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Hollande e sua companheira, a jornalista Valérie Trierweiler, antes do discurso da vitória em Tulle, na França (Foto: ctv.ca)

Amigos, este post, publicado nesta segunda, dia 7, foi ao ar incompleto e sem algumas informações relevantes. Eu o corrigi ao longo do dia, mas acho melhor republicá-lo na home page em respeito aos leitores que se interessam pelo assunto. Lá vai o texto atualizado:

Em política tudo se ajeita, e a vitória do candidato socialista François Hollande no segundo turno das eleições presidenciais na França neste domingo parece comprovar a tese.

Hollande se elegeu com uma plataforma francamente irrealista – em que promete austeridade fiscal, com o equilíbrio total das contas públicas até o final de seu mandato, em cinco anos, e simultaneamente uma volta ao crescimento, com investimentos públicos a uma volta atrás em reformas duras aprovadas por seu antecessor, o derrotado Nicolas Sarkozy, como baixar a idade-limite para a aposentadoria de 62 para 60 anos, enquanto a Europa inteira está subindo a faixa etária, em alguns casos para 68 anos.

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Sarkozy admitindo a derrota: Hollande quer revogar várias de suas medidas (Foto: bbc.co.uk)

Isso tudo num país com uma dívida pública de 1,7 trilhão de euros (4,25 trilhões de reais), ou 86% de seu Produto Interno Bruto, e cuja nota de qualificação foi recentemente rebaixada pelas agências de avaliação de risco.

A questão é que está colando a insistência mantida pelo novo presidente durante toda a campanha, e na qual se mantém, de que a Europa deve mudar o discurso da austeridade para enfatizar, sem prejuízo da preocupação fiscal, para o desenvolvimento – “a austeridade não deve ser uma fatalidade”, disse ele no discurso de vitória na cidade de Tulle, na região de Limousin, no centro do país.

Está colando porque, afinal, a França é a França, baluarte da União Europeia, a segunda maior economia da Europa e a quinta do mundo.

O presidente eleito anunciara durante a campanha que, sem a elaboração de um pacto pelo crescimento, a França deixaria o Pacto Orçamentário Europeu, aprovado e assinado no final do ano após duríssimas negociações por 25 dos 27 países da União Europeia que, entre outras medidas, introduziu a chamada “regra de ouro”, limitando legal e/ou constitucionalmente o déficit orçamentário dos membros da UE e atribuindo à Corte de Justiça da Europa, com sede em Luxemburgo, o poder de sancionar os governos que não cumpram os limites.

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Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu: crescimento e austeridade não são incompatíveis (Foto: veja.abril.com.br)

Hollande rechaçou durante a campanha os princípios fundamentais do Pacto Orçamentário. Propôs, por exemplo, flexibilizar (ou seja, alongar) os prazos já combinados para que os países reduzam seu déficit público e sua dívida – em vez de 2013, espichar para 2017 –, introduzir medidas que favoreçam o crescimento, e renegociar a filosofia supranacional do acordo – que é o coração de tudo o que foi pactado.

Quer, também, entre outros objetivos, que o Banco Central Europeu não mais irrigue o sistema monetário por meio de empréstimos a bancos, mas aos governos. Os bancos recebem dinheiro a juro quase zero e, com ele, compram títulos que lhes dão renda — mas não investem nem emprestam. Governos, argumenta Hollande, fariam girar a roda da economia por meio de investimento público com os avancos do BCE.

Hollande, não tenham dúvidas, não conseguirá manter essas posturas, porque não interessa à França criar impasses insolúveis à União Europeia da qual, desde os anos 50, é um dos esteios. Mas seu discurso ao longo da campanha já rendeu concessões à necessidade de investimentos de parte de uma penca de líderes europeus.

Passaram nos últimos dias a mencionar políticas de desenvolvimento desde o presidente da União Europeia, o belga Herman Van Rompuy, ao presidente da Comissão Europeia – algo como o primeiro-ministro da União –, o português Durão Barroso, passando pelo primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, e o poderoso presidente do Banco Central Europeu, o também italiano Mario Draghi, que decretou: “Não há incompatibilidade entre rigor fiscal e políticas de crescimento”.

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O entendimento franco-alemão — que Sarkozy e Angela Merkel mantiveram em nível elevado — foi desde os primórdios base para a União Europeia. O desafio de Hollande é mantê-lo (Foto: AFP)

Uma vez no Palácio do Eliseu, a primeira tarefa de Hollande será acertar-se com a chanceler alemã Angela Merkel, mentora das políticas de austeridade europeias. Merkel telefonou ontem mesmo para o novo presidente francês convidando-o para um encontro em Berlim, e o governo, em nota oficial, expressou seu desejo de manter os “fortes laços de amizade” da Alemanha com a França.

Merkel disse que receberá o novo presidente “de braços abertos”, mas, em recado que não poderia ser mais claro, afirmou que acordos complexos como o Pacto Fiscal “não podem ser revistos a cada eleição”. O eixo franco-alemão é a base da União Europeia desde seus primórdios e, no enfrentamento da atual crise, Merkel teve o agora quase ex-presidente Sarkozy como firme aliado na defesa das principais medidas, a ponto de cunhar-se o termo “Merkozy” para batizar o entendimento da dupla de governantes.

Não parece verossímil que ela e Hollande deixem de se entender — governos mais à direita na França e mais à esquerda na Alemanha, e vice-versa, vêm se entendendo e superando divergências há mais de cinco décadas.

Poderá contribuir para o abrandamento da posição alemã — algo como não arredar pé do equilíbrio nas contas públicas, mas fazer concessões na direção do crescimento — o fato de a própria Merkel não andar lá tão bem das pernas eleitoralmente dentro da própria e próspera Alemanha.

Neste mesmo domingo, seu partido, o democrata-cristão CDU, ganhou sem maioria, por diferença mínima, as eleições no importante Estado de Schleswig-Holstein, onde fica Hamburgo, como tem acontecido em outras eleições regionais. Não há certeza de que ela própria se reeleja para a função que ocupa desde 2005. O mandato de Merkel vai até outubro do ano que vem.

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Nenhum comentário

Pedro Luiz Moreira Lima em 09 de maio de 2012

Amigos: O Povo frances votou e escolheu democraticamente. Nada mais fazer e respitar vontade popular. Pedro Luiz

wilson em 09 de maio de 2012

Hollande em campanha induziu assim queremos a nossa autonomia desde que les boches paguem le liberté.

Ismael em 08 de maio de 2012

Imaginem que nem no Brasil, governado a ONZE longos anos pela esquerda demagógica, os tais investimentos públicos induziram o crescimento, como eles farão na Europa, onde SÓ a Alemanha é superavitária?

Mari Labbate *44 Milhões* em 08 de maio de 2012

Apesar da Falta de Juízo de alguns franceses, Nicolas Sarkozy continuará, brilhantemente, auxiliando a UNIÃO-EUROPEIA, que foi criada para UNIR as Nações, COM SUCESSO E RESPEITO!

Sínter. em 08 de maio de 2012

Europa, um continente de Babel. ninguem se entende. e não consegue se fazer entender por mais que se esforce.

Max em 08 de maio de 2012

1,7 bilhão de euros equivale a 4,25 trilhões de reais? Ê moedinha valorizada, hein? Obrigado por chamar minha atenção para o engano, caro Max. Claro que é 1,7 trilhão de euros. Já corrigi e agradeço. Um abraço

Carlos Costa Aguiar em 08 de maio de 2012

Pequena correçao: Herman Van Rompuy,presidente da Comissão Europeia, nao é holandês mas sim belga. Você tem toda razão, prezado Carlos. Vou corrigir já. Um abração e obrigado pela atenção.

p faustini em 07 de maio de 2012

Justiça seja feita, o Draghi vem falando isto antes da eleição do Hollande.

Premeditando o Breque em 07 de maio de 2012

Eles tem que fazer do mesmo jeito que se faz no Brasil. O sujeito já nasce aposentado e nessa condição de assistido permanece até os 29 (SSBBF:Sistema socialista brasileiro de bolsas farniente). Só falta a aposentadoria integral aos 30 anos. Quem paga? Aí não interessa, desde que não acabe nunca.

Corinthians em 07 de maio de 2012

Fábricio - 07/05/2012 às 18:13 Claro. Tem que reduzir a idade de aposentadorias mesmo, e dar mais bolsas auxílio - nem precisamos pensar quem paga a conta. Ainda mais na Suíça, um país de jovens.

Fábricio em 07 de maio de 2012

Aumentar tanto a idade para aposentadoria é estupidez. Na Suíça ninguém trabalha até 60 anos. Aos 50 anos a maioria das pessoas entram para a assistência social e recebem aluguel, salário e seguro doença sem trabalhar, pois não aguentam levantar de madrugada a vida inteira debaixo de neve. (Conforme informações confirmadas.)

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