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John Lennon: Imaginando (Foto: Tom Hanley)

 Por Daniel Setti

Seguindo à risca os ensinamentos da letra de “Imagine”, de John Lennon, o escritor inglês de ficção científica Ian MacLeod soltou a imaginação e, em seu conto Snodgrass, recriou a vida do roqueiro no caso de que ele houvesse deixado os Beatles em 1962, pouco antes do salto do grupo à fama.

Tal curioso devaneio, que pressupõe mudanças fundamentais não só no destino do próprio John, como também na cultura pop dos últimos 50 anos, foi adaptado para um filme televisivo e ganhará as telas no próximo dia 25 no canal pago britânico Sky Arts.

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Montagem do cartaz de “Snodgrass” “imagina”John Lennon aos 50 anos (Foto: divulgação)

O roteiro é de David Quantick e a direção de David Blair, ambos profissionais premiados com troféus BAFTA – espécie de Oscar do Reino Unido – por trabalhos realizados para a televisão daquele país como The Thick of It e The Streets, respectivamente.

“Apenas más lembranças”

“John Lennon, aos 50 anos, senta em uma lúgubre cozinha, fumando um cigarro, desempregado e chapado”, diz a sinopse de Snodgrass, ambientado no ano de 1991. O trailer ainda não está disponível na internet.

“Este é o John Lennon que deixou os Beatles em 1962, antes dos hits, antes de que eles mudassem a música para sempre. Enquanto seus colegas de banda seguiram em frente e obtiveram fama e fortuna razoáveis, a carreira de John foi ladeira abaixo, até que um dia ele acorda, tem 50 anos e vive na pindaíba em Birmingham. Não há carreira solo, nada de Yoko Ono ou lenda do rock – apenas um homem com muitas más lembranças”, lê-se em outro trecho da apresentação.

Ao brincar de reescrever a história, Snodgrass deve dar o que falar. Pensar no que seria dos Beatles sem a genialidade, a acidez e o carisma de John é um exercício maluco e exaustivo, mas que abre um leque de possibilidades que tende ao infinito.

E imaginar o saudoso astro vivo pelo menos por uma década a mais – afinal, o mentecapto Mark Chapman, que na vida real assassinou o músico em 1980, nunca ouviria falar do seu “ídolo” no cenário concebido por MacLeod – é, antes de tudo, desconcertante.

Lennon pela terceira vez

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Ian Hart (à esquerda) como John Lennon em “The Hours and Times” (1991)…

Para viver Lennon em Snodgrass, foi recrutado mais uma vez o ator Ian Hart, também nascido em Liverpool.

Aos 48 anos, Hart pode ser considerado um verdadeiro expert no Beatle, pois já o interpretou, em sua fase jovem, em duas outras películas: The Hours and Times (1991) e Os Cinco Rapazes de Liverpool (1994, título original Backbeat).

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…e novamente em sua pele em “Os Cinco Rapazes de Liverpool” (1994)

Não foram divulgados muitos outros detalhes sobre o filme. Sabe-se pelo conto, porém, que estes outros Beatles duraram muito mais, tiveram seus dias de glória, mas passaram longe de ser um fenômeno estrondoso.

Sabe-se, ainda, que este John de 50 anos está em busca de emprego, lamenta por sua banda “não ter sido maior que os Hollies” e recebe, em dado momento, a visita de um antigo amigo dos tempos de aspiração ao estrelato: um certo Paul McCartney.

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9 Comentários

Kitty em 27 de abril de 2013

Caríssimos Ricardo e Daniel, Sempre é difícil imaginar ídolos como Lennon envelhecendo ou sendo massacrados pelo tempo. A vida de Lennon foi truncada no seu melhor momento musical e, tal vez, pessoal. Quando vejo ele nas fotos ou escuto suas músicas lindas, entre as que se destacam uma das minhas favoritas:Imagine, só consigo enxergar um homem jovem no auge da sua carreira musical e pessoal. Ele consegue passar incólume da decadência da velhice ou o ostracismo da sua criatividade que, sem duvidas, seria superada por outros que ocupariam seu lugar...ele se livrou disto. Ele ficou intacto e imortal na imagem. Nos perguntamos como teria sido a vida dele se continuasse vivo? A morte sempre ajuda a manter o mito vivo, nos seus momentos mágicos, nas suas melhores poses.Se estivesse vivo ele estaria velho com muitas rugas e o rosto sem viço, o tempo faz estragos nas pessoas. Eu não consigo imaginar , por exemplo, Glenn Ford, que formou um par inesquecível com Rita Hayworth no clássico Gilda, e que morreu aos 90 anos. Nunca vi uma foto dele velho..e quando a sua morte foi noticiada, lá estava ele belo e charmoso com Gilda nos braços quase beijando-a..como era ele nos anos do ocaso? Ninguém disse... E Sarita Montiel, atriz e cantora espanhola que, morreu aos 85 anos e encantou a todos na sua bela interpretação da canção a Violetera e o filme homônimo. A foto publicada em VEJA ela é belíssima e pela atuação foi chamada de " A nova Gilda". Quem a imaginaria velha e decadente? Por isso, meus caros, eles, os astros do mundo encantado como John Lennon e muitos outros, brilharão para sempre nas nossas lembranças, eles são privilegiados e, nós só queremos lembrá-los assim: belos e jovens, sem os sinais do tempo que nos mostraria impiedosamente a sua decadência física ou mental. Desculpem se o que escrevi está off topic, mas, não consigo imaginar Lennon num hipotético envelhecimento, mas sim lembrá-lo através da suas belas canções que perdurarão no tempo...! Um abração-Kitty

Rui Ogheri em 21 de abril de 2013

ele era um cara adiantado no tempo.... ficou amoroso no fim da vida nervoso largou as drogas... teria falado um monte de verdades que a maioria não falaria porque ele trilhou o caminho prá isso.... Estaria velho óbvio Igual a todos os velhos Esclerosado....chato....jogado no fundo de um quarto.... Falando mal de todos os governos Como fazem todos os velhos Que tem a experiência de se ferrar na vida.... Normal....

JT em 16 de abril de 2013

Vou pegar pesadíssimo com o John Lennon: se ele estivesse vivo, hoje, seria apenas uma sombra do que foi no passado. Sua carreira solo, de apenas dez anos, foi ativa apenas cinco anos, dos quais é difícil completar um disco inteiro de grandes sucessos. Sua volta aos estúdios, em 1980, não introduziu nada de novo para a música, pelo contrário: em vez de ser vanguardista, Lennon havia se tornado um seguidor da tendência New Wave. Tem coisas da carreira solo de Lennon que não dá para escutar, especialmente aquelas músicas com a participação da Yoko Ono... O George Harrison também não teve uma carreira solo muito profícua, mas ao menos conseguiu manter a qualidade em seus lançamentos, se reinventando com a super banda The Traveling Wilburys. Foi Paul MacCartney quem mais se aproximou do nível inatingível dos Beatles em sua carreira solo, ativa até hoje. Produziu muito e emplacou sucessos pelo menos até os anos 90. Não dá para cobrar nem de Bob Dylan um sucesso estrondoso, depois dos 50 anos de idade, mas creio que Lennon, se estivesse vivo, estaria semi-aposentado do mesmo jeito. Ainda assim seria muito melhor do que estar morto antes da hora, não é mesmo?

luiz em 15 de abril de 2013

All he need is money, ele 'tava se lixando pro mundo. O que ele relmente queria era fazer sucesso prá ter muita grana, assim como os outros fab.

roby em 14 de abril de 2013

As possibilidades do que seria uma "vida pós-Beatles" estão entre a patética carreira de Randolph Pete Best — o baterista dos primeiros tempos, dispensado por Brian Epstein — e a curta existência do primeiro baixista, Stuart Fergusson Victor Sutcliffe, morto aos 21 anos de hemorragia cerebral. Ou seja: não é possível chegar a conclusão alguma, posto que não se sabe se a presença de Lennon seria fundamental para o sucesso dos Beatles, se ele não teria se projetado com uma banda ainda melhor, se não teria feito uma carreira solo bem sucedida, se a separação teria um efeito fulminante sobre ele... Esse exercício de adivinhação não leva a parte nenhuma: Lennon morreu e faz uma falta terrível. Com ou sem Beatles.

Ismael em 13 de abril de 2013

Grande dica. Aguardaremos o filme na TV a cabo. Acho que sem o Lennon as canções de Paul iriam ser ou excessivamente melosas ou se deixar levar por alguma influência mais agressiva de rock, sem o mesmo equilíbrio. Valeu.

Fernando Felipe em 13 de abril de 2013

Interessante. Espécie de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", do Saramago, em que ele continua a história do heterônimo sobrevivente de Fernando Pessoa, que não teve tempo para executar seu médico monárquico e criador de odes.

Matheus em 13 de abril de 2013

Muito bom, Daniel!

Sylvio Haas em 13 de abril de 2013

Nos dicionários Google, Michaelis e no tradutor Google não existe tradução para Snodgrass. O que significa? Obrigado. Até onde sei, caro Sylvio, Snodgrass é um sobrenome. Abraço

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