Não durou mais que 10 segundos, mas foi uma lição de como um jornalista deve se relacionar com suas fontes. Aconteceu há poucos meses, no excelente 60 Minutes, programa semanal de jornalismo da rede americana de TV CBS. O tema era a indústria de cigarros e as evidências de que durante anos a fio seus principais responsáveis ocultaram dos fumantes, propositalmente, a extensão dos riscos que corriam. A repórter Leslie Stahl entrevistava um executivo graúdo. A certa altura, Stahl assinalou que, ao contrário do que dizia naquele momento diante das câmeras, o entrevistado havia admitido, sim, fora delas, pouco antes, a possibilidade de ter havido a ocultação. “Mas aquilo não foi uma entrevista, só estávamos conversando”, reclamou o executivo.

Sem mover um músculo do rosto, sem agressividade alguma, mas com voz firme, Stahl respondeu:

– Não sou sua amiga. Nós não somos amigos. Sou uma jornalista e não vim conversar com o senhor. Vim em busca de informação para uma reportagem.

Bem, mas o que é que o leitor tem a ver com esse tipo de assunto?

A resposta é simples: muito.

Relações pessoais de um jornalista com uma fonte situam-se na perigosa área do conflito de interesses, um terreno pantanoso que pode engolir ou danificar o patrimônio fundamental de quem tem o dever fundamental de informar o público: a credibilidade. (Nunca é demais lembrar que a credibilidade é um conceito que se refere a como os outros nos vêem, independentemente de como somos de fato. Ou seja, não basta um jornalista ser íntegro: ele precisa também ser considerado e visto como íntegro).

O assunto conflito de interesses está quente na imprensa brasileira devido à recente demissão de um jornalista competente e experimentado: Ricardo Boechat, titular da coluna que trazia seu nome no jornal O Globo e uma das atrações do telejornal Bom Dia, Brasil, da Rede Globo. Boechat escreveu meses atrás uma reportagem – de teor não contestado – sobre briga de dois grupos pela disputa do controle de uma empresa de telefonia com base em informações passadas por uma fonte que também era seu amigo pessoal. A demissão do jornal e da TV ocorreu depois de a revista Veja ter publicado, no fim de junho, a transcrição de parte de uma conversa entre o repórter e sua fonte. A fonte trabalha para um dos empresários envolvidos nessa disputa no setor de telefonia – e esse empresário, meses atrás, havia feito uma proposta de trabalho a Boechat. As Organizações Globo não detalharam publicamente suas razões [para demitir Boechat], mas ficou evidente terem considerado intoleráveis o conteúdo e o tom da conversa.

As considerações que seguem sobre a relação fonte-jornalista são de caráter doutrinário, e não representam um juízo de valor sobre Ricardo Boechat, que continua merecendo o respeito do signatário.

O profissional que aceita vantagens é o pior contato que uma fonte pode ter numa Redação

As formas mais escancaradas de conflitos de interesse são as mais fáceis de identificar e de evitar. É óbvio que um jornalista sério de uma publicação econômica não pode fazer merchandising de um banco, por exemplo. Da mesma forma, fica evidente, mesmo para os observadores mais distraídos, que não tem cabimento um repórter correto de qualquer veículo ir – exageremos no exemplo hipotético – ao Iraque com todas as despesas pagas pela ditadura de Saddam Hussein e depois escrever sobre o país e seu regime pretendendo ser lido como isento. E não se concebe que um jornalista de respeito assessore um candidato ou faça algum tipo de proselitismo eleitoral, misturando suas preferências pessoais com a necessária imagem de repórter que não toma partido e, portanto, é confiável para o leitor.

No Brasil, manifestações dessa última praga – a contaminação da objetividade jornalística pelas preferências político-ideológicas entre os jornalistas dos grandes veículos – arrefeceram consideravelmente após a tormenta que foi, em 1989, a primeira eleição presidencial direta depois do regime militar. Naquele ano, os comandos das redações correram o risco de perder o controle do processo de apuração e edição [das notícias]. Ocorreram manifestações impensáveis, em se tratando de profissionais – houve, de um lado, quem brindasse à vitória de Fernando Collor publicamente e, de outro, jornalistas que provocaram Collor cantando o Lula-lá, jingle da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva.

Se, porém, essa questão não representa mais um grande problema, ainda persistem, em nossa imprensa, sérios bolsões de conflitos de interesses, sobretudo nas áreas da cobertura de negócios e de turismo. (Podem-se escrever tratados sobre isso. Por ora, você, leitor de EXAME, que é empresário ou executivo, acredite numa coisa: o jornalista que aceita presentes valiosos, convites para viagens boca-livre ou vantagens materiais assemelhadas é o pior contato que você pode escolher para ter num veículo de informação.)  

Voltemos à questão das relações pessoais do jornalista com uma fonte. Por que, afinal, isso interessa a você? Porque a credibilidade não é apenas um patrimônio do jornalista, mas uma garantia para o leitor sobre a qualidade da informação que ele vai receber. A principal razão de ser, o alvo, o cliente e um veículo de comunicação – de uma revista, no caso de EXAME – é o leitor, e em nome do direito do leitor à informação, é dever fundamental da revista e de seus jornalistas servir à verdade dos fatos. É para isso, e apenas para isso, que o jornalista se aproxima das pessoas que, a título próprio ou representando instituições, detêm informações – as fontes.

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Ricardo Boechat: jornalista de alto quilate demitido das Organizações Globo sem uma clara explicação, mas tudo indica que ocorreu sob alegação de conflito de interesses © Foto: Ag. Estado

É evidente que jornalistas e fontes são seres humanos e, portanto, o tratamento civilizado e cordial é adequado, e aproximações pessoais acontecem. Se, porém, essa aproximação se transforma em uma amizade, o jornalista precisa acender um sinal amarelo: ele está caminhando para uma situação em que, mais cedo ou mais tarde, vai surgir um conflito de interesses. A amizade, uma das manifestações nobres da alma, pode toldar, no profissional, a clara visão de sua missão. É aí que podem acontecer coisas: talvez aquelas informações que o amigo empresário tanto gostaria de ver divulgadas não sejam suficientemente importantes para o leitor – mas, que diabo, ele é um tão bom sujeito, temos uma relação tão boa, e afinal de contas não vai custar nada… Ou aquele escorregão ético daquele funcionário da área econômica. Será que é mesmo tão necessário divulgar isso para o público? Será que, só por esta vez, não dá para relevar?

Não é por acaso que colossos de credibilidade como o jornal The New York Times recomentam, em seus códigos de ética, que o jornalista deixe de cobrir a área em que a fonte tornada amigo atua. Outro jornal americano, o Detroit Free Press, é taxativo: “Nenhum membro da nossa equipe deve escrever sobre, realizar cobertura jornalística, (…) ou publicar um juízo de valor a respeito de qualquer indivíduo a ele relacionado por laços de sangue ou casamento, ou com quem mantenha uma relação de amizade”. No Brasil, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, é claríssimo a respeito: “Quando o jornalista tiver algum tipo de envolvimento pessoal ou emocional com o fato ou entrevistado, deve declarar-se impedido de realizar a tarefa”.

Essa situação de conflito foi vivida, e superada, por vários jornalistas mitológicos. O falecido Carlos Castello Branco, o “Castellinho”, o maior colunista político do Brasil em todos os tempos, conseguiu ser secretário de Imprensa do presidente Jânio Quadros, em 1961, e sair ileso da experiência. Ele continuou sendo um baluarte de credibilidade e distanciamento de paixões e preferências políticas, e por mais de três décadas espalhou sabedoria na Coluna do Castello do Jornal do Brasil.  

Walter Cronkite, o célebre âncora do principal noticiário da CBS [americana] durante duas décadas, foi amigo do presidente Lyndon Johnson a ponto de se hospedar em seu rancho no Texas. [Cronkite era um jornalista tão respeitado que, por anos seguido, pesquisas de opinião pública apontavam-no como a pessoa em que mais os americanos confiavam.] No auge da Guerra do Vietnã, em 1968, porém, Cronkite não hesitou, ao voltar [de uma missão no] do front, em comandar uma cobertura de tal forma crítica sobre a condução da guerra que Johnson acabou proferindo frase que se tornou célebre: “Se eu perdi [a confiança de] Cronkite, perdi a Middle America” [forma de designar a maioria silenciosa dos Estados Unidos]. Semanas depois, o presidente desistiu de se candidatar à reeleição.

Ben Bradlee, o hoje aposentado e ultra influente editor executivo do jornal The Washington Post, era amigo do presidente John Kennedy desde que o então jovem senador recém-eleito de Massachusetts tornou-se, por casualidade, seu vizinho no bairro de Georgetown, em Washington. Pois Bradlee não teve dúvidas em colocar a amizade em risco quando Kennedy lhe fez confidências durante uma festa na Casa Branca, em 1962. O piloto [da CIA] Francis Gary Powers, capturado em 1961 depois que seu avião-espião foi abatido ao sobrevoar território da União Soviética, estava sendo trocado pelo mais importante espião russo jamais descoberto e preso pelos Estados Unidos, o legendário coronel Rudolf Abel. Kennedy aparentemente se confundiu: soltou a bomba para Bradlee ao saber que a edição daquela semana da revista Newsweek, adquirida no ano anterior pela mesma empresa proprietária do Post, [àquela altura] já não podia mais mudar sua capa. Bradlee, que era ligado aos dois, revista e jornal, deu um jeito de sair da festa e, de um telefone da própria Casa Branca, passou a notícia para o Post, que furou todos os concorrentes – em vários dos quais o presidente tinha amigos que detestou desagradar. 

O problema é que não se acham Castelinhos, Cronkytes e Bradlees em cada esquina. Nós outros, jornalistas simples mortais, devemos cuidar para separar cuidadosamente em dois campos as amizades e as fontes que nos dão notícias. É melhor para nós, para nossa credibilidade e para quem, em última instância, é o nosso verdadeiro patrão: você, leitor.

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