sou economista e não entendo direito mas quer dizer que se a selic for 10% o pessoal poupa e se for 9% todo mundo sai correndo pra comprar ? É só aqui no Brasil que este “fenômeno” acontece ? Ou será que poucos tubarões ganham muito dinheiro com estes juros absurdos ?

  • SergioD

    Ricardo, mesmo correndo esse risco, o governo e o BC ainda dispõe de artilharia suficiente para exercer o controle da inflação. O articulista está vendo o problema somente pelo lado dos juros, quando o BC ainda dispõe de um gigantesco estoque de medidas que seriam classificadas como “macroprudencias” (nomezinho estranho, não?), tipo aumentar o compulsório dos bancos, etc.
    Creio que não podemos perder a oportunidade de provocar uma baixa nos juros para traze-los para um patamar mais próximo dos valores praticados no resto do mundo e, finalmente, eliminar essa mentalidade rentista tão arraigada na população (de renda mais alta, que fique bem claro, pois a nova classe média e as classes mais abaixo se viram apenas com o seu próprio trabalho e do auxílio dos programas governamentais).
    O grande entrave hoje para termos uma SELIC mais baixa é o rendimento da poupança. Para manter a trajetória dos juros em queda é necessário que se reduza o seu rendimento. Caso contrário haverá fuga para a poupança com a consequente dificuldade para o governo rolar a dívida pública.
    Pelo comunicado do BC após a última reunião do COPOM os juros devem cair até 9% em sua próxima reunião e ficar por aí até o final do ano. Por quê? Ano eleitoral. Ninguém vai querer meter a mão no vespeiro que significa reduzir o rendimento da caderneta de poupança e irritar milhões de aplicadores em véspera de eleição.
    Grande Abraço e bom fim de semana.

    Você tem razão quanto ao arsenal de medidas de que o BC dispõe, e mais ainda quando aborda a questão do rendimento da poupança. O governo continuará a rolar sua dívida pública às expensas dos poupadores, de uma certa forma, não?

    Abraço

  • SergioD

    Varlice, realmente, o voo que você propôs é muito mais interessante.
    Abraços

  • Corinthians

    Eu explico.
    Dillma – que é incapaz de formular uma frase inteligível – não consegue entender como funciona economia. Está mandando no Tombini.
    Pode ser difícil entender o por que Dillma está fazendo isso – mas fica bem mais fácil entender o por que o Henrique Meirelles não quis continuar no comando do BC nem no PT.